Projetos


Eu gosto de observar os outros. Acho engraçado. E gosto de me observar. É mais risível ainda. As pessoas projetam os acontecimentos conforme gostos e preferências. Isso pode ser notado principalmente em pais "corujas". Basta uma criança rabiscar uma parede que vem a sentença: será arquiteto! Dá dois chutes em uma pedra no meio da rua, provavelmente será jogador de futebol. Meu filho, por exemplo, tem uma letra horrível. Médico, sem dúvida. (Se bem que não é dia desses ele estava batucando na mesa. Músico, portanto. Ou os dois, sendo ainda mais lógico).
Essa projeção acontece em todos os planos. Desde uma simples compra no armazém até quando educamos uma criança. Acredito que faça parte das pessoas, do seu caráter. Algo como uma ambição saudável. Pensando nisso, comecei a lembrar de projetos que fiz para mim mesmo, desde os importantes até os mais supérfluos, mas, na verdade, não menos importantes, e cheguei a conclusões interessantes a respeito de coisas que não existem. Assovio com dois dedos na boca, por exemplo. Sabem aquele em que o suposto assoviador coloca os dedos e emite um som alto e estridente? Pois é. Aquilo tudo é falso. Montagem, mágica, sobrenatural, chamem do que quiserem, menos de assovio. Ou assobio. Sabem por quê? Porque não é possível, diante das leis da física. Colocando deliberadamente dois dedos nos cantos da boca e soprando para fora a única coisa a ser produzida é baba, golesma, cuspe. Comprovado de maneira científica através da estatística. Eu tento há décadas fazer isso e 100% das vezes foram falhas. Ou seja, é impossível. Como estatística é uma ciência, esta é uma prova técnica e irrefutável da impossibilidade desse tipo de silvo emitido pela boca e dedos existir. Pronto, menos uma frustração.
Tive, claro, outros projetos além de aprender a fazer o impossível, que era fazer o que os outros faziam. Um menino, que nem colega de colégio era, magro, feio e chato, levantava a bola de futebol puxando com um pé por cima do outro e, como se a bola estivesse amarrada em seu tornozelo, ia para trás chegando até seu calcanhar. Sem virar ou olhar, com um pequeno movimento do calcanhar, ele fazia a bola retornar à sua frente por cima da cabeça. Fazia isso quantas vezes queria. E o mais irritante é que ele sempre queria. Eu e meus amigos normais ficamos quase meio ano tentando e nada de conseguir. Na verdade, conquistamos alguns machucados nos joelhos, somente, mas resolvemos o problema: se o chato e exibido fizesse de novo levaria uma surra. Se contasse à alguém, outra surra. Se nos ganhasse no futebol, surra.  Resolvido meu projeto falho. Se ele não fizesse mais, não teria motivos para a decepção. (Cá entre nós: teria o menino alguma pretensão de ser jogador de futebol que ficou escondida junto ao medo? Alguém conhece um jogador aposentado magro, feio e chato chamado Simão?)
Enfim, o fato é que não somos o que projetamos. Nem nós, nem os nossos. E isso é o normal, já que na maioria das vezes os projetos são inócuos, impossíveis ou simplesmente errados.
Nem tudo, porém, foi um fracasso na minha infância. Por exemplo, eu soltava pum e arrotava ao mesmo tempo e com a mesma sonoridade. Até hoje consigo essa proeza. Quer ver? Acha que é fácil? Fácil é assobiar ou fazer firulas com uma bola.
Odeio o Simão.
Se um dia ele tivesse assoviado, eu o mataria.

Sem palavras



Não tenho a intenção de usar vídeos, músicas ou qualquer outro recurso neste espaço. Não é este o propósito. Tenho, porém, que dar a mão à palmatória. Este vídeo aí abaixo reproduz de forma irônica o que eu sempre quis dizer. Mostra - indo um pouquinho mais longe na interpretação - que temos à disposição um instrumento fantástico, com potência e capacidade singulares que fica cada vez mais "de lado", literalmente abandonado. 
Enfim, minhas desculpas pelo "modernismo" de postar um vídeo, mas creio que o conteúdo justificará  minha ação.
Sem palavras? (quero ver se um dia eu postar algo com o título "Com Palavras".


As respostas e os políticos

Têm respostas, por vezes de uma só palavra, que definem tudo, ou quase tudo. Tornam evidente ideologias, posições políticas, crenças e tendências. Definem ali, na hora, se o sujeito é aristotélico ou platônico. (A meu ver, as duas únicas correntes que dividem a humanidade desde a Grécia Antiga).
Em Canindé, sertão do Ceará, uma pequena cidade onde está localizada a Basílica (isso mesmo, uma Basílica) de São Francisco das Chagas e o maior monumento religioso do mundo de acordo com a prefeitura, uma estátua de 30,25 metros, eu tive um bom exemplo de resposta reveladora.  Lá estava eu de pescoço duro tentando encarar o rosto santo quando um menino franzino de expressão alegre me pediu um trocado. Olhei para baixo e perguntei:
- O São Francisco é bom pra você? - Disse a frase com uma certa ironia escondida, algo como que se o santo realmente o estivesse protegendo ou ajudando, não seria preciso ele estar ali. Sem rodeios e sério, ele respondeu:
- É bom sim.
- Por quê?
- Porque ele traz turistas. - Pronto. Matou a charada. Eu, àquela altura dos acontecimentos, era a graça que ele recebia. Nem vou dissertar sobre as posições religiosas do menino, mas fica evidente sua posição, seu pragmatismo. Este fato corrobora com minha teoria de que religião  nada mais é do um ótimo negócio. Possivelmente um dos mais lucrativos. Mas, como isso é outra história, vamos a uma espécie de anedota para ilustrar melhor o que falo. O Pajé da tribo morreu. Os indiozinhos perguntaram ao seu sucessor se o inverno seria frio. Ouviram que seria e foram todos rapidamente buscar lenha. O substituto, inseguro e com medo do erro, liga (tribo moderna) a um meteorologista e confirma o que disse. Sim, vai ser gelado. Acontece tudo novamente, os indiozinhos perguntando e indo buscar lenha e a ligação. E de novo. E de novo. Até que na última ligação, curioso, há o seguinte diálogo:
- Vai ser frio mesmo?
- Vai sim - responde o homem do tempo.
- Mas, me diga, como o senhor tem certeza disso? - Pergunta o índio.
- Olha, se você visse a quantidade de lenha que os indiozinhos estão armazenando também não teria dúvidas. - Fim.
Não é interessante? A causa justificando a consequência e vice-versa.
Respostas! Elas desnudam o mais bem vestidos e protegidos dos homens. Elas revelam o que nem mesmo o próprio sujeito sabe, elas descobrem mistérios e contam segredos. Elas mostram o que somos.
Contei isso para mostrar a solução de um enigma, já que estamos prestes ao horror eleitoral. Qual a razão dos políticos não responderem o que foi perguntado? Minha tese pode (e deve) ser falha, mas explica o motivo de tanta falsidade, enrolação e conversa mole. Eles não respondem nada para não mostrarem quem são, o que pensam, o que realmente pretendem. Simples como anular o voto.
E assim segue o ciclo: nós perguntamos, eles não respondem e continuamos sem conhecê-los. Somente o resultado desastrado dessa torpe relação é notoriamente público. Sai nos jornais quase que diariamente.
Minha resposta de uma só palavra, mesmo sem pergunta, para essa gente: Não!

Derrotado?

Fui vencido.
Não por um herói ou um bandido qualquer. Não em um jogo ou disputa. Não por uma pessoa. 
Fui vencido pelo sistema. Pelo governo, com sua ganância exacerbada e notória falta de escrúpulos; pelo judiciário incompetente, lerdo e injusto; pelo parlamento com seus acordos, jeitinhos e roubos; pelas polícias, truculentas, assassinas e ineficientes; pelas mega-empresas e corporações, com suas híper-falcatruas e incompetências; pelas igrejas, que parecem um banco ao contrário e não menos perversas; e pelos bancos, que fazem do lucro fácil e a qualquer custo sua religião.
Fui vencido.
Por essa turma aí de cima, que colocou trinta anos de trabalho fora. Do meu trabalho, claro. Puseram embaixo do tapete peludo e caro que eles pisam com seus sapatos italianos uma história inteira, uma vida. Essa turma que ri de mim, de ti, de nós. Que debocham, ironizam e vomitam em nossas críticas, em nossas esperanças. E, caso algum deles escute algo, vai de férias à Paris até esquecer. É assim. Sempre foi assim.
Fui vencido.
Pela engrenagem estúpida e maquiavélica da burocracia. Pelos prédios grandes e ostensivos com seus vidros negros. Pelos símbolos que sempre me mostraram. Pelas bandeiras, pelos hinos, pelos votos. Pelo meu voto, que um dia acreditei que melhoraria algo. O voto não vale nada sem ter em quem votar. E parece que nunca tivemos.
Fui vencido.
Pela ditadura de antes e pela democracia de agora. Pelo fato de que a diferença dos dois parece ser apenas que agora podemos chamar o ladrão de ladrão. Mas, como antes, todos continuam soltos.
Fui vencido.
Por que o larápio (não esse que rouba uma galinha ou um pacote de arroz, mas o que rouba a merenda escolar, o dinheiro do hospital), tem os melhores médicos, carros, as melhores casas e as mais gostosas comidas.
Fui vencido por que o brilho do ouro é mais importante que uma criança bem alimentada. Por que ganhar um voto não é o mesmo que ganhar um admirador. Porque tudo é negociata. Dinheiro. Poder.
Fui vencido pelo poder. Pelo podre. Pelo mau.
Fui vencido por ser honesto e não capitular. 
Vencido de consciência tranquila, se é que isso faz alguma diferença.
É claro que perder não é feio e faz parte da vida. É evidente que em um jogo sempre que alguém ganha outro perde. Mas esta é a questão: não há jogo, não há disputa. Não há nada além do que o dinheiro pode comprar. Não há, portanto.
Fui vencido onde não existem vencedores, somente néscios.
Fui vencido sem ser derrotado!