Ano novo, vida nova... (Que?)


Enfim, 2011. Chegou. Ano novo, tudo novo. Deixa eu ver: hummm. Estranho, parece igual. Olho para um lado, para o outro, para frente e... Bingo. Nada mudou. Mais esquisito ainda: não escrevi antes sobre isso? Escrevi, claro. É igual, sempre igual. A única coisa que muda é quando datamos o cheque e, como ele está praticamente extinto, permanece tudo como sempre foi.
Mau humor meu? Chatice minha? Acho que não. Minha intenção é somente analisar um fato interessante, meio maluco, que é pular sete ondas, ou erguer o pé esquerdo exatamente a meia noite ou ainda comer lentilha nesta data. É uma superstição coletiva que invade lares de matemáticos ou físicos, quase da mesma forma que os lares de pais de santo ou numerólogos. Todos tem uma mandinga pronta para resolver os problemas do ano recém inaugurado.
Na verdade, a não mudança é o lógico. Somente o calendário muda. Os dias, noites, enchentes, marés e chuvas continuam as mesmas. A mudança é burocrática, nada palpável. Nada que traria consequências perceptíveis. Qualquer tempestade traz mudanças mais efetivas que um segundo atrás ser outro ano. Então, qual a razão da carne de porco ou das roupas brancas? Não sei bem, mas imagino que uma mistura de componentes das mais variadas origens. Um pouco de religião, uma porção bem servida de misticismo, junto com algumas pitadas de ignorância e, para finalizar, uma boa dose de esperança, devem fazer este prato inusitado. Os deuses entram com uma boa parte disso. Basta observar as pessoas que levantam as mãos para o céu proferindo palavras que nem deus entenderia. Os mesmos gestos de evangélicos, católicos, xamãs ou judeus fazem para convocar, conclamar, solicitar ou seja lá o que for, de seus seres superiores. A ignorância é óbvia (no sentido mais que literal de ignorar algo) e prova-se apenas com comparações: os judeus, que não comem carne de porco por ser impura, estariam em desvantagem porque deve-se comer, já que o porco "fuça" para frente? Ou os Bolivianos, que não tem mar para pular sete ondinhas, estariam fadados ao insucesso? Ou os miseráveis, estariam condenados a fome eterna por não terem condições de comer lentilhas? Não preciso sequer ousar responder essas perguntas, lógico. O misticismo, embora possa ser confundido com a religião, também compõe esse prato representando o mistério e o sobrenatural. Nós sempre precisamos daquilo que não compreendemos para vivermos felizes e não seria em uma data que aguardamos tanto, que isso ficaria de lado. E, por fim, a esperança. Creio que o sentimento mais amplo, mais comum entre nós, é a esperança. Tudo, claro, vai acabar bem. Temos nela, na esperança, o alicerce para acordarmos de manhã e irmos no ônibus lotado para aquele emprego horroroso, afinal, logo, logo iremos de carro para um trabalho melhor. A esperança é a última que morre. Mesmo. E é simples: até aquele câncer, é claro, em breve desaparecerá e tudo ficará bem. Este ano novo, por exemplo, será o melhor de todos em todos aspectos. Tenho certeza disso. Todos temos.
Vou preparar meu lombinho com lentilhas e colocar algumas fitas brancas nos pulsos.
Desta vez nem vou desejar um bom ano porque, é certo, 2011 será um ótimo ano.


2 comentários:

Silvares disse...

Ámen.

Jorge Carlet disse...

...e tu não avisou antes que deve-se erguer o pé esquerdo exatamente a meia-noite...