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Toca o telefone as quatro da manhã. A esta hora o barulho é estranho. Começa baixinho, como se estivesse dentro de um uma caixa acarpetada, e vai aumentando lentamente até ficar ensurdecedor. Não foi diferente desta vez. Começou aquele som abafado e eu pensando "que sonho estranho o de um telefone tocando, não vou atender. Pode virar um pesadelo e aí sabe-se lá quem poderia ser no outro lado." Na verdade, sendo um sonho, qualquer pessoa. Por exemplo, o Obama, falando em português, claro:
- Alou? Mister Beto?
- Yé - diria eu com toda minha fluência.
- Poder falar?
- Desembucha, 'negão'! - Neste momento, eu teria uma preocupação enorme em ser processado. Apesar de poder chamar meus amigos brancos de branquelas ou baratas descascadas, meus amigos orientais (todos eles) de chinas e os negros de "negão", o senhor - ainda bem - presidente dos gringos eu não deveria poder. Mas, enfim, já que era sonho, se alguém me processasse eu ganharia, ou então seria pesadelo. Ele continuou:
- E o Kim Yong-nan? Que achas?
- Acho que vocês deviam fazer assim. Pega o cidadão mais forte dos EUA, do Japão, da Coréia do Sul, além é claro, da do Norte. Coloquem todos em volta a uma mesa a jogar pulso.
- Pulso?
- Pô, Barack, jogo de pulso, quebra de braço. Como está o tempo aí no teu planeta? Bem, joguem um campeonato estilo todos contra todos e o vencedor tem o direito de olhar para os outros e dizer: "ráááá... Sou o vencedor." Pronto. Resolvida mais esta crise. Se der algum problema, como anabolizantes e tal, aí sim....
- Aí sim guerra com bombas atômicas?
- Não, Obama, aí sim chamem quatro diplomatas para negociar por seus países, já que à força não deu certo, como, aliás, nunca deu. Compreende?
- Ou yés. Vérigudi. Bay.
Mesmo com esse diálogo acontecendo, o trim-trim ficava cada vez mais alto, até que percebi: não era sonho, o maldito telefone estava mesmo tocando. Levantei com rapidez pensando em quem teria morrido, pois, claro, ligação a essa hora só pode ser tragédia. Uma voz suave diz:
- Alouuu?
- Alo - respondo.
- Pode falar? - Pensei em responder; "posso mais não devo, afinal, são quatro horas da manhã e sempre me ensinaram a não falar dormindo", mas depois de ouvir àquela carícia transformada em som, respondi com toda a educação:
- Hungrff!
- Sou eu, a Maitê.
Pronto, me enganei. Era mesmo sonho. Maitê as quatro da manhã não pode ser realidade. O que poderia ter acontecido? Seria pesadelo? Ela saiu daquele programa? Não, não pode ser. Isso não. Ela deixará de fazer televisão? Eu não suportaria. Melhor a terceira guerra. Procurei ficar calmo e concentrado para não entrar em desespero. Alguma coisa de muito grave tinha acontecido, óbvio, mas eu tinha que segurar a barra. Reuni todas as forças e num ato de coragem, disse:
- Que foi? - Não sei como consegui, mas disse as duas palavras in-tei-ri-nhas, sem gaguejar, sem vacilar. Sou mesmo o cara. Fiquei como uma fortaleza pronto para assumir o pesadelo e então ela disse:
- Nada! Só queria te mostrar um poema que fiz, sobre verdades, amores e mentiras!
Era sonho. E o poema de um bom gosto e de uma riqueza literária indescritível.
Mas contei tudo isso para perguntar: como não gostar de uma mulher que declama poemas por telefone em plena madrugada? Heim? Heim?
E o Negão querendo falar dos chinas. Parece até o barata descascada do Bush. Eu mereço.


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