Quem somos?

Nossa história é fantástica. Somos o que há de mais imprevisível, mais surpreendente e menos ajuizado que existe.
Faça o seguinte: imagine uma pessoa lá do começo do século - o passado, claro - sente-se ao seu lado, olhe para um campo verde sob um céu azul com alguns pássaros piolhentos voando de um lado para o outro e comece a contar:
- Pois tudo começou com um feirante que, cansado de pagar propina a policiais corruptos, ateou fogo no próprio corpo. Na Tunísia. Este foi o início de uma queda de ditadores, diga-se de passagem, os mais cruéis e sanguinários possíveis, no norte da África e no Oriente Médio, uma região que, infelizmente, política e religião mesclam-se numa só coisa. Ditaduras de 20, 30 e até mais de 40 anos caíram como peças de um dominó bêbado.
Um feirante? Pobre, feio e sub-empregado, causaria um "estrago" desses? Ainda mais no mundo muçulmano? É claro que nosso ouvinte tiraria a cartola, soltaria a bengala ao lado da cadeira de balanço e diria:
- "Never", nunca, jamais. Vai enrolar outro. - Bem, não seria exatamente isso que ele falaria, mas, convenhamos, nosso incrédulo senhor ficaria ainda mais incrédulo. E sabem por quê? Porque isso é mais fantástico que a máquina de debulhar milho, mais irreal do que a lâmpada, mais surpreendente do que o celular, mais avançado do que a informática. Isso é uma civilização inteira tomando seu rumo, mudando a história, fazendo seu destino com as próprias mãos, ou pedras.
É um marco tão forte como o fim dos dinossauros ou a descoberta do fogo. É o momento exato da história onde o ser humano começou a optar por dignidade, por liberdade, mostrando para essa cambada de desgraçados que o tempo do cabresto terminou. 
Meu enorme pessimismo quanto ao nosso futuro levou - ainda bem - um balde de água fria. Se tudo der certo, essa revolta tornar-se-á mundial e não sobrará nenhum tirano sobre a terra. Pelo menos exercendo o poder. Acabará o tempo da exceção. Terão seu fim governos baseados na força e no medo. Continuaremos sendo, alguns de nós, a maioria talvez, governados por incompetentes e ladrões, mas, escolhidos por nós mesmos. Por nossos erros. Por nossas limitações e não por uma questão hereditária ou pela força. E com prazo de validade.
Depois desse começo - sim, apenas o começo - talvez essa mesma gente comece a mostrar que nenhuma empresa pode governar e comprar políticos como compram papel higiênico. Que bancos não devem ser simples exploradores do povo, que não podem ser protegidos de suas falcatruas com o dinheiro do próprio povo, que não podem usar seus lucros fabulosos - que não deveriam ser tão espetaculares - simplesmente para especular. Que professores são importantes. Que escritores também são. Que todos somos.
Claro, estou sonhando. Isso ainda está longe, muito distante mesmo. Mas, fiquem certos, existe algo diferente no ar. Existe uma mudança radical - para melhor - logo ali adiante, ao alcance dos nossos olhos.
Quem somos? Boa parte de nós somos o feirante. E uma minoria aqueles policiais corruptos.
Somos o que parece dar esperança. O que parece ainda ter jeito.
Enfim, obrigado, vendedor de frutas.


Sucesso com as mulheres



Todos passamos ou passaremos por uma idade em que tentamos impressionar o sexo oposto. (Nunca entendi bem esta história de oposto, afinal, quer dizer "que se opõe", e eu, de maneira alguma, me oponho às mulheres. Longe disso. Então, porque, afinal, estou usando essa palavra?) Vamos lá: todos passamos ou passaremos por uma idade em que tentamos impressionar o outro sexo. (Melhorou um pouquinho. Neste caso, o outro sexo são as mulheres porque sou homem. Mas, que obrigação tem o leitor de conhecer minha masculinidade? Nenhuma! Portanto...) Última chance: todos passamos ou passaremos por uma idade em que tentamos impressionar, no meu caso, as mulheres. (Deu certo? Deu). Esse tempo varia muito conforme o amadurecimento do sujeito e até do grau de inteligência. Em alguns casos, passa logo. Em outros, vai junto para o caixão. Esse deve ser o meu caso.
Ainda era um guri, um menino na flor da idade, mas já contava tal idade através das décadas, quando convidei uma "amiga" para jantar. (Notaram as aspas? Pois é. Ela nunca foi e nunca será minha amiga. E o pior: nunca será, depois daquela fatídica noite, "amiga" também. Algo como aquele legume chamado Couve de Bruxelas, que não é couve, e muito menos de Bruxelas). Continuando: já no caminho para o restaurante comecei a exibição, afirmando que comia de tudo. Que comida para mim (já contei aqui, em outra ocasião, esta maravilhosa frase que aprendi com um tio), divide-se em três tipos: as que eu gosto, as que eu gosto muito, e as que eu simplesmente não resisto. Isso, a meu ver, impressiona as mulheres ao máximo. Elas devem me enxergar como um cara selvagem, forte, destemido, sem frescuras mas, ao mesmo tempo, requintado, porque, afinal, estávamos indo a um Restaurante Francês. Quem, exceto nós, os verdadeiros homens refinados, frequentam esse tipo de restaurante? Claro que para completar, contei também de algumas alergias que tenho. Mulher também gosta de ouvir sobre doença. Revelei que não podia com cerveja quente, tinha até convulsões só de pensar, e tomates. Sim, eles, vermelhos e bonitos. Esbeltos, prontos para terminar comigo. Morte aos tomates.
Pronto. Calculei que depois das revelações ela já estaria impressionada e bastaria, então, mostrar naturalidade no tal restaurante.
Chegou o garçom. Aqueles com cara do amigo-da-onça que têm os olhos semicerrados e sobrancelhas finas. Parou no meu lado. E ficou ali, como uma estátua de bronze: imóvel e frio. Peguei o cardápio e, para não errar na pronúncia, fui passando o dedo para que ele falasse o nome dos pratos. Nada. Fui descendo para o segundo, o terceiro, e nada. O cara mais calado que corinthiano falando de libertadores.
Começou a bater um desespero, minha "amiga" iria perceber que, além de não frequentar aquele lugar, não conhecia nada da culinária francesa e, pior de tudo, que eu era um grosso. Minha noite estava em perigo. Segui descendo o dedo, exclamei uns "talvez esse" e alguns "óhhh", até que parei e apertei onde estava escrito Bouillabaisse. Encarei aqueles olhos frios e sem piedade até que o homem falou em um francês irretocável. Algo como bui-a-des-ce. Sorri, repeti o nome com naturalidade e comentei que nosso jantar seria inesquecível. E foi.
Naquele instante, comecei a planejar coisas práticas, como no apartamento dela ou no meu, onde estava o preservativo, esses detalhes, enfim, naturais aos homens de sucesso entre as mulheres. 
Minha empolgação durou até a chegada do prato, que nada mais era do que uma sopa de tomates, sim, eles, tomates, com peixes.
Garçom idiota!

Dúvidas cruéis

Tenho problemas em identificar algumas coisas. Portas de banheiro (banheiro? WC, talvez), por exemplo, de bares ou restaurantes. Sou um fracasso. Nunca consigo lembrar se aquelas setinhas para o lado ou cruzinhas para baixo representam masculino ou feminino. Tem alguns lugares que ajudam pela objetividade: Homens e Mulheres. Sem dúvida alguma. Chega a ser intimidativo, mas, melhor assim. Bastante claros, também, são aqueles em que aparecem uma cartola e um leque, ou um agá gigante e um eme rosado. Perfeito.
Dia desses, fui a um lugar onde havia uma primeira porta, onde estava escrito Toilettes, e logo depois outras duas, que certamente eram a divisão entre varões e mulheres, com duas figuras fixadas bem na altura dos olhos, para determinar onde eu deveria ir: na primeira, uma sombrinha fechada e na outra, a mesma sombrinha, aberta. E quando digo a mesma, não é figura de linguagem. Não era somente a mesma estampa (floreada) sobre um fundo azul e outro rosa. Eram idênticas, as flores cor de telha e bege, sobre um fundo amarelo. O mesmo cabo, torneado com pequenos detalhes, flutuando no vácuo. A única diferença era que uma estava aberta e outra fechada.
Parei. Olhei. Voltei. Mas aí minha bexiga emitiu uma ordem expressa e colocou-me novamente frente a frente com as sombrinhas. "Não sou tão burro", pensei, tentando me iludir, "vou descobrir qual é o que" e comecei um exercício de análise: fechada, pode representar o falo. Aberta, pode representar a vagina pronta para receber o pênis. Mas aí, quando imaginei a sombrinha fechada penetrando na aberta e minha primeira conclusão foi por água abaixo. Especulei também sobre a possibilidade funcional: fechada, caso chovesse, o portador ficaria molhado. Aberta, ela protegeria o sujeito das intempéries climáticas. Ou seja, aberta representaria a mulher e sua sábia prudência. Fechada, o homem e seu histórico desleixo. Me dei conta, porém, que sombrinha não é o mesmo que guarda-chuva. Estaca zero.
Estaria eu frente a um enígma indecifrável? Seria eu tão ignóbil de não ser capaz de descobrir onde deveria fazer xixi? Minha bexiga iria aguentar? Pois justo quando dezenas de perguntas povoavam o meu vazio cerebral, recebi uma luz e, com ela, a solução de meu mórbido problema. Percebi que havia uma pessoa dentro de um dos cubículos. Bingo. Bastava esperar e ver o que sairia de lá. Agora, eu só dependia da capacidade da bexiga mesmo.
Enquanto apertava uma coxa contra a outra e ficava me admirando no espelho, pensando em como uma pessoa simples como eu achava a solução para os mais difíceis problemas em um piscar de olhos, ouvi um barulhinho de água corrente e disfarcei. Passei a mão nos cabelos, mexi em um cravo (já contei que acho aquela tripinha branca saindo sinuosa da face parecida com uma serpente?) e fixei os olhos, através do espelho, nas portas. Pois da sombrinha fechada sai um mulherão, linda, com um rosto forte, marcante, maquiada como se estivesse em uma festa, alta, de cabelos esvoaçantes, loiros e lisos, boca carnuda e um sorriso anunciando duas carreiras de dentes brancos e perfilados, que sorriram para mim. Foi um momento de êxtase, de compensação por aqueles minutos malfadados, além de uma espécie de prêmio por minha perspicácia intuitiva. Não aguentei, o instinto foi mais forte que eu, e virei-me abruptamente, tentando projetar meu peito à frente para mostrar mais músculos que tenho. Como meu gesto foi rápido e inesperado e ela estava indo em direção a pia, nossas bocas ficaram muito próximas e cheguei a sentir seu hálito de hortelã quando ela falou "oi".
Somente isso. Essa palavrinha, composta por duas vogais. Nada além. E sabe para que foi suficiente? Para lembrar do Willie Nelson e seu vozeirão. Juro. Ana Carolina tem voz fina perto  dela. Quando aquele grave todo invadiu meus ouvidos, os olhos pararam de "babar" e foram baixando vagarosamente da boca, passando pelo queixo e chegando no pescoço, onde tinha um gogó (o tal pomo-de-adão) maior que meu nariz.
Sabe que a frustração não foi não ter descoberto a mulher da minha vida? Foi, isto sim, por não saber qual sombrinha representa o quê. Se bem que eu nem precisei mais.
A partir desse dia, eu sempre ligo para os lugares onde pretendo ir e pergunto o que tem na porta do banheiro. Fora quase todas às vezes que desligam o telefone na minha cara, algumas outras o pessoal é bem simpático e diz algo como "trinco" ou "fechadura".
Na próxima vez vou na sombrinha aberta!