A lição da dona Coca

Sempre por esta época, compramos algumas coisas e levamos até uma família muito pobre. Faz alguns anos que este ato se repete. São pessoas que moram em um casebre, ao lado de uma estrada de chão, sete filhos e um casal. Não sei o que fazem, se fazem, e apenas este ano descobri o nome da mulher: Coca.

Como sempre, chegamos de carro, meu menino sai em meio as crianças e cachorros, abrimos o porta-malas e ele distribui os presentes. Um para cada criança. Desta vez levamos, além de pacotes de doces para os sete pequenos, duas fartas sacolas de alimentos e mais um saco cheio de brinquedos, descartados pelo meu filho. Para não haver confusão (na verdade nunca houve), depois dos pacotes individuais, foi dito para que ela distribuisse os brinquedos entre os filhos e que a comida era para a família toda. Sem demora, ela virou-se para a frente do casebre, apontou para uma outra mulher e disse:

- Minha irmã. Posso dividir com ela?

Certa vez, ela comentou que todos os anos eles nos esperavam. Isso fazia-me pensar ser generoso, bondoso. Enfim, depois de sairmos daquele lugar, eu sentia um certo alívio, uma estranha sensação de felicidade, de dever cumprido. Desta vez foi diferente, porém. Não senti isso.

E acredito ser simples o que aconteceu. O que fazemos claro que é algo bom, saudável, essas coisas todas, mas não é generoso. Dona Coca entende disso, ela sim é generosa: repartir com a irmã aquilo que nem para os seus próprios filhos é suficiente. Isso deixou-me impressionado. Mais donas Cocas por aí e estaríamos com uma vida muito melhor, todos nós, mesmos aqueles que não enxergam, ou não querem, o que acontece à margem.

O que fiz, agora compreendo, além de pouco, claro, é obrigação. Isso pode ser pesado, mas é o que penso. Independentemente em quem votamos, ou se votamos; se somos capitalistas, comunistas ou nem aí para isso; se oramos ou desdenhamos para um deus qualquer ou não temos nenhum; se somos ricos, pobres ou médios; azuis, roxos ou verdes ou de qualquer outra coisa, temos a obrigação de ajudar a quem excluímos. Esta gente não pode morrer de fome enquanto desperdiçamos proteínas. Essa gente precisa ser gente. Precisa de nós. E nós deles, pelo menos para nos ensinar o que é generosidade.

Obrigado, dona Coca, e até breve.




8 comentários:

Letícia Palmeira disse...

Certas pessoas ensinam com pequenos gestos. Tem gente que grita e não diz nada. Mas a sua atitude é de generosidade, Beto. Você saiu de casa com seu filho e poderia estar fazendo outra coisa qualquer. Seu gesto é de bondade. São poucos os que fazem isso. E como você disse. Não importa o credo ou valor político que se tenha. Precisamos dessas pessoas e elas nos ensinam sim.

Beijos.

Adriano Queiroz disse...

A Madre Teresa de Calcutá mandou um recado pra vc: "O que eu faço, é uma gota no meio de um oceano. Mas sem ela, o oceano será menor."
Lindo gesto.

Abraço.

Jana disse...

E se houvessem mais Betos, o mundo também seria melhor.
Penso que faço o que posso, mas sei que poderia fazer muito mais.

Grande abraço, meu amigo!
Desculpe o sumiço, e os meus mais sinceros votos de prosperidade e amor.

Até.

Biba disse...

É tão consolador saber que existe generosidade, a sua, a dela, a de quem ama o seu semelhante e faz algo por ele. Você ensina valores essenciais ao seu filho com essa lição de vida. É muito terno isso.
Bju,
Carpe Diem, mais do que nunca!

Vâmvú disse...

Linda mensagem, Beto, lindo gesto. Quem dera existissem mais Donas Cocas por esse Brasil e pelo mundo também.
Como disse nosso amigo Adriano, uma gota apenas nesse oceano, mas uma gota é muito.
Parabéns!
Um 2009 maravilhoso pra vc e sua familia.
Abração

Zailda disse...

Fui lendo e fui ficando arrepiada, porque quando leio ou vejo algo muito bonito me arrepio toda. Seu gesto é belo, sem dúvida e longe de tirar-lhe o mérito, acho ótimo que o tenha exposto aqui, quem sabe serve de inspiração para outros fazerem o mesmo, ou o que esteja a seu alcance.
A lição da Dona Coca me arrepiou e emocionou, com certeza digna de admiração, menção honrosa ou qualquer coisa assim. Dividir um pouco do muito que conseguimos é fácil, mas dividir o que não é suficiente nem para nossa sobrevivência é coisa para espíritos iluminados.
Valeu a lição da Dona Coca que você dividiu conosco.

Luiz Calcagno disse...

Essa doeu, mas de um modo construtivo. Vou tentar compartilhar mais, sabia? Obrigado, dona Coca.

Anônimo disse...

tem gente qui cresci i nao fica amaduresida.é pena qui as pessoas tenha qui presensiar ou vivensiar essas situaçoes para apredender qui o que importa nao sao as coisas materiais mais ssim as pessoas qui nos rodeiam. ajudar aquela mulher te fes verdadeiramente felis , como pode vc aprender humanidade com uma pessoas totaumente sem cultura, mas com coraçao de sobra.