Volta às cavernas

Choveu e ventou. O galho de um coqueiro (e coqueiro tem galho?) caiu sobre o fio da net que se rompeu deixando-me sem tv e sem internet. Isso foi há 72 hs. Como a eficiência dessa conceituada empresa é única no mundo, o fio será consertado somente amanhã, quatro dias depois do ocorrido. (Isso mesmo, 96 hs para remendar um fio). Resultado: quatro imensos dias nas trevas.
Após muita luta consegui sinal no meu celular e postei algumas gracinhas no feicibuque, tipo "à noite terei que participar de um ritual que os antigos chamavam de conversar" e que meu casamento com a olhos verdes estava sendo colocado à prova (Como se isso não acontecesse todo dia...)

Intocáveis

Existem duas reações básicas e distintas quando gosto muito de um filme: ou saio do cinema com muita vontade de falar sobre cinema, ou, acreditem, saio com vontade de falar sobre temas menos telúricos, mais, digamos, abstratos.
Pois ao assistir o excepcional Intocáveis, para não perder o trocadilho, uma irretocável produção francesa, saí do cinema com vontade de fazer as duas coisas. Isso foi inédito em minha história cinéfila. Minha vontade era falar sobre a montagem simples e eficiente, dos atores, os dois principais, dignos de um oscar cada um, da bela Paris, muito bem retratada na fotografia de muita qualidade, mas, era também de dissertar sobre como o riso é fácil quando acontece em cima do drama, e, ao mesmo tempo, como o choro é solto quando drama não perde o  humor. Resumindo - algo impossível - em uma frase somente, eu diria, sem medo, que é uma comédia onde se ri dezenas de vezes e chora-se outras tantas.
O filme consegue unir riso e choro quase que em uma coisa só. Consegue fazer uma crítica ferrenha, mas ao mesmo tempo sutil, à arte, desde a clássica até a moderna. Consegue unir o rico com o pobre e mostrar a dependência recíproca, o útil ao obsoleto, o preto com o branco, a paz com o conflito, enfim, consegue uma junção de coisas diferentes e muitas vezes antagônicas, dentro e fora da tela.

Para o ego

A Vida Que Não Vivi foi lançado em 2009. Mesmo depois de tanto tempo, sem mídia, sem publicidade alguma, ainda rende bons momentos, como o que tive quando o bom e velho google me avisou de uma pequena resenha escrita em um blog, internet afora:

Projetos e limitações


Eu gosto de observar os outros. Acho engraçado. E gosto de me observar. É mais risível ainda. As pessoas projetam os acontecimentos conforme gostos e preferências. Isso pode ser notado principalmente em pais "corujas". Basta uma criança rabiscar uma parede que vem a sentença: será arquiteto! Dá dois chutes em uma pedra no meio da rua, provavelmente será jogador de futebol. Meu filho, por exemplo, tem uma letra horrível. Médico, sem dúvida. (Se bem que não é dia desses ele estava batucando na mesa. Músico, portanto. Ou os dois, sendo ainda mais lógico).
Essa projeção acontece em todos os planos. Desde uma simples compra no armazém até quando educamos uma criança. Acredito que faça parte das pessoas, do seu caráter. Algo como uma ambição saudável. Pensando nisso, comecei a lembrar de projetos que fiz para mim mesmo, desde os importantes até os mais supérfluos, mas, na verdade, não menos importantes, e cheguei a conclusões interessantes a respeito de coisas que não existem. Assovio com dois dedos na boca, por exemplo. Sabem aquele em que o suposto assoviador coloca os dedos e emite um som alto e estridente? Pois é. Aquilo tudo é falso. Montagem, mágica, sobrenatural, chamem do que quiserem, menos de assovio. Ou assobio. Sabem por quê? Porque não é possível, diante das leis da física. Colocando deliberadamente dois dedos nos cantos da boca e soprando para fora a única coisa a ser produzida é baba, golesma, cuspe. Comprovado de maneira científica através da estatística. Eu tento há décadas fazer isso e 100% das vezes foram falhas. Ou seja, é impossível. Como estatística é uma ciência, esta é uma prova técnica e irrefutável da impossibilidade desse tipo de silvo emitido pela boca e dedos existir. Pronto, menos uma frustração.

Eduardo Dusek, os gays e eu

Na época e de onde eu vim, era comum ouvir coisas como "cuide-se com os gays, os pretos e os comunistas". E o interessante nisso é que não vim de muito longe, nem na questão temporal, nem na questão geográfica: Cruz Alta, uma pequena cidade ao sul do Brasil, há 50 anos atrás. Essa lamentável lembrança veio à tona por dois fatos ocorridos dias atrás. Vamos a eles: um amigo de um amigo colocou no feicibuque algo como "tenho orgulho de meus amigos gays", frase que foi prontamente recusada no "tal compartilhar", com a simples e categórica explicação de que ele não tinha orgulho somente dos seus amigos gays, mas sim de todos os amigos. Quando soube do fato fiquei impressionado com a carga de preconceito nessa simples frase. Porque, afinal, ter orgulho dos amigos por sua opção sexual? Seria razoável que alguém dissesse "tenho orgulho dos meus amigos héteros? Ou dos meus amigos que não comem mondongo? Ou dos amigos que gostam de alface? Que tal ter orgulhos dos amigos negros? Ou comunistas?"

Somos estúpidos

Comemoração da queda da bastilha. Qual o principal evento na bela Paris? Desfile militar. Aniversário da independência de qualquer nação que seja. Desfile militar. Aniversário de ditador. Desfile. Qualquer data comemorativa. Desfile. Essa prática ocorre aqui, na Europa, África, Ásia, enfim, no mundo todo. E me chateia. Mais que isso, preocupa. Aqueles tanques todos, monstrengos de aço, servem para uma única coisa: matar. Os soldados que marcham cadenciadamente como robôs sem vida, são treinados a exaustão para um só objetivo. Matar, também. Aqueles aviões fantásticos e rápidos, que sobrevoam barulhentos arrancando exclamações de admiração das crianças. Verdadeiras máquinas de matar. E todo o resto, cada veterano, cada homem ou mulher, que desfilam como salvadores, que passam orgulhosos com seus apetrechos assassinos, olhando fixo para frente, estão simplesmente mostrando a capacidade para tirar vidas. Quanto mais, melhor. Isso é normal?