Uma bela viola enluarada e o Mestre Yoda


Tem uma música - extremamente bela - chamada Viola Enluarada que me remete direto aos pensamentos. A composição é do Marcos Vale, acredito que a letra de Almir Sater, e diz assim logo no começo:

"A mão que toca um violão
Se for preciso faz a guerra
Mata o mundo, fere a terra
A voz que canta uma canção
Se for preciso canta um hino
Louva a morte"

Acho estes versos de uma profundidade fantástica e dolorosamente verdadeiros. Somos capazes - os mesmos que produzem maravilhas como essa letra, os mesmos que criam as imagens no teto da capela sistina, os mesmos que produzem poesias de uma sensibilidade 
que toca, que faz chorar - das maiores atrocidades possíveis. Destruímos mais rápido que construímos. Matamos por dinheiro, política, religião, ciúmes ou por simples prazer. O mesmo sujeito que assalta uma mulher grávida furando sua barriga com um tiro, é capaz de comprar com o próprio 
roubo um brinquedo para alguma criança que o espera. Certa vez concluí que não somos um só povo, uma só "humanidade" sobre a terra, e que existem duas populações: os do bem e os outros, mas estava errado: somos um só com dupla-
personalidade, talvez. Conseguimos ser as duas coisas ao mesmo tempo. Criamos o Star War e o Mestre Yoda, reproduzimos o jedai em origami e deixamos morrer de fome as crianças sudanesas. Recordando o filme do Batman e aproveitando um personagem: o Duas Caras somos nós.
O final da música é assim:

"Quem tem de noite a companheira
Sabe que a paz é passageira
Pra defendê-la se levanta
E grita: Eu vou!
Porta bandeira, capoeira
Desfilando vão cantando liberdade, liberdade!"

Liberdade aos Duas Caras, habitantes do planeta Terra. Liberdade para roubar, matar, estuprar, humilhar, desonrar. Liberdade para cantar, pintar, poetizar, tocar, representar, criar. Não tem algo errado nisso tudo? Somos mesmo uma só raça de Duas Caras? Tomara que algum Mestre Yoda nos salve e ninguém, além de nós mesmos, nos destrua.


2 comentários:

Robson disse...

Uau! muito bom Beto! o duas caras é um risco recorrente nessa tal sociedade não acha?!

Agora...traduza me "deixa curioso?"
Abraço

Beto Canales disse...

Acho, e isso preocupa.
Abração