Um ato de liberdade

Cinema.
   Um ato de liberdade é mais um bom filme do diretor Edward Zwick (Diamante de Sangue e O Último Samurai). Ambientado na segunda grande guerra, disserta sobre o massacre indiscriminado de judeus pelos alemães e seus comparsas. Conta com muita técnica, a história verídica de três irmãos - os Bielski - que conseguem fugir dos nazistas durante a invasão da Polônia e escondem-se em uma floresta na Bielo-Rússia. Juntam-se a eles centenas de outros refugiados e todos sobrevivem por vários anos, passando por diversas privações, chegando ao limite da fome atingindo condições verdadeiramente desumanas. Daniel Craig (007 e Reflexos da Inocência) com uma interpretação louvável como protagonista e Liev Schreiber (X-Men e A Profecia) em uma atuação melhor ainda como coadjuvante, representam o sonhador e o prático em conflito, repetindo a eterna luta entre os platônicos e aristotélicos. O figurino, efeitos sonoros e a ambientação são de excelente qualidade. É certo que exageram um pouco nas tomadas dos belos olhos azuis de Craig, mas não chega a comprometer. 
    E aí vem o mistério. Não levando muito a sério minha comparação, o filme é como uma partida de futebol com dois ótimos times jogando muita bola e, depois dos noventa minutos, o resultado é zero a zero. Pois findos as mais de duas horas de Um Ato de Liberdade, o resultado é exatamente o mesmo: empate. Talvez a ambição de tentar abraçar tantos gêneros, uma mistura de drama com ação, além de um bom filme de guerra, fez com foco tenha se perdido, sem deixar de ser um filme interessante. 
    Para os cinéfilos, entretanto, sempre existem cenas que valem o ingresso. Daquelas que nos fazem ficar inquietos na poltrona, nos obrigam colocar as pipocas compulsivamente na boca. Em uma delas, depois de ter os pais mortos, um dos irmãos Bielski (Craig), na verdade um produtor rural, vai até a casa do responsável pelas mortes e, com certa crueldade, mata os dois filhos do assassino de seus pais antes de liquidar o desafeto. Uma mulher que assistiu a chacina, esposa e mãe, pede para também ser morta e recebe como resposta somente um olhar de desprezo. A tomada é forte além de bem feita. Engloba uma série de temas, priorizando vingança e frieza. Toda a história leva para que aquilo aconteça e, então, não chega a causar um estranhamento no espectador, mas mesmo assim perturba. Deixá-la viva pareceu muito mais cruel do que qualquer matança. É tudo muito rápido - ainda bem - porque realmente toca fundo em quem percebe o desespero da personagem.
    Outra cena que se destaca também fala de vingança e igualmente choca não somente pela barbárie. Um nazista é capturado e levado ao acampamento dos judeus. Fica indefeso e desarmado entre dezenas de velhos, mulheres e crianças que começam a agredi-lo até a morte, falando os nomes dos seus parentes mortos pelo exército nazista. A agressão é chocante, mas nem perto da atitude do comandante dos agressores, novamente Craig, que com uma expressão inesquecível fica calado, sem interferir. O silêncio dele é assustador, fazendo certamente mais uma daquelas cenas inesquecíveis da telona.
    Comecei o texto com a palavra "cinema", afinal, mais um filme milionário sobre crimes de guerra está aí. Sabem quantos acredito que devam ser feitos, não só sobre os judeus, mas também sobre os sudaneses (que por sinal estão sendo dizimados agora), os etíopes, os tibetanos ou os aborígenes? Centenas, milhares. Sempre afirmo que a arte não deve ser usada como panfleto, qualquer que seja, e continuo pensando assim. Mas defendo, entretanto, que as desumanidades ou atrocidades que cometemos, devam ser lembradas e mostradas incansavelmente. Afinal, existe uma pequena chance de não sermos tão estúpidos a ponto de repetir os erros vendo-os constantemente. E, com sorte, em futuros filmes baseados em fatos reais, como em Um Ato de Liberdade, as cenas mais impressionantes e marcantes não sejam sobre vingança.
    Tudo isso também é cinema. Acho.

 

6 comentários:

Denise disse...

Na última vez que fomos ao cinema, um bando de adolescentes parecia estar na sala da casa assistino a um jogo de vôlei. Quando reclamamos, jogaram latas de refrigerante vazias. Tivemos que chamar a administração para remover as criancinhas e sair antes, temendo alguma represália ou algo assim. Enfim, não sei se tenho tanta esperança assim.

Ricardo Valente disse...

Não reparei nesse filme. Boa pedida, então! Abraço!

Felipe Lima disse...

Olha que interessante: li algumas resenhas sobre Defiance na época do oscar. Boa parte delas eram negativas, mas mesmo as positivas não me despertavam sentimento de nenhuma espécie em relação ao filme.

O que aconteceu ao ler a sua análise agora foi o contrário. Esse é o interessante da história.

Há uma qualidade nesse texto que eu não me lembro de ter notado nos demais: uma espécie de aproximação comigo, que leio, promovida através da sinceridade e sensibilidade em transpor isso para o texto, até mesmo quando você fala da técnica.

Essa sensibilidade falta nas pessoas que escrevem sobre cinema hoje. Tudo é muito frio, tudo é box office, tudo é hermético ou completamente superficial.

Esse é um ponto diferente quando você escreve sobre cinema e essa é uma vantagem pra você, creio. Abraço.

Biba disse...

Beto, gosto quando você escreve sobre cinema sem medo de entregar a trama e dividir com os internautas as cenas mais marcantes. Talvez eu ainda consiga fazer isso. É que policio muito pois, na verdade, quando leio, não quero saber tudo. É bastante contraditório isso para mim.

Beijo grande
Carpe Diem!!

Luiz Calcagno disse...

Difícil dizer. Olá, primeiramente. Ando cético com filmes, mas tive uma boa lição com o Outander, que eu recomendo, e que eu não depositava nem uma moeda. Mas judeus mais uma vez? ica a pergunta. Respondo depois de assistir o seu filme.

Abraços

Extase disse...

Mesmo sendo judeu, j[a estou cansado de ver filmes sobre este tema, at[e por que me toca muito, O pianista que achei pessimo, me tocou, A Vida eh bela , entao....acredito que vale a pena conferir.