As enchentes e os parvos


Lembro de uma frase do Bussunda, aquele bom humorista, que dizia "pobre vive dizendo que não tem nada e na primeira enchente afirma que perdeu tudo" e sempre dou risada. Claro que foi uma brincadeirinha dele aproveitando-se dessa maneira exagerada que temos ao falar. Agora, com essas chuvas em São Paulo, ouvi uma reportagem em que os moradores reclamaram porque não foram avisados da enchente. Sem exageros, sem brincadeira. Entendo. Eles moram na beira de um rio que transborda todo ano e, quando começa um verdadeiro dilúvio, eles ficam lá mesmo, parados, porque ninguém da prefeitura bateu em sua porta avisando "Olá, senhor morador ribeirinho. Temos risco de enchente, em razão das chuvas torrenciais que estão acontecendo. Saia imediatamente". Claro, nada mais legítimo e aceitável. O fato de morar no barranco, de todo ano acontecer a mesma coisa, além da chuva forte, não quer dizer absolutamente nada. O que vale mesmo é o aviso do poder público. Resumindo, a palavra. Ela deve valer mais que os próprios indícios naturais. (Quem dera).
Sei que é um assunto delicado e que eu, até por nunca ter passado por uma situação dessas, não sou o cara mais indicado para comentar, mas, não tem algo estranho aí? Como assim "não foram avisados?" Na verdade, eles foram, seja pelo rio, pela chuvarada, pelas experiências anteriores, pela TV ou por qualquer outro indício. Não foram pelas autoridades, e, claro, reclamaram disso. Heim?
Mas, explique-se Beto, qual a razão disso tudo? Por que a preocupação? Simples: paternalismo. Isso não seria um reflexo, um pequeno sinal, da dependência do povo frente a um governo paternalista? Esse sistema é, grosseiramente falando, algo como criança criada pelos avós. Ele, o poder, são os vovôs, e a criança, o povo. Sabe-se que esse tipo de relação tem tudo para dar problema. Em qualquer situação, um papel paternalista é extremamente importante e necessário, mas, evidentemente, deve ser exercido pelos pais e mais ninguém. Ou seja, nunca por um governo.
Isso não deixa de ser uma crítica velada aos programas sociais. Esclareço, porém, que não a eles propriamente dito, mas em como são concebidos e vistos: solução, ao invés de algo paliativo, temporário. Eles são essencialmente remédios para as consequências e nunca para as causas. Devem existir, evidentemente, mas acompanhados de ações que combatam as raízes da miséria a médio prazo, como investimentos em educação, saneamento (saúde), no barateamento dos juros (que aumentaria em muito os investimentos na produção e não em papéis que só enriquecem ainda mais os banqueiros) e outras atitudes básicas.
Por enquanto, o combate à fome tem dado certo e saciado os mais famintos. Acredito que a parte ruim dessas ações (como a dependência crônica do dinheiro e das atitudes governamentais) ainda é um pequeno feto. Mas, creiam, sem o devido tratamento ele crescerá e tornar-se-á um monstro, capaz de transformar um país inteiro em um curral. Capaz de transformar um povo conformado, que somos, em um gigantesco exército de parvos.
Somente parvos de barriga cheia.
Nada pode ser pior.

4 comentários:

Anônimo disse...

É um tema complicado. Bem provável que as pessoas desta enchente não sejam as mesmas do ano passado e mais provável ainda que estão ali por completa falta de opção, mas dá vontade de torcer o pescoço quando se observa que a maioria dos alagamentos no riacho (esgoto sei lá), que passa perto onde eu moro é causado por lixo jogado justamente pelas pessoas que são prejudicadas quando alaga.
Cícero

Silvares disse...

Por aqui, quando chega o calor sufocante do Verão, a Protecção Civil avisa, solenemente, nos meios de comunicação: "Amanhã vão estar 40º, vista roupa leve e proteja a cabeça dos raios solares". É para rir? Quando as temperaturas descem para próximo do zerinho a conversa vira"Vista roupas quentes, proteja a garganta..." acho que dizem isso apenas para justificar a sua existência. Justificam?

Anônimo disse...

Não posso criticar quem passa por estas situações e ainda assim permanecem no mesmo local por anos. Devem ter alguma razão... pobreza, falta de oportunidade, acomodação...
Acredito que os programas sociais deveriam vir acompanhados de investimento na educação, saúde.
É bom ganhar sem fazer por merecer.

Jorge Carlet disse...

Mas o Estado de bem-estar social na Europa sempre teve como lógica equilibrar o que o capitalismo desequilibra.
E quanto à educação fico sempre meio cabreiro quando se trata disso pois, por incrível que pareça, o que mesmo é educação? Qual o melhor conteúdo? Transformar ou conservar? Ou tornar mais parvos ainda...
Coisas demais para um sábado a noite rsrsrs.
Abração Beto.