Meu nome não é Johnny

De um traficante para outro:
- Meu objetivo é chegar a U$ 1.000.000,00. E o seu?
- O meu é gastar isso...
Este diálogo desperta várias linhas de pensamento. Pode embasar teorias pró e contra o capital, discussões sobre prazeres ou deveres, teses sobre crimes e contravenções além de diversas outras coisas. Porém, da forma como vi, em Meu Nome Não é Johnny, ela representa uma só coisa: o prazer. A busca incansável do prazer, com drogas, poder, fetiches, riqueza ou seja lá como for. Quanto vale sentirmos prazer? Quanto devemos pagar por ele? Devemos?
Voltando ao Johnny, o filme parece estar dividido em duas partes completamente diferentes. Melhor seria afirmar que parecem dois filmes. O primeiro, quase um videoclipe gigante, passa rápido sem deixar rastro. O ritmo é intenso e chega a ser desproporcional ao enredo. Acredito que o diretor, Mauro Lima, tenha exagerado um pouco em alguns recursos, deixando a obra com cara de fútil e mirando desesperadamente o público jovem. Talvez, mas acredito que não, essa manobra tenha sido intencional, já que a existência de João Guilherme Estrela, o traficante protagonista, não era nada além de fútil, pelo menos se comparada aos padrões ditos normais em nossa sociedade. Muita droga, muita festa, muita bebida e nenhuma responsabilidade, estudo ou trabalho. Assim era a vida do carismático e boa praça traficante vivido por Selton Mello, que leva o espectador a criar um vínculo muito forte com o personagem. Abro uma observação especial, até porque critiquei este mesmo ator em seu último trabalho, A Mulher Invisível. Tirando a primeira e segunda frases que ele diz, que deveriam ter sido cortadas na edição, a participação de Selton é fantástica. Ele encarnou o usuário de drogas e transformou-se em um. Sua atuação entra, a meu ver, para o rol das melhores interpretações do cinema nacional. Cléo Pires também está em um trabalho inspirado. Os diálogos, alguns até engraçados, principalmente quando entra em cena uma dupla de policiais corruptos, também chamam atenção pelo lado positivo. Na verdade, o roteiro é muito bom. A trilha sonora, apesar de correta para o tipo de história e situações, não é boa. Creio que acertaram no tipo, mas não na escolha das músicas.
E este pode ser um divisor para o que chamei de segundo filme, que começa quando João é preso: a trilha. Nesta segunda parte, ela é muito boa em todos os aspectos. Bem sincronizada com as cenas, complementa com naturalidade a dureza da vida na cadeia. O filme torna-se ótimo, deixando de lado aquele ritmo maluco e entrando num embalo quase intimista, com uma fotografia escura e sombria, fazendo justiça ao ambiente presidiário. Selton acompanha a transformação da trilha e da fotografia e baixa a bola. Torna-se um prisioneiro, porém numa visão muito romântica da abstinência. Cássia Kiss, numa pequena porém importantíssima participação, trabalha de maneira esplendorosa. Apesar de não gostar muito dela, admito que fiquei surpreso com a interpretação requintada da atriz. São algumas tomadas que valem a pena.
Enfim, sem correr o risco de contar a história, até porque ela foi baseada em fatos reais, recomendo uma visita a locadora. Meu Nome Não é Johnny merece ser visto com calma, bem sentado na melhor poltrona, a meia-luz e com pipoca feita em casa, mesmo que ela nunca fique igual as vendidas nos cinemas, que são caríssimas.
Por sinal, isso me lembra do prazer: quanto vale? Os vários reais que pagamos pelo saco grande de pipocas amanteigadas valem a pena? Qual o preço justo do prazer? Existe essa cifra?Até que ponto podemos ou devemos passar dos limites para termos mais e mais prazer? Sempre tive dúvidas quanto a isso e, vendo o filme, essas dúvidas aumentaram substancialmente.
Por isso o filme é bom. Por isso gosto de cinema.

3 comentários:

Leandro Fonseca disse...

eu, pessoalmente, detestei esse filme (o vi no cinema). Por X motivos ele não me atraiu. Mas enfim. Eu levo pipoca de casa escondido na mochila em um pote de plástico.

Ricardo Valente disse...

Estive há tempo com dois corações. Optei por não ver por enquanto (inclusive na SKY). Agora vou ver, pois to numa fase caseiro, com medo do H1N1 e li teu post.
A Cássia Kiss é excelente atriz, embora não tenha fenótipo de estrela.
A Cléo Pires fiquei curioso. O Selton Melo não sou fã.
Só quem não tem grana pode se queixar do prazer que ela traz.
É isso, Beto.

Cara de 30 disse...

Assiti e gostei do filme. A história parece mais uma trama de ficção, né?! Mas o tratamento que foi dado ao roteiro ficou bacana. Pelo menos eu acho.

E sobre a pipoca... Boa mesmo era aquela feita na panela, em casa, girando aquela manivelinha safada grudada na tampa. Quem já fez pipoca assim, sabe do que estou falando, né?!

Abraço e vamos marcar um lanche lá pela Bienal, ok?