sábado, 21 de novembro de 2009

Mulheres, mulheres...

Esta semana eu estava sentado em uma lanchonete, dessas com banquinhos altos e enfileirados, azulejos quadriculados na parede e cheiro de gordura. O que havia de mais magro para comer ali era pastel, destes que ensopam o guardanapo cinza que o envolve a passam para as pontas dos dedos. Perfeitos, portanto. Pois estava devorando um desses enquanto olhava o balcão e suas opções ainda mais engordantes, como sanduíche quente de bacon e maionese caseira, quando entrou uma mulher - minto - quando entrou aquilo - melhor ainda - quando entrou tudo aquilo, fazendo até alguns ovos, que estavam em um enorme vidro de conserva, mexerem-se sozinhos. Tudo no lugar entrou em movimento. Foi um verdadeiro frenesi. Eu imediatamente lembrei das aulas de biologia e tentei classificar aquele ser vivo. Não consegui. Imaginei que a coisa não fosse nem uma questão de anatomia/biologia e sim de divindade. Seria mais apropriado. Certamente "aquilo" estava mais perto de ser uma deusa do que - a maior semelhança que encontrei em nosso meio foi essa - uma mulher. Justo quando olhei suas pernas compridas e lindas e definitivamente concluí que não era alguém do sexo feminino, ela própria enterrou, pisou em cima, deu uma cuspida em meu argumento, com uma simples frase:
- Oiiiii. Vê pra mim um sanduíche de pão preto, peito de peru magro e ricota, por favor!
Pronto. Classificada. Era uma "menina".
Sei disso porque certa vez eu estava no interior, em uma cidadezinha bem pequena, próxima a capital, numa vila bem retirada, perto da zona do meretrício, que nada mais é - explico para os mais novos - que o puteiro. Pois íamos de carro e quando o cansaço chegou, resolvemos parar. Distraído, nem percebi que o lugar não era nada amistoso. Minha intenção era tomar uma Coca Light com gelo e limão e comprar um chiclé de morango. Quando entrei no bar, sim, era realmente um bar, olhei para o bodegueiro e fiz o pedido:
- Um martelo duplo, da branca, e uma coxa de galinha frita.
Ele ainda assim me olhou meio desconfiado. Coxa de galinha aquela hora? "Estranho esse cara..." deve ter pensado, mas virou-se e serviu a canha de uma garrafa pet meio amarelada. Pegou a galinha com a mão e me alcançou. Fiz uma cara de nojo e quando ele ia falar, eu disse:
- Magra? Não tem uma com mais gordura?
O bom homem sorriu atrás de seu bigode espesso, eu acho, porque não dava pra ver sua boca, e concluiu que eu era um deles. Todos respiraram no bar, aqueles segundos de expectativa sumiram e as conversas sobre mortes, futebol e mulheres de vida difícil continuaram até que, sem rodeios, minha amiga disse com uma voz fina e meiga:
- Pra mim uma agádois-ó, framboesa, geladérrima, tá?
Acredito que tenha uma coisa implícita entre homens valentões e a humanidade em geral, no que se refere a tolerância. O bigodudo, provavelmente sem o sorriso, virou-se como um gigante para encará-la e, justo quando ia grunir alguma coisa, ouviu novamente:
- Com canudinho!
Não foi o meu mundo que caiu. Foi o chão que desabou. Pensei que ainda era novo pra morrer, ainda mais linchado, mas, claro, conheço as regras que regem a humanidade e fechei os olhos para a primeira pedra. Seria inevitável. Tudo estava em silêncio e ficou assim por intermináveis quinze segundos, até que foi rompido por uma enorme gargalhada contagiante. Todos acompanharam o homem de bigode que, desta vez deu para ver, até dente tinha. E vários, uns quatro ou cinco.
Realmente há um tratado não declarado de tolerância e compreensão. Ele virou-se para a pia, pegou um daqueles pequenos copos canelados, olhou através dele contra a luz, esfregou um trapo encardido antes de enchê-lo com água da torneira e ofereceu para a moça:
- Por conta da casa - disse, e imediatamente encarou-me com um jeito compreensivo. Com um olhar resignado, carinhoso, até. Tomei uns quatro martelos duplos e saí grandão de lá. Fiquei de - e vou - voltar. São meus amigos desde então. Todos eles.
Canudinho! Como não gostar de pessoas que fazem isso? Como?
Na cidade grande a coisa foi diferente. Um dos atendentes da lanchonete saiu as pressas e minutos depois estava pronto o sanduíche de peito de perú, com um pedaço bem pequenino de toucinho. Acho que para não descaracterizar o ambiente, afinal, tudo tem limite.
A Deusa nem reclamou. E ainda fez hummmmm...
Coisas divinas, naturalmente.
Como não gostar? Respondam, como?



domingo, 15 de novembro de 2009

Cálculo infernal

Li uma notícia assustadora. Na verdade, mais estranha do que assustadora: acontece um suicídio a cada quarenta segundos no planeta. Ou seja, o tempo que levarei para chegar ao ponto final desta frase, é o suficiente para que alguém se mate, estatisticamente falando. Pronto, menos um.
Considero isso extramamente misterioso porque desafia o maior instinto que nós, animais, temos, que é o da preservação. Nosso organismo e mente estão programados para defender nossa vida e não para acabar com ela. Isso é fácil de perceber em sentimentos como o medo, que nos salva de poucas e boas, e o paladar, que nos tempos em que catávamos frutinhas pelas estepes, nos poupava de plantas venenosas. Ou seja, pode-se concluir que o ato de exterminar a própria vida vai de encontro a nossa própria natureza. É mais ou menos, grosseiramente falando, como comer sempre o que não se gosta ou fazer absolutamente tudo que nos dá medo, mas nada parecido com algum esporte radical, e sim semelhante a desafiar um traficante armado ou fazer turismo no Iraque, por exemplo.
Se levarmos em conta as afirmações acima, não há lógica alguma no suicídio. E, se falta este "atestado matemático" ou "permissão científica" para que ele aconteça, não é difícil afirmar que a coisa é relativa ao espírito, algo passeando na fronteira do sobrenatural, ou, ainda, porque não dizer, divino.
E aí entra meu susto, ou medo. Se algo tão inato e danoso vence nossos próprios instintos - que é o básico para darmos dignidade ao rótulo de animais, premissa para nos mantermos vivos - sem nenhuma comprovação física, ou racional, digamos, não estamos a mercê de algo muito perigoso?
É sabido que fazemos coisas instintivas que colocam em dúvida a própria civilidade, que usamos de artifícios inacreditáveis para, por exemplo, protegermos nossas crias, que somos capazes de ações e reações agressivas e complexas sem nenhum planejamento, isso tudo para proteger nossas (nem interessando se boas ou más) vidas, provando, assim, que este "dom" animal é muito mais forte que todo o resto, vencendo, sem dificuldades, conceitos, regras, dogmas e, mesmo assim, com toda esta força e grandeza, é superado sem constrangimentos por uma multidão diária de suicidas. Baseado nisso, vou além: não é somente assustador. É um péssimo indício.
Até por uma questão lógica, a descrença que caracteriza um ateu é ampla. Ou seja, de maneira direta, se o sujeito não crê em deus, é óbvio que o mesmo aconteça com o diabo. Alguém que faça juízo calcado somente em fatos, não aceitaria explicações paranormais para nada. "Mostre matematicamente e estará trilhando um caminho de entendimento com um ateu". Pois assim, por um uso simples de evidências, justifico meu susto: se for para perder a incredulidade, creio ser mais sensato crer no diabo. Analisando essa "automatança" friamente, com os dados expostos acima, é mais fácil perceber que existe uma força maléfica superior, maior que nossos próprios instintos, do que uma força boazinha, que usaria esses mesmos instintos para ajudar o próximo. Afinal, não fazemos isso, não somos solidários. Também é de nossa constituição. Por exemplo, não doamos alimentos se estivermos famintos. Nem se estivermos empanturrados. Somos assim, somos a imensa maioria. Somos a humanidade. Somos humanos.
É alarmante. Fosse eu um religioso, usaria a expressão mais dita e necessária para crentes que conheço: "Deus nos acuda!"
Fosse ateu, não diria nada, além de:
- Mais uma cerveja, por favor!


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A vida que não vivi


Quer saber a abalizada opinião da minha amigona e cúmplice Jana Lauxen sobre meu livro? Deem uma olhadinha na Esquina do Escritor.

Quer saber minha opinião sobre diversos assuntos? Espie o 3 AM.

Quer saber mais uma coisa? Estou "todobobo" com isso tudo. Ai, ai...


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Nem tudo é piada

Assunto sério. Não gosto muito dessa coisa formal, mas, infelizmente, se faz necessário que eu aborde um assunto sisudo neste texto, até porque eles fazem parte de nossa vida e, acho que com um pouco de exagero, regem nossa própria existência. Ninguém decide nada importante com piadas ou uma gracinha qualquer.
Antes, se faz necessária uma confissão: sou a segunda pessoa mais esquecida do mundo. Faço coisas inimagináveis e, pior ainda, às vezes não faço. Coisa normal comigo é esquecer de colocar o cinto, por exemplo, e ficar o dia todo com as calças caindo. Mas isso não é nada, perto do que aconteceu numa tarde dessas, quando esqueci de por as próprias calças e, feliz da vida, fui para frente de casa. Passou um vizinho, acenou meio constrangido, depois outro que abaixou a cabeça e, enfim, uma vizinha que nunca havia me dado sequer um "oi", com um sorriso enorme estampado no rosto lindo. Áh, que bela morena! E tão, como dizer isso? Tão, sei lá, "dadinha"? Mas, enfim, como sou um verdadeiro garanhão fiz o que sei fazer quando uma mulher bela me dá bola: pus as mãos no bolso. Pois é. Ela sorrindo para mim - eu a via em slow - e eu tentando achar onde colocar as mãos. Duas. E ainda por cima tenho duas mãos e nenhum lugar para guardá-las. Evitei olhar para baixo, evitei lembrar das mãos, evitei ficar vivo mas tudo em vão. Lá estava eu, com aquelas coisas cheia de dedos sem um lugar certo pendurado em meus braços, de cuecas, sendo observado pela morena mais linda das redondezas. O que fazer? Bem, fiz o que um homem de moral faria: corri para dentro. E dei de cara na madeira fria. Adivinha? Eu havia fechado a porta com a chave para o lado de dentro, claro. Não poderia ser diferente. Sou uma pessoa normal, como qualquer outra, e isso acontece com todo mundo.
Porém, nem tudo estava perdido. Apesar da situação toda, pelo menos um dos problemas eu resolvi: onde colocar as mãos. Comecei a roer das unhas. Áh, destino, você não contava com minha astúcia. Me senti seguro por alguns instantes, quando fiquei agachado, abraçando os joelhos, com as duas mãos na boca, roendo, como um rato, uma parte de meu próprio corpo. Isso só pode trazer segurança. Certamente ninguém se aproximaria com medo da lepstopirose.
Organizei o pensamento, precisava agir antes que alguém chamasse o pessoal da "carrocinha" ou do departamento de resgate de animais exóticos. A morena em slow ainda estava lá, agora acompanhada por algumas amigas, todas felizes, rindo muito. As unhas terminando e meu tempo também. Olhei para o meu dedinho mingo da mão esquerda, só restava ele. Senti pânico. Minha vida estava acabando junto com minhas unhas. Olhei a porta fechada, olhei para a pequena multidão na rua, suei gelado, tentei lembrar de alguém que eu pudesse pedir para me abastecer de chocolate no presídio, roí meu último pedacinho e... Vitória!
Lembrei que a porta não trancava sozinha, bastava abri-la.
Ainda ouvi algumas risadas mas corri para dentro feliz com minha memória. Pôxa, ela me tirou de uma situação e tanto e - quer saber? - nem é tão ruim assim. Mais: a morena também não era um exagero de bonita. Meio "infantilóide", até.
Que? E isso não é assunto sério? Oras... Áh sim, quem é a pessoa mais esquecida do mundo? Não sei, esqueci!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Concursos Literários

Já disse várias vezes o quanto considero oportunos os concursos de literatura. E não me canso de repetir. Eles são uma forma de, principalmente, incentivar escrita e leitura, fatores que são o alicerce para praticamente tudo em cultura. São quesitos básicos.
Pois o 5º Prêmio Maximiano Campos de Literatura, de Recife, fará a entrega dos prêmios aos vencedores e lançamento do livro dia 08 de Novembro, no Fliporto 2009 - V Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas, na sala de Convenções do Hotel Armação, encerrando com chave de ouro mais este espetacular evento.
Parabéns ao Instituto Maximiano Campos por incentivar a cultura neste país.
E obrigado pelo terceiro lugar que, além dos livros, do kit IMC e do dinheiro, trouxe-me uma satisfação gigantesca, trouxe-me orgulho.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Nossos tempos

Certa vez ouvi de um colunista que ele mantinha dois textos sempre prontos, para quando desse um "branco". Prevenido, pensei. Mas hoje, do jeito que as coisas andam, isso não é mais necessário.
A informação é tão ampla, o bombardeio tão sortido, que não falta assunto, ou pauta, de maneira alguma. Aqui no sul, por exemplo, a secretária de cultura Mônica Leal (que veementemente apoia os bailes de debutantes - é o que dizem por aí - como manifestação cultural) frente às câmaras de TV em um choro compulsivo junto com uma "coleguinha", enquanto a senhora governadora jurava inocência, deu-me ânsia de vômito. Foi seguramente a cena mais piegas que vi até hoje. É o fim de qualquer esperança política. É o atestado de mediocridade, a diplomação da infâmia governamental.
No sudeste, a história de um menino que em nome da fé viajou durante horas pendurado em um ônibus também causou-me surpresa. Não pela criancice e falta de juízo, afinal, tratava-se apenas de um garoto, mas pela repercussão do caso e pela postura dos pais. Todos acharam lindo. Uma dádiva a aventura maluca. Em nome de Deus ou de alguma Nossa Senhora de plantão tudo é válido, permitido. Inclusive dar os parabéns a quem merecia uma séria repreensão por ter colocado a própria vida em risco. Sempre achei a religião uma coisa perigosa, usada para aniquilar, sufocar, matar, explorar e exemplos disso tudo não faltam. Mas de algum lado, mesmo que quase sem importância, vinham algumas críticas. Desta vez nada. A fé hoje em dia não somente move montanhas como também meninos. Isso tudo é lindo, ao que parece.
Ainda nesta região, no Rio, dois assaltantes matam uma pessoa e roubam a jaqueta e os tênis da vítima. Dois policiais, graduados, roubam os gatunos e deixam o corpo da primeira vítima literalmente estendido no asfalto. Tudo filmado. A explicação do advogado dos ladrões fardados merece entrar para a história: não prenderam os assassinos porque não tinham provas e os objetos da vítima eles encontraram no chão. Certo. Tudo explicado. Odeio frases prontas, mas, provavelmente, a que diz "ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão" será cientificamente provada.
Mais ao norte, no estado curral Maranhão, pátio dos Sarneys, nosso digníssimo ex-presidente havia escolhido um monumento público que generosamente lhe haviam doado, para construir seu túmulo (que o use brevemente). Gente! Depois falam que o ser humano é mesquinho. Ele ga-nhou de presente um monumento enorme e, como se não bastasse essa demonstração de bondade, iria construir lá o lugar do seu repouso eterno. Imagina só a oportunidade: nós, como turistas, poderíamos visitar os Lençóis - certamente um dos lugares mais espetaculares do planeta - e o túmulo deste escritor esplêndido, o José Ribamar. É impressionante como esse senhor tem espírito público. Demonstra isso até quando trata de sua morte.
Quer saber? Estou num mau-humor danado e até aceito. Impossível estar de outra forma.
Eu queria mesmo é ter um "branco", mas dessa gente, dessa podridão, destes ...
Áh, deixa para lá... Vou chorar como a secretária, lembrando do Sarney, coitadinho...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Um dia depois

Tem coisas que são difíceis de fazer, pelo menos bem feito. Não por complexidade ou por dificuldade técnica, mas pelo risco de cometer injustiças. E um exemplo disso são os agradecimentos.
Tenho um amigo e compadre que usa uma tática interessante para pedir algo a sua esposa. Ele a olha com um jeito humilde, desprogetido, e fala - baixo e de maneira afetuosa - com as palavras absolutamente coladas, sem intervalo algum entre elas, num espasmo só, com o agradecimento junto:
- Queridaporfavormetrazumacervejaobrigado!
Genial. É claro que ele recebe sua cerveja em mãos. Como recusar um pedido desses? O "obrigado" no final condiciona que aconteça. Ele já está lá, já existe, antes mesmo da ação que o geraria. Como não fazer? Como permitir que uma palavra tão linda e educada seja uma mentira? Seria muita crueldade, muita insensibilidade.
Pensei em usar esta tática para o lançamento do meu livro: "Oiestáconvidadoparairaomeulançamentoobrigadopelapresença!" Áh, o sucesso! Quem não iria se a presença já estivesse anunciada e com os devidos agradecimentos? Junto com minha gargalhada maquiavélica e sinistra ao fundo, imaginava a fila de autógrafos imensa, as pessoas impacientes para chegar na minha frente. Nossa, como é bom isso tudo.
Lembrei também de (não recordo quem foi) um grande escritor dizendo que a solução para fila de autógrafos era o tempo. No mínimo cinco minutos para cada dedicatória. Ou seja, se tivessem dez pessoas (só mãe, pai, tia, primos já alcançam esse número), o evento já duraria uma hora. E a fila ali, fiel e consistente, como uma pequena muralha.
Perfeito. Vou (novamente a gargalhada) usar as duas táticas. Não tenho o que temer.
Pois chegou o dia do lançamento, que foi ontem. Um sucesso. Pessoas que gosto muito, pessoas que admiro, pessoas que são amigos há décadas, pessoas que eu não conhecia, uma verdadeira festa, afinal. Fiquei "todo bobo".
E sabe o mais interessante de tudo? Não usei nenhum das táticas infalíveis. O segredo foi confiar em gente competente, como a jornalista Carla Rossa (que fez um magnífico trabalho de assessoria de imprensa), Sabrina Lindemann e Angela Ruschel, para que tudo desse certo. Mais que certo. Para que tudo fosse ótimo.
Mesmo correndo o risco de cometer alguma injustiça, enfim, meu muito obrigado a todos os que compareceram, aos que avisaram que não poderiam ir, aos que não conseguiram ir e a essas três aí de cima.
Um dado curioso: entre todos, apenas um parente. "Unzinho" só, mas que me deixou muito feliz.
Viva a literatura!


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Em Porto Alegre

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Bastardos Inglórios

Quando eu era menino, esperava ansiosamente pela visita do Papai Noel. Lembro que de Novembro em diante, meus "modos", que não eram lá o que se poderia chamar de bons, mudavam completamente. De moleque travesso a um pequeno Lord inglês em um passe de mágica. Confesso que depois da visita do bom velhinho, ficava calculando se tinha valido a pena todas aquelas semanas de comportamento exemplar e, na maioria das vezes, concluía que não.
Pois acontece algo parecido nos dias de hoje. Fico ansioso esperando um novo filme do Tarantino. Acompanho as informações da mídia, os detalhes na internet e crio uma expectativa enorme. Acho que inclusive me comporto melhor. Algumas semanas antes da estreia não piso em formigas, ajudo velhinhas a atravessar a rua e não faço gozações futebolísticas com os azuis sulistas, pelo menos até a hora de ir ao cinema que, enfim, chegou.
Bastardos Inglórios.
Deixei um parágrafo só para o nome, pois não é somente um filme. É uma homenagem ao cinema em geral. É uma ode a esta grandiosa arte. Um verdadeiro espetáculo.
As interpretações de todo o elenco, especialmente de Christoph Waltz (como o caçador de judeus Coronel Landa) e da judia Mélanie Laurent (como proprietária do cinema onde ocorre o desfecho do filme) são fantásticas, lindas, soberbas. E, além deles, ainda tem o Brad Pitt, como sempre, inigualável e inconfundível.
Para não ser longo e nem "desmancha prazer", não vou contar nenhuma das quarenta cenas inesquecíveis do filme. Nem a que dois nazistas conversam sobre o destino da Bridget (Laurent) e a câmera mostra somente os olhos - lindos - da atriz reagindo a conversa. Nem quando o belo rosto da nossa heroína, em gargalhadas, é projetado na fumaça que acabaria matando a cúpula nazista, e muito menos o imperdível diálogo entre o chefe dos Bastardos e o Coronel Landa, na hora da revelação final, no desfecho de tudo. Não vou contar nada. Mas, para não ficar sem assunto, falarei de listas (desculpem os leitores antigos, mas preciso explicar).
Pois tenho três: uma dos dez melhores, onde nenhum filme sai, somente entra (o que faz que esta lista tenha muito mais participantes do que anunciado no título); dos dez piores, o mesmo princípio; e a dos três melhores de todos os tempos, onde para um entrar, outro tem que sair. Portanto, é com muito pesar que retiro um Tarantino para por outro: sai Pulp Fiction e entra Bastardos Inglórios, para fazer companhia a Inconscientes e O Lutador. (Já fizeram parte dessa lista os saudosos Império do Sol, O que fazer em caso de incêndio e o Expresso da Meia-Noite)
Só existe uma coisa a se fazer quando o (disparado) melhor filme do ano está em cartaz: ir ao cinema. Preparem-se para cenas fortes, sádicas, engraçadas, hilárias, cínicas e, principalmente, bem-feitas. Preparem-se para uma direção perfeita. Preparem-se para um filme com recursos inovadores, para o que de melhor se produz para a telona. Preparem-se para Tarantino!
Concluo: valeu a pena ter ajudado as velhinhas. O resultado disso é que Quentin é melhor, ou "mais bonzinho", que o papai Noel? Sei lá.
Mas, a partir de agora, cuidem-se formigas!
(ão, ão, ão, segunda divisão)
Afinal, voltei!



quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sobre verdades e verdades

A literatura é, sem dúvida, a mais fantástica manifestação humana. Nada supera a eficácia com que encanta, assusta, diverte ou destroi. É uma arma carregada mirando para todos os lados. Basta que seja disparada para o lado certo e teremos uma boa consequência. Em geral são ótimas. O que não foi nada bom foi essa minha comparação infame. Mas acredito que seja mais ou menos assim. Nem sempre os livros e seus "ensinamentos" são usados para o que consideramos "bem".
Não gosto muito da batidíssima frase "ler é viajar sem sair do lugar". Além de não gostar, discordo. Provavelmente quem disse isso nunca viajou. Ler não deveria sequer ser comparado com uma viagem. São duas coisas antagônicas que nem se conhecem. Passam ao largo. Chega a ser infantil afirmar isso. Se fosse possível, vejam bem, "se" fosse possível essa comparação, ela seria ineficiente, porque ler é mais que viajar. (Abro literalmente um parênteses para afirmar que viajar é uma das três melhores coisas do mundo - inclusive e sem medo da contradição - do que ler).
A razão disso é bastante simples: a mentira. Novamente eu especulando sobre essa milenar senhora sempre tão jovem, bonita e eficiente. Retirando algumas obras específicas, o que são os livros, além de mentiras bem contadas? Além de fascinantes delírios de um cérebro privilegiado? Autores são, a rigor, mentirosos com o fantástico dom da palavra. E os leitores, verdadeiros românticos que pagam e usam seu tempo para viver as mentiras, tramas, artimanhas e maluquices alheias. Experimentam sensações e prazeres vividas por ninguém, exceto pelo imaginário de um contador de histórias que na maioria das vezes não aconteceram.
Isso é fascinante. Prova o quão inteligente são as pessoas que leem e, talvez, o quão doentia as que escrevem, expondo os caprichos mais íntimos e, quem sabe, sórdidos, para que sejam explorados, usados, gozados e tudo mais por um desconhecido. Pelo menos fisicamente.
Portanto, e agora sim cometendo o pecado do contraditório - a verdade de quem lê é a ficção de quem escreve. As pessoas leem acreditando em cada palavra, por mais absurda que pareça, seja verdadeira. E o autor, esse mentiroso nato, enriquece todas elas com técnicas e talento, para que pareçam mesmo representação da verdade. Existe um acordo, uma espécie de contrato informal, uma aceitação mútua e condescendente para que tudo funcione e a magia da ficção se pareça tanto com a realidade, que, enfim, torna-se real.
Isso não é maravilhoso? Não mostra que, apesar de tudo, somos civilizados? Cultos? Sentimos prazer com o delírio dos outros. Nós terceirizamos o trabalho.
O viajante (com verdadeiras expedições ao imaginário) é quem escreve, e o leitor quem aproveita.
Viva a ficção!