O terremoto chileno e o monstro



Estive no Chile por duas vezes e isso parece tornar o horror da tragédia ainda mais terrível. Ter passado por alguns lugares destruídos, ter conhecido pessoas, boas pessoas, que vivem por lá, ter tido excelentes e felizes momentos naquele país, potencializam de maneira extraordinária a sensação ruim que as imagens da destruição proporcionam. 
Mas, mesmo com esse aumento compreensível do sentimento, o que mais me chocou não foram os registros de pequenas cidades litorâneas destruídas pelo tsunami (descartado pela presidenta), os escombros de prédios que já foram lares e nem das milhares de vítimas desesperadas aos prantos. O que mais me abateu foi a imagem de um saqueador, um sujeito novo, saudável, que corria meio a destruição, roubando uma tv de plasma. Não encontrei a imagem na internet para colocar aqui, creio que a vi em um jornal impresso, mas era somente isso: o rapaz em posição de corrida, fugindo, com a caixa sobre o ombro.
Eu considero esse ato o que há de mais degenerado em nossa condição de civilizados. Uma cidade (a cidade dele) destruída, inúmeros mortos, sem água, luz, alimentos, pessoas desesperadas (parentes, amigos, sem teto, sem nada), e o desgraçado roubando um televisor. Inacreditável.
Não me vejo em condições em julgar nada nem ninguém, então, desculpem revelar a sentença que eu daria para um camarada desses: serviços forçados pelo resto da vida, sem nunca mais conviver com qualquer outra pessoa, sendo terminantemente proibido falar e privado de ouvir. Ou seja, nunca mais ter qualquer contato com humanos. Não seria má ideia filmá-lo, documentando sua morte lenta e dolorosa, para exibir mundo afora, registrando a que ponto chegamos, em que estamos nos transformando.
Nada poderá dar certo em uma sociedade (e não falo aqui somente da chilena) onde uma coisa como um aparelho de televisão, seja mais importante do que tudo. Uma pessoa com vitalidade para roubar e sair correndo com o aparelho, não deveria estar removendo escombros, salvando ou tentando salvar vidas? Ele fez, porém, o que era mais importante em seu caráter doentio. Ele agiu como seu instinto determinou. Ele roubou em troca de ajudar alguém. E roubou uma TV. Não foram alimentos, água ou remédios. Foi uma porcaria de um televisor.
É certo que o sistema capitalista, instalado no lado ocidental do nosso planeta, na verdade, em quase todo ele, ensina de maneira explícita que o "ter" vale mais - muito mais - que o "ser", mas, em caso de tragédia, em situações de excessão, eu ainda tinha esperanças que as pessoas seriam solidárias, humanas. Em minha ingenuidade, imaginava que nem o pior dos monstros agiria como um calhorda, um ladrão desgraçado, enquanto tudo ao seu lado estivesse destruído. Estava enganado, como quase sempre.
A triste conclusão disso tudo, é que os ensinamentos capitalistas, aqueles que preconizam levar vantagem em tudo, estão fazendo escola, estão se tornando nosso guia, alimentando  nossa personalidade, induzindo nossas atitudes.
Como minha singela sentença não será aplicada, lamentavelmente, espero que o escória acompanhe por sua TV roubada o fim de tudo que goste. Se bem que ele deve gostar somente dele mesmo. (Além de tudo tem mau gosto).
Resumindo: não há justiça em nossa civilização.
Civilização?




3 comentários:

Onofre disse...

é impressionante o que temos de monstros por aí...

Mai disse...

Eu também vi algumas imagens como esta que citou. Saques absurdos - (TV, Geladeira...) e corpos sob escombros e o desespero chocando o mundo. Fosse um animal buscaria alimento ou água, fosse instinto, o saque seria para suprir necessidades de sobrevivência.
A incivilidade é bem assim - parece não haver classificação.
Eu também não saberia definir.
abraços

Silvares disse...

Com o abalo de terra o cérebro também descola do crânio.