Aventura nas Lojas Americanas

Uma coisa é certa nesta vida: não devemos rir ou debochar das infelicidades alheias. Principalmente se forem deficiências congênitas. Devemos respeitar e entender aqueles que são diferentes, mas, como sempre, tudo tem limite.
Só pode ter sido sacanagem. Ontem entrei em um shopping por um acesso secundário que passa pelo meio das Lojas Americanas. Estava eu lá, desviando de calcinhas e panelas quando escuto aquele som característico do sistema de auto-falantes "bling-blong" para chamar a atenção. E chamou. Depois, uma voz, não tenho como representar aqui, estridente, eu diria. Mais que isso. Esganiçada, terrivelmente fina, começa a anunciar algumas ofertas. Acho que exageraram no volume e fiquei ouvindo. Comecei a rir. Simplesmente não resisti. A moça dizia "não percam clientes, façam seus cartões e saiam comprando". Não bastasse a voz mais estranha e feia que já ouvi, a moça ainda anuncia uma frase dessas. Pensei em fazer logo o cartão e "sair" comprando, sei lá, o que viesse pela frente, absorventes, fraldas, camisas, brinquedos, chocolates, o que fosse.
O resultado não poderia ser diferente, e tive um "ataque de riso". Aconteceu comigo outras vezes, uma em um ônibus e outra em um curso para ser pai, mas desta vez, dentro da loja, foi cruel. A moça falava e eu imaginava as velhinhas que ousassem ficar frente as meias luppo voando pelo chão, afinal, eu empurraria sem dó. Precisava sair comprando. A cena foi ridícula. Eu parado no meio da loja - com aquela voz terrível berrando nos microfones - em gargalhadas incontidas. Mas, conforme a lei, se tem uma chance de ficar pior, ficará.
A voz, novamente ela, disse com todos os fonemas: "oferta só pra você, cliente querido, sabão em pó três quilos por 4,99". Olhei fixamente para a pilha: lá estavam eles, todos meticulosamente enfileirados, centenas de Omos a minha espera. Desviei os olhos para as velhinhas e elas começavam a procurar a ilha de caixas. Pulei na frente de todas e, bloqueando o caminho, abri os braços e bradei:
- Vocês não ouviram? Essa oferta é só para mim, o cliente querido. Vocês não tem esse direito. Sumam, carcarás. Já fiz o meu cartão e vou "sair" comprando.
Sabe quando temos que nos dobrar pelo riso? Pois eu parecia um U ao contrário. Doía a barriga e comecei a lacrimejar. E pior que o texto da voz horrorosa não terminava, "amaciante por tanto, ferro de passar roupa com vapozirador em super-oferta" e eu lá escutando e concordando: pôxa, com tanto sabão preciso mesmo de amaciantes e um ferro com vaporizador. Não posso sobreviver sem, e rindo, gargalhando, debatendo-me até "bling-blong" novamente e uma cutucada em meu braço. No meio do ambiente sub-aquático que eu enxergava, uma senhora de cabelos brancos, curvada e com cara de que nunca fez nada de errado, disse:
- Tudo bem meu filho? - Eu respondi imediatamente:
- Se a senhora não comprou meu sabão, tudo. - Não, mentira. Na verdade, olhei para ela e reconheci. Era uma das mais rebeldes querendo chegar na minha oferta, uma verdadeira líder subversiva. Não à toa separavam os clientes em queridos e não-queridos. Dei um empurrão na velha que derrubou a estante de cremes Nívea. Vi seus cabelos quase azuis serem tomados pelo vermelho vivo. Venci. Derrotei a líder deles. O doce sabor da vitória. Ou foi isso ou eu disse "sim, vovó, tudo bem. Lembrei de uma piada, desculpa".
Mas ainda recordo dos cremes caindo por cima daquela degenerada. Chutei alguns que batiam no seu rosto enrugado. Os seguranças até me ajudaram. A moça esganiçada gritava no auto-falante: "Clientes queridos, ajudem a matar a velha e depois aproveitem as ofertas do creme Nívea no estado em que estiverem".
Saí comprando eles também. Foram bem em conta.
Alguém tem interesse em adquirir algumas caixas de sabão?


Enfim...

Um profundo buraco. Assim fica às vezes meu peito. Diz, quem estudou, que o nome disso é angústia. Pois sou angustiado, então, e não gosto de ser. Assim, quanto mais terra para fora da cova, mais agonia e mais vazio. É um círculo perfeito. Descobri o moto contínuo. Um sentimento sem fim ou, desculpem o joguete de palavras, o fim de alguns sentimentos.
E qual a razão disso? Tantas pequenas coisas incomodam e tantas imensas tomam conta. Colocam-me frente a um espelho estúpido que insiste em refletir-me. Fecho os olhos mas de nada adianta. Está lá a imagem, nítida como minhas maldades, pegajosa como meus pensamentos oblíquos à realidade. Sempre minha ficção causa acontecimentos extraordinários. Sempre as personagens vêm reclamar de algo. E como um deus impiedoso - o nome disso é redundância - sou implacável e coloco a placa "não aceitamos reclamações" em cima da mesa. Fico atrás dela, protegido. Espiando, somente espiando, até darem as costas e voltarem para seus mundos imaginários onde sofrem o que não merecem. Portanto, isso não incomoda; dá prazer, inclusive.
Mas, enfim, qual é a pá que retira tanta e tanta terra? De quem são os braços que a dominam? Resta o mundo não ficcional. Este é mais difícil e não aceita placas sobre a mesa. Pequenas coisas incomodam. As grandes? Essas são irremediáveis. Pelo tamanho da cratera, poderia dizer que tirando a saúde, os desejos, os amores, os aprendizados e o que sobra, o resto vai bem. Melhor dizer assim: vai bem, obrigado! Como uma forma irônica. Mas fico pensando, que hora errada para fazer gracinha. Talvez o problema seja por aí mesmo: o tempo.  Será? Esta angústia pode derivar do fato dele não depender dos anos? Às vezes, mesmo com poucos meses, pode-se não tê-lo mais. Sou como todos, só preciso o suficiente para fazer aquilo que quero. Mas isso leva um tempo danado de grande. Maior do que a quantidade que minha carne leva para apodrecer. 
Bingo. Aí está o instrumento e a força que cava a terra. A razão de minha angústia.
Ficção. Preciso dela para ser feliz. Lá as carnes são sempre rígidas, como as jovens.
E posso ter uma placa: "Não aceitamos putrefações."

 

Martha Medeiros

Entrevistar uma das maiores escritoras desse país, uma verdadeira exploradora do universo que mais procuro, quero e tento entender, - e provavelmente não consigo - o feminino, deixou-me orgulhoso. Tenho pouco a dizer e muito a ler. É uma conversa informal, onde existem dicas preciosas, principalmente para os novos talentos, além de opiniões sobre assuntos variadíssimos, tornando-a imperdível. Confira clicando aqui.

Macho que é macho...


Se tem uma coisa que eu sou é macho. Talvez por ser gaúcho, sei lá. Por aqui dizem que gaúcho que não é macho é Paulista, e isso certamente não sou, até por que nunca disse "o meeeuuu, me dá dois pastel e um chopps", então... Ou talvez por destino mesmo. Macho que falo é sinônimo de valente. Não corro de uma briga. Dia desses, por exemplo, ia tranquilamente para casa quando, numa das principais esquinas de Porto Alegre, Av. Cavalhada com Otto Niemayer, tinha três caras dando um pau num baixinho. Não aguentei, aquilo mexeu comigo. Parei o carro e desci. Demos tanto laço naquele nanico que ele deve estar até agora procurando o caminho do pronto-socorro.

Noutra ocasião, cheguei num bar e tinha um cara mexendo com uma menina. Linda ela, morena, daquelas que o cabelos parecem ruivos contra a luz, seios fartos e corpo esguio. Os olhos eram amendoados e úmidos. Roupas simples e justas, acompanhados de umas havaianas verdes, protegendo pés pequenos, com os dedos todos miúdos, naquela ordem decrescente perfeita: do maior ao menor, sem esmalte nenhum. Mas quase não reparei nela, por que o brutamontes, um desses caras que fazem halterofilismo e mais parecem um roupeiro de portas abertas, chegou perto e disse uma gracinha qualquer. Ela baixou a cabeça e pediu com voz suave que ele parasse. Não parou. Pior: pegou à força sua mão. Contrariada, ela tentava puxar e não conseguia. Em um caso assim, nem que fosse uma feiosa - se bem que não existe mulher nesta classificação, com o grau etílico em que me 'desencontrava' - eu deixaria por isso mesmo. Levantei a cabeça e, sem pensar - até por que se pensasse eu falaria sobre musculação - disse com todas as letras:

- Tu tens duas opções, meu caro. - Ele interrompeu-me e perguntou com um olhar de raiva:

- Quais? - Não vacilei e com voz firme e alta sentenciei:

- Tu tens duas opções, meu caro: ou larga o braço dela ou não larga.

O rapaz me olhou com cara de espanto e, soltando a moça, tentou dizer algo mas eu não ouvi. Já não tenho uma audição boa e de longe e correndo, pior ainda. A menina provavelmente verei por aí, como modelo ou garota propaganda de cosméticos. Gosto delas, das manequins da indústria da beleza.

Mas, isso é ou não um ato de coragem? Comigo é assim mesmo. Defendo os "frascos e comprimidos", não, isso era noutra época, defendo os fracos e oprimidos sem medir esforços. Na verdade a única coisa que meço é a distância da saída.

Lembranças e brincadeiras à parte, o que digo é simples: coragem não é enfrentar alguém ou algo, bater, brigar, surrar. Coragem é não agredir e resolver a questão. Seja mais forte ou mais fraco, somente covardes agridem. Macho que é macho usa a diplomacia. Corajoso que é corajoso conversa, negocia.

Nosso mundo está repleto de covardes.

A propósito, aquele baixinho deve estar cheio dos esparadrapos até hoje, e é melhor que não passe perto de mim, ou chamo meus outros três amigos e coitado dele!




Texto chato, assunto chato

Coisas da vida. Da minha vida. Sempre que falo no Inácio, sabe, eu começo as frases com "sabe". Além disso, dia desses escrevi e, agora, , estou sempre escrevendo "". Decerto se eu falar no Inácio, , sabe?, ficará assim. Esquisito. E tem mais: comecei a escrever também ráá... Que quer dizer exatamente isso: ráá. Chega a ser uma forma resumida de arrá. Algo como gozar alguém. Não em ou com. E a pronúncia não é -á. É mesmo. Escrevo com dois "as", sabe por quê? Porque é meu. Ráá. , tenho liberdade de fazer como gosto, mesmo que seja feio. E é feio mesmo, manias são assim, horrorosas. E a de escrever ráá e são terríveis.

Bem, mas este texto não é para tratar nada disso. , na verdade, é sobre política. As coisas pela terra brasilis andam cada vez piores. Decência e consciência estão tornando-se coisas raras. Até que o Inácio, ráa, , sabe, anda calmo. Talvez pela marolinha da crise que chegou com aviso ou pela nova Dilma. Sei lá. Tudo calmo. Mas o partido dele, este, , de mal a pior. Aqui no sul, um prefeito do PT, convidou para secretário um senhor notoriamente de direita que nem na cidade em questão residia, adversário histórico do partido do próprio prefeito. Pode uma coisa dessas? Os nomes desses senhores (Jairo Jorge, o prefeito, e Cesar Busato, o convidado) nem vem ao caso, por serem desconhecidos (sorte) por esse país afora, mas a falta de programa, de ideologia, de caráter é assombroso. Os caras, ou seus partidos, passam a vida falando mal um do outro, com programas antagônicos e, como quem convida alguém para dançar, tornam-se prefeito/secretário em um estalar de dedos. Erro gravíssimo de quem fez o convite e não menos grave de quem aceitou e mais grave de seus partidos que não os expulsaram sumariamente.

Bem, isso ocorreu a nível municipal no interior do estado. Causou um mal estar geral. Aí lembrei do Inácio, sabe, ráá, e o Sarney, por exemplo. Ou aquele outro das vacas alagoanas que valem mais do que as premiadas com genética apurada. Ou o honroso ministro Lobão. Ou, melhor ainda, do Severino chiq-chiq que comprou várias boutiques. Ou tantos e tantos outros que são governos sempre. Tempo dos milicos, governo. Da Arena e MDB, governo. Do Sarney, governo. Do franjinha tarado, governo. Collor, governo. FHC, governo e agora, Inácio, ráá, , sabe, governo, e aí fui ver que o digníssimo prefeito de Canoas tentou fazer não é inédito. Ele copiou os chefes. Mas lá, temos a desculpa de "tudo pela governabilidade" e aqui não. Então, fizeram o certo: o cara "desaceitou" e foi procurar a turma dele.

Na verdade, é isso mesmo que o Inácio, , ráá, sabe, deveria fazer também. Mas não podemos viver sem eles, que nos governam desde um distante primeiro de Abril. Deve ser isso o tal pacto de governabilidade: eles mandam e nos sugam, e nós votamos sem diferença alguma.

Inácio, sabe, , rrá, está ganhando discípulos na arte de juntar óleo e água. Ou é tudo água, e suja?

Talvez o olhar aqui mais do lado esquerdo esteja prejudicado, e ando vendo coisas!

Nossa, um sapo azul subindo pelas paredes olhando para mim:

- Oi sapo!


Os ridículos, a lagoa e a gueixa

Têm coisas que me irritam e coisas que acho ridículo. Claro, tem as coisas belas também, que me encatam, mas não é sobre o que vou falar agora.

Ontem ouvi um cara dos seus 50 anos, um gordão, dizer o seguinte: "Um dia andei por uns cinco ou seis quilômetros fazendo cavalo-de-pau". Isso me irrita. Temos duas alternativas: ou o cara estava mentindo, o que faz dele um idiota, ou ele estava dizendo a verdade, o que faz dele um idiota ainda maior. Pô, gordinhos de 50 anos não deveriam ser atenciosos e engraçados? O pior que ele falava para um adolescente que fitava-o com cara de paisagem. Certamente o menino tinha mais juízo e cérebro que ele. Este tipo de atitude enlouquece-me. O que faz uma pessoa adulta pensar que uma atitude infantil e perigosa como esta pode ser alvo de exibicionismo? Só pode ser a falta de inteligência mesmo.

Quanto a achar ridículo, também ontem aconteceu uma situação. Sou do tempo que acampar era uma aventura. Já fiz isso em lugares - beira de rios isolados - onde o 'banheiro' era na terceira moita à esquerda, e lugares que nem moita tinha, em praias desertas que depois do sol se despedir, a única luz era de um farol que passava e passava, a cada pouco menos de um minuto. Nossa, como tudo era romântico e prazeroso. Sem luxo, sem nada, na verdade, e o próprio ambiente tratava de estimular desejos e prazeres por vezes longe de nosso alcance. Claro que precisamos ajudar. A natureza assim como oferece também tem suas exigências. E uma delas é a noção de ridículo. Pois ontem, também ontem - que dia - fui à Lagoa dos Patos, em uma praia fantástica, de areias brancas e água doce e calma. Antes desse paraíso, um camping que, claro, fui conhecer. Lugar bonito, com alguma estrutura, dois matos de árvores antigas e grandes, vários banheiros, todos longe como convém e a cena: um rapaz sai de sua barraca, cerca de 70 metros das "casinhas" com um rolo de papel higiênico na mão como se fosse um estandarte. Aquilo se desenrolando e quase arrastando no chão e ele em frente, altivo e seguro de que todos deveriam saber o que ele iria fazer. Se tivesse serviço de alto-falante provavelmente anunciaria: "Atenção, atenção, vou fazer o número dois", não, ele não teria tanto polimento. Seria assim: "Atenção, atenção, eu vou dar uma cagada". Sabem por que meus acampamentos em lugares mesmo sem vaso sanitário eram românticos? Provavelmente por que nunca vi ninguém com um rolo de papel procurando uma duna mais alta ou a terceira moita. Um pouco de discrição é tão essencial para vivermos civilizadamente quanto as necessidades básicas.

Meu ideal de coisa ruim seria juntar os dois, o gordinho e o sujeito do papel, na mesma barraca por uns dois dias. Eles cometeriam suicídio, para o bem da humanidade. Não suportariam nada mais desagradável que eles mesmos como concorrência.

Coisas belas? A própria Lagoa. Linda, maravilhosa, abraça a gente com suas águas na temperatura exata.

E um poema, chamado Gueixa, escrito por Sheyla, que é imperdível. Simples, pequeno e belo, além de dar o recado. Como os civilizados.







A Troca

Tinha ouvido de um amigo que ele iria ver um filme que precisasse de apenas dez neurônios: O Dia em que a terra parou. Ponderei que de todos, nove eram pra comer pipoca sem deixar cair e um para compreender o enredo. Pronto, me convenci: era esse filme que precisava e queria ver. E foi o que fiz, ou pelo menos tentei: 13 pilas para os gringos do Cinemark e mais sete para as pipocas deles também e, na fila, já na fila pra comprar ingresso, mudei. Devo ter passado frente a uma livraria e respirei um pouco de inteligência - maldita hora - e fui ver Clinton Eastwood. Sei que ele não faz nada ruim, principalmente como diretor e eu, mesmo não querendo nada bom, fui igual. Queria algo que não precisasse pensar, queria bater os pés no chão como antigamente, quando a cavalaria chegava. Mas mudei! Malditos ares inteligentes.
A Troca demora 40 minutos para começar. Depois disso, não pára mais. Até agora tenho cenas e diálogos na minha cabeça. É um excelente drama, bem ambientado no início do século passado, com figurinos perfeitos e fotografia excelente. O roteiro também não deixa a desejar e a direção é impecável. Percebi um erro grave, quando é mostrada uma fotografia tirada em certo momento da história, e ela é diferente. Os figurantes sumiram como um passe de mágica e naquela época não existia Photoshop, um erro terrível, por certo, mas que não compromete a obra.
Não são precisos muitos neurônios para uma boa "degustação", porém canal lacrimal é exageradamente usado. A história gira em torno do sumiço de um menino de nove anos e a incansável busca de sua mãe. Isso é o pano de frente.
Na verdade, ele trata de nós mesmos e nossas crueldades. O quanto pagamos para manter o poder, o quanto sacrificamos quem quer que seja para sustentarmos nossas benesses. Nós, e quando digo isso refiro-me a nós mesmos, pessoas como eu e você, ou o pessoal do Hamas ou algum Olmert qualquer. Nós, humanidade. Todos cometendo seus crimes enormes, que saem na televisão como um espetáculo de matança ao vivo, ou simplesmente ficam guardados na lágrima de uma criança maltratada, humilhada.
Não somos bons. Fazemos o inferno aos outros simplesmente para vivermos com mais prazeres. Não raro subjugar, humilhar alguém é a própria satisfação. Caso grave.
Eu fiz a troca: ao invés de ir ao cinema para ver alienígenas malvados serem explodidos, fui ver nossa consciência e humanidade ir para o espaço. Estou pensando em processar Clinton Eastwood por mostrar-me nosso sadismo. Provavelmente ganharia.
Um detalhe, a maior covardia de todas: Angelina Jolie usa um batom vermelho. Isso, definitivamente, deveria ser proibido.


Tudo igual

Ué? Já começou o novo ano? Deixa eu dar uma espiada... Hummm, estranho, tudo igual ao anterior. Será que começou mesmo? Que 2009 mais parecido com 2008 este. Os preços, praticamente iguais; os políticos, os mesmos, mudam aqui, ali, mas no final são sempre eles. O tempo, igualzinho: de segunda a sexta sol, final de semana e feriados chuva. E os leitores? Os mesmos... Se bem que tem aparecido gente nova. Tem um leitor que digita no deus google "gente chata no cinema" e entra aqui. Ano passado e este ano, portanto, mesma coisa. O Inácio, sem diferenças. Sabe, tem uma coisa que penso há anos: odeio gente chata no cinema. Aqueles adolescentes que riem alto, pensando ser muito maneiro não fazer silêncio na sala escura. Isso me incomoda. O barulho no saco de pipoca também, é enlouquecedor. Pacotinhos de MM nem se fala. O barulho é metálico. Mas celular... Ninguém merece. Quando toca algum, eu tenho vontade de sair. Notaram? quando falo no Inácio, sabe, começo minhas frases com "sabe". Sou altamente influenciável. Na verdade, creio que não tenho uma personalidade muito forte. Mas se alguém aí achar que tenho, eu sou bobo de discutir? Então tenho. Não vou teimar com uma pessoa que tem tão bom gosto para a leitura - hihi.

Bom, vamos lá: sobre o que mesmo trata este texto? Áh, 2009. As notícias, iguais. Malucos que sequestram (sem trema - preciso resistir e deixar assim) a própria mulher ou filhos e querem a todo custo uma câmera de tv, assassinatos por nada, guerras, trânsito insuportável, Obama, Inácio mergulhando. Sabe, a primeira dona de casa Marisa, voltou antes de Noronha por causa da imprensa. Que coisa, para que mostrarem o primeiro casal tomando banho em águas límpidas ao invés de noticiarem algumas mortes a mais? Gente chata em Noronha. Se bem que para o turismo isso é bom. Inácio, sabe, vende bem. Dia desses, quando falei que era um simpatizante da esquerda desde que me conheço por gente (que coisa mais estúpida isso, conhecer-se por gente. Poderia ser por macaco?) Bem, desde que me conheço por iguana, não acreditaram. Aí disse, com toda minha fortíssima personalidade, que então era de direita, também não acreditaram. Como não poderia perder a oportunidade, chamei a atenção que eu era mesmo de centro, claro, tinham sacado bem, mas aí disseram que eu tinha posições firmes demais para ser do muro. Acho que sou mesmo um iguana, e nem preciso pensar se com ou sem trema.

Era sobre? Áh, 2009. Outra coisa igual: Maitê. Mas esse igual é bom. Tenho um leitor, Maverick, das terras luzitanas, do além Tejo, que é apaixonado por ela. Isso não é muito difícil, convenhamos, mas mesmo assim comentei sobre o assunto. Sabem o que ela disse: sempre preferi o Maverick ao Opala. Brincadeirinha. Eu faço brincadeiras bobas, Maitê faz poemas. E bons. Tudo igual, portanto.

Acho que estamos enganados e ainda é "ano passado".

Tive uma idéia: vou passar alguns cheques com 2008 na data só pra ver o que acontece. Putz, virei mesmo um contraventor. Se bem que comecei do dia 31. Então, sem novidades novamente.

Tenho uma resolução de ano igual novo: continuar o mesmo e fazer o que todos acham que eu deva fazer. Dia desses reclamaram que meus textos eram curtos, isso mesmo: curtos, ou, caso queiram, pequenos, diminutos, entende? Nada grandes mesmo. Ínfimos. (Humm... aumentei duas linhas) e no dia seguinte, reclamaram que eram longos. Isso é fácil de resolv...



Eu sou um criminoso? Duas vezes criminoso?


Feriadão se aproximando e os planos a mil. Sobrava pouco espaço na cabeça para os problemas, desde ter que cortar os cabelos até mais uma guerra para movimentar a economia. Por sinal, todas as crianças que estão morrendo devem ser terroristas e todos os civis assassinos. Numa época de incisões cirúrgicas através de mísseis, ninguém iria matar inocentes. Ou não há inocentes? Bem, voltando ao feriado. Meus problemas eram onde estariam meus óculos e o que escutar na viagem, na longa viagem.

Sem muito esforço, matei a charada, pelo menos uma delas. Lembrei que tempos atrás aprendi a baixar música pela internet. Depois de várias tentativas, consegui e não decepcionei. Tinha um arquivo que dizia: Chico Buarque, obra completa. Adivinha? Demorou um pouco, mas... Antes da viagem, também recordei de uma amiga e leitora desse blog, Letícia, que resumiu seu gosto musical dizendo: "... e escuto Chico", com essa intimidade mesmo, que ele tanto merece. Juntou tudo e lá fomos nós, estrada engarrafada afora, escutando Chico em ordem alfabética. Meus extraordinários conhecimentos em informática aceitaram isso na boa. A Banda, Barbará, Construção... Essa foi minha estreia no mundo obscuro da contravenção.

Devo confessar que gosto mesmo - e é o que faço - é comprar os tão desejados disquinhos. Gosto até daquele plástico irritante. Abro e olho detidamente as fotos, cheiro, tiro a capa, essas coisas. Gosto desse ritual. Claro que sei que isso não me torna inocente, mas minha consciência está aos pulos aqui para que destaque isso, então... "Olhem aqui, eiiii! Eu compro CDs" . Em paz com ela, à viagem novamente: Almoço em uma lancheria, dessas de beira de estrada - poderia ser diferente? - e, na saída, o crime provocando-me novamente. A tentação desafiando-me a permanecer somente com um erro, minha contravençãozinha amiga. Afinal, tinha que ter cuidado, já não era mais réu primário. Havia um móvel com diversos CDs piratas e entre Leandros e Leonardos, Chinelinhos e Chinelões, um escrito assim: "MP3 - Todos os discos de Raul". Imediatamente lembrei de outra amiga, Jana, a maior fã de Raulzito que conheço, e ainda assim tentei me conter, em vão. Deve ser caro, pensei, mas ouvi a resposta do que nem havia perguntado: "Dez pilas". Putz, dez por todos os discos... Recordei também que eu sempre fui daqueles chatos que ao chegar em um bar com música ao vivo, não interessando o gênero, sempre gritava: "Toca Raul". Resumindo: não resisti. Creio que foi meu ingresso no mundo do crime, mas o fato é que fui com Metamorfose Ambulante e voltei com Pedaço de Mim.

"Para atenuar meus delitos, prometo este mês comprar vários CDs legais, e para compensar, alguns DVDs também" Falei isso aqui em casa e o que ouvi foi: "gracinha!" Sou mesmo um incompreendido, talvez por ser um fora da lei, sei lá. Tenho que acostumar com essa nova vida.

Afinal, o crime compensa? Hummm, até agora...

Meus óculos ainda não achei e continuo cabeludo.
A guerra ? Firme e forte, como deveria ser a paz.