O Leitor


Simplicidade. Isso é bom? Há anos escuto que sim. Muito bom, até.

No julgamento de uma participante da SS que escolhia e enviava 10 judias à morte cada mês, quando perguntada a razão para que tenha feito aquilo, explicou que não tinha lugar para todas as prisioneiras. Elas estavam sempre chegando e precisavam liberar espaço. Simples, muito simples. Problema criado, problema resolvido.
A explicação para o que aconteceu em uma igreja bombardeada que ficou em chamas, causando cerca de trezentas mortes por que a porta estava fechada por fora e não foi aberta, foi ainda mais óbvia. Eram soldados e a obrigação era não deixar os prisioneiros fugirem. Se abrissem a porta, evidentemente, sairiam em debandada. Função cumprida. Bons soldados, portanto. Simples, não? Mais um detalhe. Um professor de direito diz aos alunos "não existe errado, existe o que a lei condena".

O que é errado? Para quem é errado? Por que é errado?

Deixando moralismos e conformismos de lado, aqui mesmo, perto dos canibais brasileiros, na nossa (?) imensa amazônia, têm tribos indígenas que matam as crianças que nascem com defeito ou se o primeiro filho for menina. Isso é certo? Claro que saltaremos, eu, você, qualquer um que viva em um lugar que tenha uma televisão, com dedo em riste e diremos aos gritos que é errado, que é um absurdo, que é coisa de assassino. Errado para nós, portanto. Os indígenas que fazem isso, fazem por que faz parte de suas leis, seus costumes. Viram seus pais fazerem, que viram os seus e assim por diante. Alguma criança que por um infortúnio tenha escapado da morte, é tratada vida como um animal irracional, recebendo menos regalias que um macaquinho saltitante e sobrevivendo alguns dias de migalhas à margem de toda a sociedade. Certamente morrem de fome ainda crianças, sob a vista de todos. Relatam alguns poucos casos desses e são suficientes para que nenhum pai queira isso. Quem não sacrifica os defeituosos além de mau pai é um criminoso, sujeito a punição. Portanto, certo para eles. O mesmo fato que pode ser monstruoso para alguns é dever para outros. Fazer é crime aqui, não fazer é crime ali.

Detalhe. Nossa magnífica Funai, que existe para proteger os indígenas, sabe disso, obviamente, e nada faz. Afinal, proteger a "cultura" e os costumes das tribos faz parte de suas obrigações. Simples. Nossas autoridades, nossos tribunais, nosso governo, todos sabem e, gostem ou não, também nada fazem, pois tal preservação é um "direito" garantido em lei. Enfim, eu sei, nós sabemos, e as meninas índias continuam sendo assassinadas.

Falei de um caso real e de um fictício (Do filme O Leitor. Kate deixou de ser atriz e tornou-se uma rude alemã, em um filme que entra definitivamente para a história do cinema e na minha lista dos Dez Melhores com honrarias) para explicar a mim mesmo a razão de meu destemperado choro. Outro hora falo do filme, por enquanto, pretendo apenas desinchar os olhos.

Quer saber? Não vou conseguir. Sou cúmplice de muitas coisas ruins. Todo pranto ainda é pouco.

Simples assim.

6 comentários:

Felipe Lima disse...

Ah, se fosse só você Beto... a gente resolveria atirando pedras até seu corpo desfalecer (porque a gente adora atirar pedras, nosso esporte predileto).
Até breve.

Cara de 30 disse...

Deu vontade de sair correndo para a primeira sala que estiver exibindo o filme para assiti-lo. Como isso, neste momento, não me é possível, ficarei imaginando o que te chocou e te fez chorar tanto.

Prometo que vou assisti-lo e volto para dar minha opinião. :|

Ricardo Valente disse...

Coisa boa quando um filme toca a gente. Volve tripas. Abraço! (louco para ver o que vem por aí...)

Denise disse...

Emoção no cinema é sempre uma experiência e tanto. Mas, Beto, a vida anda tão complicada.... Tem algum filme que nos faça sorrir?

Biba disse...

Beto, estou aberta ao que você sentiu. Prometi não ter mais vergonha de chorar no cinema ou na sala de casa. Quero muito assistir O Leitor e entender o que se passou com você.
beijo e carinho
Carpe Diem!!

Éverton Vidal disse...

Só posso dizer que depois de seu texto quero/preciso ver o filme.

De fato, é um assunto complicado, e a gente vai e fala o que entendemos como certo e errado, mas, no fundo sabendo que ninguém pode saber exatamente o que é. É difícil julgar uma "cultura" com outra "cultura". Mas eu tenho um canon, o meu canon, o meu instrumento de medição. O amor. Mas o que é amar né...