Bastardos Inglórios

Quando eu era menino, esperava ansiosamente pela visita do Papai Noel. Lembro que de Novembro em diante, meus "modos", que não eram lá o que se poderia chamar de bons, mudavam completamente. De moleque travesso a um pequeno Lord inglês em um passe de mágica. Confesso que depois da visita do bom velhinho, ficava calculando se tinha valido a pena todas aquelas semanas de comportamento exemplar e, na maioria das vezes, concluía que não.
Pois acontece algo parecido nos dias de hoje. Fico ansioso esperando um novo filme do Tarantino. Acompanho as informações da mídia, os detalhes na internet e crio uma expectativa enorme. Acho que inclusive me comporto melhor. Algumas semanas antes da estreia não piso em formigas, ajudo velhinhas a atravessar a rua e não faço gozações futebolísticas com os azuis sulistas, pelo menos até a hora de ir ao cinema que, enfim, chegou.
Bastardos Inglórios.
Deixei um parágrafo só para o nome, pois não é somente um filme. É uma homenagem ao cinema em geral. É uma ode a esta grandiosa arte. Um verdadeiro espetáculo.
As interpretações de todo o elenco, especialmente de Christoph Waltz (como o caçador de judeus Coronel Landa) e da judia Mélanie Laurent (como proprietária do cinema onde ocorre o desfecho do filme) são fantásticas, lindas, soberbas. E, além deles, ainda tem o Brad Pitt, como sempre, inigualável e inconfundível.
Para não ser longo e nem "desmancha prazer", não vou contar nenhuma das quarenta cenas inesquecíveis do filme. Nem a que dois nazistas conversam sobre o destino da Bridget (Laurent) e a câmera mostra somente os olhos - lindos - da atriz reagindo a conversa. Nem quando o belo rosto da nossa heroína, em gargalhadas, é projetado na fumaça que acabaria matando a cúpula nazista, e muito menos o imperdível diálogo entre o chefe dos Bastardos e o Coronel Landa, na hora da revelação final, no desfecho de tudo. Não vou contar nada. Mas, para não ficar sem assunto, falarei de listas (desculpem os leitores antigos, mas preciso explicar).
Pois tenho três: uma dos dez melhores, onde nenhum filme sai, somente entra (o que faz que esta lista tenha muito mais participantes do que anunciado no título); dos dez piores, o mesmo princípio; e a dos três melhores de todos os tempos, onde para um entrar, outro tem que sair. Portanto, é com muito pesar que retiro um Tarantino para por outro: sai Pulp Fiction e entra Bastardos Inglórios, para fazer companhia a Inconscientes e O Lutador. (Já fizeram parte dessa lista os saudosos Império do Sol, O que fazer em caso de incêndio e o Expresso da Meia-Noite)
Só existe uma coisa a se fazer quando o (disparado) melhor filme do ano está em cartaz: ir ao cinema. Preparem-se para cenas fortes, sádicas, engraçadas, hilárias, cínicas e, principalmente, bem-feitas. Preparem-se para uma direção perfeita. Preparem-se para um filme com recursos inovadores, para o que de melhor se produz para a telona. Preparem-se para Tarantino!
Concluo: valeu a pena ter ajudado as velhinhas. O resultado disso é que Quentin é melhor, ou "mais bonzinho", que o papai Noel? Sei lá.
Mas, a partir de agora, cuidem-se formigas!
(ão, ão, ão, segunda divisão)
Afinal, voltei!



6 comentários:

Denise disse...

Tarantino rules... Sempre preferi os anti aos heróis. Torcia pelo Coyote no desenho do Papa-léguas.

.Dazinha. disse...

esse filme é fantastico, sádico, sarcastico, medonho[cena da risada na tela], ame amei amei!!!!
o sotaque do brad pitt, incomparavel, hhahahaa.

tarantino se supera!

Silvares disse...

Assino por baixo. Um monumento ao cinema (ou cinema monumental?). como é possível? Parece tão natural como passear o cãozinho ao fim da tarde e não limpar o cócó do passeio!
:-D

Biba disse...

Adoro Tarantino, mas não pude assistir o filme ainda. Gostei do seu comentário, embora conte muitas coisas, né?

Beijos
Carpe Diem!!

Anônimo disse...
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Josué de Oliveira disse...

Finalmente assisti. E vou discordar do Canales.
Primeiro de tudo, o filme é bom, vale a pena ser visto, mas descrevê-lo como obra-prima é, na minha opinião, um grande exagero.
Por mais que os diálogos do Tarantino sejam escritos com um esmero extremo, não dá para negar que algumas cenas foram desnecessariamente longas. Me lembro de vibrar enquanto assistia, tentando realmente absorver as falas, mas, ao mesmo tempo, pensava: Pô, legal, mas e o resto da história?
Outra coisa que me incomodou foi a artificialidade de alguns personagens. Me desculpem, mas acho impossível olhar para Inglorious Basterds e pensar: Ali estão pessoas. O que me vinha a mente todo o tempo era: ali estão personagens, e só. Brad Pitt é um completo estereótipo sulista americano. Seus bastardos pouco aparecem (as aparições são quase todas divertidas). E o que dizer do Hitler e do Goebbels concebidos por Tarantino? Desde a primeira cena, mostram-se artificiais, sem profundidade alguma (o que talvez tenha sido a intenção do diretor, não sei dizer); e por mais que a atuação de Christoph Waltz seja soberba, seu Hans Landa soa completamente irreal. Novamente, personagem, e não pessoa.
Mas Tarantino sabe surpreender. Nos momentos em que a violência explode, impossível não grudar na cadeira. O terceiro ato é permeado por uma tensão sem fim. E o rosto na fumaça foi, na minha opinião, a melhor sacada do filme.
Enfim, foi o que achei.