Segunda à noite

Na eterna luta "alimentação saudável" x "não gosto de nada", certa vez um tio disse a meu filho - obviamente da turma do paladar requintado - que existem três tipos de comidas: as que ele gosta; as que ele gosta muito e por fim as que são simplesmente irresistíveis. Claro que não preciso dizer que o peso dele está um pouquinho acima dos padrões das Lojas Renner, mas, para o que nos interessa aqui, isso é irrelevante. O que pretendo resgatar é a objetividade, a simplicidade. É um caso comum de raciocínio lógico: se preciso comer, então vou gostar de tudo, e, já que gosto de tudo, vou comer . Neste universo, batatas fritas e brócolis entram em escalas diferentes mas muito próximos: provavelmente o vegetal ele goste e as batatas francesas goste muito. Ou abobrinha com xuxu e bacalhau a Gomes de Sá. Abobrinha na primeira situação e o bacalhau nas comidas irresistíveis. Há lugar para todos os alimentos serem classificados , mesmo os de sabores mais exóticos aos mais requintados, todos muito próximos mas resguardando as diferenças.
Isso tudo para falar de Jorge Drexler e as músicas de seu show que também são três tipos, da mesma forma em que foram divididos os alimentos: as boas, as muito boas e as simplesmente fantásticas. A diferença é que "não temos" que ouvir, fazemos isso por opção, o que torna tudo ainda melhor. Mesmo com algumas canções extremamente diferentes, havia lugar para todas. A calma de algumas melodias, a tranquilidade da voz e dos bem cuidados acordes no violão são um exagero que, por vezes, davam lugar a algo que parecia até uma batida flamenca, que lembra remotamente a batida forte de Granada, mas em seguida uma nova melodia acariciaria novamente nossa audição.
É incrível, mas o silêncio produz um dos mais marcantes momentos. Em Guitarra Y Vos o brake é maravilhoso. A melodia, depois dele, é captada por meus ouvidos através de ondas e expelida (tudo bem que eu choro até em propaganda de creme dental) pelos olhos através de lágrimas. A qualidade musical e o arranjo são indiscutíveis e emocionantes.
Em certo momento, é convidado a partilhar o palco, o irmão de Kleiton e Kledir: Vitor Ramil. O cara entra no clima de simpatia do uruguaio e torna tudo ainda mais relaxante. Nesta hora, parecia que havia tomado um Lexotan. Para não faltar com a verdade, admito que não gosto do que Vitor escreve. Considero, por vezes, quase infantil e chato. Mas, mão à palmatória, o sujeito entra como uma luva no espetáculo. Canta, toca e conversa bem. Os dois interpretam músicas como Eco de maneira irretocável. A partir de ontem, Kleiton e Kledir passam a ser os irmãos de Vitor.
Resumindo: Drexler não merecia somente ganhar um oscar, deveria ter ganhado também o direito de interpretar sua música. Não é somente o som que ele produz que é de qualidade.

Um comentário:

angela disse...

Não pude resistir a tentaçao de fazer um comentário ao comentário, pois realmente o Jorge Drexler arrasou!!! Ele é um show durante todo o show. E para mim o momento culminante foi "ECO". Simplesmente fantástico!!!!
Angela