Cabo Polônio



Uma das vantagens de ser ateu é o poder da conversão. Eu mesmo abandonei minhas "certezas" diversas vezes. A última aconteceu nas férias, semana passada, em um momento fantástico. A cena mágica foi simples, porém inesquecível: estava eu frente a frente com um entrecot jugoso, lindo, enorme, numa parrijada em Colônia de Sacramento. Quando coloquei o primeiro pedaço na boca, percebi o quanto tinha de divino aquilo tudo. O sabor daquela carne não poderia ser atribuído somente ao pasto dos pampas uruguaios nem à habilidade do assador. Existia algo mais. Tinha que existir. Tomado pelo sentimento sacro e vendo o tamanho enorme daquela peça única de sabor perfeito, ergui as mãos para o céu e clamei:
- Se existes, ó deus, substitua meu cérebro por mais estômago, para que eu possa comer tudo sem dificuldades. - E o jantar transcorreu na maior harmonia.
Harmonia, bem lembrado, típica do nosso pequeno vizinho. Um povo correto e honesto que recebe suas visitas de maneira cativante. Desde o litoral, como na badalada Punta del Este, ou na capital Montevideo, ou ao oeste, como em Salto, o jeito carinhoso dos uruguaios encanta.
Eu poderia facilmente escrever maravilhas de todos os lugares em que estive, mas pretendo chamar a atenção para um somente: Cabo Polônio. Certamente o lugar mais excêntrico que já vi. Fica a poucos quilômetros da Rota 09, uma das principais do país, em um lugar onde só é possível chegar com umas caminhonetes com rodas gigantes. É rápido. Em pouco mais de meia hora de balanços sobre dunas, chega-se à beira-mar. Mais alguns metros e lá está um pequeno istmo, unindo ao continente uma formação rochosa com um gigantesco farol olhando soberbo para o mar, cercado por centenas de lobos marinhos e pequenas casas, pequenas mesmos, com uma arquitetura única, não parecendo com nenhuma construção de nossas cidades ou favelas.
Neste lugar ventoso moram cerca de quarenta famílias, que não possuem energia elétrica nem água encanada. Transitando pelas ruelas, creio que "caminhos" definiria melhor, de pedras e areia, observa-se somente os imóveis. O lugar parece abandonado. Raramente vê-se algum morador. Alguns pinguins na beira da praia e mais nada, além da beleza crua e selvagem, virgem e inóspita do lugar.
Na hora da fome, uma placa anunciava comidas em um prédio baixo, pouco mais de 1,80 de altura, onde sentava-se em cadeiras com os pés cortados ou em banquinhos muito pequenos. Três mesas, também ao nível do chão, e a decoração mais estranha que podem imaginar: ossos de peixe, caixas de fósforos antigas, algumas fotos, panos torcidos, pequenos copos sem uso e mais algumas velharias perfiladas em uma parede de barro com várias reentrâncias, como pequenas cavernas. Como o tempo só não passava em Polônio e para mim passava rápido, infelizmente, resolvi pedir o que eles chamavam de "prato del dia", já que provavelmente seria rápido. Quando o "PF" deles chegou: frango ao molho de mel com purê de pera e gengibre com mais uns pozinhos coloridos que nem imagino o que eram, imaginem o susto. Logo adiante, a surpresa ainda maior: era delicioso. Perfeito. Diferente. Magnífico.
Mais dois detalhes: existiam guardanapos dispostos ordenadamente em sandálias femininas sobre as mesas e esse prato custou menos de dez reais. Não é inacreditável? Por este tipo de  descobertas, não somente de sabores, mas de opções de vida, de maneiras escolhidas para esperar a velhice chegar por pessoas muito diferentes de nós, é que viajar é preciso. Não é opção, é vital. Obrigatório para o saber.
No outro dia do jantar em Colônia do Sacramento, àquele da conversão, quando levantei pela manhã, creio ter errado a porta e batido de frente na parede, ou levantado pelo lado errado da cama ou alguma outra trapalhada do gênero, foi suficiente para ouvir da minha companheira de viagem e de vida:
- E não é que deus atendeu mesmo o teu pedido?

3 comentários:

Beto Guimarães disse...

A crônica está muito boa. Fez-me recordar o passeio que fiz para Colônia do Sacramento quando estive em Buenos Aires e tirei um dia para conhecer esse histórico e prazeroso lugar do Uruguai. Viajar, realmente, é preciso.
Mande outras crônicas como esta. Grande abraço.

Mai disse...

Legal!
Cabo Polônio - uma aventura.
Bom Gourmet - nas últimas férias você também destacou a culinária.

P.S.
Fui à 'ABC'. Desejo sucesso à vocês. A idéia e o empreendimento tem tudo prá dar certo.

grande abraço

Jorge Carlet disse...

Bela crônica, porém deveria ser precedida por um aviso: desaconselhável ler antes do PF de cada dia.

Grande abraço.