Pequenos detalhes! (Isso é redundância?)


Comecei um exercício mental bem simples: imaginar algo perfeito. Primeiro pensei em um minério, depois em uma planta e logo em seguida em um animal. Diamantes, vitórias régias e leopardos. Nada de perfeição. Nem perto. Então, como bom representante da classe masculina, departamento que respeita e admira o outro sexo, com veemência, tentei encontrar a perfeição em uma mulher. Foi relativamente fácil. Começou a formar-se na minha frente os olhos, sobrancelhas, nariz, enfim, um rosto lindo, magistral, e depois os cabelos, pescoço, o peito, seios, dois, magníficos, uma barriguinha quase para dentro, quadris, generosos, o ventre, instigante, as coxas, definidas sem músculos aparentes, os joelhos, delicados e funcionais, as pernas, lisas e macias, os pés, pequenos e com cinco dedos cada um em ordem decrescente, lindos e, quando virei a imagem para começar a construção do lado de trás, deparo com o calcanhar.
Calcanhar!
Meu mundo caiu. Fiquei mais ateu do que sempre fui. A revelação de que não é possível alcançar a perfeição nem no imaginário, não só acabou com o meu dia como também com meu humor. Enquanto existir o tal do calcanhar, não existirá perfeição. Como acredito que um movimento para extirpar essa coisa horrorosa das mulheres seja impossível, e, caso não fosse, seria de resultado duvidoso, comecei a encarar a vida como uma verdadeira tragédia. Não gosto de linguagem chula mas, infelizmente, o que me ocorre para definir essa situação é um: Merda! Que merda! Sou, a partir dessa, um coitado que odeia essa vida funesta.
Tentei um artifício para "enganar" minha desgraça, sem sucesso. Falei em voz alta (o pessoal do ônibus onde eu estava deve ter estranhado) "Beto, mais acima tem algo que compensará", mas nem assim. Minha imaginação não conseguia seguir o curso natural da construção e subir. Ficou focada naquilo, mostrando claramente que eu havia sido derrotado. Fui vencido por um reles calcanhar.
Quando estava quase desistindo da imagem perfeita e começando a pensar sobre qual a forma que usaria em meu suicídio, como cortar os pulsos com bolacha Maria ou ouvir Restart até à morte, o bendito ônibus passou por uma loja de calçados femininos e meu cérebro calçou aquele calcanhar horroroso com uma sandália preta, salto de oito centímetros, deixando o pé em "pé", e o couro reluzente exibindo-se na parte de trás, fazendo o trabalho sujo. Pronto, meu pensamento seguiu livremente ao norte e, então, bastou colocar o produto da minha imaginação sentada em uma cadeira Luiz VX no meio de uma sala com luz indireta e assoalho de madeira fina para atingir meu objetivo. Soltei dois gemidos, um de prazer e outro de preocupação: minhas convicções ateístas nunca foram tão frágeis. Acho que o pessoal do coletivo relevou, afinal, os dois gemidos foram mais que compreensíveis.
Enfim, ao invés de uma campanha para exterminar com os calcanhares femininos, pretendo lançar uma em que toda mulher tenha acesso a cartão de crédito e lojas de sapatos. Tudo por um mundo melhor. Muito melhor.
Perfeito!

7 comentários:

Letícia Palmeira disse...

Quê? ¬¬

Calcanhar e cartão de crédito? Não sabia que o calcanhar era "assim" tão feio "a esse ponto"? Vou usar Aquiles como desculpa para meus gastos. =)

E estou aqui, meu caro.

Ricardo Valente disse...

Gostei dos joelhos funcionais hehe e de tudo o mais. Bom imaginar que mulher perfeita exista (pelo menos por fora).
Abração!

Jorge Carlet disse...

Beto: sensacional!
Porém, cuidado. Alertá-las sobre sapatos caros e cartões de crédito pode custar muito. Vide manifestação da Letícia hehehe (desculpe, Letícia).

Alex disse...

Descobri a cura pra insônia.

Mai disse...

Só você! E um calcanhar...

beijos

Sunflower disse...

E eu que só conseguir pensar em vírus. Vírus é uma coisa perfeita, minério quando está inativo, e mortal na atividade. Porra, vírus.

Andreza Caetano disse...

Tão bom.... que não há comentário necessário da minha parte!!!
Talvez uma breve exclamação: Essa semana vou a uma sapataria!
kkkkkkkk