Eduardo Dusek, os gays e eu

Na época e de onde eu vim, era comum ouvir coisas como "cuide-se com os gays, os pretos e os comunistas". E o interessante nisso é que não vim de muito longe, nem na questão temporal, nem na questão geográfica: Cruz Alta, uma pequena cidade ao sul do Brasil, há 50 anos atrás. Essa lamentável lembrança veio à tona por dois fatos ocorridos dias atrás. Vamos a eles: um amigo de um amigo colocou no feicibuque algo como "tenho orgulho de meus amigos gays", frase que foi prontamente recusada no "tal compartilhar", com a simples e categórica explicação de que ele não tinha orgulho somente dos seus amigos gays, mas sim de todos os amigos. Quando soube do fato fiquei impressionado com a carga de preconceito nessa simples frase. Porque, afinal, ter orgulho dos amigos por sua opção sexual? Seria razoável que alguém dissesse "tenho orgulho dos meus amigos héteros? Ou dos meus amigos que não comem mondongo? Ou dos amigos que gostam de alface? Que tal ter orgulhos dos amigos negros? Ou comunistas?"



Claro que a intenção da lamentável publicação deve ter sido das melhores, mas, aí é que está o perigo: o preconceito mostrando as garras onde menos se espera. Algo não muito distante disso ocorre uma vez por ano e passa na televisão: a parada gay. Talvez por eu ser uma pessoa que pode contar os anos de vida usando vírgula (0,5 século) é que eu acho que esse negócio de parada gay é coisa de veado. Na minha humilde e leiga opinião, essa manifestação ajuda a acobertar de forma sinistra e segura esse sentimento torpe, - aproveitando o sentido literal dessa feia palavra ( torpe 1. Que ofende a decência, a moral e os bons costumes ; DEPRAVADO; SÓRDIDO) para fazer uma espécie de trocadilho -, além, é claro, de dar munição aos anti-sejaláoquefor. Esse tipo de coisa, e qualquer coisa, tem que ser tratada como ela realmente é: sem aumentar, sem diminuir, sem nada. Tem que ser natural e nada além disso.
O outro fato que nutriu a lembrança de anos atrás foi uma declaração fantástica do Eduardo Dusek, durante um show, em que ele resume, com a ironia que lhe é peculiar e em apenas uma frase, a forma saudável de encarar a questão: "quando estou comendo alguém, não vou perguntar qual seu sexo. Seria uma indelicadeza". Simples e eficiente como tudo que é genial. Definitivo. Eu prefiro encarar os comunistas, os pretos e os gays como comunistas, pretos e gays. Não tenho orgulho deles por terem uma opção política qualquer, uma cor qualquer ou um gosto sexual qualquer. Enfim, e voltando ao caso específico, não condeno nenhuma passeata defendendo nada ou contra tudo. Apenas alerto que o resultado pode ser traiçoeiro. Frases infelizes como a do orgulho, por exemplo, podem causar de maneira silenciosa e sorrateira danos irreparáveis. Por isso, a esses que se consideram paladinos do bem e donos das verdades absolutas sobre tudo e todos, recomendo calma, muita calma. O inimigo está onde menos se espera.
A propósito, não tenho orgulho de quem coloca frases estúpidas no feicibuque e estou planejando uma passeata contra eles.

2 comentários:

Silvares disse...

Orgulho gay é o mesmo que orgulho nazi ou qualquer outro tipo de orgulho parvo. Os gays que se orgulham de o ser estão a descriminar quem o não é, eles, que lutam contra a descriminação mas, parece, só contra um certo tipo de descriminação. A coisa fede.

Eduardo P.L disse...

Beto, gostaria do seu e-mail para explorar seus conhecimentos como escritor....
Abçs!
cimitan@terra.com.br
www.cimitan.blogspot.com