Feira do livro e a politicagem

Ontem foi a inauguração oficial da 54 Feira do Livro de Porto Alegre, a saber, a maior feira em céu aberto das américas. Um lugar onde dezenas de editoras e livrarias expõem exemplares com descontos de 20% sobre a capa. Ou seja, uma maravilha.

Mas nem tudo foram rosas, pelo menos na cerimônia de abertura. Tive vontade de vomitar, e explico o por quê.

Além de gafes, digamos, amadoras, como o cantor na interpretação do hino Nacional - Gelson Oliveira - que, além de ler, pulou um verso inteiro, (é aceitável que um cantor profissional (?), vá interpretar uma música somente - e ainda mais o hino - e sequer decore a letra?) , outras, que considero ainda piores, foram acontecendo. Só para se ter uma idéia: o sujeito do protocolo apresentou, sem exageros, o ex-governador presente ( Olívio Dutra - a quem ele chamou de governador), os deputados, o ex-patrono (Antônio Hohlfeldt, a quem surpreendentemente aplaudi de pé por seu discurso veemente contra os absurdos dos burocratas e politiqueiros de plantão, que estão prejudicando a feira), o merecidamente eleito patrono Charles Kiefer (que emocionou a todos com um breve relato de sua história), os secretários da Cultura do município (Sérgius Gonzaga - com um discurso que me fez sair das arquibancadas), e do estado (Mônica Leal - que, creiam, levou uma turminha para aplaudi-la quando seu nome fosse citado), o Suassuna, ovacionado com muito merecimento, presidentes de autarquias, ofice-boy de não sei quem e mais um monte de gente que absolutamente não tem nada a ver com cultura, e deixou de fora a Lya Luft, uma das mais prestigiadas escritoras brasileiras, que se fazia presente.

Fora isso, ver aqueles políticos se encostando nas celebridades para aparecerem nas fotografias, além das peruas (tinha uma com um broche que sustentava a Etiópia por 1 ano) que nunca leram nem o Pequeno Príncipe, dava nojo.

Os organizadores fizeram uma separação, como quem aparta gado, com uma cerca. Pro lado de dentro este povo que citei aí acima. No lado de fora os leitores. Aqueles que consomem arte. A irritação na platéia foi crescendo com a palhaçada que até alguns gritos e aplausos de protesto foram surgindo. Quando vi aquele brete criado para proteger as "autoridades" fiquei indignado, mas agora vejo que ele serviu foi para nos proteger desta gente. Pena que alguns como Kiefer, Suassuna e Lya Luft estavam no lado errado, mas tenho certeza que a vontade deles era pular a cerca e sair de lá, e só não fizeram por questões profissionais. Isso me deixou triste também: um escritor tem que receber tapinhas nas costas e abraços fingidos para sobreviver neste meio. Mas isso é outra história.
Enfim, onde deveria ter autores e leitores, tinha político, baba-ovo, perua e todo tipo de gente sem nenhuma ligação com a literatura. Não suporto mais este pessoal. Quando vejo estes politiqueiros tentando aparecer a qualquer custo, me sinto doente. Quando falei em vontade de vomitar, não foi uma figura de linguagem. Deu mesmo. Tenho medo de uma hora destas levar uns ovos ou tomates no bolso e mandar ver. É exatamente o que eles merecem. Essa gente que vá procurar sua turma. Que sumam. Do meu voto eles já sumiram.

Mas o que se deve fazer é ir em frente. Eles que fiquem com as fotos, os broches e os aplausos comprados. E nós com os livros.

14 comentários:

afobório disse...

bah, como gaúcho, não posso deixar de te aplaudir.

como leitor, não posso deixar de te elogiar pelo texto e pelo assunto.

como pessoa, não posso deixar de dizer que ainda bem que o mundo também tem pessoas promotoras do bem maior que é a consciência.

fez um bom trabalho aqui heim beto.
palmas, e que fique para todos uma lição de sabedoria, nem de amargor e nem de ignorância, mas de inteligência.

acho que esse tipo de post só vem a ajudar. uma bela e inteligente forma de promover a consciência.

e digo mais, precisamos aprender a usar da democracia e da nossa liberdade de pensar para promover um debate muito maior, não uma revolução, porque a guerra é desnecessária para a inteligência, mas sim um revolução cultural pessoal que parta de cada um de nós em direção aos outros, do individual para o geral, assim a sociedade produzirá cabeças capazes de produzir esse efeito, quem sabe não chegou a hora da literatura de blogue.

mais uma vez parabéns.


sorte e luz, porque enquanto você escreve o mundo responde.

Beto Canales disse...

Obrigado Afobório. É bom - muito bom - ler um comentário assim depois do mau humor que fiquei na sexta-feira, depois do evento. Mas é bem isso (se querem "apartar, que seja): nós com a literatura e eles com as futilidades.

Anônimo disse...

rsrsrsrsrs
adorei ler essa tua "espinafrada" como diria meu pai.

Vou postar no meu blog
http://lauramertenpeixoto.blogspot.com/
e linkar para o teu: Leia mais...

Abç

Beto Canales disse...

E eu adorei o termo: espinafrada é muito bom..... hehe

laura disse...

Oi Beto!
Manda as fotos dos túmulos?
laurapeixe@gmail.com

Vou postar. São tuas?

Coisa mais mórbida, né? rsrsrs

Robson disse...

Beto a pergunta que não quer calar...
- Nossa amiga Maitê estava por lá? não minta... hehehe

Beto Canales disse...

Rpbson, ela estava. Saímos pra jantar de novo.
Abração,

Cara de 30 disse...

Beto,

É isso que vem estragando o mercado editorial: muita politicagem. E o pior é que eles não precisam ser os "políticos profissionais", apenas achar que precisam fazer política dentro desse meio.

Quem paga a conta é sempre quem não quer se envolver e os leitores.

Adriano Queiroz disse...

Assino embaixo e jogo tomate junto.
Beto aqui na Bienal do livro acontecem patifarias parecidas.
Fui ver um debate com o Santiago Nazarian, escritor de livros para adultos e no máximo sua última obra para adolescentes; vc acredita que a Volkswagen, colocou ele num ambiente infantil, com um monte de crianças, eu mesmo sentei num pufe rosa pra assistir. O Nazarian como não tem papas na língua desceu o verbo e o evento acabou em quinze minutos. Absurdo! Isto é um desrespeito com o escritor e seus leitores. Nem se encarregaram de saber sobre o que o cara escrevia?
Chega de feira de livros pra inglês ver.

Jana disse...

Beto: tô contigo e não abro.
E sobre a idéia dos tomates, saiba que muito me interessei.
A próxima vez que eu for na Feira do Livro, passarei na fruteira antes.


Beijo
:)

afobório disse...

valeu beto, é bem isso.

sorte e luz.

Luiz Gonzaga disse...

Parece-me que o mundo literário hoje em dia é feito de três classes: os escritores, os leitores e os palhaços.
Interessante é não deixar que essas classes se confundam. Abç, cara.

Adriano Queiroz disse...

Beto, gostei muito do conto no 3:AM. O final ficou ótimo.
As pervesões são fascinantes e destruidoras. O excesso, o extremismo, sufocam e dá no que dá.
Parabéns.

Abraços.

felipe lima disse...

È aquele velho assunto que abordamos - ainda que indiretamente: a mediocridade de tudo.
Tudo tão superficial, tão decadente que dá mesmo náusea.
E como você bem disse, não é figura de linguagem não, é físico; o corpo rejeita.
Um grande abraço, Canales. E muitíssimo obrigado por tudo.