Estranhos medos (novamente eles)

Dia desses eu estava em aula quando revelei:
- Tenho medo de escuro! - Pronto, foi o caos. Quinze minutos de discussões, conselhos e confidências. Quando os ânimos estavam amenizando, alguém disse:
- Não é estranho ter medo de escuro? - Provavelmente a indagação estivesse relacionada as minhas quase cinco décadas bem vividas ou com a "teimosia" de machão que persiste aqui por essas bandas sulistas, mas, a rigor, a pergunta veio crua, direta, assim, poft! Olhei com calma para o inquiridor e respondi com mais calma ainda:
- Estranho é ter medo do claro!
E não é? Não entendo o drama, porque o tempo fechou. Depois das gargalhadas, o "perguntador" ficou incomodado. Explicou que a intenção dele não era ironizar, mas simplesmente mostrar a estranheza que o fato lhe proporcionava. Na mesma hora fiquei solidário. Eu entendia, até porque minha resposta também era verdadeira, longe de ser uma gozação ou algo parecido. A pequena e saudável confusão aconteceu por um motivo: honestidade.
Meu querido colega realmente acha estranho um barbado sentir medo do escuro. E o barbado acha estranho se o medo fosse do claro. Como eu que estou escrevendo, vou defender meu medo, que nada tem de estranho.
Vejamos: medo de monstro, você tem? Aqueles com uma boca cheia de baba e dentes pontiagudos? Ou de aranha, negras e cabeludas, com mais pernas do que o Lula tem de dedos? Ou fantasmas? Gente morta que não fez catequese e fica por aí, girando mundo, para assustar aqueles que acham a catequese ridícula? E, quando criança, não tinha medo dos padres pedófilos, sempre prontos para destruir seu futuro em nome da castidade? E barata? Aquelas que quando algum ser muito valente pisa em cima faz algo como "crrash"? Ou bandidos sanguinários? Vampiros? Morcegos com cara de gente? Pois é. A gama de itens ou possibilidades de coisas para nos assustar são imensas. Certamente em ao menos um dos casos acima você sentiu um friozinho ou fez um "argh". (Medo muitas vezes confunde-se com nojo).
Esse é o raciocínio: qualquer um dos casos acima podem estar ali, pertinho de você, no escuro. Perceberam a seriedade? Se eu não tiver medo do breu, é o mesmo que não ter medo de nada disso. E, convenhamos, não seria nada natural. 
A escuridão pode esconder o que há de pior em matéria de terror. Ela é cúmplice de todos eles. No claro, áhh, que isso, companheiro? No claro sou bem macho (sinônimo de valente), porque se a coisa não existe, certamente não aparecerá e, caso exista, eu vou ver e dar no pé.
Dia desses afirmei que se não fosse o medo ainda estaríamos em cima das árvores e é a pura verdade. Ele nos mantém vivos e saudáveis, sem o pescoço com dois furos feitos por dentes caninos sanguinários, ou, pelo menos, longe de aracnídeos venenosos.
E isso é estranho? Sinceramente, não acho. Estranho é, além do medo do claro, é não ter medo algum.
Hoje vou dormir de luz acesa!
Ainda bem que a falta de claridade não atrapalha o casamento. Ao contrário.

Ratzinger, o dezesseis


Eu tento não comentar a respeito da Igreja Católica (e todas as outras), mas o Bento não deixa. É impressionante. A última provocação aconteceu nessa visita à Inglaterra, logo depois de mais um escândalo com os padrecos pedófilos belgas, que novamente foram acobertados pela instituição.
O correto seria Bento e seus comparsas ficarem escondidinhos em seus palácios revestidos em ouro, pensando em alguma forma de corrigir o erro, de coibir que aconteça novamente, de desculparem-se, mas, ao invés disso, aqueles senhores todos de cabeças brancas e vestidos de seda vão à Escócia falar asneiras.
Bento comparou, sem deixar dúvida alguma, os ateus com os fundamentalistas religiosos. Ou seja, ele comparou o cara que sua igreja queimava na fogueira por não acreditar em seu deus com o maníaco que o condenava à morte. Outro exemplo, ele comparou Sartre com os caras que detonaram o coração do capitalismo no fatídico onze de setembro. Mais um: me comparou com um terrorista suicida que explode gente em uma lanchonete. Poderia enumerar centenas de exemplos, mas, convenhamos, é desnecessário. Já foi possível elucidar o tamanho da besteira que o "cara de mau" disse.
Tempos atrás, a religião matava e humilhava em nome de deus. Atualmente, em uma análise bastante superficial e pensando em um espaço temporal de cerca de uma década, "apenas" rouba, explora e subjuga. Se levarmos em conta somente os tipos de malefícios, podemos considerar que houve uma sensível melhora neste comportamento. O que agora anda me deixando assustado é a tendência da volta ao passado. As igrejas e seus credos estão novamente começando a assassinar. Seja jogando aviões em prédios ou condenando o uso de preservativos em um continente à beira de uma epidemia de aids, seja estuprando crianças que quando tornam-se adultas cometem suícídio (somente neste último caso europeu foram 14 mortes) ou levando crentes à miséria financeira e psicológica.
É assustador. É como se fosse um monstro que cresce a cada dia com o único propósito de de fazer o que é ruim. Infelizmente essa afirmação aterrorizante é verdadeira: religião faz mal. E muito. Por vezes escuto histórias de pessoas que se recuperaram através de alguma delas. Claro que é verdade, sem dúvida. Não é disso que falo. É evidente que existirão alguns casos bons que serão alardeados aos quatro cantos, como qualquer bom departamento de marketing faria. O que falo é do resultado final. É do produto de tudo isso. A religião destruirá nossa civilização, ou pelo menos como a conhecemos, se não contivermos esses caras. Os assassinatos não serão mais com facas de lâminas curvas ou fogueiras. 
Temo por aqueles que tem uma espiritualidade mais a flor da pele. Temo, na verdade, por todos nós.


Fracassos e medos



É dito que não temos medo do que não conhecemos. Se não tivermos, portanto, dados armazenados sobre o motivo - seja ele qual for - que desencadearia tal medo, ele simplesmente não existirá. Apesar de concordar, acho isso estranho e pouco provável. Sei que parece incoerente minha opinião, mas mesmo assim acredito que seja razoável.
Sabe-se que somos o que somos em razão do medo. Se chegamos até aqui, devemos boa parte desta verdadeira aventura épica a esse sentimento controverso. Sem eles, nossos ancestrais teriam todos sido comidos pelos dinossauros ou caído de árvores em dias de vento forte. Aquilo que é motivo para sermos acusados de covardia, nada mais é, na maioria das vezes, do que juízo.
A razão de minha estranheza é simples. Existem pessoas que possuem fobia de viagens, por exemplo, por que conhecerão novos lugares. Ou seja, eles tem medo de uma cidade que não conhecem. Claro que implica em admitir que a "forma" cidade é conhecida e tal, mas, a rigor, ele não conhece aquela específica, o objeto da viagem, e sente medo. Resumindo: medo do desconhecido. Então discordo, na verdade, da forma taxativa como esta "regra" é exposta. Como tudo, não é bem assim. Sempre tem um "senão" que dá margem à discussão. Ainda bem.
O que pretendo abordar realmente não são os medos propriamente ditos, mas o receio ao fracasso. Existem pessoas, escritores, artistas, atletas, que certamente seriam muito mais produtivos e completos, se não pensassem já na primeira pincelada na tela nua, na galeria de arte; ou no primeiro parágrafo, na noite de autógrafos ou ainda no primeiro treino ver-se em um estádio lotado.
Esta prática é um dos fatores mais excludentes que existe. Muita coisa boa deixou de aparecer em razão dela. Mas, na prática, fazer o que? Enfrentar de peito aberto? Assumir a possibilidade de um lançamento literário somente com a família em volta? Suportar o peso do insucesso? Existem centenas de exemplos que determinam ser exatamente este o caminho. O começo é sempre um risco. O maior problema é acontecer algo assim quando não é o princípio. Aí o caso pode ser outro, como falta de qualidade no trabalho. Mas, em estréias, toda a culpa - em caso de fracasso - são externas. A desculpa já está pronta. A resposta já está dada mesmo antes da pergunta.
O melhor mesmo para os iniciantes é não temer. Mas, se isso for inevitável, sem problemas. Toda a sociedade trabalha contra e, caso haja algum insucesso, a culpa será dos outros. Entretanto, se você não for um marinheiro de primeira viagem, cuide-se, tenha medo, e trabalhe melhor. Reescreva, não poupe em pinceladas e treine muito.
Medo, afinal, não é coisa de "mariquinhas". É coisa de quem tem juízo.
E ajuda.


Expressões



Sou destemido. Implacável. Quando alguém me diz algo que não compreendo ou não quero entender, franzo a testa e faço uma cara de dois pontos: e, claro, fico a espera. É infalível. A pessoa se abre, faz citações, enfim, entrega a rapadura. Minha técnica é cem por cento segura.
- Beto, o que você acha do novo acólito?
Dois pontos. E a pessoa continua, quase atropelando as palavras:
- Pois é. O diácono merecia alguém melhor e ... - pronto, tudo resolvido. Nasce mais um entendido em acolitar sem nunca ter acolitado. Minha expressão não entrega meu estado de ignorância e induz a pessoa a revelar aquilo que eu não sei. Perfeito.
Mas não fico somente por aí. Tenho vários recursos, digamos, faciais. Quando fico envergonhado, por exemplo, por qualquer motivo, faço cara de dois de paus. Sabe o dois do baralho? E o naipe aquele que parece uma florzinha? Bastos? Este mesmo. Pois faço esta expressão: dois de paus. Posso estar na maior saia justa que acaba tudo dando certo. É verdade que para eu me envergonhar não é fácil, mas acontece. Quando vou no cinema, por exemplo, chega a ser comum. Nas comédias porque começo a rir antes de todo mundo e paro bem depois. Nos dramas porque choro compulsivamente. Na verdade, nem só nos dramas. Vou às lágrimas até em desenho animado. Quando termina a sessão, várias pessoas se viram para encarar o fiasquento, e eu lá, feliz da vida, com a minha cara de dois de paus. É perfeito. Todos ficam sem ação. E quando quero passar desapercebido, então, áh, coisa mais fácil. Sabe aquelas situações como derrubar uma prateleira inteira de latas empilhadas no super? Ou tossir e um ranho enorme ficar pendurado nos cabelos do sujeito sentado à frente no ônibus? Ou no elevador acontecer algo, digamos, mau cheiroso além de barulhento? Tudo sob controle: cara de paisagem. É instantâneo. Parece uma poção mágica que me deixa invisível. Chega a dar vontade de chutar uma das latas do chão ou fazer uma gracinha com os gases. Uma vez chegou a acontecer. Estava em um elevador destes bem lentos. Antigão mesmo. Senti aquela sensação estranha e uma certeza: será silencioso. Que nada. Foi um verdadeiro trovão. Todos me olharam, inclusive a freira (óbvio que teria uma), com uma expressão de poucos amigos. Imediatamente passei as mãos frente ao rosto e, bingo!, cara de paisagem. Eu não estava mais ali. Comecei com uma risadinha sinistra ironizando a impotência dos cheiradores compulsórios e terminei com uma gargalhada festejando minha invisibilidade. No primeiro andar que o elevador parou, todos desceram rapidamente. Na época até estranhei a coincidência de todos irem ao mesmo andar, mas, afinal, elas existem. Tanto que tenho também uma cara para coincidências. Sabe quando se encontra alguém que não se quer ver em um lugar com milhares de pessoas? Algo como achar um admirador de música erudita em um show de rock? Pois quando acontece comigo eu não falo nada. Avisto a pessoa e faço cara de como assim. Funciona como mágica. Na mesma hora recebo milhares de explicações e eventualmente até um pedido de desculpas.
 - Desculpa por eu estar aqui. - Já me disseram isso certa vez. Foi um ex-namorado de uma ex-namorada. Existe coisa pior que encontrar ex-namorados? Caras de como assim neles.
Vou parando por aqui porque estou criando uma nova expressão. Ela certamente será muito útil. Minha cara de meio mais ou menos. Servirá para quando eu encontrar alguém que mal conheço e a pessoa perguntar como "estou indo". Ou, melhor ainda, se perguntar sobre minha saúde. Meio mais ou menos. Pronto! Certamente funcionará como um "fora chatos"! 
Não queiram conhecer essa minha "face" maldosa. Eu avisei antes. Sou intrépido.
Agora, pena que vocês não veem, mas estou com minha expressão mais frequente: cara de sono.
Fui, o casamento me espera!