Cinema e o preconceito


Aquilo que é feito para o grande público é ruim? Um filme que faz chorar, torcer e sonhar é ruim? Que trata de um tema mais do que batido, com atores quase desconhecidos deste mesmo público, é, sem dúvida, ruim? Que mostra um ruptura social sabida por todos e um caso de amor a "Romeu e Julieta"  faz, necessariamente, que seja ruim? E se o diretor for reconhecido, pelo trabalho anterior, como um verdadeiro contador de histórias para o povo? Heim? Heim? Que tentação de dizer que sim, que o resultado não teria como ser bom com todos estes detalhes. Mas não é isso que acontece, mesmo contra minha lógica cinéfila elitista.
Em Era uma Vez, de Breno Silveira, diretor do consagrado Dois Filhos de Francisco, acontece tudo o que perguntei acima e mais um pouco, e o filme é bom. A história vem pronta, embalada, como um presente e não precisa nem retirar o embrulho: no decorrer da trama, o próprio diretor faz isso, desnudando os medos, cruzando destinos, inventando heróis e bandidos e simplesmente nos contando uma história. O interessante é que fala de uma que sabemos, em uma situação que conhecemos, com uma previsibilidade assustadora e mesmo assim é bom. Talvez por misturar amor com banditismo, pobre com rico, tiros com expectativas e planos, isso aconteça de forma bastante consistente. A trama é contada de uma maneira que não surpreende mas agrada. 
Os dois atores principais, Thiago Martins (Dé) - integrande de um grupo de teatro de uma favela onde, sabe-se no final do filme, ele mora até hoje - e Vitória Frate (Nina) tem atuações surpreendentes. Thiago é tipicamente um esforçado rapaz da periferia, batalhador e sofrido. Creio que o fato - sem preconceitos, tão discutido blogs afora - dele não ter precisado fazer laboratório tenha ajudado bastante e Vitória, uma patricinha da Vieira Souto - também não deve ter precisado de laboratório - trabalham em uma sintonia muito legal. Talvez eu não tenha sido explícito, mas a verdade é que os dois trabalham muito bem. Dá gosto de ver. O restante do elenco também não deixa a desejar. 
O resto dos quesitos que considero essencial para um bom filme, fotografia, trilha (muito, mas muito melhor mesmo que do filme anterior do mesmo diretor) não comprometem. Os diálogos não são muitos, digamos, inteligentes, mas esperar o que? Tudo pela verossimilhança.
Enfim, mais uma vez Romeu e Julieta morrem, mais uma vez o morro desce para o asfalto. Enfim, um bom filme sobre estes mesmos temas, sem preconceitos, é claro.



11 comentários:

felipe lima disse...

Aí é que tá a mágica, fazer um trabalho decente com todos esses clichês.

felipe lima disse...

E esse lance de querer algo novo a todo instante é uma tortura! Por que depender tanto da novidade? Abraço.

Kauana Resende disse...

hum... Acho que o maior desafio da arte é justamente transformar os clichês em novas perspectivas, realistas ou não, mas muito além do que o simplista e artificial. O ator por exemplo, pode representar Sheakspeare dentro e todos os clichês de um casal apaixonado, água com açucar, ou então, como poucos conseguem, alcançar a profundidade da personagem, a ação verdadeira que o move, nada é tão superficial assim... Até mesmo os temas batidos!
Bom, vou assistir o filme e depois ponho minha opinião, parece interessante ;D
=*

Beto Canales disse...

Kauana, fico esperando tua crítica pós filme. Acho que vais gostar.

Felipe, essa coisa de ter sempre tudo novo é cultural, na verdade, imposta por condições políticas. Essa é a base do capitalismo. Novo e novo: consumo e consumo, não interessando o que, pra que nem como.

Robson disse...

Impressão ou tem uma certa acidez no seu texto hehehehe... mas acho que clichês são inevitaveis, tudo a nossa volta é clichezado, a diferença acontece quando se assume aqueles que não são seus... mesmo os clichês podem ser de algum modo... Singulares?!
Abraço meu caro Beto!

Beto Canales disse...
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Beto Canales disse...

É verdade Robson. Somos o próprio clichê. Cinema tem e sempre vai ter, não há como ser diferente, mas, não impede que seja bom. Ainda bem.


Abração.

Silvares disse...

O cinema brasileiro não chega a Portugal. Chega pouquinho mesmo. O último filme que me lembro de estar aí nas salas foi o "Tropa de Choque" (chama-se assim?) e, sinceramente, não vi porque normalmente não vejo filmes brasileiros no cinema. Só uma vez por outra vejo na TV ou, mais raramente, em DVD. Penso que o problema sejam as novelas brasileiras que inundaram os canais de TV em Portugal durante anos até que surgiram as novelas... portuguesas. Novelas essas muitas vezes realizadas por directores brasileiros, note-se. Isso criou em mim uma resistência preconceituosa contra a produção audiovisual brasileira e, também, portuguesa! Eu sei que é preconceito e, mesmo assim, tenho dificuldades em ultrapassá-lo! Quanto ao assunto deste post penso que os produtos comerciais e "de estúdio" têm bom e mau, tal como cinema chamado independente. As narrativas-tipo podem oferecer bons argumentos desde que sejam trabalhadas com qualidade. Imagino que seja o que acontece nesse filme.

Beto Canales disse...

Silvares. O filme a que se referias é Tropa de Elite. Qto ao cinema nacional, ele amadureceu bastante nos últimos anos. Surgiram novos diretores muito competentes, desde que devidamente irrigados com alguns milhares de dólares. Era uma vez sinceramente não é um filme que recomendaria para tentar convencer alguém do avanço de nosso cinema. Já Tropa de Elite é um bom filme de aventura. Vou ver se acho um escrito meu a respeito e te mando ou publico, mas independente de qualquer coisa, este eu recomendo.
Abração

Extase disse...

concordo contigo

Beto Canales disse...
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