Questões transcedentais e os lambaris da minha infância



Dia desses ouvi que alguns peixes possuem memória e ela dura oito segundos. Magnífico. Seria como escrever uma frase sobre... Sobre o que mesmo? Áh, lembrei. Seria como escrever uma frase sobre... Áh, claro! Seria como escrever uma frase sobre... Pode parecer estranho, mas seria mais ou menos assim.
Depois desse relevante e científico fato, vários pontos de interrogação da minha infância estão esclarecidos. Por exemplo, os lambaris que eu pescava e, num ato de extrema benevolência, digno de um verdadeiro deus, colocava novamente na água para logo em seguida voltarem em meu anzol. Mistério desfeito. Minha teoria que os peixes eram suicidas foi por água abaixo, literalmente. Eles não tinham o instinto de tirar a própria vida, eram esquecidos mesmo. Por isso morriam pela boca. Sempre os achei alegres, faceiros demais, como se diz por aqui, para serem suicidas. Sinto-me reconfortado. Não se tratava de nenhum desvio psicológico mais agudo, era simplesmente falta de capacidade. E mesmo que frito, com farinha de mandioca, torradinho, pouca diferença faria.
Mas a questão não é essa. Minha infância está lá longe, onde não posso voltar e, na verdade, ela não existe mais. Somente as lembranças, as histórias que vivi, ou deixei de lado, é que estão aqui, décadas depois. Portanto, o passado é mais ou menos como o futuro: só existe nas palavras e na imaginação. 
Afirmei outro dia que somente nossa vida pregressa permite a mentira. O passado nos fornece a prerrogativa de faltar com a verdade. Fabuloso. Algo para ser mentira tem que ter acontecido de forma distinta a relatada. Ou seja, o fato já deve ter existido. E, se ele pertence ao passado, é óbvio que não existe mais. Portanto, mentira é duas vezes mentira. Isso é assustador. Sobre o futuro, não há como mentirmos, afinal, se ele ainda não aconteceu, permite que o fato supostamente mentiroso aconteça. Portanto, quanto ao futuro nos enganamos e não mentimos.
Fui claro? Não, não fui. E não há como ser. De outra forma: uma vez joguei uma partida de futebol e meu time ganhou de dez a zero. Fiz todos os gols. Primeiro fato: esse jogaço de bola não existe mais. Nada referente a ele existe, inclusive os gols de letra que marquei. Segundo: talvez eu tenha me enganado quanto a autoria das finalizações. Sendo mais exato, talvez o engano tenha sido quanto ao número que possivelmente tenha sido zero no lugar do dez. Ou seja, naquela partida que existiu (portanto não existe mais) eu criei situações que também não existiram. Duplicidade de inexistências, portanto, requisito para mentiras. Simples como o teorema da incompletude de Gödel.
Tenho um certo fascínio por esse tema. Seria, portanto, a mentira o avesso da verdade? O vazio do vazio? O vácuo de qualquer existência? Ou simplesmente a nossa memória? Interessante: mentiras são aquilo que lembramos, afinal, tenham ou não acontecido tais recordações, elas não existem mais.
Quer saber? Eu queria mesmo é a memória de oito segundos.
Certamente os lambaris não mentem.

7 comentários:

Ricardo Valente disse...

A gente (eu, pelo menos) seria mais feliz sem memória.
Não pensei ainda nisso tudo do blog, mas vou pensar, se lembrar ,

To apurando, porque já vai começar o jogo do campeão gaúcho!!!

Abraço!

Letícia disse...

Adoro minha memória. Ela dura a vida inteira. =)

Muito bom. Filosoficamente incrível.

"Portanto, o passado é mais ou menos como o futuro: só existe nas palavras e na imaginação."

(Beto Canales)

Por isso lembro de você quando leio Cortázar.

Jacinta Dantas disse...

Ah memória!
guardiã da história que faço no trajeto do Viver.

Bolacha Maria disse...

Gostei muito de te ler hoje e já que falou em Mentiras,lembrei de um teste dentro da lógica matemática,que se mistura com a filosofia e que dá papo para uma noite inteira...devaneios meus...voltando ao teste,ele é mais conhecido como paradoxo de Epiménides, este cara tinha uma fama de mentir muito kkk, bem lá vai:
Era uma vez um bode que disse:
-Quando a mentira nunca é desvendada,quem está mentindo sou eu.
Em seguida o leão disse:
-Se o bode for um mentiroso,o que o dragão diz também é mentira.
Por fim o dragão disse:
-Quem for capaz de desvendar a minha mentira,então,ele estará dizendo a verdade.
Qual deles está mentindo?

Um abraço!
Ah!verdadeiro óbvio kkk

Mai disse...

Teu texto é um desses que eu poderia ter escrito sem tirar vírgula.
Mas tenho uma memória que demora a deletar certos arquivos mortos, nesse tal tempo morto que insiste em ficar.
Mas penso que o esquecimento é uma bênção que eu queria ser merecedora de receber.

beijos, Beto

Felipe disse...

Li uma poesia dentro do texto. Não sei se é uma impressão que ficou só pra mim. Acho que não. Fazia tempo que não vinha aqui.

Luciano Sky disse...

Eu li um texto, seria o teu texto? Um belo texto! Um blog. Esqueci...

Abração! ;-)