As respostas e os políticos

Têm respostas, por vezes de uma só palavra, que definem tudo, ou quase tudo. Tornam evidente ideologias, posições políticas, crenças e tendências. Definem ali, na hora, se o sujeito é aristotélico ou platônico. (A meu ver, as duas únicas correntes que dividem a humanidade desde a Grécia Antiga).
Em Canindé, sertão do Ceará, uma pequena cidade onde está localizada a Basílica (isso mesmo, uma Basílica) de São Francisco das Chagas e o maior monumento religioso do mundo de acordo com a prefeitura, uma estátua de 30,25 metros, eu tive um bom exemplo de resposta reveladora.  Lá estava eu de pescoço duro tentando encarar o rosto santo quando um menino franzino de expressão alegre me pediu um trocado. Olhei para baixo e perguntei:
- O São Francisco é bom pra você? - Disse a frase com uma certa ironia escondida, algo como que se o santo realmente o estivesse protegendo ou ajudando, não seria preciso ele estar ali. Sem rodeios e sério, ele respondeu:
- É bom sim.
- Por quê?
- Porque ele traz turistas. - Pronto. Matou a charada. Eu, àquela altura dos acontecimentos, era a graça que ele recebia. Nem vou dissertar sobre as posições religiosas do menino, mas fica evidente sua posição, seu pragmatismo. Este fato corrobora com minha teoria de que religião  nada mais é do um ótimo negócio. Possivelmente um dos mais lucrativos. Mas, como isso é outra história, vamos a uma espécie de anedota para ilustrar melhor o que falo. O Pajé da tribo morreu. Os indiozinhos perguntaram ao seu sucessor se o inverno seria frio. Ouviram que seria e foram todos rapidamente buscar lenha. O substituto, inseguro e com medo do erro, liga (tribo moderna) a um meteorologista e confirma o que disse. Sim, vai ser gelado. Acontece tudo novamente, os indiozinhos perguntando e indo buscar lenha e a ligação. E de novo. E de novo. Até que na última ligação, curioso, há o seguinte diálogo:
- Vai ser frio mesmo?
- Vai sim - responde o homem do tempo.
- Mas, me diga, como o senhor tem certeza disso? - Pergunta o índio.
- Olha, se você visse a quantidade de lenha que os indiozinhos estão armazenando também não teria dúvidas. - Fim.
Não é interessante? A causa justificando a consequência e vice-versa.
Respostas! Elas desnudam o mais bem vestidos e protegidos dos homens. Elas revelam o que nem mesmo o próprio sujeito sabe, elas descobrem mistérios e contam segredos. Elas mostram o que somos.
Contei isso para mostrar a solução de um enigma, já que estamos prestes ao horror eleitoral. Qual a razão dos políticos não responderem o que foi perguntado? Minha tese pode (e deve) ser falha, mas explica o motivo de tanta falsidade, enrolação e conversa mole. Eles não respondem nada para não mostrarem quem são, o que pensam, o que realmente pretendem. Simples como anular o voto.
E assim segue o ciclo: nós perguntamos, eles não respondem e continuamos sem conhecê-los. Somente o resultado desastrado dessa torpe relação é notoriamente público. Sai nos jornais quase que diariamente.
Minha resposta de uma só palavra, mesmo sem pergunta, para essa gente: Não!

2 comentários:

Silvares disse...

E como se pode fazer para governar um país ou uma cidade sem essa gente?

Jorge Carlet disse...

Amigo Beto: vez ou outra sinto-me tentado a rejeitar todas as formas de poder institucionalizado e, como Thoreau, apenas desfrutar do livre caminhar por florestas verdejantes. Certamente essa disposição muito tem a ver com o pragmatismo que passou a envolver a prática política a partir dos anos 90 . Entretanto, apesar de tudo, ainda acredito haver algumas diferenças "de fundo" entre os atores envolvidos no processo - sobretudo no que se refere a projeto de país e, mais importante ainda, nas diferentes formas de relacionamento que tais atores tem com as variadas classes sociais - embora nem sempre isso fique tão claro.
Mas admito: minha expectativa em 1989 era vermelho-sangue; hoje, apenas um rosa desbotado. É o que ainda me leva a não considerar a possibilidade de neutralidade. Porém se essa perda de viço das cores continuar se acentuando, não sei até quando vou resistir. Então, por hora sigo nas trincheiras, embora sem a motivação intelectual e braçal de outrora para tremular as bandeiras.
Grande abraço