O cinema e a vida



Comecei a escrever sobre 5 x Favela, agora por nós mesmos (um interessante filme composto por cinco curtas ambientados em, óbvio, favelas), mas usei a tecla da setinha apontando à esquerda e apaguei tudo quando lembrei de uma cena, no primeiro episódio, em que a personagem não vai à faculdade por não ter o dinheiro da passagem. Ela volta para casa, onde aparece uma geladeira daquelas de duas portas, com uma torneirinha de servir água pelo lado de fora do refrigerador. Dei uma olhada rápida na internet e vi que o preço deste aparelho gira em torno de 3.000 reais. Não é muito para quem não tem a passagem de ônibus, coisa de dois reais? Ou a metade, no caso de ser estudante? Pode-se até falar que foi comprada em outra época ou foi um presente, mas, de qualquer forma, aquele eletrodoméstico tornou o barraco e a situação inverossímil. Um verdadeiro elefante branco. Resultado: apesar de ter um curta sensacional, chamado Concerto para Violino, desisti, lá no cinema, de gostar, e, agora, de resenhar. Deu desânimo.

Podem me acusar disso ou daquilo, mas, na verdade, existem coisas que não devemos admitir sob o risco de perpetuarmos nossos desleixos ou deficiências. Alguns pequenos cuidados são essenciais, não apenas no cinema, mas em tudo. Um detalhe apenas pode sacrificar todo um filme e, na vida, a própria vida. Sem exageros.
Nossa existência é feita de detalhes. São inúmeros momentos de pequenas coisas que vão formando algo maior. Não vive-se uma hora direto, por exemplo. Para chegar-se lá, cada um dos 3600 segundos que compõem tal hora desfilam frente a nossos olhos fazendo seu papel e suas epifanias, usando este termo livre do sentido religioso, claro. Nada começa pronto, ou, para ser óbvio, terminado. Cada momento ou fato é composto por centenas de fragmentos que são constituídos por outros e outros. Isso já foi dito e falado por muita gente, mas, convenhamos, a situação pede. Quando um destes pedacinhos é deturpado, estragado, é evidente que afetará o resultado final. Pode até passar imperceptível aos olhos, mas isso não o torna invisível ao todo. Não é porque não o vemos que deixa de existir. Muitas vezes, o fato de não identificarmos torna ainda mais grave, deixando as consequências livres para agirem. E como elas nascem de um erro, neste caso específico, não serão benéficas. 
Voltando ao caso do filme, por azar, a maldita cena ocorreu no início do primeiro dos cinco episódios. A partir dela, vi todo o resto com uma certa desconfiança, de má vontade até. Isso é errado, claro, mas foi inevitável. Nada além da tal reação, usando a lei de Newton. 
Fazendo uma livre adaptação para nossas vidas, tire o elefante da sala e coloque-o numa savana africana para, enfim, vivermos todos "felizes para sempre". 
Eu tento diariamente fazer isso e creio que não consigo.
Mas também não desisto.


5 comentários:

Letícia Palmeira disse...

Faz uma hora que tento dizer que tua visão filosófica é muito parecida com a minha. Costumo ver as coisas através dos pequenos detalhes. Observo agulhas em palheiro o tempo todo. E também não consigo mandar o elefante pra savana. Ele está sentado no sofá nesse instante. ¬¬

Como sempre, Beto, bom demais ler suas crônicas.

Estou meio maionese hoje. Deve ser o calor.

Bjo.

Ricardo Valente disse...

Que absurdo, credo!

Laura Peixoto disse...

Ai... nem sei o q dizer. Tô sempre pelas beiradas tb, pelos detalhes...

Jorge Carlet disse...

Tu tens razão Beto, o descuido com certos detalhes é irremediavelmente broxante. Soa tão fake como twitter do Veríssimo.

P.S. Ao menos na versão original do 5x favela que, se bem me lembro era em branco e preto, não havia geladeira com torneirinha.

Silvares disse...

Isso dá que pensar. O que ia na cabeça do realizador para filmar essa cena? O que quis ele dizer com o frigorífico? Talvez não se tenha explicado bem...