Confesso: sempre fui um admirador do cinema argentino.
Fui ver O Segredo dos Seus Olhos (direção de Juan Campanella) e saí do cinema com várias certezas. A primeira delas é que minha admiração não é à toa. Nossos queridos hermanos fazem cinema com a mesma facilidade que Maradona fazia estrepolias com a bola nos campos de futebol mundo afora. Eles estão, sem dúvida alguma, um pouco adiante do que nós - brasileiros da área cinematográfica, mergulhados em soberba - em se tratando da belíssima sétima arte. Conseguem, com pouquíssimos recursos, filmes de primeira linha, candidatos ao que há de melhor a nível mundial.
O Segredo dos seus olhos tem de tudo: humor, drama, romance, suspense, crime, amor, amizade, política, crítica, dor e literatura. É verdade que não tem gente explodindo, corrida de carros nem luta de espadas, mas, mesmo assim, é um filme completo.
As mais de duas horas passam como poucos minutos e as interpretações, principalmente de Soledad Villamil (linda, madura e perfeita), conduzem a trama de forma espetacular. Ricardo Darín, o protagonista, também não deixa por menos e cria um personagem complexo e humano, tornando o espectador um cúmplice, fazendo de seu próprio desejo o querer de todos. Essa aliança traz excelentes resultados e torna o que já era ótimo em algo ainda melhor.
O mais interessante é que um dos fatores responsáveis pelo sucesso do filme é algo simples: isso mesmo, a simplicidade. A montagem, o roteiro e a direção, apesar de espetaculares, são o básico, o legítimo feijão com arroz. Acreditem, esse é o segredo para uma obra inigualável. Claro que a diversidade, ressaltada acima, contribui de maneira contundente, mas sem a maneira "argentina" de fazer cinema, que adota o simples como guia mestra, toda essa riqueza poderia estar em risco de não produzir essa verdadeira obra-prima.
Caso O segredo dos seus olhos não ganhe o Oscar, não bradarei por justiça, pois o motivo será a maquiagem, principalmente nas cenas finais do filme (do assassino e de seu carcereiro, a vítima), que deixou muito a desejar. Muito mesmo, infelizmente. É um daqueles detalhes que podem por um projeto vencedor no inaceitável segundo lugar. Uma lástima.
E, para terminar, apenas mais duas certezas: uma é que ele entra para minha lista dos três melhores filmes (um rol onde para entrar um, outro tem que sair), tirando o lugar do fantástico O Lutador, fazendo companhia a Bastardos Inglórios e Inconscientes; e outra é que este filme não pode ficar sem ser visto, portanto, ao cinema aplaudir nossos vizinhos. E, de preferência, aprender com eles.


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