Que atirem a primeira pedra

Eu acredito para que um filme seja considerado bom, ele tem que cumprir uma série de quesitos. Chamo a atenção por considerar-me um aprendiz de crítico e nada mais. Mesmo assim, em frente.

Um filme basicamente é composto por fotografia, direção, trilha sonora, enredo, interpretação, ritmo e eu incluiria ainda diálogos, separando da interpretação, porque creio ser fundamental. Em uma análise fria, quase matemática, um filme excepcional teria que ser satisfatório em no mínimo seis dos setes itens acima. Um bom, sei lá, cinco. Quatro com muita condescendência. Menos que isso, desconsidero. Ou melhor, classifico como ruins. Claro que isso funciona quase sempre para um lado e nem sempre para o outro. Por exemplo, é praticamente impossível um filme não atender na maioria dos quesitos e na análise final, no somatório geral, tornar-se sequer razoável. Mas o inverso é até comum. Por vezes a maioria é plenamente satisfatória se analisadas separadamente. Juntas, não conseguem construir uma obra de qualidade.

Entre os muros da escola, apesar da badalação da crítica e de alguns prêmios, não é um bom filme. Juntar adolescentes de várias etnias, não atores, em uma sala com um professor despreparado, em uma escola pública de Paris, não é o suficiente para que se tenha algo bom. Com uma mensagem clara de xenofobia, o enredo chega a irritar. Em uma das passagens, todos os professores do colégio mobilizam-se para defender a mãe de um aluno chinês que vai ser deportada. Em outra, caso um mau aluno seja expulso do colégio, ele provavelmente será mandado para o país de origem na África. Até aí tudo bem, exceto pela dimensão que dão aos casos, como se os dois fossem ao encontro da morte, em direção ao inferno de Dante se realmente sairem da França. Não para por aí e fazem referências a um pequeno país ao sul da Alemanha , Áustria, que não teria importância alguma caso fosse varrido do mapa. Uma observação infeliz e completamente desnecessária, embora um aluno lembre de austríacos ilustres e essenciais para a arte mundial.

E ainda o mais grave. Lição de moral. Saí do cinema com alegorias goela abaixo e a impressão de que quiseram me ensinar. Isso é grave e é usado pelas mentes mais perversas. Já disse e repito: arte não deve ser usada como instrumento de coação ou ilação moral. Arte não deve ter função alguma. Arte é arte.

Dos sete itens descritos anteriormente, o filme não é satisfatório nem em dois, além dos agravantes acima. Claro que o tema é interessante e amplo, explosivo até, mas, isso também é insuficiente para termos algo bom.

Sabem a razão dele ter ganho os prêmios e todo esse blá-blá-blá a respeito? É chique no meio intelectual defender obras que tenham cunho moralista, ou uma lição no sub-texto, que "ensinem" ou pensam "ensinar". Esses são os mesmos "intelectualóides" que junto com os novos ricos em seus gabinetes bonitos e dinheiros por lavar, fizeram da arte contemporânea o que ela é: Um horror, em vários aspectos.

Atirem as pedras, mas continuo dizendo: Entre os muros da escola é um filme ruim. Muito ruim.


7 comentários:

Felipe Lima disse...

Não vi. Mas li bastante a respeito e não fiquei animado. Tenho aversão a essas xaropadas que fazem da lição moral o mote principal do projeto. Eu gosto das sutilezas.

Lembro de filmes que provocaram verdadeiras revoluções na minha vida apenas contando boas histórias. Assisti um dia desses que me deixou atônito. Esses são os que valem a pena.

Abraço.

Luiz Calcagno disse...

Eu estava interessado. Você acha que vale a pena tirar as próprias conclusões?

Abraços da Casa das mentiras.

Letícia disse...

Ok. Eu aceito, mas posso assistir? =)

Eu sempre pensei que, para um filme ser bom, ele só precisaria ser bom. Mas você vem com as suas críticas e vejo que não sei porcaria nenhuma de cinema. :S

Mas vou lendo você e aprendendo. E outra coisa: Não gosto de filmes com enredo moralista. Prefiro assistir seriados na TV.

E todo mundo falou daquele filme O Leitor. Eu vi. E me senti estranha porque não gostei. Chato, repetitivo e a mulher se mata na cadeia. Tudo bem que ela aprendeu a ler. Mas e daí? É a velha história de castigar os nazistas.

Bjo.

Afobório. disse...

olá.


acho que os quesitos que listou são bem interessantes.
ah, e mais uma vez, quero te dizer que você fala muito bem de cinema.

mas sempre cabe uma conferida não é mesmo, até para que se possa fomentar o assunto e o conhecimento em cinema.

acho que conhecer é importante sempre.

sorte e luz.

Beto Canales disse...

Felipe, Luiz, Letícia e Afobório.

Quem gosta de cinema vê de tudo. Até para classificar um filme de bom, tens que ter na 'bagagem' como são os ruins, ou o contrário, tanto faz. O que quero afirmar é simples: cinema nunca é demais. Até para obras que deixam a desejar.
Ao cinema,pois,e depois recolheremos as pedras. Hehehe

Silvares disse...

Nem de propósito, vi esse filme ontem, em casa, com a minha mulher e filha (tem 15 anos) em DVD. Discordo do que dizes. Mas, como sou professor, é possível que me tenha deixado levar demasiado para dentro do filme, não sei. Compreendo atão bem a maior parte das coisas que ali se passam (até o sistema de educação dos franciús é semelhante ao sistema portuga) que nem dei pelo tempo passar. A representação dos miúdos é muito boa. A ideia do filme também me pareceu bastante válida. Concordo contigo, o chauvinismo francês dá vómitos, mas mesmo isso me pareceu tão realista que me fez sorrir. Enfim, não quero alongar-me (um dia destes vou falar do filme no 100 cabeças e vou linkar este teu comentário, se não te importares) mas, não sendo um filme excelente nem fora de série, parece-me que "inventou" um lugar para si próprio.
Abraço.

Beto Canales disse...

Silvares, aguardemos teu post. To curioso.
Abração