Sobre conceitos, preconceitos e palavrões (ainda)

Existe algo interessante quando criticamos arte em geral, uma espécie de código de conduta, de bons modos, que passeiam entre a crítica voraz (e por vezes vazia) feita por entendidos, até aquela feita por um leigo, sem pretensão alguma de que a opinião seja debatida ou estudada. Algo tão superficial como "o bife está duro" que não deixa dúvida, não requer nenhum tipo de contraponto. Resumindo: ela não tem continuação. Termina no ponto final. É sobre essa que desejo falar.
Por exemplo, é perfeitamente permitido, ao ouvir um pagode, qualquer um, pois são todos iguais, afirmarmos:
- Que música feia. - Ou sairmos do cinema com aquela sensação de dinheiro posto fora e, desanimados, comentarmos:
- Que abacaxi. - Qualquer uma das afirmações podem (e devem) sofrer algum contraponto, uma réplica, mas certamente de maneira também informal, do tipo "Áh, eu gostei".
Mas, arrisque-se e experimente fazer algo parecido dentro de um museu, frente a um quadro qualquer. Pare, respire fundo e diga:
- Quadro feio! - Pronto, somente isso. Garanto que o mínimo que irá ouvir é algo como "tente fazer igual", porque, fique certo, dirão que você não entendeu o que o artista quis representar, que não captou a mensagem ou que não entende absolutamente nada de arte.
É estranho. Se eu não gosto do pagode, ninguém dirá que eu não consigo "fazer" uma música daquelas. (E nem gostaria) Mas, nas artes plásticas, este detalhe parece desautorizar. Também acredito que não precisa ser um estudioso musical, um maestro, para ter o gosto. Mais ainda: se o autor tinha levado um par de chifres ou fez em uma mesa de bar regado a muita cerveja, definitivamente não interessa para minha apreciação. Então, porque posso desgostar de uma música (ou filme) sem maiores explicações e não posso fazer isso com as artes plásticas, ou, sendo mais abrangente, com a arte contemporânea?
Afirmo, sem medo: existem alguns trabalhos considerados artísticos, que foram expostos na Bienal do Mercosul, por exemplo, que são horrorosos. Inclusive tenho uma maneira bem sensata de analisar (respeitando tamanho e forma, naturalmente) com uma simples pergunta:
- Você colocaria em sua sala?
Tudo isso para uma análise sobre o palavrão do Inácio. Não interessa, por exemplo, se um cozinheiro quando criança tenha vivido no meio do lixo sem higiene alguma. A partir do momento que ele evoluiu, cresceu, assumiu uma profissão, tem que respeitar o novo posto. Seria aceitável que ele não lavasse as mãos por ter vivido assim em uma favela? Você aprovaria sua comida feita sem a higiene necessária porque a infância dele foi assim? Pois digo o mesmo ao Inácio. Pouco me interessa sua origem e o quanto estudou ou deixou de estudar. Interessa que na função que ocupa, falar palavrão porque "é do povo" é o mesmo que o cozinheiro não lavar as mãos. Sempre pensei que apenas dizer que "nome feio" é feio (e por isso não gosto, como alguns trabalhos das artes plásticas) seria o suficiente, mas, pela repercussão fantástica que o tema teve, fiz este texto.
Sabe o que mais? Que bosta mesmo. Cansei disso. Ponto final.

PS. Acima, uma obra vendida por alguns milhões de dólares do inglês Damien Hirst.

3 comentários:

Fabrício Romano disse...

Concordo. Se você é competente no que se propõe a fazer, pro inferno com esse treco de "origem humilde". Você não ouve falar: O fulano de tal, que nasceu num bairro grã-fino, venceu na vida. Parece que ser ou ter sido pobre é um mérito divino.

Cisticerco disse...

A pintura (quadros) não tem sentido para quem as vê. Só tem sentido para quem as pinta.
E gênio não é quem pinta, e sim quem descobre a arte. Pintar todos pintam. Mas no dia que alguém virar e dizer: "nossa, isso é fantástico!" Pronto... muitos concordaram com isso...
A arte está em pintar, escrever, desenhar, talhar, para nós mesmos. Porque a arte está dentro dos nossos sentimentos, dos nossos desejo, de nossas vidas. Para ser um artista, é necessário sentimentos. Dor, raiva, amor, tristeza, alegria e desepero... são eles que desenham os traços, que escrevem as linhas, que escolhem as cores, que conduzem nossas mãos pelos caminhos suaves e muitas vezes dolorosos da arte.

"Considero minhas obras como cartas que escrevi a posteridade, sem esperar respostas" (Villa Lobos)

Anônimo disse...

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