Beleza

Em terra de cego que tem olho é cego também. Lógico. Não gosto de frases prontas, ainda mais das erradas. Não canso de repetir isso. Mas, na verdade, cansei. Então, vamos lá: beleza! Adoro o belo. Ele me encanta e me deixa perplexo. Na mulher, por exemplo, onde encontrar beleza? Nos seios? Bunda? Coxas? Olhos? Depende de cada um? E o tal cego, onde encontraria? Na textura da pele? Em uma curva tateável? No cheiro? E os mais observadores, na cor dos olhos? Nos pés? No nariz? Nariz? Como assim, nariz?
Pois estava eu em um ônibus quando ele passa por mim. Apontado para cima, claro. Não poderia ser diferente. Fiquei pensando em adjetivos para o que eu via quando me dei conta de que eu nem sabia o que era. Ordem. Preciso ordenar os fatos, pensei, e comecei a observar ao redor para descobrir o que era. Atrás dele, havia uma mulher. Acima, dois olhos e abaixo uma boca. Fiquei chocado. Quase demaiei. Só não perdi os sentidos porque não queria deixar de admirá-lo. Era um nariz, que provavelmente tinha as mesmas funções dos outros e ranho dentro. Parei imediatamente com os pensamentos obtusos e imaginei Michelangelo o esculpindo por anos e anos, até a perfeição. "Respire, respire" ele teria dito quando pronto. Mas, claro, ele empinou e deixou o mundo a seus pés. Pés? Enfim, deixou o mundo abaixo, bem abaixo.
Não podia ser. Michelangelo ainda era pouco, incapaz de tamanha perfeição. Ele, o nariz, inspirava o divino, o sacro. Acho que um clarão abriu-se no céu, não lembro bem, mas creio ter ouvido o som de trombetas. Cheguei a ver de relance umas figuras aladas sob a luz forte na hora da revelação: foi Deus, com letra maiúscula e tudo, o responsável pela criação. Somente alguém todo-poderoso e acima do bem e do mal seria capaz de criar algo tão magnífico. Tudo estava claro, todas as perguntas respondidas, quando, de repente, não mais que de repente, os anjos transformaram-se em pombas piolhentas, as cornetas em buzinas e a luz numa escuridão chuvosa danada de forte: dele, do nariz, saíram líquidos de um espirro. Lembrei na mesma hora: sou ateu. Considerei a conversão imediata para justificar o que eu via antes do atchim mas desisti. São anos e anos de convicções que não se perderiam por um simples nariz perfeito.
Sem respostas e também sem perguntas, sonhei em ser um lenço e segui admirando, encantado, como olhasse o teto da capela Sistina, perplexo e feliz. Sabe a razão? Por tudo que aconteceu. Ela, a beleza, está em toda a parte e para todos, nos detalhes, no invisível, na natureza e até em um prosaico nariz.
Não precisamos de grandes mestres (apesar de bem-vindos) e muito menos de deuses para termos o belo. Precisamos somente de nós mesmos.
Me deu uma vontade danada de dizer "o pior cego é aquele que não quer ver" mas vou me conter, afinal, para um bom entendedor...

4 comentários:

Onofre Dias disse...

Novamente parabéns.

Silvares disse...

Equilibrio, simetria, proporção... a beleza parece que não pode ter esquinas rápidas nem curvas descaídas, muito menos um olho fechado e outro aberto. A beleza, ao que parece, pode ser uma chatice (e também pode ser ranhosa, um alívio de beleza!)

Letícia disse...

Você faz um trajeto enorme com as palavras e fica tudo muito bom. Digo que sempre me espanto ao te ler.

Inté. =)

Marcantonio disse...

Jamais havia visto uma ode à beleza a partir do nariz, o pobre coitado que só é lembrado por seus eventuais excessos. Muito bom, grande inspiração.

Abraço.