Polêmicas


Achei muito interessante um comentário da postagem anterior, onde o excelente poeta, Ricardo Valente, termina dizendo "polêmico Beto". Na verdade, gostei. Na mesma hora que li vieram recordações de bons tempos, onde a política, pelo menos por esses lados aqui embaixo do país, era coisa séria e discutida diariamente. Mas não só ela, em nosso meio. Tudo era incansavelmente debatido: religião, futebol, se o mais importante era bunda ou peito grande, aborto no Chile, a barba do Fidel, etc. Isso para não lembrar de temas mais picantes e inusitados, que geravam homéricos e acalorados debates.
Era uma rotina imutável, sempre de segunda a sexta. Saíamos do trabalho e 'religiosamente', todos ao bar. Tenho uma teoria de que em um boteco qualquer nascem (e morrem também) verdadeiras joias do pensamento humano. Lá surgem de maneira expontânea, ensinamentos que deveriam estar nos currículos escolares e, se não estão,  é porque, infelizmente, não foram escritos. Os registros, por óbvios motivos etílicos, perdem-se na ressaca do dia seguinte. Talvez se os bares oferecessem serviços de "escreventes", pessoas que ficassem ao lado de cada mesa registrando tudo, a humanidade fosse mais sábia, mas quando penso no efeito que isso teria no preço da cerveja, prefiro que a humanidade se ... Bem, isso já é conversa de bar, então, voltando, saíamos do trabalho e íamos sempre, claro, no mesmo bar, uma verdadeira espelunca, onde todos sentavam na mesma mesa e mesma cadeira. O dono, não havia garçom, nos esperava no mesmo horário todo dia. Sem que pedíssemos, nossas bebidas eram providenciadas respeitando as manias de cada um. Eu tinha poucas. Além do copo ter que ser dos pequenos, canelado e com um guardanapo embaixo, não devia ter sido lavado com detergente. Era atendido, apesar de, vez em quando, o copo parecer meio "turvo". Pois entre os companheiros, havia um polêmico, daqueles que serviriam de exemplo para a definição exata da palavra. Desde as manias, as dele mudavam constantemente, passando pela roupa de alguém, até as contas fantásticas do PC Farias, tudo, enfim, era razão suficiente para uma boa discussão. Estou sendo modesto. Eram razões para faraônicas polêmicas. Se, por exemplo, meu copo pequeno e canelado viesse, por um lamentável engano, lavado com detergente, pronto: ali estava o motivo. E o interessante que ele não era chato. Ao contrário, tinha um embasamento tão culto e com tanta propriedade, que era escutado e, claro, contestado. Falaria da desconsideração em atender um antigo e fiel cliente com uma falha terrível dessas, como desfilaria argumentos admiráveis a favor da escola literária russa. Todos convincentes.
Várias vezes os gritos e insultos, vistos por alguém de fora, se bem que quase sempre estávamos somente nós no bar - e agora imagino o porquê - pareciam o início de uma eminente briga a socos e pontapés. Mas, encerrado o assunto, todos amigos como sempre. Inclusive afetuosos.
Isso é uma coisa importante: nunca levar para o lado pessoal. É a base de uma boa discussão, que é a base de uma boa polêmica que pode ser a base de algo bem interessante. Opiniões contrárias levadas a fundo, podem resultar em ensinamentos magníficos. 
Conclusão: gosto de polêmicas e acredito que elas tragam benefícios, desde que embasada em argumentos saudáveis e inteligentes.
Mas o simples fato de eu gostar, não é motivo suficiente para provocar ninguém.
Por sinal, tem aparecido textos bem ruizinhos na blogosfera que, apesar dos excelentes - ainda bem que eles também estejam lá - incomodam pela quantidade excessiva.
Áh, também sou contra a pena de morte e o aborto, exceto em casos especiais, além de abominar qualquer religião e acreditar que o capitalismo esteja no início da degradação definitiva. Torço pelo melhor time do mundo, o Internacional, creio que Skol não seja cerveja, e sim água suja (argh) e afirmo que os textos do Paulo Coelho são horrorosos.
Já ia esquecendo: peito grande, com folga.

5 comentários:

Ricardo Valente disse...

Beto, obrigado pela referência e elogio. Sou da mesma época tua. No meu caso, a turma de bar era da faculdade. Detalhaste bem esses pormenores. Polêmica agora: melhor time do Brasil: GRÊMIO, mas tá desculpado. Somos peitos, com folga. Abração!

Letícia disse...

Não sou do tempo dos peitos e com folga. Isso é polêmico? ¬¬

Mas eu lembro desse tempo de ir aos botequins da vida e falar um monte de coisa com um monte de amigo e eu tinha tantas ideias. Por que não gravei? Estou péssima só de lembrar. As conversas eram tão produtivas e havia polêmica, mas era tudo amigável. Até as brigas. Estou saudosa e fiquei assim por causa desse texto. Hoje em dia as polêmicas geram mais violência e, quando não, surge sempre alguém de nariz em pé achando que sabe de tudo. O mundo mudou e eu quero a minha mãe. =)

E poder é bom e, concordo. Ele leva à mentira.

Beto Canales disse...

Sim, qual o "melhor": peitos ou bunda grande.

Denise Ravizzoni disse...

ahahaha..... Juro que não vou comentar isso. E o prezado escritor sabe o motivo.

Felipe Lima disse...

Por que isso não se faz presente ainda? Me chateia os bons momentos de amizade ficarem sempre no passado.