Aniversários

Hoje acordei desconfiado. Abri os olhos, percorri o que havia em volta e tudo estava absolutamente igual a ontem. Fiquei atucanado. "Deve ser só para me enganar", pensei, "novamente a conspiração universal". Saí do quarto e toda a casa estava idêntica. Nenhuma diferença. Olhei para mim, meu corpo e membros, todos eles lá, firmes e fortes. Fui até um espelho, afinal, nada como um "olho no olho", mas também não tive novidades. Sempre imaginei que no dia do aniversário se envelheceria um ano. Nada mais justo. O sujeito iria dormir e no outro dia, o natalício, acordaria um ano mais velho, não só na idade, mas também  no corpo, espaço e mente. Espero que isso aconteça há várias décadas mas até agora nada. Deve ser pela tal conspiração. Seria tão mais sensato. Resultado, sou o mesmo de ontem, que é o mesmo de anteontem, que é o mesmo do dia anterior que não é o mesmo de uma década atrás.
É isso. Diariamente não mudamos, de um ano para outro mudamos quase nada. Não percebe-se modificação alguma até que passe muito tempo. Quando se está de aniversário, nada acontece. Não aparece uma placa avisando a nova idade e o corpo decai o percentual relativo ao desgaste dos 365 dias superados. Se é que pode-se, ou deve-se, usar esta palavra. Mas, enfim, quando "cai a ficha" de que não somos mais o mesmo, o choque é extraordinário. Monumental. Chega-se frente ao espelho e "socorro, tem um velho na minha frente". Menos, menos. Não precisa pedir ajuda, afinal, aquele velhinho simpático do espelho não seria capaz de fazer mal a uma mosca. Mal a uma mosca? Como seria isso? Deixa assim, pois nosso bom ancião não faria nada mesmo. Pobre mosquinha.
Eu, definitivamente, não tenho este problema. Apesar do fracasso na espera do envelhecimento anual, que facilmente permitiria constatar a própria degeneração sem grandes surpresas, não sou um completo ignorante no que se refere a esses assuntos. Velhice, por exemplo, é uma coisa distante e que eu domino sem o menor problema, de uma maneira prática, eficaz e, principalmente, sem sustos. Quer ver? Pois lá vai: velho é quem tem vinte anos a mais que eu. Pronto. Não é simples? Resolvido.
Assim vou adiante, com pensamentos cada vez mais altivos, gloriosos e profundos, em direção a uma velhice que se afasta conforme eu avanço. Nunca serei como esses velhinhos de cabeça branca que aparecem em comerciais de seguradoras. Eu farei mal a uma mosca, mesmo que antes eu deva descobrir como fazer isso. Mas, como não tenho pressa...
Um detalhe: dei uma boa olhada no gurização aqui e modifiquei:
"Velho é quem tem trinta anos a mais que eu".
E tenho dito.

O escritor que virou macaco e a miséria


Fico espantado com o ser humano. Não querendo fazer um trocadilho infame, o que mais somos é "desumano". E a prova que isso é uma verdade incontestável, é que somos avarentos, ruins, perversos e sádicos com todos, incluindo nós mesmos. Nos autodestruímos com uma habilidade impressionante.
Quando falo em miséria, neste texto especificamente, não penso naquela em que faltam as coisas básicas para a sobrevivência, como comida, água, etc. Refiro-me a falta de confiança, na mesquinharia particular, na falta de atitudes para elevar aquilo que nos diferencia dos outros animais: a civilidade, o caráter e, principalmente, a arte. Estamos próximos a termos somente o polegar opositor nos diferenciando de um orangotango. Estou erroneamente generalizando, afinal, isso acontece com alguns de nós. Então, por favor, quem não se enquadra nessa categoria, que chamarei de pré-símio, pare de ler aqui mesmo. Pararam?
Pronto, agora somente nós. Portanto, língua solta.
Vários acontecimentos levaram-me a este texto. Mas o fato derradeiro deu-se com um "escritor", a quem avisei que comentaria a seu respeito sem mencionar o nome. Resumindo: na ABC Livraria Virtual, para qualquer um colocar sua obra à venda basta comprar outra. Ou seja, adquirir arte, literatura. Depois disso feito, caso o comprador queira e seja um autor, pode colocar seu livro lá e beneficiar-se deste mesmo processo. Se pensarmos pelo lado comercial, o sujeito compra um livro e pode vender dezenas, enfim, inúmeros exemplares. Ou seja, um excelente negócio. Se pensarmos pelo lado humano, o sujeito estará adquirindo arte, valorizando aquilo que ele mesmo faz, prestigiando um colega de letras. Existe algo de ruim nisso?
Pois o estimado pré-símio escreveu-me perguntando se poderia colocar seu livro à venda sem adquirir um exemplar. Educadamente respondi que a princípio não, mas, claro, poderiam existir exceções, como a pessoa definitivamente não ter dinheiro, ou estar impossibilitado de ler, ou ainda não ter ninguém a quem presentear, etc. Recebi, quase instantaneamente, a resposta afirmando que ele não se encaixava em nenhum dos casos. Ou seja, tinha dinheiro, lia e vivia numa sociedade, acompanhado de outras pessoas, mas que não mereciam ser presenteadas. Claro que retornei perguntando, então, qual seria o motivo para a não compra. Afinal, o que leva uma pessoa a não investir nela mesma? No seu trabalho, enfim, em sua criação?  Eis a resposta que estou até agora tentando digerir:
"Quero que os outros leiam o que escrevo, e não eu ler o que eles escrevem".
Preciso contar o final da história? Não, certamente não. Até porque ela não aconteceu ainda. Isso vai ocorrer quando o pré-símio tirar o prefixo e virar um primata mesmo. A incrível história da involução: "O Escritor Que Virou Macaco". Não é um ótimo título?
Curioso, também, tratar-se de um novo autor. Não alguém que vendeu milhares de cópias mundo afora.
O nome disso é soberba, é burrice. Eu, infelizmente, não suporto este tipo de coisa. Fico irritado e não deixo por menos. Combinei com o pré-símio que dou todo o direito de resposta a esta postagem, sem problema algum, desde que não o faça anonimamente. Fico esperando.
Acredito que estamos, boa parte de nós, indo para um lugar sem saída, um lugar redondo com nada aos lados, exceto nossos defeitos e ruindades, onde ficaremos andando em círculos até nosso fim. Desculpem, leitores, minha indignação. Mas os soberbos merecem.

Nota: Está perto do final o prazo para envio de textos para a Coletânea Crônico! Participem.

Cabo Polônio



Uma das vantagens de ser ateu é o poder da conversão. Eu mesmo abandonei minhas "certezas" diversas vezes. A última aconteceu nas férias, semana passada, em um momento fantástico. A cena mágica foi simples, porém inesquecível: estava eu frente a frente com um entrecot jugoso, lindo, enorme, numa parrijada em Colônia de Sacramento. Quando coloquei o primeiro pedaço na boca, percebi o quanto tinha de divino aquilo tudo. O sabor daquela carne não poderia ser atribuído somente ao pasto dos pampas uruguaios nem à habilidade do assador. Existia algo mais. Tinha que existir. Tomado pelo sentimento sacro e vendo o tamanho enorme daquela peça única de sabor perfeito, ergui as mãos para o céu e clamei:
- Se existes, ó deus, substitua meu cérebro por mais estômago, para que eu possa comer tudo sem dificuldades. - E o jantar transcorreu na maior harmonia.
Harmonia, bem lembrado, típica do nosso pequeno vizinho. Um povo correto e honesto que recebe suas visitas de maneira cativante. Desde o litoral, como na badalada Punta del Este, ou na capital Montevideo, ou ao oeste, como em Salto, o jeito carinhoso dos uruguaios encanta.
Eu poderia facilmente escrever maravilhas de todos os lugares em que estive, mas pretendo chamar a atenção para um somente: Cabo Polônio. Certamente o lugar mais excêntrico que já vi. Fica a poucos quilômetros da Rota 09, uma das principais do país, em um lugar onde só é possível chegar com umas caminhonetes com rodas gigantes. É rápido. Em pouco mais de meia hora de balanços sobre dunas, chega-se à beira-mar. Mais alguns metros e lá está um pequeno istmo, unindo ao continente uma formação rochosa com um gigantesco farol olhando soberbo para o mar, cercado por centenas de lobos marinhos e pequenas casas, pequenas mesmos, com uma arquitetura única, não parecendo com nenhuma construção de nossas cidades ou favelas.
Neste lugar ventoso moram cerca de quarenta famílias, que não possuem energia elétrica nem água encanada. Transitando pelas ruelas, creio que "caminhos" definiria melhor, de pedras e areia, observa-se somente os imóveis. O lugar parece abandonado. Raramente vê-se algum morador. Alguns pinguins na beira da praia e mais nada, além da beleza crua e selvagem, virgem e inóspita do lugar.
Na hora da fome, uma placa anunciava comidas em um prédio baixo, pouco mais de 1,80 de altura, onde sentava-se em cadeiras com os pés cortados ou em banquinhos muito pequenos. Três mesas, também ao nível do chão, e a decoração mais estranha que podem imaginar: ossos de peixe, caixas de fósforos antigas, algumas fotos, panos torcidos, pequenos copos sem uso e mais algumas velharias perfiladas em uma parede de barro com várias reentrâncias, como pequenas cavernas. Como o tempo só não passava em Polônio e para mim passava rápido, infelizmente, resolvi pedir o que eles chamavam de "prato del dia", já que provavelmente seria rápido. Quando o "PF" deles chegou: frango ao molho de mel com purê de pera e gengibre com mais uns pozinhos coloridos que nem imagino o que eram, imaginem o susto. Logo adiante, a surpresa ainda maior: era delicioso. Perfeito. Diferente. Magnífico.
Mais dois detalhes: existiam guardanapos dispostos ordenadamente em sandálias femininas sobre as mesas e esse prato custou menos de dez reais. Não é inacreditável? Por este tipo de  descobertas, não somente de sabores, mas de opções de vida, de maneiras escolhidas para esperar a velhice chegar por pessoas muito diferentes de nós, é que viajar é preciso. Não é opção, é vital. Obrigatório para o saber.
No outro dia do jantar em Colônia do Sacramento, àquele da conversão, quando levantei pela manhã, creio ter errado a porta e batido de frente na parede, ou levantado pelo lado errado da cama ou alguma outra trapalhada do gênero, foi suficiente para ouvir da minha companheira de viagem e de vida:
- E não é que deus atendeu mesmo o teu pedido?