Expressões



Sou destemido. Implacável. Quando alguém me diz algo que não compreendo ou não quero entender, franzo a testa e faço uma cara de dois pontos: e, claro, fico a espera. É infalível. A pessoa se abre, faz citações, enfim, entrega a rapadura. Minha técnica é cem por cento segura.
- Beto, o que você acha do novo acólito?
Dois pontos. E a pessoa continua, quase atropelando as palavras:
- Pois é. O diácono merecia alguém melhor e ... - pronto, tudo resolvido. Nasce mais um entendido em acolitar sem nunca ter acolitado. Minha expressão não entrega meu estado de ignorância e induz a pessoa a revelar aquilo que eu não sei. Perfeito.
Mas não fico somente por aí. Tenho vários recursos, digamos, faciais. Quando fico envergonhado, por exemplo, por qualquer motivo, faço cara de dois de paus. Sabe o dois do baralho? E o naipe aquele que parece uma florzinha? Bastos? Este mesmo. Pois faço esta expressão: dois de paus. Posso estar na maior saia justa que acaba tudo dando certo. É verdade que para eu me envergonhar não é fácil, mas acontece. Quando vou no cinema, por exemplo, chega a ser comum. Nas comédias porque começo a rir antes de todo mundo e paro bem depois. Nos dramas porque choro compulsivamente. Na verdade, nem só nos dramas. Vou às lágrimas até em desenho animado. Quando termina a sessão, várias pessoas se viram para encarar o fiasquento, e eu lá, feliz da vida, com a minha cara de dois de paus. É perfeito. Todos ficam sem ação. E quando quero passar desapercebido, então, áh, coisa mais fácil. Sabe aquelas situações como derrubar uma prateleira inteira de latas empilhadas no super? Ou tossir e um ranho enorme ficar pendurado nos cabelos do sujeito sentado à frente no ônibus? Ou no elevador acontecer algo, digamos, mau cheiroso além de barulhento? Tudo sob controle: cara de paisagem. É instantâneo. Parece uma poção mágica que me deixa invisível. Chega a dar vontade de chutar uma das latas do chão ou fazer uma gracinha com os gases. Uma vez chegou a acontecer. Estava em um elevador destes bem lentos. Antigão mesmo. Senti aquela sensação estranha e uma certeza: será silencioso. Que nada. Foi um verdadeiro trovão. Todos me olharam, inclusive a freira (óbvio que teria uma), com uma expressão de poucos amigos. Imediatamente passei as mãos frente ao rosto e, bingo!, cara de paisagem. Eu não estava mais ali. Comecei com uma risadinha sinistra ironizando a impotência dos cheiradores compulsórios e terminei com uma gargalhada festejando minha invisibilidade. No primeiro andar que o elevador parou, todos desceram rapidamente. Na época até estranhei a coincidência de todos irem ao mesmo andar, mas, afinal, elas existem. Tanto que tenho também uma cara para coincidências. Sabe quando se encontra alguém que não se quer ver em um lugar com milhares de pessoas? Algo como achar um admirador de música erudita em um show de rock? Pois quando acontece comigo eu não falo nada. Avisto a pessoa e faço cara de como assim. Funciona como mágica. Na mesma hora recebo milhares de explicações e eventualmente até um pedido de desculpas.
 - Desculpa por eu estar aqui. - Já me disseram isso certa vez. Foi um ex-namorado de uma ex-namorada. Existe coisa pior que encontrar ex-namorados? Caras de como assim neles.
Vou parando por aqui porque estou criando uma nova expressão. Ela certamente será muito útil. Minha cara de meio mais ou menos. Servirá para quando eu encontrar alguém que mal conheço e a pessoa perguntar como "estou indo". Ou, melhor ainda, se perguntar sobre minha saúde. Meio mais ou menos. Pronto! Certamente funcionará como um "fora chatos"! 
Não queiram conhecer essa minha "face" maldosa. Eu avisei antes. Sou intrépido.
Agora, pena que vocês não veem, mas estou com minha expressão mais frequente: cara de sono.
Fui, o casamento me espera!

5 comentários:

Onofre disse...

parabéns

Letícia Palmeira disse...

Você é o sujeito. Ri de me esbaldar. E vou usar tuas caras. Minha favorita é "Como assim?". Uso quase sempre. E essa de esperar que o outro dê a resposta foi fantástica.

Preciso dizer mais o quê?

Bjo.

Wilson Torres Nanini disse...

Realmente esses discursos rebuscados, que se fazem de ouro para ocultarem um fundo de lata, são de amargar os sentidos. Que tenhos cuidado com a coisa coisando por aí!

Abraços!

Silvares disse...

Leitura instrutiva, essa. Estou tentando a tal cara "dois de paus" mas não me parece que esteja a funcionar. Sinto que estou fazendo cara de ... cú.
:-D
Abração.

Jorge Carlet disse...

Sensacional. Um grande manual de procedimentos. Vai me ajudar muito.
Tu sabe que tem um comunicador festejadíssimo no rádio sul-riograndense que usa o artifício de começar a frase sobre algo fora de seu domínio, ou que não lembra, e dá uma breve pausa. Invariavelmente acaba induzindo o entrevistado a terminá-la com os elementos cruciais ao tema. Não sei que cara ele usa, mas quase posso ver a reticência pairando no ar.

Grande abraço