Objetividade feminina e artimanha para sobrevivência



O importante é ser feliz.
Sempre digo isso quando estou feliz. Quando estou bem de saúde, afirmo que o importante mesmo é ter saúde. Ou quando estou com amigos, comemorando algo, não tenho dúvidas que importante mesmo são os amigos. O mais incrível disso tudo é que não são mentiras, mesmo variando significativamente sobre o mesmo tema. São, basicamente, formas oportunas para facilitar a vida, o viver, enfim, a sobrevivência. O fato de termos algo importante a nosso favor facilita tudo. E muito. Simples artimanha.

A abominável censura e suas razões



No tempo da ditadura militar em nosso país, censura era algo corriqueiro e eficaz, pois atendia com requintes a nefasta necessidade da milicada em não informar, em esconder. Colocavam um burocrata qualquer com um carimbo vermelho na mão, proibindo tudo aquilo que pudesse atingir o governo e principalmente os generais. Ela era feita com uma competência surpreendente, chegando a mandar para o lixo edições inteiras de jornais, músicas, peças de teatros, enfim, uma infinidade de manifestações, não só políticas, mas artísticas também.

Amy Winehouse e meu luto



Um texto que postei 28/10/2008.
Perdoem a repetição, mas ela se faz necessária.


Música e preconceito



Tem uma história no meio futebolístico que é memorável: um técnico solicita uma contratação de um jogador ao presidente do clube. Ao ouvir o nome, o cartola diz sem nenhuma dúvida:
- Este cara não dá! É um mulherengo de marca maior.
- Mas eu não quero ele - responde o "entendido" - para casar com a minha filha, quero pra jogar futebol.

A pedido

Sabem aquela velha história de que o freguês sempre tem razão? Pois é. Será que tem mesmo? Se fizermos uma transmutação de freguês para leitor, talvez eu fale com mais propriedade.
No mesmo dia chegaram dois mails sobre um mesmo texto. Um deles, sabe-se lá qual a razão, elogiando de uma maneira bem entusiástica (inclusive com palavras bastante carinhosas - saliente-se, sem nenhum apelo sexual) meus escritos, digamos, quebrados, recortados, enfim, intercalados. O outro afirmando que prefere frases longas e quase sem interrupção alguma, o que facilitaria para uma leitura rápida e dinâmica além de auxiliar na compreensão. Ufa!

Ainda o casamento e as mudanças

Vinte anos. Duas décadas de um casamento feliz e, numa bela segunda-feira chuvosa, fria e com um vento terrível, chego em casa e ouço:
- Tu vais ter que mudar. E muito!
Mudar. E muito. Fácil.
Depois desse tempo todo, nada mais justo que eu mudar. Sou compreensivo. Então, calmamente olhei para aqueles olhos frios e azuis, lindos, e disse, sem relutar:
- Mudar? Fácil. E muito? Mais fácil ainda. A partir de agora, terei nadadeiras e guelras.
Ter nadadeiras seria mudar. Ter guelras seria o muito.  Manter um relacionamento depende só e exclusivamente (isso não é redundância?) de ter boa vontade. Se for preciso mudar, mude-se. Pronto. Resolvido.

Experiências no casamento e a crueldade feminina

Admito, sou um exemplo de bom marido. Minha paciência e aptidões são gigantescas, minha capacidade de perdoar e de compreensão também. Esses fatores, somados ao meu conhecidíssimo dom culinário, deixa-me - permitam a pouca modéstia - perto da perfeição marital. Deveria ser citado mundo afora como "o companheiro perfeito". Provavelmente não o seja, por algumas limitações (sim, elas existem) e dificuldades congênitas, que passariam desapercebidas por todos, mas, claro, não por ela, a minha feliz e má companheira.
Aos fatos: como quase sempre, fizemos em dupla uma tarefa de manutenção da casa, simples como desentupir um cano. Na verdade, era desentupir um cano. A parte dela, pegar o material, esvaziar o lugar, por soda cáustica, água fervente, e, depois disso tudo, introduzir uma mangueira no maldito cano e fechar a entrada para que a água que colocaríamos não retornasse. A minha, bem mais importante e vital para o sucesso da empreitada, era abrir a torneira e depois fechar.
Pois lá estávamos nós, prontos, ela debruçada sobre o buraco redondo no chão e eu acocorado frente a torneira, com olhar fixo, quando veio a ordem:
- Abre! 
Num movimento rápido torci aquele negócio redondinho e a água saiu com força. Só tinha olhos para a torneira, na qual segurava firme como seguraria uma espada para defender minha família, quando, por uma ironia do destino, uma formiga desviou minha atenção para a parede, e meus olhos a perseguiram em seus movimentos obtusos e minhas mãos soltaram-se do metal frio e meus ouvidos captaram outra inesperada ordem:
- Fecha rápido que escapou. Rápido que tá molhando tudo!
Abandonei a formiga e olhei para a torneira: onde diabos estavam minhas mãos? As duas se viraram para mim como acenando, mas voltaram imediatamente ao trabalho. Afinal, primeiro o dever. E, num milionésimo de segundo, perguntei afoito:
- Pra que lado?
- Pra que lado o quê? - respondeu ela.
- Pra que lado eu fecho?
Foram momentos intermináveis. Antes do final do diálogo, porém, devo confessar: tenho problemas com torneiras. Abro elas com facilidade e tal, mas, se eu tirar as mãos, esqueço para que lado fecha. Eu me esforço, penso em um relógio, essas coisas, mas meu relógio é digital. Na verdade, nem tenho um. Resumindo, se eu tirar os olhos e principalmente as mãos, não sei mais qual lado é o certo. É uma deficiência, um defeito de fabricação. Convivo com ele há anos e, até aquele dia, sem traumas maiores. Mas, enfim, veio a resposta, em um tom alterado e mordaz:
- Eu não acredito que alguém não consiga fechar uma torneira!
Ainda tentei argumentar mostrando a formiga, a verdadeira culpada de tudo, mas acho que foi a aguaceira por toda a área que não deixou ela ouvir. E agora? Quem vai curar meu trauma? Como conviver com um preconceito monstruoso desses contra uma pequena particularidade negativa que tenho? Como admitir que eu seja humilhado por ter essa deficiência?
Pois aí que entra o bom marido. Fiquei ali, parado, ouvindo aquela frase horrorosa ecoar na minha cabeça com os olhos cheio d'água, mas, juntei forças sei lá de onde, e propus fazermos tudo de novo.
Ela, a má, recomeçou o ritual enquanto eu saí atrás da formiga. Pronto. Tornei-me um assassino, mas garanti meu casamento e o título de bom marido.
Talvez eu precise fazer análise depois da experiência. Se bem que quando penso que a formiga acabou ainda pior que eu, fico mais aliviado, e, também, que deu certo: o cano desentupiu, além de, graças a minha benevolência, eu a tenha perdoado.
Me sinto bem quando faço a coisa certa!

Praga e a civilização



Logo que vim morar em Porto Alegre, há algumas décadas atrás, andava muito de ônibus em plena madrugada. Lembro que seguidamente, ao chegar na roleta, o cobrador (ou trocador como é chamado em lugares mais ao norte), propunha de maneira incisiva e automatizada:
- Pula e deixa a metade da passagem.
Era uma maneira simples e desonesta dele ganhar mais e o passageiro pagar menos. Funcionava em algumas linhas como fosse algo já instituído. Talvez o adicional noturno dos funcionários. Certa vez, afirmei que não queria pular a roleta e a resposta veio imediatamente:
- Sem problemas. Sai pela porta da frente. - (Naquela época, a porta de entrada)
O que eu realmente queria, era não tornar a minha desonestidade momentânea em um hábito. Claro que os trocados que eu economizava ajudavam (e muito), mas aquilo me incomodava bastante. Tanto que resolvi entrar em contato com a empresa de ônibus e, para minha surpresa, depois de agradecer a ligação e afirmar que investigariam, o atendente contou, em uma espécie de "off", que isso não preocupava muito a diretoria, porque as passagens não pagas entravam na planilha de custos, usada para calcular os aumentos. Ou seja, a empresa recebia por elas. Quem realmente saía perdendo e pagava o prejuízo era o coitado do operário que trabalhava o dia inteiro e ganhava uma miséria. Poucas vezes me senti tão mal na vida. Depois disso, passava rapidamente pela roleta, sem dar chance para que me tornasse cúmplice daqueles roubos.
Concluindo: era a desonestidade institucionalizada, aceita, calculada, admitida.
Pois em Praha, ou Praga, capital da belíssima República Tcheca (ocupa a posição de número 28 no IDH - o Brasil ocupa a 73, logo depois do Irã), em plena Europa Central, o eficiente sistema de transporte funciona da seguinte maneira: o usuário compra seu passe e não apresenta a ninguém ou passa por qualquer roleta. Exemplificando: compramos um passe para três dias, que servia tanto para o metrô quanto para os ônibus ou os trens elétricos, bondes, de superfície. Na primeira vez que usamos, o tíquete foi introduzido em um leitor e a data e a hora impressa. Pronto. A partir daquele momento, tivemos livre acesso a qualquer unidade do sistema sem passar por nenhum controle. O único cuidado foi guardar a passagem, que pode ser solicitada por algum fiscal. O fantástico nisso tudo é que qualquer pessoa pode simplesmente entrar e sair sem pagar. Em todos os dias que estivemos em Praha, vimos um único fiscal, o que certamente facilitaria aos usuários com más intenções.
E sabe qual resultado disso tudo? É ainda mais espantoso, mas o sistema funciona. Veículos limpos, rápidos, eficientes, pontuais, tudo porque certamente as passagens são pagas, mesmo que não sejam cobradas.
Quando vi aquilo, não tive como escapar da lembrança da roleta sendo pulada por mim anos atrás. Não tive como reconhecer o quanto atrasados estamos, o quão longe de sermos civilizados e educados, os anos-luz que estamos distantes da honestidade. Somos desonestos porque faz parte da nossa cultura, porque o prejuízo causado pela falcatrua está embutido nos preços que pagamos. Somos desonestos porque nossos roubos estão na planilha de custos.
Não bastasse essa aula de desenvolvimento e civilidade, Praga é simplesmente fantástica,  linda, imponente, antiga e bem cuidada. Um lugar onde um pulador de roletas, que parou somente depois de descobrir de quem era o prejuízo, não deveria sequer ter o direito de por o pé, exceto se o arrependimento pelo deslize tenha sido sincero e a lição aprendida.
Meu caso, ainda bem.
Então - e se principalmente não pularam dentro de coletivos no passado ou se regeneraram - caso tenham oportunidade, visitem Praga. Vale qualquer esforço.

Viagens



Quando idealizei este blog, a ideia era escrever sobre cinema, contos e algumas crônicas. Não pretendia falar sobre viagens - apesar de ser um inveterado e apaixonado viajante amador - porque isso sempre me pareceu um tanto pedante. Algo exibido, até. Frases como "recomendo um restaurante pequenino e ótimo, onde se come bem por 50 euros" sempre me pareceu um escárnio. Mas, sempre tem um "mas", ainda bem, da mesma forma como nunca postei um conto aqui, apesar do anúncio no subtítulo, pretendo, enfim, escrever sobre viagens.
Sem, claro, dicas de restaurantes baratinhos onde se come bem por 50 qualquer moeda, ou hotéis fan-tás-ti-cos e suas toalhas quentes. Até porque, óbvio, esse não é meu turismo.
O que pretendo, e espero conseguir, é registrar impressões, sabores, sentimentos. Registrar a sensação de ver algo belo, de perceber uma lágrima faceira desabar rosto abaixo frente ao inusitado, do aperto na barriga junto a uma situação extrema. Também do medo ao desconhecido, do prazer da conquista, da sabedoria que cada lugar traz ou proporciona. Enfim, pretendo não ser um guia de turismo, mas mostrar o que uma viagem é capaz de fazer com uma pessoa. Ou, para ser mais preciso, comigo mesmo.
E não é pouco. Já disseram, e não custa repetir, que ninguém volta o mesmo depois de uma viagem. Nada além da verdade. Vamos um, voltamos outro. E um outro melhor, mais sábio, mais eterno. As viagens nos eternizam, nos espalham, nos dividem.
Conhecer outros povos ou uma pessoa qualquer, como ela vive, como pensa, como nos vê, como nos sente, é impagável. Cada detalhe, cada prédio, cada palavra mal pronunciada, cada situação desconhecida, constroem a base para a transformação. Muda quem vai, muda quem recebe.
Creio que o turismo seja um dos poucos negócios onde todos ganham, falando não somente de dinheiro, mas também de experiência, conhecimento. É um verdadeiro combustível, um gerador de empregos que movimenta toda a cadeia produtiva, na economia; e um gigantesco professor em se tratando de experiências. Quando se divide isso, o saber, na verdade estamos multiplicando. Se alguém me passa uma vivência própria, isso não diminui o seu conhecimento, mas aumenta o meu. Nós dois saberemos. Esse é, sem dúvida, o efeito mais prazeroso de uma viagem: a soma.
Explicações dadas, não percam, em breve, sensações de um deslumbrado mundo afora.
Até!


A sabedoria, o ovo cozido e a Bere


Nascemos para ser felizes, mas a sociedade nos quer bons. E trabalha para isso. E, de certa forma, esse forjamento deliberado, às vezes, traz danos bem maiores que os benefícios. A questão é bastante simples: para sermos felizes, não necessariamente devemos ser bons. Talvez o contrário seja mais razoável. Felicidade é algo tão abstrato e "flutuante", que suas necessidades podem ser a infelicidade alheia. Pronto, eis o conflito! Eis onde entram nossas leis mais civilizadas, tirando de cena "a do mais forte". Pouca coisa, é verdade, mas certamente menos medievais do que aquelas que a natureza nos fornece. Entram também nossos conhecimentos. Nossa tecnologia. Toda a gama de séculos de trabalho, de estudo e de tentativas e erros até compreendermos que nosso polegar opositor serve para bem mais coisas que fazer o sinal de "legal".

Então, a mesma sociedade que nos desvia do curso natural, que seria um caminho quase direto em direção ao "ser feliz", causando todo tipo de transtorno para nos transformar em "bons", evitando, claro, alguns barbarismos, traz também tudo o que inventamos para voltarmos a ser felizes, com objetos de toda sorte, desde a mais prosaica mãozinha de madeira para coçar as costas até o mais complexo e forte dos analgésicos, isso sem falar naquilo que nos torna alienados, sonhadores, nefelibatas, enfim, felicidade de proveta.
Conhecimento! Esse é o segredo individual para trazer-nos de volta ao curso primário, superando os desvios que a coletividade nos impôs em nome da tão desejada civilidade.
Levamos séculos para termos as compensações necessários e sermos, eu diria sem medo, "quase" felizes, como somos hoje. Morremos mais velhos e mais saudáveis, matamos praticamente só por dinheiro e deuses, temos momentos de lazer e algumas centenas de direitos. Não queimamos mulheres em fogueiras e a venda de lugares ao lado de deus é bem disfarçado. Temos um poder magnífico de comunicação e um controle satisfatório dos recursos naturais. Acreditem, isso tudo é bastante interessante e desenvolvido. Já fomos bem piores.
Também corrobora com o retorno à felicidade, o poder do aprendizado. Somos rápidos. Impávidos. Cito a mim mesmo como exemplo. Levei quase cinco décadas mas aprendi, semana passada, que o ovo cozido, aquele mesmo da galinha, também chamado de ovo quente ou duro, tem um lugar certo para ser quebrado. Isso mesmo. Pode parecer estranho, mas eles têm dois lados: um deles mais achatados e outro mais pontudo, que é o correto para ser violentamente agredido por uma colherzinha, até aparecer a clara branca e cozida. Se o incauto fizer isso no lado errado, encontrará pela frente uma pele horrorosa que, por certo, estragará a refeição. Se quebrarem em outra parte qualquer, prefiro nem imaginar o que pode acontecer.
Claro, preciso admitir, essa sabedoria e tecnologia prática foi-me ensinada por uma mulher, excelente escritora e profunda conhecedora da literatura, dona de um poder de compreensão que supera as melhores expectativas, o que me lembra de mais um elemento básico para nossa felicidade: amor.
Afinal, como não amar as mulheres e seus encantos?

PS. Há uma grande chance de eu ter entendido errado o lado certo de quebrar o ovo.

Os ateus, os religiosos e a paz


Por vezes as coincidências deixam o sensato de lado e invadem os limites do absurdo. Algo como quando parece que um número qualquer nos persegue ou, ainda mais corriqueiro, quando se encontra uma mesma pessoa no meio de uma multidão diversas vezes ao dia, exatamente quando não se quer ou pode vê-la.
Do que falo tem algo disso, pois sofro uma perseguição implacável de um mesmo tema: religiosidade. Ou deus, vaticano, evangélicos, enfim, essas coisas. Mesmo que eu fique meses sem tocar no assunto, ele, o assunto, toca em mim.
Pois esta semana recebi um mail referente ao texto Jesus e deus?, (o mais lido deste humilde blog) onde, de uma forma bastante carinhosa, uma leitora diz que me ajudaria. Apesar da fase difícil, dos problemas domésticos, financeiros e de relacionamento pela qual passava, ela se dispunha a me auxiliar. Isso tudo porque percebeu, através da crônica, um enorme vazio dentro de mim. Quando li, cheguei a sentir uma fome incontrolável pelo tal vazio e saí correndo para a cozinha.
Brincadeiras a parte, não carinhosamente porque não tenho esse dom, mas com muita educação, respondi à leitora que eu não passava por problemas amorosos, nem financeiros e muito menos domésticos. Que, na verdade, não passava por nenhum tipo de dificuldade e estava mais tranquilo que água de poço. Que talvez, e até pela própria mensagem, quem precisasse de ajuda fosse ela e não eu. Lamentavelmente não tive, pelo menos por enquanto,  resposta. Mas continuo ansioso na espera, afinal, gostaria de saber dos desdobramentos das dificuldades citadas.
Claro que entendi o recado e assimilei o golpe. Ela propôs ajuda porque, a seu juízo, eu precisava de auxílio não por problemas mundanos, mas por problemas divinos. A seu ver, meu ateísmo tornava-me vulnerável, pobre e vazio, e que ela, com toda a benevolência peculiar aos crentes, me ajudaria mesmo sem poder e eu pedir. Nossa, quanta bondade. 
Essa intromissão, essa soberba, essa arrogância de oferecer ajuda a quem não pediu e não precisa, me preocupa um pouco. Não saio por aí tentando "ajudar" aqueles que creem em um deus qualquer ou num poste de luz. Quer acreditar no Thór, em Apolo, Iemanjá, Alá, Buda, Tupã, Pachamama ou quem quer que seja, acredite. Faça bom proveito. Terá meu respeito e admiração até. E despreocupe-se: não me verá tentando convencê-lo que Darwin estava certo ou que é imoral tirar dinheiro das pessoas em nome de deus. O que espero em troca? Nada além. Somente o mesmo: respeito. 
Mas, claro, um pedido, com toda a educação, para que não matem aqueles que creem em outro deus ou que não considerem inferiores aqueles que não tem deus algum, nunca é demais. Seria interessante também que não gritassem muito em alguns cultos, a ponto de incomodar os vizinhos, e também que não falassem, em um continente onde a aids é epidemia, que usar camisinha é pecado mortal. Aids é mortal.
Teria mais algumas dezenas de pedidos para fazer, mas, em nome da paz, fico por aqui mesmo, com um resumo básico: o que precisamos é respeito. Independente se formos amarelos, azuis, rosas, homossexuais, heterossexuais, altos, baixos, pobres, milionários, crentes, ateus ou tico-tico-no-fubá.
Respeito. Aceitação. Enfim, civilidade. Precisamos de civilidade.
(Só por curiosidade, olhem o que o dicionário diz sobre essa palavra fantástica:

civilidade


1. Caráter do ato ou comportamento que segue os costumes relativos à boa convivência entre cidadãos, ou as convenções de demonstração de consideração e respeito mútuos: A civilidade de seu gesto causou boa impressão.
2. Observância às formalidades ou convenções entre os membros bem-educados de uma coletividade: Quanta falta de civilidade!
3. P.ext. Caráter da pessoa bem-educada, que age com (mostras de) dignidade, consideração e respeito pelos outros: Reconheceu a grandeza e a civilidade do adversário.
[F.: do lat. civilitas, atis. Sin. ger.: cortesia, urbanidade, gentileza, polidez. Ant. ger.: incivilidade)

Resenha de A vida que não vivi



Danika, do site Por Trás das Letras, escreveu uma resenha do meu livro. Não resisti e aí está ela:


Sobre mortes e vidas

Trata-se de uma compilação de 18 contos, onde de modo geral falam sobre o modo como várias vidas são desperdiçadas de diferentes modos, como algumas pessoas vivem tão superficialmente, ou como são forçadas, não a viver, mas a sobreviver em um mundo cruel. É um livro bastante denso, isso você percebe logo pela capa… uma imagem forte e dramática de um corpo estendido no chão com uma tarja nos olhos.

São contos que falam sobre drogas, bebida, sobre pobreza e miséria, sobre loucura, hipocrisia, culpa, traição, poesia, contos sobre morte, mas também sobre vida.

Eu sempre gostei de leituras desse tipo, mais críticas e politizadas. Acho importante de vez em quando nos afastarmos do mundo de fantasia e finais felizes perfeitos, para ler algo que nos mantenha conectados com a realidade, por mais dura que ela seja. É algo que é necessário. Mas apesar do conteúdo dos contos ser tão assim, digamos, ácido, Beto consegue lidar com as palavras em suas narrativas de um modo muito bem equilibrado. Muitas vezes é como se ele conseguisse extrair uma poesia de noticiarios de jornal e TV. Algumas personagens merecem sem dúvida alguma maior destaque, são eles Paloma do conto “Paloma e sua escolha” e o poeta e o bêbado do último conto do livro.

Paloma, prostituta que começa a escrever um diário e tem a oportunidade de se tornar dona de casa e esposa, mas prefere a sua liberdade.

“Meu tempo não está a venda, meu corpo é que está” diz ao se negar a ouvir lamúrios de um cliente.

Um poeta que mesmo sem aplausos e reconhecimento segue vendendo sua poesia diariamente. Um bêbado compassivo tenta ajudá-lo. No fim, o bêbado que dorme todas as noites na mesma sarjeta apenas para ouvir as declamações do poeta consegue passar um dia sóbrio, veste-se bem e arma um estratagema para que enfim, o poeta seja ovacionado. Ele finalmente consegue, mas o poeta sai mas triste do que nunca, porque eram aplausos vazios, secos, e não de reconhecimento pelo seu trabalho… e quantos artistas hoje não se identificam com o poeta do conto?! Eu mesma não sou mas me identifiquei com a estória porque é a mais pura verdade, é o reflexo da desvalorização do artista e sua arte. O artista/poeta/escritor/pintor que é bom, muitas vezes é até o melhor naquilo que faz mas não consegue se manter de sua arte, além de toda a exploração que gira entorno dele.

Destaco ainda o capitulo Antítese com um dos contos mais crus que já li.

A Vida que não Vivi (2009) lançado pela Redondezas Contos, selo da Editora Multifoco não é o livro feito para divertir ou alegrar, é livro feito para se discutir, para se pensar a respeito, para se trabalhar em sala de aula com seus alunos, é um retrato da realidade social brasileira.

E termino a resenha com a mesma frase de fechamento do livro.

“As pessoas continuam sem ler uma poesia sequer”


Super – Recomendo!
Portrasdasletras.net

Amor? (O Filme)



A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Escrever um texto sobre um filme antes que ele seja lançado, é uma resenha presunçosa ou não passa de especulação? Amor? é ficção ou documentário?
Poderia começar este post de diversas formas, mas, como bom glutão, começo com uma receita de bolo:

- 2 copos de farinha de trigo
- 2 copos de açúcar
- 1 colher (sopa) de fermento em pó
- 4 ovos
- ½ copo de óleo
Coloque tudo no liquidificador e leve ao forno em assadeira untada.


Pronto. Apenas isso. E sabem qual o segredo para que fique gostoso, macio, com aquela casquinha crocante e o cheiro irresistível? Além da mistura que deve ser feita com bastante vigor, claro, a qualidade dos ingredientes é o verdadeiro pulo  do gato. Escolha a melhor farinha, o melhor açúcar, enfim, o melhor de tudo, e o resultado estará praticamente garantido. Apenas um ovo estragado, porém, pode arruinar a hora do lanche, por isso, toda a atenção pode ser pouca. Existem fórmulas conhecidas, não infalíveis.
Eu acredito que tenha sido mais ou menos isso que fez o João Jardim (Janela da Alma e Lixo Extraordinário) no seu novo longa, com estreia marcada para o dia 15 de abril, em Amor? O Filme.
Ele selecionou um elenco excepcional, gente como Mariana Lima (gosto muito dessa atriz), Júlia Lemmertz e Lilia Cabral (espero que ela tenha desencanado da personagem Mercedes, de Divã), além de Claudio Jaborandy e Eduardo Moscovis. Com Lenine na produção musical, assinando a trilha sonora, e mais um time de técnicos que não devem fazer feio, uniu todos e misturou com uma excelente ideia: um documentário/ficção, ou uma ficção documental.
Enfim, seja lá o nome que tiver, é um passo e tanto para o sucesso, não somente pela forma simples, mas também pela originalidade: depois de um ano de pesquisa e 50 entrevistas gravadas sobre amores conturbados, violentos e todas as consequências que esse tipo de relação produz, foram selecionadas oito relatos e, nesses, os protagonistas reais de cada história foram substituídos pelos atores que, outra ótima "sacada", não fizeram laboratório ou pesquisa sobre suas personagens, detalhe que certamente dará mais autenticidade na interpretação dos textos.
Some ainda alguns cuidados como o título (Amor?), com aquele ponto de interrogação a duvidar de todos e, talvez, até de nossa própria capacidade de amar. O tema, insuperável no quesito "tempo decorrido", que, apesar de ser um eterno clichê permitido, ainda causa verdadeiro frenesi na maioria das pessoas, além das cenas de pura poeticidade, intercaladas durante os relatos. O resultado não será outro, senão um ótimo trabalho. É chutar e ir para o abraço!
Resumindo, creio termos, como o resultado do meu saboroso bolo, garantia de um bom filme. Chego a pensar que o cinema argentino, um dos melhores do planeta, anda influenciando positivamente os cineastas brasileiros com sua maior virtude: a simplicidade. Ou, talvez e ainda melhor, nosso cinema está enfim amadurecendo. Criei uma expectativa positiva quanto a esse lançamento. Fiquei ansioso como fico à espera do próximo filme do Campanella. Mas, certezas e detalhes desvendados, somente no dia 15. Ao escurinho, portanto!
Várias maneiras para começar e uma única, pelo ineditismo da ideia, para terminar: boa sorte e vida longa a "Amor?".



Injustiças, manias e o indispensável para viver

Cruzei os braços - daquele jeito que os gênios das lâmpadas fazem, erguidos, bem acima da barriga, na altura do peito - e fechei a cara. As sobrancelhas caíram perpendicularmente em direção ao nariz, quase fechando meus olhos. Os lábios cresceram, principalmente o inferior, ficando quase do mesmo tamanho do que o da Angelina Jolie e, então, falei de maneira precisa, em alto e bom som:
- Grunfht!
Existe resposta melhor para injustiça? E não foi só isso. Disse e fiquei imóvel, com a mesmíssima expressão que nós, os injustiçados, fazemos quando atacados impiedosamente. Enquanto eu estava ali no meu solitário protesto contra as mazelas da vida, aproveitei para, além de recordar o que desencadeou minha heroica atitude, pensar no quanto é bom sorvete de creme, sem adição de açúcar, em uma cremeira de inox, com uma banana prata cortada em diagonal, sem as duas pontinhas, colocada abaixo das três bolas de sorvete, sem que fiquem aparecendo até a primeira colherada. É simplesmente fantástico. Mas, enfim, aos fatos: disseram que eu tenho muitas manias. Assim, na cara, sem rodeios. Eu, logo eu, que sou praticamente um resumo vivo da simplicidade humana, um estandarte da praticidade e do comum. Logo eu que vivo bem com tão pouco, sem detalhes, sem extras, sem mimos. Sou quase um ermitão vivendo na cidade grande.
Poderia agir de outra maneira? Claro que não. Na hora pensei em responder, lembrar a maneira despojada do meu dia-adia, da forma desprendida que enfrento meu cotidiano, mas engoli as palavras. Não comentei, por exemplo, que para dormir uso apenas cinco travesseiros, o Grandão, o Queridin... , enfim, não é preciso citar os nomes deles, ou que sento feliz da vida em uma poltrona que não seja a minha, desde que esteja fora de casa. Não. Nada disso. Fiquei estático em meu protesto.
A injustiça certamente é o maior mal que assola o homem civilizado. Fazerem uma acusação dessas para um homem como eu, equivale chamar um príncipe de sapo só porque ele tem uma verruga na bochecha.
Minha valente manifestação seguiu por mais tempo. Continuei parado por quase quarenta minutos, até que ouvi uma frase mágica:
- Quer café?
As sobrancelhas voltaram ao normal, os lábios ficaram como sempre foram, iguais ao de um jundiá, e os braços descruzaram-se em busca da minha xícara de porcelana com detalhes florais, a única correta para se tomar um bom café.
Não pensem, porém, que abandonei meus ideais. Longe disso. Vou combater a injustiça com todas as minhas forças e a qualquer custo, exceto, claro, na hora do lanche. Se ocorrerem outras agressões e calúnias, protestarei novamente. E vou erguer ainda mais os braços e vergar ainda mais as sobrancelhas. E aí, preparem-se, pois só um chá verde, na minha xícara de beber chá verde, para eu abandonar a manifestação. 
E olhe lá!

Ironias


Esta semana conheci duas frases engraçadas. Irônicas. Uma delas de uma sutileza parecida com um rinoceronte em um baile infantil: "melhor ser rico e com saúde do que pobre e doente". Quando ouvi, fiquei quase uma semana rindo. Tudo bem, sei que não é para tanto, mas, sei lá a razão, cada vez que penso, escuto ou falo, rio novamente. A outra, também sensacional, diz: "Ir ao MacDonalds e pedir salada é o mesmo que ir ao puteiro e pedir um abraço". Não é de uma delicadeza prática e funcional fantástica? Friamente: se a pessoa vai a uma lancheria onde o gostoso são os queijos, as carnes, os molhos e as frituras, tem sentido pedir alface e rúcula? Que vá a um restaurante vegetariano, então. E abraço se ganha da mãe. Dos amigos.
Quanto a primeira frase, claro que ela não precisa de uma explicação, mas, permitam-me dizer, beira à incompreensão de tão sarcástica. Ela pode, em ouvidos, digamos, não tão atentos e afinados, soar como deboche, escárnio. Mas não é. Não passa de uma gozação com o óbvio, com a redundância. Um trocadilho quase infame. E usa o que há de mais difícil na literatura: a ironia.
O "problema" de usar esse artifício, é que ele não depende só de quem escreve. Ao contrário, para funcionar corretamente, depende bem mais de quem lê. E essa peça, que pode ser a pessoa mais genial entre todas, como também alguém desprovido de recursos intelectuais, receberá ou não a sutileza. Caso ele perceba o sarcasmo, provavelmente até um sorriso deva aparecer gratuitamente, porém, caso não entenda,  pode gerar confusões enormes. Até pela   obviedade da coisa: uma das formas mais fáceis e comuns de fazermos uma ironia, é falar exatamente o oposto daquilo que queremos dizer. Então, corre-se o risco de entenderem o contrário do que pensamos. E o oposto nem sempre é saudável nas relações sociais.
Quando a ironia é falada, pode-se usar artifícios como a voz disfarçada ou alguma expressão no rosto, que identifique algo diferente nas palavras, mas, na escrita, não existe isso. Elas ficam lá, as letras, uma no ladinho da outra, documentando tudo. Por isso, quando um escrevinhador consegue ser irônico, ele transforma-se em um escritor. É um quesito indispensável.
Fiquei um tanto circunspeto com essa história toda. Já ando preocupado com coisas burocráticas, como a sobrevivência e incentivos fiscais para fazerem blogs, e agora isso. 
Mas, enfim, se está ruim para nós, imaginem para a classe média!

Bruna Surfistinha

Existe um pecado mortal que alguns bons filmes - ou que poderiam ser - cometem exclusivamente por influência externa. Seja por pressão social, política, religiosa ou por exigência de patrocinadores, tornam-se um imenso anúncio, defendendo teses, posições ou simplesmente condenando. Esses tópicos, legítimos, claro, dentro de suas áreas, estragam qualquer obra. Quem deve fazer anúncio são as agências de publicidade, quem deve defender teses são os doutorandos, quem precisa escolher uma posição são os políticos e quem deve condenar são os juízes, e não o cinema, e não a arte. Devo repetir: o cinema não deve ser panfletário, não deve pregar moralismos ou qualquer coisa do gênero.
Bruna Surfistinha é um bom filme porque não faz nada disso. A história - que eu considero pouco boa - é contada de forma isenta e sem "palpites". Tudo transcorre de maneira fácil sem nenhuma turbulência maior, o que poderia ocorrer com certa naturalidade, pois relata a trajetória de uma prostituta.
O pouco que faltou para ser um filme sensacional, desses fora do padrão, deveu-se a alguns erros, não muitos, é verdade, e ao enredo, fiel à trajetória da nossa "heroína" marginal, com pouquíssimas ousadias ficcionais. Erros como seis ou sete mulheres, todas em uma sala conversando e viradas para o mesmo lado, de onde obviamente são captadas as imagens, não chegam a comprometer o filme, apesar de incomodar. Mas a limitação da história com a realidade não somente incomoda, como também compromete o resultado, sem dúvida alguma. Em uma obra artística a verdade não interessa, e sim a verossimilhança. Verdade é coisa para historiador. Uma obra não deve ater-se à realidade. São duas coisas incompatíveis. E um filme "baseado" em fatos reais, não precisa ser uma cópia mais elegante do que já aconteceu. Opinião, claro, minha e provavelmente somente minha, mas, de realidades estamos todos nós, exceto os nefelíbatas, cercados por todos os lados.
Outros detalhes são surpreendentes, pelo lado positivo. A montagem, simples e eficiente; o elenco, muito bem escolhido, exceto, talvez, pela dona do inferninho, a sempre boa Drica Moraes, exclusivamente por sua pouca idade para a "função"; a fotografia, excelente e, claro, a estonteante, em todos os aspectos, Débora Secco, que coloca na personagem, além de elementos característicos a uma prostituta, uma boa dose de feminilidade, no sentido literal da palavra.
Enfim, se levarmos em conta que o filme foi baseado no livro "O doce veneno do Escorpião" que foi baseado na vida da autora, Raquel, que criou a personagem Bruna, os poucos passeios pela ficção tornam-se mais que aceitáveis.
Não à toa o filme teve, em duas semanas de exibição, mas de um milhão de expectadores. Se você gosta de cinema, aumente esse número.
Débora, ops, Bruna merece!

Quem somos?

Nossa história é fantástica. Somos o que há de mais imprevisível, mais surpreendente e menos ajuizado que existe.
Faça o seguinte: imagine uma pessoa lá do começo do século - o passado, claro - sente-se ao seu lado, olhe para um campo verde sob um céu azul com alguns pássaros piolhentos voando de um lado para o outro e comece a contar:
- Pois tudo começou com um feirante que, cansado de pagar propina a policiais corruptos, ateou fogo no próprio corpo. Na Tunísia. Este foi o início de uma queda de ditadores, diga-se de passagem, os mais cruéis e sanguinários possíveis, no norte da África e no Oriente Médio, uma região que, infelizmente, política e religião mesclam-se numa só coisa. Ditaduras de 20, 30 e até mais de 40 anos caíram como peças de um dominó bêbado.
Um feirante? Pobre, feio e sub-empregado, causaria um "estrago" desses? Ainda mais no mundo muçulmano? É claro que nosso ouvinte tiraria a cartola, soltaria a bengala ao lado da cadeira de balanço e diria:
- "Never", nunca, jamais. Vai enrolar outro. - Bem, não seria exatamente isso que ele falaria, mas, convenhamos, nosso incrédulo senhor ficaria ainda mais incrédulo. E sabem por quê? Porque isso é mais fantástico que a máquina de debulhar milho, mais irreal do que a lâmpada, mais surpreendente do que o celular, mais avançado do que a informática. Isso é uma civilização inteira tomando seu rumo, mudando a história, fazendo seu destino com as próprias mãos, ou pedras.
É um marco tão forte como o fim dos dinossauros ou a descoberta do fogo. É o momento exato da história onde o ser humano começou a optar por dignidade, por liberdade, mostrando para essa cambada de desgraçados que o tempo do cabresto terminou. 
Meu enorme pessimismo quanto ao nosso futuro levou - ainda bem - um balde de água fria. Se tudo der certo, essa revolta tornar-se-á mundial e não sobrará nenhum tirano sobre a terra. Pelo menos exercendo o poder. Acabará o tempo da exceção. Terão seu fim governos baseados na força e no medo. Continuaremos sendo, alguns de nós, a maioria talvez, governados por incompetentes e ladrões, mas, escolhidos por nós mesmos. Por nossos erros. Por nossas limitações e não por uma questão hereditária ou pela força. E com prazo de validade.
Depois desse começo - sim, apenas o começo - talvez essa mesma gente comece a mostrar que nenhuma empresa pode governar e comprar políticos como compram papel higiênico. Que bancos não devem ser simples exploradores do povo, que não podem ser protegidos de suas falcatruas com o dinheiro do próprio povo, que não podem usar seus lucros fabulosos - que não deveriam ser tão espetaculares - simplesmente para especular. Que professores são importantes. Que escritores também são. Que todos somos.
Claro, estou sonhando. Isso ainda está longe, muito distante mesmo. Mas, fiquem certos, existe algo diferente no ar. Existe uma mudança radical - para melhor - logo ali adiante, ao alcance dos nossos olhos.
Quem somos? Boa parte de nós somos o feirante. E uma minoria aqueles policiais corruptos.
Somos o que parece dar esperança. O que parece ainda ter jeito.
Enfim, obrigado, vendedor de frutas.


Sucesso com as mulheres



Todos passamos ou passaremos por uma idade em que tentamos impressionar o sexo oposto. (Nunca entendi bem esta história de oposto, afinal, quer dizer "que se opõe", e eu, de maneira alguma, me oponho às mulheres. Longe disso. Então, porque, afinal, estou usando essa palavra?) Vamos lá: todos passamos ou passaremos por uma idade em que tentamos impressionar o outro sexo. (Melhorou um pouquinho. Neste caso, o outro sexo são as mulheres porque sou homem. Mas, que obrigação tem o leitor de conhecer minha masculinidade? Nenhuma! Portanto...) Última chance: todos passamos ou passaremos por uma idade em que tentamos impressionar, no meu caso, as mulheres. (Deu certo? Deu). Esse tempo varia muito conforme o amadurecimento do sujeito e até do grau de inteligência. Em alguns casos, passa logo. Em outros, vai junto para o caixão. Esse deve ser o meu caso.
Ainda era um guri, um menino na flor da idade, mas já contava tal idade através das décadas, quando convidei uma "amiga" para jantar. (Notaram as aspas? Pois é. Ela nunca foi e nunca será minha amiga. E o pior: nunca será, depois daquela fatídica noite, "amiga" também. Algo como aquele legume chamado Couve de Bruxelas, que não é couve, e muito menos de Bruxelas). Continuando: já no caminho para o restaurante comecei a exibição, afirmando que comia de tudo. Que comida para mim (já contei aqui, em outra ocasião, esta maravilhosa frase que aprendi com um tio), divide-se em três tipos: as que eu gosto, as que eu gosto muito, e as que eu simplesmente não resisto. Isso, a meu ver, impressiona as mulheres ao máximo. Elas devem me enxergar como um cara selvagem, forte, destemido, sem frescuras mas, ao mesmo tempo, requintado, porque, afinal, estávamos indo a um Restaurante Francês. Quem, exceto nós, os verdadeiros homens refinados, frequentam esse tipo de restaurante? Claro que para completar, contei também de algumas alergias que tenho. Mulher também gosta de ouvir sobre doença. Revelei que não podia com cerveja quente, tinha até convulsões só de pensar, e tomates. Sim, eles, vermelhos e bonitos. Esbeltos, prontos para terminar comigo. Morte aos tomates.
Pronto. Calculei que depois das revelações ela já estaria impressionada e bastaria, então, mostrar naturalidade no tal restaurante.
Chegou o garçom. Aqueles com cara do amigo-da-onça que têm os olhos semicerrados e sobrancelhas finas. Parou no meu lado. E ficou ali, como uma estátua de bronze: imóvel e frio. Peguei o cardápio e, para não errar na pronúncia, fui passando o dedo para que ele falasse o nome dos pratos. Nada. Fui descendo para o segundo, o terceiro, e nada. O cara mais calado que corinthiano falando de libertadores.
Começou a bater um desespero, minha "amiga" iria perceber que, além de não frequentar aquele lugar, não conhecia nada da culinária francesa e, pior de tudo, que eu era um grosso. Minha noite estava em perigo. Segui descendo o dedo, exclamei uns "talvez esse" e alguns "óhhh", até que parei e apertei onde estava escrito Bouillabaisse. Encarei aqueles olhos frios e sem piedade até que o homem falou em um francês irretocável. Algo como bui-a-des-ce. Sorri, repeti o nome com naturalidade e comentei que nosso jantar seria inesquecível. E foi.
Naquele instante, comecei a planejar coisas práticas, como no apartamento dela ou no meu, onde estava o preservativo, esses detalhes, enfim, naturais aos homens de sucesso entre as mulheres. 
Minha empolgação durou até a chegada do prato, que nada mais era do que uma sopa de tomates, sim, eles, tomates, com peixes.
Garçom idiota!

Dúvidas cruéis

Tenho problemas em identificar algumas coisas. Portas de banheiro (banheiro? WC, talvez), por exemplo, de bares ou restaurantes. Sou um fracasso. Nunca consigo lembrar se aquelas setinhas para o lado ou cruzinhas para baixo representam masculino ou feminino. Tem alguns lugares que ajudam pela objetividade: Homens e Mulheres. Sem dúvida alguma. Chega a ser intimidativo, mas, melhor assim. Bastante claros, também, são aqueles em que aparecem uma cartola e um leque, ou um agá gigante e um eme rosado. Perfeito.
Dia desses, fui a um lugar onde havia uma primeira porta, onde estava escrito Toilettes, e logo depois outras duas, que certamente eram a divisão entre varões e mulheres, com duas figuras fixadas bem na altura dos olhos, para determinar onde eu deveria ir: na primeira, uma sombrinha fechada e na outra, a mesma sombrinha, aberta. E quando digo a mesma, não é figura de linguagem. Não era somente a mesma estampa (floreada) sobre um fundo azul e outro rosa. Eram idênticas, as flores cor de telha e bege, sobre um fundo amarelo. O mesmo cabo, torneado com pequenos detalhes, flutuando no vácuo. A única diferença era que uma estava aberta e outra fechada.
Parei. Olhei. Voltei. Mas aí minha bexiga emitiu uma ordem expressa e colocou-me novamente frente a frente com as sombrinhas. "Não sou tão burro", pensei, tentando me iludir, "vou descobrir qual é o que" e comecei um exercício de análise: fechada, pode representar o falo. Aberta, pode representar a vagina pronta para receber o pênis. Mas aí, quando imaginei a sombrinha fechada penetrando na aberta e minha primeira conclusão foi por água abaixo. Especulei também sobre a possibilidade funcional: fechada, caso chovesse, o portador ficaria molhado. Aberta, ela protegeria o sujeito das intempéries climáticas. Ou seja, aberta representaria a mulher e sua sábia prudência. Fechada, o homem e seu histórico desleixo. Me dei conta, porém, que sombrinha não é o mesmo que guarda-chuva. Estaca zero.
Estaria eu frente a um enígma indecifrável? Seria eu tão ignóbil de não ser capaz de descobrir onde deveria fazer xixi? Minha bexiga iria aguentar? Pois justo quando dezenas de perguntas povoavam o meu vazio cerebral, recebi uma luz e, com ela, a solução de meu mórbido problema. Percebi que havia uma pessoa dentro de um dos cubículos. Bingo. Bastava esperar e ver o que sairia de lá. Agora, eu só dependia da capacidade da bexiga mesmo.
Enquanto apertava uma coxa contra a outra e ficava me admirando no espelho, pensando em como uma pessoa simples como eu achava a solução para os mais difíceis problemas em um piscar de olhos, ouvi um barulhinho de água corrente e disfarcei. Passei a mão nos cabelos, mexi em um cravo (já contei que acho aquela tripinha branca saindo sinuosa da face parecida com uma serpente?) e fixei os olhos, através do espelho, nas portas. Pois da sombrinha fechada sai um mulherão, linda, com um rosto forte, marcante, maquiada como se estivesse em uma festa, alta, de cabelos esvoaçantes, loiros e lisos, boca carnuda e um sorriso anunciando duas carreiras de dentes brancos e perfilados, que sorriram para mim. Foi um momento de êxtase, de compensação por aqueles minutos malfadados, além de uma espécie de prêmio por minha perspicácia intuitiva. Não aguentei, o instinto foi mais forte que eu, e virei-me abruptamente, tentando projetar meu peito à frente para mostrar mais músculos que tenho. Como meu gesto foi rápido e inesperado e ela estava indo em direção a pia, nossas bocas ficaram muito próximas e cheguei a sentir seu hálito de hortelã quando ela falou "oi".
Somente isso. Essa palavrinha, composta por duas vogais. Nada além. E sabe para que foi suficiente? Para lembrar do Willie Nelson e seu vozeirão. Juro. Ana Carolina tem voz fina perto  dela. Quando aquele grave todo invadiu meus ouvidos, os olhos pararam de "babar" e foram baixando vagarosamente da boca, passando pelo queixo e chegando no pescoço, onde tinha um gogó (o tal pomo-de-adão) maior que meu nariz.
Sabe que a frustração não foi não ter descoberto a mulher da minha vida? Foi, isto sim, por não saber qual sombrinha representa o quê. Se bem que eu nem precisei mais.
A partir desse dia, eu sempre ligo para os lugares onde pretendo ir e pergunto o que tem na porta do banheiro. Fora quase todas às vezes que desligam o telefone na minha cara, algumas outras o pessoal é bem simpático e diz algo como "trinco" ou "fechadura".
Na próxima vez vou na sombrinha aberta!