Injustiças, manias e o indispensável para viver


Cruzei os braços - daquele jeito que os gênios das lâmpadas fazem, erguidos, bem acima da barriga, na altura do peito - e fechei a cara. As sobrancelhas caíram perpendicularmente em direção ao nariz, quase fechando meus olhos. Os lábios cresceram, principalmente o inferior, ficando quase do mesmo tamanho do que o da Angelina Jolie e, então, falei de maneira precisa, em alto e bom som:
- Grunfht!
Existe resposta melhor para injustiça? E não foi só isso. Disse e fiquei imóvel, com a mesmíssima expressão que nós, os injustiçados, fazemos quando atacados impiedosamente. Enquanto eu estava ali no meu solitário protesto contra as mazelas da vida, aproveitei para, além de recordar o que desencadeou minha heroica atitude, pensar no quanto é bom sorvete de creme, sem adição de açúcar, em uma cremeira de inox, com uma banana prata cortada em diagonal, sem as duas pontinhas, colocada abaixo das três bolas de sorvete, sem que fiquem aparecendo até a primeira colherada. É simplesmente fantástico. Mas, enfim, aos fatos: disseram que eu tenho muitas manias. Assim, na cara, sem rodeios. Eu, logo eu, que sou praticamente um resumo vivo da simplicidade humana, um estandarte da praticidade e do comum. Logo eu que vivo bem com tão pouco, sem detalhes, sem extras, sem mimos. Sou quase um ermitão vivendo na cidade grande.

Sucesso com as Mulheres


Todos passamos ou passaremos por uma idade em que tentamos impressionar o sexo oposto. (Nunca entendi bem esta história de oposto, afinal, quer dizer "que se opõe", e eu, de maneira alguma, me oponho às mulheres. Longe disso. Então, porque, afinal, estou usando essa palavra?) Vamos lá: todos passamos ou passaremos por uma idade em que tentamos impressionar o outro sexo. (Melhorou um pouquinho. Neste caso, o outro sexo são as mulheres porque sou homem. Mas, que obrigação tem o leitor de conhecer minha masculinidade? Nenhuma! Portanto...) Última chance: todos passamos ou passaremos por uma idade em que tentamos impressionar, no meu caso, as mulheres. (Deu certo? Deu). Esse tempo varia muito conforme o amadurecimento do sujeito e até do grau de inteligência. Em alguns casos, passa logo. Em outros, vai junto para o caixão. Esse último deve ser o meu caso.

Casamento: Entre Mortos e Feridos Salvam-se Todos


Cheguei em casa de madrugada, cheirando a cerveja barata e hálito de perfume. Ou melhor, com hálito de cerveja barata e cheiro de perfume. Não sei bem, mas acho que o barato era o perfume. Ou os dois. Enfim. 
Como tenho um profundo conhecimento em táticas de guerra, e as uso para sobreviver no casamento, estrategicamente parti para o ataque:
- Hoje vou te dizer umas verdades...
Falei sem olhar nos olhos verdes (acho que estavam vermelhos, pela hora) e entrei bruscamente. Sem me virar, ouvi com certa ironia:
- Fala, se tu é macho...
Áh, que erro básico! Desconfiou da minha masculinidade meteu-se em encrenca na certa. Nessas situações, eu rodo a baiana, desço dos tamancos ou, se ainda não fui claro, solto a franga. Ela pediu e vai ter, pensei, e, ainda sem me virar, disse lentamente:
- Dois nove nove sete nove dois quatro cinco oito.
- Quê? - Bradou o inimigo, franzindo as rugas que não tem, logo acima dos olhos verdes. Virei-me, girando na ponta dos pés, com graça, masculinidade e leveza, e repeti:
- Dois nove nove sete nove dois quatro cinco oito.
- Quê? - Disse de novo, seriamente abalada psicologicamente.

Expressões


Sou destemido. Implacável. Quando alguém me diz algo que não compreendo ou não quero entender, franzo a testa e faço uma cara de dois pontos: e, claro, fico a espera. É infalível. A pessoa se abre, faz citações, enfim, entrega a rapadura. Minha técnica é cem por cento segura.
- Beto, o que você acha do novo acólito?
Dois pontos. E a pessoa continua, quase atropelando as palavras:
- Pois é. O diácono merecia alguém melhor e ... - pronto, tudo resolvido. Nasce mais um entendido em acolitar sem nunca ter acolitado. Minha expressão não entrega meu estado de ignorância e induz a pessoa a revelar aquilo que eu não sei. Perfeito.

Machões, Última Parte - A Saga


O mundo ajuda. A sociedade colabora. A natureza conspira. É muito fácil ser machão. Ando impressionado. Quer ver? Posso, por exemplo, dizer "quero que tu busque uma cerveja agora". Perceberam? Escrevi na segunda pessoa e conjuguei o verbo na terceira e nada me acontece. É que nós, os machões, temos - assim como os poetas - uma licença linguística permissiva bastante ampla. Esse negócio de conjugar os verbos certinhos é coisa de boiola, portanto, posso escrever de qualquer forma sem problema algum. Não é fantástico? Caso você ache algum erro no texto, ele é proposital. A maneira certa deve implicar em alguma boiolice, então...
E as vantagens não param por aí. Contar piada sem graça, por exemplo, é um direito que nos assiste. E os ouvintes têm que rir. Claro, não é preciso uma gargalhada daquelas de galpão, mas, ao menos um sorriso são obrigados a dar, senão pinta "aquele" clima. E "aquele"  clima não é coisa de macho. E tem mais. O rol de facilidades é imensa, mas não vou ficar enumerando porque enumerar é coisa de veado. (Uma pequena observação: quando falo em boiola ou veado, não estou referindo-me aos gays, e sim a todos que não são machos de carteirinha ou aqueles infelizes que não tem no machismo um estilo de vida).
Enfim, depois do sucesso em casa da minha nova fase, resolvi ganhar o mundo. Agora todos conheceriam um verdadeiro macho. Um genuíno Macho, categoria bem macho, com honrarias. Na escala internacional de machismo este é o penúltimo degrau a alcançar. Acima dele, somente  MCBMCHeNemAí , que quer dizer Macho, categoria bem macho, com honrarias e nem aí, mas, não ainda existe ninguém nesse nível. Chegar lá, na verdade, é meu objetivo. Mas, como beiraria a perfeição, provavelmente levarei tempo, coisa de 3 ou 4 meses, para atingir. Áh, antes que eu me esqueça, modéstia não é exatamente uma característica muito comum em nosso meio.

Objetividade Feminina e Artimanha para a Sobrevivência


O importante é ser feliz.
Sempre digo isso quando estou feliz. Quando estou bem de saúde, afirmo que o importante mesmo é ter saúde. Ou quando estou com amigos, comemorando algo, não tenho dúvidas que importante mesmo são os amigos. O mais incrível disso tudo é que não são mentiras, mesmo variando significativamente sobre o mesmo tema. São, basicamente, formas oportunas para facilitar a vida, o viver, enfim, a sobrevivência. O fato de termos algo importante a nosso favor facilita tudo. E muito. Simples artimanha.
Com o passar do tempo vamos adquirindo rugas e gorduras, mas também técnicas que, se não compensam, ficam ali-ali com o que de ruim vem junto com a idade.
A forma peculiar que as mulheres têm, por exemplo, de se comunicar. É fantástica, curiosa e até possui alguma graça, mas, isso não nos isenta de tomarmos alguns cuidados sob o risco de nos transformarmos em imensas orelhas. Foi assim:
- Sabe que o sódio retêm líquidos e que a organização mundial da saúde - neste instante, antes de qualquer vírgula, olhei para aquele ponto obtuso entre os olhos verdes e lindos e fiquei calculando as chances do meu time chegar ao título. Fiz dezenas de simulações, coloquei zagueiros em campo (eles não existem no elenco) e concluí que não teria jeito. Refiz todos os cálculos para chegarmos no G4, que nada mais é do que garantir a classificação para a Copa Libertadores da América do ano que vem, e concluí que com apenas um zagueiro isso já seria possível. Minha alma deve ter sorrido, mas eu continuava com o mesmo olhar do começo, com a expressão impassível, cordata. Lembrei que estavam passando dois filmes argentinos nos cinemas que eu precisava ver de qualquer maneira, relembrei algumas das melhores películas dos "hermanos" , reformulei algumas resenhas e imaginei outras tantas e, por fim, fiz mentalmente uma lista de coisas que precisava comprar até o final do ano, primeiro em ordem de importância e depois de preço. Quando comecei a lembrar algumas cenas da Bruna Surfistinha o sinal de "perigo" soou e, prudentemente, voltei a ouvir - ... pode aumentar substancialmente a pressão arterial.
Imediatamente reagi, com a expressão dividida entre interessado e preocupado, e falei:
- Resumindo?