Abacates Verdes Escritos

Uma das muitas bobagens que sempre digo, ou dizia, é que eu escrevo sobre qualquer coisa. Afirmava e imediatamente minha mente começava a se preparar para um desafio. Alguém vai dizer: - Ah é? Então fale sobre abacates! - Eu já tinha (e tenho) uns duzentos textos sobre esta fruta. Abacates assassinos!, O Verde da esperança de um abacate!, Abacate em árvores menores já! e assim por diante. Mas, o mundo é cruel, e ninguém foi tão estúpido quanto eu para propor algo assim e agora tenho, ocupando algum espaço em um lugar já pequeno, todas essas histórias inúteis. Imagino se tivesse acontecido esse devaneio: eu sorriria, (com um lado só da boca), e, para humilhar, perguntaria: - prosa? ação, romance, aventura? Poesia? Lírica, social, existencial? Escolha, qualquer coisa menos receita. - Era ouvir a escolha e ploft, saborear o doce sabor da vitória.
Mas não foi assim que aconteceu. Além de ninguém aceitar ou propor qualquer desafio ridículo assim, pelo menos não levei nenhuma xingada por isso, apesar de merecer. Quanta bobagem! Dia desses li a definição para as pessoas mais curta e séria que existe: homem é bobo e mulher é chata. Isso está corretíssimo mas eu entrei na fila duas vezes. E, além de duplamente bobo, sou pretensioso. Como poderia escrever sobre qualquer coisa? Como escrever o que não sei? Ou seja, não consigo sobre a maioria das coisas. Meu limite é o meu conhecimento. Claro que a ficção me permite uns avanços, mas daquilo que não sei não posso, e não devo, falar. Posso criar um mundo qualquer mas, a partir daí, eu o saberei, já que seria minha criação. Então, a ficção é sobre o que conheço, também. Pronto. "Me desmascarei".
Enfim, se precisarem de textos sobre abacates contem comigo. Já provaram com sal? Fica ótimo.
Resumo: abacate é verde, homem bobo e mulher chata! (Será que um homem chato vira veado? e uma mulher boba lésbica?)



Terça à noite



Já que ontem comparei comida com música, hoje não vou me permitir comparar um show com outro. Então, primeiro o que não foi bom: Na Ozzetti e Nei Lisboa não tinham 'liga'. Parece que estavam em espetáculos diferentes. Ele, na maioria das vezes que esteve sem violão, cantando com as mãos para trás ou até - pasmem - de braços cruzados e ela, tentando ser simpática, mas olhando somente em frente, em nenhum momento virou o rosto para olhar toda a platéia, não tiveram, digamos, uma boa performance corporal. A simpatia também não foi o ponto forte. Àquela relação quase libidinosa que rola em shows desse tipo com o público não aconteceu. Na verdade, relação nenhuma. O mais grave, imaginem um - sei lá - motorista profissional a 100km/h olhar para o caroneiro e perguntar: "Pra que serve mesmo o pedal do meio?" - Ou um médico antes da anestesia: "Vamos tirar o que?" Certamente nada disso seria aceitável. Ou seja, nenhum profissional tem o direito de esquecer seu trabalho quando está em plena função. Pois Na esqueceu a letra e não foi uma vez, nem duas e sim três vezes. Em umas no máximo 15 músicas. Isso quer dizer, 20% do que deveria cantar. Pior que os "brancos" são os aplausos da platéia. Queria vê-los aplaudirem o motorista desmemoriado. De ruim mesmo, só mais uma coisa: o músico que acompanhava Na não era profissional. Também ficou 'perdido' algumas vezes, além de mudar de tom sem razão ou mesmo sem ser intencional. Mais um detalhezinho: a segunda ou terceira música do show, a letra diz e repete algo como "este samba que fiz pra você" e não era um samba. Juro que não entendi.
Bom, provavelmente agora que já me vinguei no mau humor de Nei, vamos lá: o espetáculo mostrou praticamente todos os sucessos do nosso Lisboa com muita qualidade musical. O guitarrista era muito bom e o tecladista - a propósito, destruam todos os teclados do mundo e deixem somente os pianos - também e, claro, o chefe não decepcionou com o violão.
Na cantou músicas inéditas e lindas, além de melodias encarnadas por Carmem Miranda com maestria. A voz dela é algo que impressiona. Se estivesse melhor acompanhada, seria fantástico. A mulher é boa, indiscutivelmente. Basta esquecer a amnésia.
Bem, em um final de análise, eu diria que a vaca não foi pro brejo, mas ficou ali por perto, só pastando.
Imagino por que não comparei com ontem, mas não vou falar.

Segunda à noite

Na eterna luta "alimentação saudável" x "não gosto de nada", certa vez um tio disse a meu filho - obviamente da turma do paladar requintado - que existem três tipos de comidas: as que ele gosta; as que ele gosta muito e por fim as que são simplesmente irresistíveis. Claro que não preciso dizer que o peso dele está um pouquinho acima dos padrões das Lojas Renner, mas, para o que nos interessa aqui, isso é irrelevante. O que pretendo resgatar é a objetividade, a simplicidade. É um caso comum de raciocínio lógico: se preciso comer, então vou gostar de tudo, e, já que gosto de tudo, vou comer . Neste universo, batatas fritas e brócolis entram em escalas diferentes mas muito próximos: provavelmente o vegetal ele goste e as batatas francesas goste muito. Ou abobrinha com xuxu e bacalhau a Gomes de Sá. Abobrinha na primeira situação e o bacalhau nas comidas irresistíveis. Há lugar para todos os alimentos serem classificados , mesmo os de sabores mais exóticos aos mais requintados, todos muito próximos mas resguardando as diferenças.
Isso tudo para falar de Jorge Drexler e as músicas de seu show que também são três tipos, da mesma forma em que foram divididos os alimentos: as boas, as muito boas e as simplesmente fantásticas. A diferença é que "não temos" que ouvir, fazemos isso por opção, o que torna tudo ainda melhor. Mesmo com algumas canções extremamente diferentes, havia lugar para todas. A calma de algumas melodias, a tranquilidade da voz e dos bem cuidados acordes no violão são um exagero que, por vezes, davam lugar a algo que parecia até uma batida flamenca, que lembra remotamente a batida forte de Granada, mas em seguida uma nova melodia acariciaria novamente nossa audição.
É incrível, mas o silêncio produz um dos mais marcantes momentos. Em Guitarra Y Vos o brake é maravilhoso. A melodia, depois dele, é captada por meus ouvidos através de ondas e expelida (tudo bem que eu choro até em propaganda de creme dental) pelos olhos através de lágrimas. A qualidade musical e o arranjo são indiscutíveis e emocionantes.
Em certo momento, é convidado a partilhar o palco, o irmão de Kleiton e Kledir: Vitor Ramil. O cara entra no clima de simpatia do uruguaio e torna tudo ainda mais relaxante. Nesta hora, parecia que havia tomado um Lexotan. Para não faltar com a verdade, admito que não gosto do que Vitor escreve. Considero, por vezes, quase infantil e chato. Mas, mão à palmatória, o sujeito entra como uma luva no espetáculo. Canta, toca e conversa bem. Os dois interpretam músicas como Eco de maneira irretocável. A partir de ontem, Kleiton e Kledir passam a ser os irmãos de Vitor.
Resumindo: Drexler não merecia somente ganhar um oscar, deveria ter ganhado também o direito de interpretar sua música. Não é somente o som que ele produz que é de qualidade.

Não critiquem o Cauby


É muito grande nossa necessidade de ídolos. Precisamos mentir para nos sentirmos seguros. Aqui no sul, por exemplo, colocamos glórias em uma guerra (duvido que qualquer uma tenha) e comemoramos apesar de termos sido derrotados. Traímos, matamos, fomos covardes, perdemos e mesmo assim a festejamos. E por quê? Porque precisamos disso. Nossos ídolos são imunes a tudo. Pode ser desde um pedaço de madeira representando a imagem de algum santo até um cantor de comportamento comprometedor ou um piloto de corridas. Não interessa, repito: precisamos deles. Andamos por quilômetros atrás de uma estátua, por vezes de joelhos ou com os filhos fantasiados de anjos, da mesma forma como choramos por meses a morte de Airton Senna (um piloto que certo dia venceu e colocou uma bandeira do Brasil ao vento pra zoar um amigo sobre futebol), ou reverenciamos a Cazuza (ele mesmo, que tudo de bom que produziu na vida foram algumas letras muito boas, além de alguns porres, orgias e inúmeras drogadições) como fossem um exemplo a seguir. Creio que por essa cultura é que a crítica - pelo menos a quem nos identificamos, gostamos ou votamos, é proibida.
Infelizmente este comportamento é transferido para a política. E falo da esquerda, que conheço um pouquinho melhor. Mas antes, um esclarecimento: nosso governo, quando eleito, eu chamava de Governo Lula, que era - ou deveria ser - de essência socialista. O de hoje, chamarei de Governo Inácio, que é esta fórmula estranha que está aí. Pois o que vinha afirmando é que parece não nos ser permitido criticar o Governo Inácio, caso tenha votado nele ou, mais grave ainda, caso seja do PT. Creio que da mesma forma como deve-se elogiar o que há de bom - e não é pouca coisa - deveríamos ter a obrigação de criticar o que há de ruim - que também não é pouco. Mas não acontece assim. Inácio (ou seu vice) vão à TV e dizem com todas as letras: - Isso que está acontecendo no Brasil é um absurdo... ou: - os juros neste país são uma extorsão - como se fossem oposição e não tivessem responsabilidade sobre o que falam. Seria mais ou menos eu bradar: "que texto mal escrito este, que coisa horrível (o que provavelmente seja verdade)" como se a obrigação de arrumá-lo ou produzir uma crônica melhor não fosse minha - e nada de críticas a eles. Isso beira ao ridículo, mas não se fala nada. Ou nosso competente ministro da Saúde, Temporão (poderia ser Temporada - para nosso bem), afirmar em horário nobre que não vai falar o que pensa sobre um assunto de saúde pública por que a mãe dele o xingou. Nem Inácio o demitiu e muito menos falou-se a respeito. Tudo normal: uma carola intervém em um assunto de saúde pública por ser mãe de ministro e nada acontece e nada se diz. Poderia citar inúmeros casos, como o Genuíno, a dançarina e tantas atitudes idênticas as da direita, que são comuns hoje em dia, e passam "desapercebidas" pela opinião dos petistas e simpatizantes. Sempre fui de esquerda e a impressão que tenho é que vou cada vez mais para lá. Mas é um engano: todo o resto está indo para a direita, eu estou no mesmo lugar. Esse salvo-conduto aos erros dos que elegemos às críticas, colocam esses que ficam em silêncio muito perto da direita. Uma distância assustadora de tão pequena. E as conseqüências não são imprevisíveis. São catastróficas.
Ando com saudade de xingar alguém, mas agora que meus leitores cresceram 400% - agora são cinco - é melhor ficar quieto, afinal posso atacar algum ídolo de alguém. Melhor falar mal do Bush, que é de fora, mas, sei lá, melhor não... a 4ª frota vem aí!
Putz, estão cerceando minha liberdade, mas, para o bem da minha consciência, vou continuar com minhas críticas (e os elogios) ao Inácio.

Um só leitor

Descobri que é bom ter blog, e melhor ainda com um só leitor. A liberdade é imensa, pode-se escrever absolutamente tudo, desde que o leitor (no singular, não no sentido de abrangência, mas sim para definir a unidade) não se sinta ofendido. Pensei em começar este texto com um palavrão: Putaqueospariu!, mas desisti. Gosto de viver perigosamente, então, vou falar de nosso querido ministro em evidência e inticar com meu público. Por sinal, já votei nele, na filha e tudo mais. Inclusive quando o valoroso ministro pôs uma bola nas costas do Bigode não deixei de prestigiá-lo. Pois agora, depois da prisão do Daniel Dantas, as coisas ficaram estranhas. O sujeito mudou em uma semana o que não havia mudado em uma década. De dois dias atrás para cá, já levou xingada do benevolente Gilmar Mendes, que o chamou de incompetente, do advogado do banqueiro, que disse que ele fez papel de palhaço e prejudicou o seu cliente, e do senhor Presidente, que consultou o antecessor a respeito da dispensa dos delegados envolvidos no caso e além disso passou um pito. Nem vou entrar nesta questão, por que afinal, crer que todos os prestigiosos delegados tiveram na mesma hora e mesma ideia e não foram pressionados para isso é fácil, basta acreditar em Papai Noel e pronto. Mas a intenção não é criticar tudo isso. É simples: já que posso escrever o que tenho vontade, e já que tá na moda xingar o ministro da Justiça (?), é isso que vou fazer: Tarso, vai à merda, seu babaca. Pára de falar como o Busato, daquela maneira 'peremptória', dando a impressão que é um ditador e não um ministro. Humildade não é defeito, bobalhão.
Pronto. Estou mais leve.
Só mais um detalhe: ontem vi três caras deitados no chão, somente de bermudas (sem armas, portanto), com as mãos algemadas pra trás. E não vi nenhum ministro reclamar disso. Estranho, novamente. Os de casaco em punho, ou sobre os punhos, chamam muita atenção, a ponto do senhor ministro do supremo condenar a violência, e, agora e somente agora, depois dos "xixis", o nosso glorioso Ministro Tarso concordar. Viva a república!

Amigos amigos!

O banqueiro avisou: "No supremo não terei problemas". Surpresa por quê?
Isso tudo me levou a pensar no significado de várias coisas. Por exemplo: O que realmente importa? Honestidade é uma coisa que devemos ter somente para não irmos presos?
Parece que sim, desde que tenhamos amigos. O "Pulo do Gato" está em escolher os amigos certos. O primeiro que pensamos é o político, claro. Aquele tradicional sanguessuga sempre pronto a se vender, (invariavelmente recebendo mais do que vale), pronto ao jeitinho, pronto para discursar pela honradez na política, pronto pra tudo, desde que sobre algum. Mas é um engano. Eles não são eficientes para muitas coisas e podem não se reeleger. É difícil, mas possível - a esperança não me abandona. Antigamente, o melhor amigo era um milico. Muito poder, sem questionamentos, mas passou o tempo. Pelo menos aparentemente. Talvez um milionário. Um amigo rico. Melhor não... Não à toa ele fez fortuna. Seria ineficiente, também. Um policial? Definitivamente não. Aqueles que devem fazer cumprir a lei não gozam de muitos benefícios e estão mais para se ajudado do que para ajudarem. Afinal, qual então seria o amigo ideal?
Simples, muito simples: ministro do supremo. Podes fazer tudo, roubar, matar, mandar matar, corromper, atirar pedra em velhinha, torcer pro Ipatinga, tudo e - Papael - nada te acontecerá. Se por acaso algum dia alguém te prender, eles irão à mídia para mostrar que o tratamento que recebeu fora inadequado, talvez por mostrar ao país que algemas foram feitas para bandidos pobres, e só dormirás na cadeia se atrasar o jantar. Esses são eficientes, de prontidão, rápidos e sagazes para defender os amigos. Nada de errado acontecerá. Terás liberdade de fazer tudo, estarás, enfim, acima da lei. Um deus. As algemas embaixo dos casacos serão mais importante do que todos os crimes, elas serão o maior crime. Serás uma vítima, portanto, se alguém, algum incauto, te acusar de algo. Isso é genial.
Eu quero ter como amigo alguém do Supremo, só por garantia.
Afinal, o banqueiro avisou.

O Banheiro do Papa

Uma única taça de um bom cabernet é suficiente para me levar à prisão. Ou eu faço algum acordo mirabolante em casa, ou como um Bacalhau a Gomes de Sá com coca ligth ou ainda, já que uma dose ou um barril causam as mesmas punições, bebo muito mais que o necessário até chegar ao ponto de esquecer que podem existir tais conseqüências. Como o Bacalhau com Coca é improvável e uma ressaca inevitável na outra opção, talvez o acordo: Eu vou dirigindo e a Ângela volta. Simples e perfeito. Obrigações divididas. Este é o tipo de "acordo" que se faz sozinho. Cria-se toda a situação, os ponderamentos e, enfim, a mágica solução. O Bacalhau será bem acompanhado, a vinícola vai continuar vendendo seus belos vinhos, meu fígado não precisará ser transplantado. Ou seja: todos ganham. Só falta avisar a Ângela e, depois de avisá-la, ela concordar.
Pois o Papa, aquele que todos - mesmo os não católicos - gostavam, esteve em 1988 em Melo, cidadezinha uruguaia pouco adiante de Aceguá, e parece que teve um efeito mais devastador que um terremoto e um furacão juntos. Esta visita foi o argumento do excelente El Bãno Del Papa. João Paulo II em uma cidade pobre num lugar onde sequer é passagem para algum grande centro, foi visto como uma oportunidade única de se ganhar algum dinheiro. O carisma do poderoso pontífice certamente levaria - o que seria natural - milhares de pessoas a Melo, e essas pessoas precisariam comer, beber, comprar recordações, estas coisas todas. Bingo! A população trabalhadora começa com a produção de churrasquinhos, lingüiças, pães, batatas e tudo mais que se possa oferecer em barracas para vender aos brasileiros 'encruzeirados'. Beto (César Trancoso), o excepcional protagonista, pensa além: se as pessoas vão comer e beber nas lancherias improvisadas, onde irão fazer aquilo que todos, sem exceção, fazem? Jogada de mestre. Milhares de pessoas, mais de 300 barracas vendendo comida e bebida e somente um lugar de "servicios higiênicos". Impossível não dar certo.
Este é o argumento do filme, em suma.

Claro que no desenrolar da história, praticamente todos os temas que nos atormentam e nos engrandecem são abordados com uma naturalidade espantosa. Trata da contravenção, do crime, da corrupção, do poder - não só econômico - como o burocrático, àquele que permite ao detentor de um cargo humilhar, roubar e ridicularizar algum outro também criminoso, porém sem o suporte estatal - como de felicidade, esperança e amor. Poderia citar todas as cenas do filme que retrata cada um dos exemplos acima e estragar quando vocês forem ver, mas, ao invés disso, vou analisar - e apenas superficialmente -Beto. Frente a um filme destes, apenas alguns conhecimentos de cinema são necessários, como a pipoca doce deve ficar por cima da salgada (pois o contrário uma contamina a outra) e no inverno deve ser Bibs e no verão MM (Bibs derrete nas mãos com o calor) e mais nada. Está tudo pronto, como Beto, para ser degustado. Sorrisos e lágrimas quase se encontram em muitos momentos. Por vezes alguma gargalhada, até. E também um choro mais copioso. Beto, com sua maneira criança, com sua esperança maior que a realidade nos dá um show. Fiquei com uma vontade danada de conhecê-lo, de ser seu amigo. Suas atitudes impulsivas mostram a simplicidade de seu caráter e sua maneira não muito elaborada de ser. Na verdade o sujeito não passa de um contrabandista, mas o carisma da personagem e do ator é tanta que se torce por ele. Mesmo quando se alia ao maior vilão de todos, o "móvel", um policial corrupto, (praticamente um pacto com o demônio), uma espécie de traição a seus amigos, a sua origem, ainda se mantém um carinho especial. Isso tudo só pra dizer que somente ele já vale o filme? Não, mas pra dizer que foi criado um dos mais ricos personagens do cinema. Com uma exuberante carga humana, de uma simplicidade que extrapola o limear do bom senso.
E o que isso tudo tem a ver com o que foi dito acima? Voltamos ao Beto. É estranho, mas talvez se soubéssemos que uma celebridade perdeu tudo o que tinha na vida, iríamos nos sensibilizar. Sei lá, alguém como o Chico Buarque perde toda a fortuna e fica, de uma hora para outra, na miséria, sem nada. Provavelmente faríamos campanhas para garantir o uísque 12 anos dele, (e não entro no mérito do certo ou errado), mas e se um contrabandista, por que foi traído por um comerciante inescrupuloso, perde tudo em minutos? Mesmo que ele tenha família e obrigações como todos, seja uma boa pessoa, isso nos sensibilizaria? Creio que não. Pois imagino uma situação dessas - já que a ajuda não viria de lugar algum - como um salvo-conduto a um acordo espúrio. Algo como, já que vou arriscar e dirigir, vou beber até meu fígado pedir asilo político e danem-se as conseqüências. Pois foi o que Beto fez. Como era inevitável, parou de correr riscos com os policiais, sem saber que seu risco foi ainda maior, com a própria consciência e com a família. Claro que, pobre e sem poder algum, o destino em pouco tempo fez com que pagasse esta dívida. Não vou descrever porque é quase o final do filme. Ele definitivamente não se parece com o Chico. E a vida sabe disso.

A outra análise mostra a genialidade. O óbvio. Aquilo que não há dúvida: cocô. Toda aquela comilança pediria um banheiro. São coisas que andam juntas. Como o Bacalhau e o vinho. Inseparáveis. Claro que a comparação é grotesca, mas justificada. E todos ganhariam: o produtor de lingüiças, o montador de chorizos e ele, Beto, com seu banheiro, com serviços parciais e completos. As coisas geniais sempre são simples. Como combinações culinárias evidentes ou sacadas de que precisamos ir ao banheiro.
E, por fim, com tudo armado e preparado, que venham os dinheiros, em forma de Cruzeiros. Aí entra a terceira e última situação. Não avisaram os brasileiros e, se avisaram, eles não concordaram e, portanto, não foram ver o Papa. Foi um plano de um lado só. E aquela comida toda ficou às moscas e o banheiro limpo. Este final chega a ser doído. Mostra o povo com a esperança se esvaindo por entre os dedos, indo embora pra longe, saindo de onde ela nunca esteve antes. Não cheguei a chorar nesta parte. Minha vontade foi de socar o Papa, apesar de provavelmente ele nunca ter sabido do mal que causou. Morte ao Papa! - pensei. Ele morreu mesmo, e certamente sem nunca recordar que Melo existe. Não faria diferença, também. Creio que todo esse mal seja um pouquinho perdoado por ter permitido que fosse feito uma obra como essa. Certamente um dos melhores filmes já feitos em toda a história do cinema. Pensei em começar dizendo que Hollywood fica logo depois de Aceguá, mas vou terminar dizendo ao contrário disso: fica não. E Melo não é cenário. E o filme não é mentira. E não tem gente explodindo nem corrida de carro. Mas tem gente vivendo, gente de verdade. E corrida de bicicleta. É estranho ter falado de um filme sem falar de cinema. Talvez porque seja mais que uma película e seja um pouco de nós todos.
Sei não, mas acho que a Ângela não vai concordar com minha solução. Mas tenho esperanças, como em Melo.