Teatro de Bonecos de Canela

Dia desses estava em um aniversário de criança. Cerveja, uísque, petiscos, cachorrinhos-quente (uma das melhores coisas da vida) e amigos bem amigos, tudo que deve ter neste tipo de confraternização. Conversas voando conforme a graduação alcoólica sugeria e os assuntos ficando cada vez melhores e, para ser franco, picantes. Cochichávamos tentanto arrancar uma confissão das mais "cabeludas". Quando enfim ela viria, com todos se ajeitando curiosos nas cadeiras para ouvir, e o "depoente" fez o tradicional arrrrããã antes de começar a dizer "pois quando entrei ela estava ..." BUMMMMM.
Isso mesmo. Bummmmm com cinco emes. Bomba de balão. Em seguida uma tropa corria desesperada, numa fuga verdadeiramente alucinante, abandonando a guerra e qualquer chance de vitória, bateu na mesa derrubando nossas bebidas. Virei rapidamente para ver o motivo da debandada: meninas, com seus estojos de maquiagem e estrelinhas brilhantes de colar na pele, perseguiam os bravos guerreiros sem dó. A ordem deveria ser não deixar testemunhas, pelo caos geral. Então, alguém dos nossos levantou e gritou quase aos prantos:
- Quem são essas crianças? O que estão fazendo aqui? Quem as trouxe?
Então impiedosamente outra menina, uns trinta anos a mais das que corriam, falou com a frieza característica dos maus:
- São os filhos de nossos amigos trazidos por eles e estão comemorando o aniversário do teu oróprio filho.
- Ah, claro, claro...
Nosso mundo caiu. O chão deixou de existir. Quando ele entrou ela estava o que? Preciso desta informação para viver. É mais forte que eu.

Pois aconteceu há poucos dias em Canela, uma cidadezinha pequena, linda e cativante a apenas seis quilômetros de Gramado, o 21º Festival Internacional de Teatro de Bonecos, um verdadeiro espetáculo. Com grupos da Finlândia, Espanha, Argentina (a propósito, o Pelé sempre foi melhor que o Maradona - sempre convém citar) e Itália, além dos nacionais, vindos de Minas, São Paulo, Rio, Paraná, Santa Cataria e, claro, Rio Grande do Sul, dividiram-se em dois tipos: os apresentados em teatros, com o preço do ingresso a vinte reais e, inexplicavelmente o infantil com o mesmo valor, e os apresentados na praça, gratuitamente.
Eu consegui ver apenas oito peças. E o "apenas" não é ironia. Minha vontade era assistir a todas. Vou destacar duas de cada estilo: de Belo Horizonte, o grupo Giramundo com Pedro e o Lobo é simplesmente fantástica. Dois rapazes e uma menina manipulam os bonecos (marionetes) com perfeição e interagem com eles provocando cincoenta minutos de risos. Tem um argumento simples e eficiente além de uma interpretação para lá de profissional. Outra impossível de não destacar é do grupo finlandês WHS, Katoamispiste, que mistura de forma harmônica alta tecnologia, malabarismo, dança e arte. É um show simplesmente imperdível, com cenas inteligentes e inusitadas.
Na rua, onde via-se teatro exclusivamente de bonecos, a cada hora uma atração. Dois palcos frente a frente com dezenas de cadeiras no meio. Terminava uma peça, bastava virar a cadeira para ver outra. Uma ideia genial de tão simples e eficiente. Poderia destacar vários shows, mas ressalto dois: Cia de Bonecos da Gente, de Alvorada - RS, com o espetáculo Afrodescendentes, que nada mais é do que a performance de três "cantores", entre eles um Tim Maia que xinga e reclama do retorno, interpretando canções conhecidas. Outro destaque foi o grupo portoalegrense Giba Gibão Jibóia, com As Aventuras de Pantaleão, o Mágico Trapalhão. O enredo da peça entusiasmou o público, inclusive e principalmente o adulto, com tiradas como "essa floresta é que nem cheque especial, depois de entrar nunca mais se consegue sair" ou ainda quando o diabo, logo após um efeito sonoro muito adequado, apareceu e disse"quem me chamou? Eu estava lá em casa tranquilo, assistindo a TV Senado, adoro a TV Senado..." ou ainda alguma piada feita conforme os acontecimentos do dia. Gargalhadas garantidas inclusive no improviso enquanto esperavam a volta do som, onde um boneco pergunta ao outro:
- Que vamos fazer agora enquanto aguardamos?
- Vamos dançar salsa.
E dançam, deixando natural algo que nunca esteve no roteiro. O retorno do público foi impressionante.
Mas nem tudo é perfeito. Aquela alegria toda - a cidade toda fica feliz -, as peças lindas, os bonecos maravilhosos e, elas, sempre elas, as crianças, rindo sem parar, interagindo com os personagens, participando das histórias, lindas e felizes vivenciando aquele banho de cultura, de arte e, por vezes, atrapalhando um adulto compenetrado, que tentava com afinco entender um diálogo qualquer em outro idioma. Áh...
Tudo bem, admito, a maioria das atrações foram para o público infantil, mas, quer saber:
- Quem são essas crianças? O que estão fazendo aqui? Quem trouxe?
Não respondam, por favor. Não respondam.
A propósito, o que ela fez? Com quem? Como? Até hoje eu não sei. Não vou sobreviver assim. Estou vendo uma luz...





6 comentários:

glória disse...

Beto, você nos leva para cá e para lá, deixa o leitor tão perplexo quanto você. Eu também quero saber!

Quem são essas crianças? O que estão fazendo aqui? Quem trouxe?

abraço

Ricardo Valente disse...

Boa junção... Parabéns!

Cícero disse...

Valeu Beto!!!! Teatro de bonecos, quem entran nunca mais consegue sair!

Beto Canales disse...

Como o cheque especial? heh

Letícia disse...

Gostei do "amigos bem amigos". Você vê o mundo, Beto. E isso é muito bom.

Bjos.

Éverton Vidal disse...

Teatro de bonecos... Nunca vi além da tv. Fiquei interessado.