Nunca é tarde para assumir...


Muito legal a repercussão do texto anterior, Casamento e descobertas. Tanto que vou seguir o conselho do que é bom a gente fatura, o que é ruim esconde. Lembram? Eu sim. Até hoje tenho pesadelos com falta de escrúpulos.
Ao que interessa: após receber inúmeros mails, alguns me acusando de machista, outros de vendido e ainda outros me jurando de morte por dar mau exemplos, enfim, vou assumir. É uma data marcante que servirá de referência para o resto de minha vida. A bem da verdade, eu já saí do roupeiro e enfrentei minha natureza há alguns dias. Agora é oficializar, somente. Algo como a minha nova certidão, meu total desligamento de preconceitos ou, o que é ainda pior, de esteriótipos que nutri forçadamente durante toda minha singela existência. Vou contar como ocorreu este doce processo de transformação.
Dias atrás, logo depois de publicar o texto aí abaixo, recebi uma mensagem que dizia o seguinte: "É isso aí mesmo. O que essas mulheres pensam que são? Patroas? Sinta-se acompanhado nessa caminhada contra as injustiças e a favor da liberdade." Aquelas palavras ficaram incomodando dentro da minha cabeça. E não acontecia como ocorre com as fronhas que tem seu lugar no mundo: não existe um lugar pra elas. Ficavam balançando, sacudindo, preenchendo lugares que deveriam estar lotados com problemas futebolísticos ou com a lembrança de alguma gostosa qualquer. Fiquei incomodado. Muito incomodado. Extremamente incomodado. Cheguei em casa e vi a esposa (aquela mesma, a engessada) parada na porta com uma muleta numa mão, uma vassoura na outra e um sorriso no rosto. Naquele mesmo instante falei:
- É pra varrer ou pra voar? - O sorriso desapareceu como mágica. Pronto, foi assim. Ali nascia um novo homem, assumido, completo, coerente: o marido machista. Essa foi minha primeira frase da nova era. Pode até ter sido um pouco rude, mas, nós, os machões, somos assim mesmo. Ela precisava entender com quem estava casada e não seria em um "papo cabeça" que isso aconteceria, afinal, essas coisas não fazem parte da vida de um marido machista. Não esperei pela resposta. Entrei rápido e percebi que ela olhava para a tal vassoura com cara de "alguém anotou a placa?" Fui direto para o sofá e gritei, já deitado:
- Cerveja! Ge-la-da!
Ela ainda estava parada na porta, imóvel, como uma estátua de gesso. Acho que a revelação foi uma grande surpresa. Uma boa surpresa, claro, porque nós, os machões, sabemos que mulher gosta de ser tratada assim mesmo. Se ela já era feliz, agora então... Pensei em dizer que o lugar onde as malditas fronhas eram guardadas deveria ser desocupado porque eu o usaria como depósito de revistas de mulher pelada, mas fiquei quieto, esperando pelo meu pedido.
Ela chegou (ela a esposa, e não a cerveja), devagar, com as muletas e sem a vassoura, sentou ao meu lado, colocou a mão na minha cabeça e disse com os olhos cheios de água:
- Eu não vou te abandonar. Fique tranquilo. 
Arrrrá! Eu estava certo. Ela realmente tinha gostado. Fiz uma cara de mocinho de propaganda de Marlboro antes de adoecer, dei um suspiro enorme que mostrava claramente o quanto eu era poderoso e fiquei ouvindo a continuação:
- Hoje em dia existem remédios que curam quase todos os distúrbios. Isso vai passar com o tempo.
Confesso que não entendi bem, mas, mesmo assim, não desmanchei a cara de mocinho. Fiquei com a expressão no rosto e ainda incluí um sorrisinho sarcástico no canto esquerdo da boca. E fui durão como devemos ser: lavei toda a louça sem tirar o sorrisinho. E mais: passei a esponja umas quatro vezes somente, e sem muito sabão. 
Quando terminei, fui até a sala e ela falou sem muita motivação:
- Marquei um médico pra você.
Sentei à beira do sofá, olhei bem dentro dos olhos dela, coloquei a mão na sua testa e disse:
- Tá! - e lentamente mudei o sorrisinho para o lado direito da boca.
 Definitivamente, a partir desse momento, ela soube com quem estava lidando.

3 comentários:

Solange disse...

Adoro isso: vida de casal. Pouca gente entende como a gente funciona. Só entendem dos próprios relacionamentos, isso quando entendem. Metade das minhas amigas são solteiras e vão continuar na busca do sr. perfeito. A outra metade é como eu, ou um pouco diferente. Sobre o post anterior meu marido as vezes me pergunta, quando trabalha no sábado o que eu fiz o dia todo, digo sempre que me sentei e assisti a roupa suja se juntar, descer 3 anadares, entrar na máquina, se lavar (elas sabem a quantidade de sabão que precisam), se estenderem, secarem, subirem 3 andares e pularem dentro das gavetas; um espetáculo lindo este. A gente se entende por aqui. E a "feliz" sabe onde está pisando.

carla disse...

lá tinha eu razão em dizer que conheço tua fiel companheira, sempre perfeita, mas tenho minhas dúvidas sobre os remédios, kkkkk

Salete Cardozo Cochinsky disse...

Parabéns!
Gostei. "Mudando um sorrisinho de um canto da boca para outro"
Risos, vou ter que ler o anterior.
Continua....