Por vezes as coincidências deixam o sensato de lado e invadem os limites do absurdo. Algo como quando parece que um número qualquer nos persegue ou, ainda mais corriqueiro, quando se encontra uma mesma pessoa no meio de uma multidão diversas vezes ao dia, exatamente quando não se quer ou pode vê-la.
Do que falo tem algo disso, pois sofro uma perseguição implacável de um mesmo tema: religiosidade. Ou deus, vaticano, evangélicos, enfim, essas coisas. Mesmo que eu fique meses sem tocar no assunto, ele, o assunto, toca em mim.
Pois esta semana recebi um mail referente ao texto Jesus e deus?, (o mais lido deste humilde blog) onde, de uma forma bastante carinhosa, uma leitora diz que me ajudaria. Apesar da fase difícil, dos problemas domésticos, financeiros e de relacionamento pela qual passava, ela se dispunha a me auxiliar. Isso tudo porque percebeu, através da crônica, um enorme vazio dentro de mim. Quando li, cheguei a sentir uma fome incontrolável pelo tal vazio e saí correndo para a cozinha.
Brincadeiras a parte, não carinhosamente porque não tenho esse dom, mas com muita educação, respondi à leitora que eu não passava por problemas amorosos, nem financeiros e muito menos domésticos. Que, na verdade, não passava por nenhum tipo de dificuldade e estava mais tranquilo que água de poço. Que talvez, e até pela própria mensagem, quem precisasse de ajuda fosse ela e não eu. Lamentavelmente não tive, pelo menos por enquanto, resposta. Mas continuo ansioso na espera, afinal, gostaria de saber dos desdobramentos das dificuldades citadas.
Claro que entendi o recado e assimilei o golpe. Ela propôs ajuda porque, a seu juízo, eu precisava de auxílio não por problemas mundanos, mas por problemas divinos. A seu ver, meu ateísmo tornava-me vulnerável, pobre e vazio, e que ela, com toda a benevolência peculiar aos crentes, me ajudaria mesmo sem poder e eu pedir. Nossa, quanta bondade.
Essa intromissão, essa soberba, essa arrogância de oferecer ajuda a quem não pediu e não precisa, me preocupa um pouco. Não saio por aí tentando "ajudar" aqueles que creem em um deus qualquer ou num poste de luz. Quer acreditar no Thór, em Apolo, Iemanjá, Alá, Buda, Tupã, Pachamama ou quem quer que seja, acredite. Faça bom proveito. Terá meu respeito e admiração até. E despreocupe-se: não me verá tentando convencê-lo que Darwin estava certo ou que é imoral tirar dinheiro das pessoas em nome de deus. O que espero em troca? Nada além. Somente o mesmo: respeito.
Mas, claro, um pedido, com toda a educação, para que não matem aqueles que creem em outro deus ou que não considerem inferiores aqueles que não tem deus algum, nunca é demais. Seria interessante também que não gritassem muito em alguns cultos, a ponto de incomodar os vizinhos, e também que não falassem, em um continente onde a aids é epidemia, que usar camisinha é pecado mortal. Aids é mortal.
Teria mais algumas dezenas de pedidos para fazer, mas, em nome da paz, fico por aqui mesmo, com um resumo básico: o que precisamos é respeito. Independente se formos amarelos, azuis, rosas, homossexuais, heterossexuais, altos, baixos, pobres, milionários, crentes, ateus ou tico-tico-no-fubá.
Respeito. Aceitação. Enfim, civilidade. Precisamos de civilidade.
(Só por curiosidade, olhem o que o dicionário diz sobre essa palavra fantástica:civilidade
1. Caráter do ato ou comportamento que segue os costumes relativos à boa convivência entre cidadãos, ou as convenções de demonstração de consideração e respeito mútuos: A civilidade de seu gesto causou boa impressão.
2. Observância às formalidades ou convenções entre os membros bem-educados de uma coletividade: Quanta falta de civilidade!
3. P.ext. Caráter da pessoa bem-educada, que age com (mostras de) dignidade, consideração e respeito pelos outros: Reconheceu a grandeza e a civilidade do adversário.
[F.: do lat. civilitas, atis. Sin. ger.: cortesia, urbanidade, gentileza, polidez. Ant. ger.: incivilidade)

