Mulheres, mulheres...

Esta semana eu estava sentado em uma lanchonete, com banquinhos altos e enfileirados, azulejos quadriculados na parede e cheiro de gordura. O que havia de mais magro para comer ali era pastel, destes que ensopam o guardanapo cinza que o envolve e passam para as pontas dos dedos. Perfeitos, portanto. Pois estava devorando um desses enquanto olhava o balcão e suas opções ainda mais engordantes, como sanduíche quente de bacon e maionese caseira, quando entrou uma mulher - minto - quando entrou aquilo - melhor ainda - quando entrou tudo aquilo, fazendo até alguns ovos, que estavam em um enorme vidro de conserva, mexerem-se sozinhos. Tudo no lugar entrou em movimento. Foi um verdadeiro frenesi. Eu imediatamente lembrei das aulas de biologia e tentei classificar aquele ser vivo. Não consegui. Imaginei que a coisa não fosse nem uma questão de anatomia/biologia e sim de divindade. Seria mais apropriado. Certamente "aquilo" estava mais perto de ser uma deusa do que - a maior semelhança que encontrei em nosso meio foi essa - uma mulher. Justo quando olhei suas pernas compridas e lindas e definitivamente concluí que não era alguém do sexo feminino, ela própria enterrou, pisou em cima, deu uma cuspida em meu argumento, com uma simples frase:
- Oiiiii. Vê pra mim um sanduíche de pão preto, peito de peru magro e ricota, por favor!
Pronto. Classificada. Era uma "menina".
Sei disso porque certa vez eu estava no interior, em uma cidadezinha bem pequena, próxima a capital, numa vila bem retirada, perto da zona do meretrício, que nada mais é - explico para os mais novos - que o puteiro. Pois íamos de carro e quando o cansaço chegou, resolvemos parar. Distraído, nem percebi que o lugar não era nada amistoso. Minha intenção era tomar uma Coca Light com gelo e limão e comprar um chiclé de morango. Quando entrei no bar, sim, era realmente um bar, olhei para o bodegueiro e fiz o pedido:
- Um martelo duplo, da branca, e uma coxa de galinha frita.
Ele ainda assim me olhou meio desconfiado. Coxa de galinha aquela hora? "Estranho esse cara..." deve ter pensado, mas virou-se e serviu a canha de uma garrafa pet meio amarelada. Pegou a galinha com a mão e me alcançou. Fiz uma cara de nojo e quando ele ia falar, eu disse:
- Magra? Não tem uma com mais gordura?
O bom homem sorriu atrás de seu bigode espesso, eu acho, porque não dava pra ver sua boca, e concluiu que eu era um deles. Todos respiraram no bar, aqueles segundos de expectativa sumiram e as conversas sobre mortes, futebol e mulheres de vida difícil continuaram até que, sem rodeios, minha amiga disse com uma voz fina e meiga:
- Pra mim uma agádois-ó, framboesa, geladérrima, tá?
Acredito que tenha uma coisa implícita entre homens valentões e a humanidade em geral, no que se refere a tolerância. O bigodudo, provavelmente sem o sorriso, virou-se como um gigante para encará-la e, justo quando ia grunir alguma coisa, ouviu novamente:
- Com canudinho!
Não foi o meu mundo que caiu. Foi o chão que desabou. Pensei que ainda era novo pra morrer, ainda mais linchado, mas, claro, conheço as regras que regem a humanidade e fechei os olhos para a primeira pedra. Seria inevitável. Tudo estava em silêncio e ficou assim por intermináveis quinze segundos, até que foi rompido por uma enorme gargalhada contagiante. Todos acompanharam o homem de bigode que, desta vez deu para ver, até dente tinha. E vários, uns quatro ou cinco.
Realmente há um tratado não declarado de tolerância e compreensão. Ele virou-se para a pia, pegou um daqueles pequenos copos canelados, olhou através dele contra a luz, esfregou um trapo encardido antes de enchê-lo com água da torneira e ofereceu para a moça:
- Por conta da casa - disse, e imediatamente encarou-me com um jeito compreensivo. Com um olhar resignado, carinhoso, até. Tomei uns quatro martelos duplos e saí grandão de lá. Fiquei de - e vou - voltar. São meus amigos desde então. Todos eles.
Canudinho! Como não gostar de pessoas que fazem isso? Como?
Na cidade grande a coisa foi diferente. Um dos atendentes da lanchonete saiu as pressas e minutos depois estava pronto o sanduíche de peito de perú, com um pedaço bem pequenino de toucinho. Acho que para não descaracterizar o ambiente, afinal, tudo tem limite.
A Deusa nem reclamou. E ainda fez hummmmm...
Coisas divinas, naturalmente.
Como não gostar? Respondam, como?



3 comentários:

Braiam Almeo disse...

hahahahahahuahauhuahauh
Tbm amo as mulheres...

che disse...

não sei o porquê de algumas palavras me lembrarem coisas que eu 'ouvi falar' obviamente, pois ver eu nunca vi... hehe...

Fabrício Romano disse...

Acho que você também olha a moça sorver pelo canudinho e imagina um monte de coisas que ela deve fazer, né?