Poesia ou guerra?

Toca o telefone as quatro da manhã. A esta hora o barulho é estranho. Começa baixinho, como se estivesse dentro de um uma caixa acarpetada, e vai aumentando lentamente até ficar ensurdecedor. Não foi diferente desta vez. Começou aquele som abafado e eu pensando "que sonho estranho o de um telefone tocando, não vou atender. Pode virar um pesadelo e aí sabe-se lá quem poderia ser no outro lado." Na verdade, sendo um sonho, qualquer pessoa. Por exemplo, o Obama, falando em português, claro:
- Alou? Mister Beto?
- Yé - diria eu com toda minha fluência.
- Poder falar?
- Desembucha, 'negão'! - Neste momento, eu teria uma preocupação enorme em ser processado. Apesar de poder chamar meus amigos  brancos de branquelas ou baratas descascadas, meus amigos orientais (todos eles) de chinas e os negros de "negão", o senhor - ainda bem - presidente dos gringos eu não deveria poder. Mas, enfim, já que era sonho, se alguém me processasse eu ganharia, ou então seria pesadelo. Ele continuou:
- E o Kim Yong-nan? Que achas?
- Acho que vocês deviam fazer assim. Pega o cidadão mais forte dos EUA, do Japão, da Coréia do Sul, além é claro, da do Norte. Coloquem todos em volta a uma mesa a jogar pulso.
- Pulso?
- Pô, Barack, jogo de pulso, quebra de braço. Como está o tempo aí no teu planeta? Bem, joguem um campeonato estilo todos contra todos e o vencedor tem o direito de olhar para os outros e dizer: "ráááá... Sou o vencedor." Pronto. Resolvida mais esta crise. Se der algum problema, como anabolizantes e tal, aí sim....
- Aí sim guerra com bombas atômicas?
- Não, Obama, aí sim chamem quatro diplomatas para negociar por seus países, já que à força não deu certo, como, aliás, nunca deu. Compreende?
- Ou yés. Vérigudi. Bay.
Mesmo com esse diálogo acontecendo, o trim-trim ficava cada vez mais alto, até que percebi: não era sonho, o maldito telefone estava mesmo tocando. Levantei com rapidez pensando em quem teria morrido, pois, claro, ligação a essa hora só pode ser tragédia. Uma voz suave diz:
- Alouuu?
- Alo - respondo.
- Pode falar? - Pensei em responder; "posso mais não devo, afinal, são quatro horas da manhã e sempre me ensinaram a não falar dormindo", mas depois de ouvir àquela carícia transformada em som, respondi com toda a educação:
- Hungrff!
- Sou eu, a Maitê.
Pronto, me enganei. Era mesmo sonho. Maitê as quatro da manhã não pode ser realidade. O que poderia ter acontecido? Seria pesadelo? Ela saiu daquele programa? Não, não pode ser. Isso não. Ela deixará de fazer televisão? Eu não suportaria. Melhor a terceira guerra. Procurei ficar calmo e concentrado para não entrar em desespero. Alguma coisa de muito grave tinha acontecido, óbvio, mas eu tinha que segurar a barra. Reuni todas as forças e num ato de coragem, disse:
- Que foi? - Não sei como consegui, mas disse as duas palavras in-tei-ri-nhas, sem gaguejar, sem vacilar. Sou mesmo o cara. Fiquei como uma fortaleza pronto para assumir o pesadelo e então ela disse:
- Nada! Só queria te mostrar um poema que fiz, sobre verdades, amores e mentiras!
Era sonho. E o poema de um bom gosto e de uma riqueza literária indescritível.
Mas contei tudo isso para perguntar: como não gostar de uma mulher que declama poemas por telefone em plena madrugada? Heim? Heim?
E o Negão querendo falar dos chinas. Parece até o barata descascada do Bush. Eu mereço.


5000 coisas que odeio - parte 3

Algum tempo atrás, inclusive para provar que não sou exagerado, comecei uma lista das 5000 coisas que odeio. Claro, terei que fazer algo sucinto, mas vou conseguir. Para não ficar uma leitura chata, resolvi fazer o rol a cada dez itens, sempre que algo originar, incitar. Ou seja, algum acontecimento qualquer tem que desencadear meu ódio, o que, convenhamos, não é muito difícil. Ou não era.
Pois por isso estou aqui, agora, escrevendo. Não está dando certo. Já me incomodei, fui cortado no trânsito, pisei em cocô de gato, o Inácio avisou que vai ser presidente da Petrobrás, o energúmeno deputado da vez disse que estava pouco se lixando e nada. Não fiquei odiando ninguém. Se bem que o senhor excelentíssimo representante do povo pegou pesado, mas, na verdade, senti pena. É um infeliz que vai morrer sozinho e apodrecer junto a tantos outros. Todo o dinheiro trazido indevidamente pelo poder ou pela corrupção não tem a força de um só prazer trazido pela honestidade. E pena de nós, também, afinal, continuamos elegendo pessoas desse nível. Já estou resignado. Não tenho mais raiva, tenho dó. Mas e minha lista? Pois continuarei mesmo assim, sem meus já saudosos acessos de fúria:
21- cinema com lugar marcado
22- refrão repetido mais de três vezes
23- hinos
24- bandeiras
25- fronteiras
26- call center
27- ditadores
28- novelas
29- mondongo
30- pessoas que falam cuspindo.

Que mistura!
Chego a me ver no cinema - com alguém ao lado cuspindo e falando sobre mondongo - para ver um filme que mais pareceria uma novela, sobre a vida de um ditador, que começou como atendente de call center, lutando com sua bandeira em punho para aumentar as fronteiras do seu miserável país e cantando dezenas de vezes somente o refrão de seu hino, que falava de morte. Não poderia ser diferente. Isso é um pesadelo.

31- pesadelos.

Evolução ou involução?

Lembro de uma piadinha que definia língua como "órgão sexual que os antigos usavam para falar". Essa única frase é a anedota toda. Fala de sexo, principalmente oral, que de tão comum tornou obsoleto o uso atual do órgão muscular. Algo tipo evolução, afinal, não só tivemos rabo como ainda temos o lugarzinho dele, prontinho, bem ali perto do... Ali, acima da... Bem, então, pelo demasiado uso, ela tornou-se um órgão sexual deixando suas funções primordiais de lado.
Pois a modelo (que na verdade eu não conhecia) Nicole Mclean, a feiosa da foto, disse com todas as letras "Meus seios são algo sexual. Não quero meus filhos mamando neles" depois de ter recusado-se a amamentar. E isso não é uma anedota fraquinha, é verdade.
Pronto. Entrei em crise. O quê? Como assim? É o fim do mundo! O que este monte de carnes, ossos e peles, todos em uma sincronia perfeita e associados com esmero, está pensando? Desnaturada, maluca, perversa e todos os adjetivos maléficos que meu parco vocabulário possuir. Onde vamos parar com as coisas indo desta maneira? Esbravejei, cuspi, resmunguei e fiquei com um mau-humor danado.
Mas aí, depois que passou o faniquito, comecei a pensar melhor. Poxa, não é que tem lá sua razão? Vamos supor, e somente supor, que os seios (que por sinal, são... Ah, deixa assim) são instrumentos de trabalho da moça. Fazendo comparações esdrúxulas - mas verdadeiras - os peitos são para ela o que o bisturi é para o cirurgião, a arma para o policial, o morto para o legista. Entendem o que falo? Quem deixaria um filho brincar com um bisturi, uma arma ou ainda brincar de médico com defunto? Mais claramente: justo àquela parte do corpo que é beijada, tocada, apertada, chupada, lambida pelos clientes com hálito de uísque, ou namorados impregnados com o cheiro de tabaco, seria usada para alimentar um filho, tão terno? Tão dependente? Olha, sinceramente, estou convencido que uma coisa não combina com a outra. Parece inconcebível nutrir uma criança com algo sexual, como a moça mesmo disse. Mas a ponto de ela recusar-se a alimentar o bebê? Não é antinatural? Não é coisa de madrasta má? Nossa! Quantas perguntas.
Pois é, somos mamíferos ou estamos deixando de ser? As cadelas, as baleias, as ratas e as mulheres amamentam. Nem sei a quanto anda a evolução humana, e acredito que há muita disparidade entre nós, mas é assustador, pois, agora, nem todas as mulheres cumprem a sina que a natureza lhes impôs. Quais as que estão certas, ou menos erradas? As que fazem como as porcas ou as que compram leite em pó numa loja de conveniências? Eu, sinceramente, não sei!
Se não fosse muita frescura, teria mais um faniquito. Mas dois no mesmo dia é uma coisa meio animalesca, instintiva. Vou é tomar um chá inglês e ler algum filósofo francês.
Ou procurar fotos da Nicole pelada.
Hummmmm... As fotos! As fotos!

Anjos e Demônios


Têm duas charges que gosto muito. Uma delas é de um esqueleto, todo encolhido, com as mãos em volta dos joelhos, em um nicho atrás de uma parede e uma medalha pendurada em que diz "campeão mundial de esconde-esconde". A outra é de uma traça comendo um rolo de filme enquanto ao seu lado tem outra devorando um livro que diz: "Prefiro o livro do que o filme".
Pois em Anjos e Demônios ver o filme ou ler o livro parece a mesma coisa. Ron Howard, diretor de Código da Vinci e do fantástico Uma Mente Brilhante, entre outros, fez uma verdadeira leitura da obra de Dan Brown. Não ousou em absolutamente nada, como na primeira adaptação.
Há de tudo. Tiroteios, corridas, lutas e, principalmente, ironias contra a igreja. Mesmo se tirarmos as várias situações inverossímeis e improváveis, fica algo que ainda incomoda. O filme, sempre como o livro, começa rápido e mantém o pique até quase o final. Este é um mérito indiscutível mas, às vezes, as cenas são tão fiéis ao original que ficam quase ingênuas. É o risco que existe quando pega-se uma cena descrita e a transforma em imagem. Isso não deve ser feito quase como uma imitação, mas sim, realmente adaptada. A fotografia é belíssima e os diálogos bons. A atuação dos principais atores não gera nenhum comentário, nem a favor nem contra. A trilha e os efeitos sonoros são médios e as duas horas e dezeoito minutos um exagero. Sobre o filme, não tenho mais o que falar.
Entretanto, sobre a fábula, a história que é contada, há muito o que ser dito. É de uma riqueza inimaginável e rica em detalhes. A igreja católica sempre despertou, com razão, ódio e amor mundo afora. Desde as cruzadas, quando matavam os hereges e as bruxas na fogueira até hoje em dia, quando matam africanos condenando o uso da camisinha num continente em que a aids é epidêmica, arrumaram e arrumam inimigos poderosos. Por outro lado, da mesma forma que "protegeram" o ocidente do islã e ajudaram de maneira significativa na popularização das letras, angariaram seguidores por todo o planeta. Essas atitudes antagônicas produziram uma quantidade enorme de lendas e fatos em torno da instituição. Os mistérios, também alimentados pelo Vaticano, como não abrir os arquivos e manter longe do mundo científico documentos que deveriam pertencer a humanidade, ajudam a criar essas histórias fantásticas.
E aí entra o enigma: com dinheiro, bons autores e uma rica trama, porque o resultado não foi amplamente satisfatório? É mais ou menos como ser campeão de esconde-esconde e definhar no esconderijo.
A forçadinha de barra contra a igreja, provavelmente em busca de propaganda gratuita, deu certo. Dizem por aí que o Vaticano sugeriu aos católicos que não vejam o longa. Bingo. Propaganda feita, mas, enfim, creio que ela não precisa realmente se preocupar com o efeito do filme. Ele é muito limitado e os senhores com lindos anéis devem têr alguns probleminhas mais urgentes a enfrentar. 
Apesar de tudo isso, ao escurinho. Que seja pela polêmica, pela diversão ou pela crítica a Bento e seus asseclas, motivos não faltam.
Quem gosta de cinema tem que ver.

Polêmicas


Achei muito interessante um comentário da postagem anterior, onde o excelente poeta, Ricardo Valente, termina dizendo "polêmico Beto". Na verdade, gostei. Na mesma hora que li vieram recordações de bons tempos, onde a política, pelo menos por esses lados aqui embaixo do país, era coisa séria e discutida diariamente. Mas não só ela, em nosso meio. Tudo era incansavelmente debatido: religião, futebol, se o mais importante era bunda ou peito grande, aborto no Chile, a barba do Fidel, etc. Isso para não lembrar de temas mais picantes e inusitados, que geravam homéricos e acalorados debates.
Era uma rotina imutável, sempre de segunda a sexta. Saíamos do trabalho e 'religiosamente', todos ao bar. Tenho uma teoria de que em um boteco qualquer nascem (e morrem também) verdadeiras joias do pensamento humano. Lá surgem de maneira expontânea, ensinamentos que deveriam estar nos currículos escolares e, se não estão,  é porque, infelizmente, não foram escritos. Os registros, por óbvios motivos etílicos, perdem-se na ressaca do dia seguinte. Talvez se os bares oferecessem serviços de "escreventes", pessoas que ficassem ao lado de cada mesa registrando tudo, a humanidade fosse mais sábia, mas quando penso no efeito que isso teria no preço da cerveja, prefiro que a humanidade se ... Bem, isso já é conversa de bar, então, voltando, saíamos do trabalho e íamos sempre, claro, no mesmo bar, uma verdadeira espelunca, onde todos sentavam na mesma mesa e mesma cadeira. O dono, não havia garçom, nos esperava no mesmo horário todo dia. Sem que pedíssemos, nossas bebidas eram providenciadas respeitando as manias de cada um. Eu tinha poucas. Além do copo ter que ser dos pequenos, canelado e com um guardanapo embaixo, não devia ter sido lavado com detergente. Era atendido, apesar de, vez em quando, o copo parecer meio "turvo". Pois entre os companheiros, havia um polêmico, daqueles que serviriam de exemplo para a definição exata da palavra. Desde as manias, as dele mudavam constantemente, passando pela roupa de alguém, até as contas fantásticas do PC Farias, tudo, enfim, era razão suficiente para uma boa discussão. Estou sendo modesto. Eram razões para faraônicas polêmicas. Se, por exemplo, meu copo pequeno e canelado viesse, por um lamentável engano, lavado com detergente, pronto: ali estava o motivo. E o interessante que ele não era chato. Ao contrário, tinha um embasamento tão culto e com tanta propriedade, que era escutado e, claro, contestado. Falaria da desconsideração em atender um antigo e fiel cliente com uma falha terrível dessas, como desfilaria argumentos admiráveis a favor da escola literária russa. Todos convincentes.
Várias vezes os gritos e insultos, vistos por alguém de fora, se bem que quase sempre estávamos somente nós no bar - e agora imagino o porquê - pareciam o início de uma eminente briga a socos e pontapés. Mas, encerrado o assunto, todos amigos como sempre. Inclusive afetuosos.
Isso é uma coisa importante: nunca levar para o lado pessoal. É a base de uma boa discussão, que é a base de uma boa polêmica que pode ser a base de algo bem interessante. Opiniões contrárias levadas a fundo, podem resultar em ensinamentos magníficos. 
Conclusão: gosto de polêmicas e acredito que elas tragam benefícios, desde que embasada em argumentos saudáveis e inteligentes.
Mas o simples fato de eu gostar, não é motivo suficiente para provocar ninguém.
Por sinal, tem aparecido textos bem ruizinhos na blogosfera que, apesar dos excelentes - ainda bem que eles também estejam lá - incomodam pela quantidade excessiva.
Áh, também sou contra a pena de morte e o aborto, exceto em casos especiais, além de abominar qualquer religião e acreditar que o capitalismo esteja no início da degradação definitiva. Torço pelo melhor time do mundo, o Internacional, creio que Skol não seja cerveja, e sim água suja (argh) e afirmo que os textos do Paulo Coelho são horrorosos.
Já ia esquecendo: peito grande, com folga.

Poder e mentira: que dupla!

Recebi um mail de um leitor de Angola (por sinal, os acessos de Luanda são os mais longos -  detalhe que muito me orgulha - seguidos de Lisboa e somente depois Porto Alegre) um texto bastante curioso. Ele explica que acompanha o Cinema e Bobagens há algum tempo e disserta sobre poder e mentiras - temas recorrentes por aqui. Em síntese, faz um apanhado geral para dizer que as duas coisas andam juntas, da forma mais nefasta possível, como um moto contínuo. Ou seja, um alimenta o outro. É extremamente interessante a argumentação. Ele mostra de forma hábil que a mentira leva ao poder e o poder à mentira. Coloquei a foto do nosso amigo aí acima porque ele representa isso com perfeição.
Repetições a parte, tem uma lógica perversa nisso tudo, principalmente se admitirmos o que parece ser óbvio: o poder corrompe. Meu leitor diz que a "graça da onomatopeia", na qual demonstrei meu domínio absoluto em uma crônica, colocando uma (piu, piu, piu) completamente fora de contexto, como agora, foi um exemplo contundente, pela "simplicidade e profundidade".
Como sou exibido e me senti "grandão", vou por no meio do texto, vejam só - três ovos batidos em neve e misture com a farinha, peneirada. Mexa tudo até a massa ficar uniforme - uma receita de bolo. Mas com um detalhe: não sei fazer bolo. Isso é poder, na maneira mais fiel e primitiva. E, para completar a teoria, coloquei este parágrafo somente com a intenção de ilustrar e reforçar o que eu já havia dito e não por ser exibido ou estar me sentindo "grandão". Menti, portanto. E agora o pior: isso não me inocenta de ser exibicionista ou estar deste ou daquele tamanho. Não é lógico? É! Não é perverso? É! Além de assustador. Muito assustador.
Lembrando ainda que o poder corrompe, dá vontade de sair correndo rua à fora, com os braços erguidos, gritando qualquer coisa contra o capitalismo. Ou contra o socialismo. Contra qualquer coisa, afinal. Contra tudo. Correr muito, gritar muito e saber que, no final, de nada terá adiantado. Estamos de mãos atadas e não é para um fetiche. Seremos sodomizados por nós mesmos. 
Enfim, meu caro leitor africano, concordo contigo. Talvez se nos ajudássemos e um desamarrasse as mãos do outro, tudo pudesse ser diferente. Mas não somos capazes, não fazemos isso, nós prestamos serviços ao invés de ajuda. Claro, isso custa. E estando de mãos amarradas, não temos como pagar. Então, resta-nos torcer para que não doa muito. Podemos, também, crer nas mentiras como se fossem nossas - e coloque numa forma untada, leve ao forno médio por cerca de quarenta minutos. Depois de assado, polvilhe açúcar de confeiteiro - além de imaginar que somos poderosos. Afinal, o poder é bom. Muito bom!




Não há motivo para pânico?

Nos últimos dias, mais que gripe suína ou gripe A, o que mais se fala é "não há motivo para pânico". Todos dizem isso, principalmente o nosso valoroso ministro Temporão, aquele que preferiu calar sobre uma questão de saúde pública, não revelando sua opinião sobre o aborto, para não levar um pito da mamãezinha. Pelo jeito, sobre a gripe dos porquinhos, a distinta senhora permitiu que seu obediente filho discurssasse. E então ele fez, várias vezes, dizendo sempre a mesma coisa: que não há motivo para pânico.
Duas questões sobre os fatos, que estão diretamente interligadas. A primeira é que quando houver motivo, se houver, ele falará? Será que a mamãe de nosso tão prodigioso ministro permitirá que ele vá até a TV e diga:
- Brasileiros e brasileiras - em homenagem ao presidente do senado - a gripe Suína chegou com força máxima ao Brasil. Há motivo para pânico, portanto, entre em pânico!
Provavelmente sairíamos todos correndo a procura de máscaras e essas coisas todas. Interessante. Teríamos uma espécie de salvo-conduto já que, em pânico, evidentemente, nossas ações seriam todas minimizadas. Eu provavelmente entraria numa farmácia e diria a atendente:
- Me dê duzentas máscaras e mais dez vidros de perfume. E não vou pagar.
- Mas senhor...
- Não discuta, não vê que estou em pânico?
E o pedido seria perfeitamente natural, já que, ao que parece, a validade do tapa-boca é de no máximo duas horas. E o perfume? Áh, sei lá. Coisas do pânico.
Mas isso tudo são só hipóteses e creio que jamais acontecerá. Não que o vírus não venha com toda a família e amigos visitar nosso paraíso Brasilis, mas simplesmente por que aquela senhora não deixaria seu ministrinho da saúde falar assim. Ela é muito conservadora.
O que não é ficção, infelizmente, é a segunda questão.
Pois um dos tantos entendidos e pandemias que vão à imprensa falar a maldita frase, o fez com um pequeno acréscimo. Eu mesmo presenciei, apesar de não recordar o nome do sujeito. Escondido atrás de alguns microfones e caminhando ao mesmo tempo, este técnico pródigo nas palavras disse:
- Não há motivo para pânico, ainda.
Ainda? Como assim ainda? Vai ter motivo, então? É só uma questão de tempo?
Posso ter entendido errado, sei lá, ou talvez seja minha ficção que está perto, bem perto. Procurei pela web a entrevista para reproduzir aqui, sem sucesso, mas, por via das dúvidas, vou correndo a uma farmácia.
Pensando bem, duzentas nada, quatrocentas máscaras. E vinte vidros de perfume. E cremes para o rosto. Gripes ressecam a pele. Sou prevenido.
Por sinal, prevenir não seria mais sensato?




Poder para o bem?


É bom ser poderoso. Aqui neste blog, por exemplo, eu sou absoluto. Faço o que quiser sem nenhuma preocupação. Não acreditam? Pois vou escrever, sei lá, uma onomatopéia completamente - piu, piu, piu - fora do contexto. Viram? Mais? Nome feio? Putamerda! Pronto. Posso qualquer coisa, tudo me é permitido por aqui. Se eu começasse agora um conto, por exemplo, poderia ser assim: "Os pigmeus famintos invadiram o senado federal e o povo, logo atrás, correu para fechar as portas, logo depois da entrada dos nativos". Poderiam achar inverossímil os canibais comerem tanta porcaria mas, na verdade, se eu quiser eu faço o texto e pronto. Ou e ponto. Tudo porque tenho poder para tanto.
Na verdade, não quero falar de selvagens e muito menos de literatura, mas sim desse estranho senhor chamado poder.
Conheço pessoas que largaram tudo (e para esse 'tudo' compreenda-se as ambições normais de pessoas comuns, como amigos, casa, grana e algum conforto) para irem trabalhar no interior de um país africano, assolado pela aids e outras mazelas, além de guerrilhas e combates tribais, ganhando praticamente o mesmo que recebiam por aqui. Perguntei, claro, a razão da mudança. Ainda tentei colaborar fornecendo eu mesmo alguns argumentos que considero razoáveis, como experiência de vida, conhecimento de outras culturas bastante distintas ou mesmo - meio absurdo, mas... - incrementar o currículo porém, surpreendentemente a resposta foi só uma: poder.
Demorei a entender e acredito que ainda não tenha compreendido. O que na verdade seduz este verdadeiro, sei lá, desbravador? Mandar e desmandar em quem ele não conhece no outro lado do oceano? Ter a vida dessas pessoas dependendo de seu gosto e caprichos? Tê-las em completa doação? Abusar delas?
Coisa boa não deve ser. O ser humano é estranho. É ruim. O que incomoda não é o fato dele ir, evidentemente, mas sim a resposta que deu. Interessante, também, é que tudo isso ele poderia fazer aqui,  porém pagando. Lá, recebendo. Pode ser isso, mas prefiro pensar que não. Prefiro pensar que não existem coisas assim. Será que se eu fingir que não conheço esse sujeito nada de ruim acontecerá? Se eu desconhecer, as pessoas não sofrerão? Já que não vou ver, afinal a África é depois da curva, tudo será imaginação?
Enfim, melhor dizer que não conheço sujeito nenhum e, se conhecer, que viajei na maionese. Provavelmente ele vai para ajudar aquelas pessoas e quando perguntei o motivo, só respondeu "poder" por que não tinha nada melhor para dizer.
Mas, por vias das dúvidas e como aqui mando eu, quero que este sujeito vá catar coquinho no banhado!

Quer sorrir ou chorar?

Rir é o contrário de chorar?
O cinema nacional tem evoluído geometricamente. Nos últimos anos, principalmente, vários filmes pipocam aqui e ali com considerável qualidade, conseguindo, inclusive, resultados expressivos nas bilheterias, o que é fundamental. Existem algumas fórmulas verdadeiramente mágicas para o sucesso financeiro de alguns lançamentos. Gente explodindo, por exemplo, sempre dá resultado. Mulher pelada, principalmente as deusas hollywodianas, é dinheiro certo. Corridas fantásticas, efeitos especiais, histórias consagradas ou personagens já conhecidos do grande público, também garantem bons números. Mas e um filme que não tem nada disso? E por aqui, na nossa tão querida terra brasilis? Como sobreviver? Com qualidade, respondo. Qualidade e esmero.
Pois em Divã, José Alvarenga (vários Trapalhões, os Normais e alguns da Xuxa), foi muito feliz  dirigindo este longa, estrelado pela excelente Lília Cabral.
A história, baseada na peça do mesmo nome que é inspirada no livro da cronista gaúcha Martha Medeiros, conta de maneira graciosa a vida de Mercedes, uma mulher de meia idade muito especial mas nada muito diferente de qualquer mulher nas mesmas condições, ou seja, de classe média falando-se em dinheiro e posição social e acima da média no quesito inteligência. Seus conflitos, traições e dificuldades, são encarados de maneira leve e divertida, provocando boas risadas, intercalando suas sessões de análise com cenas da própria vida, causando, também, algumas impertinentes lágrimas. Sempre elas.
Acredito que o maior mérito do filme seja a não polemização de temas polêmicos. A maneira branda com que trata o adultério, para pegar somente um exemplo, é excepcional. Com tiradas inteligentes, diminui o "crime" da traição a um prazer, quase um lazer, mas sem deixar de lado as consequências que um fato desses pode causar. A simplicidade da montagem e da própria história também ajudam. Claro, não poderia deixar de salientar os diálogos, dignos de uma cronista do calibre de Martha.
Resumindo: sem explosões, sem efeitos e mesmo que a única mulher pelada seja a própria Lília, todos ao cinema. Não porque devemos prestigiar os projetos nacionais ou qualquer coisa do gênero, e sim porque estamos frente a um filme de qualidade surpreendente e, também, porque será diversão na dose certa.
Mais um motivo? Pois não: Chorar não é o contrário de rir.


De mulher eu entendo


Fiquei na dúvida em fazer ou não este post, pois não gosto e não quero falar de mim. Mas, como veem, fui vencido pela "faceirice".
Acontece que um texto meu, chamado Senectude, concorrendo com outros 979 trabalhos sob o mote Mulher Eterno Tema, organizado pela editora Taba Cultural, do Rio de Janeiro, ganhou o terceiro lugar, com direito a premiação e conto publicado em uma coletânea.
Poxa, na verdade não falo somente de mim, falo de concursos como este que estimulam a literatura e os novos autores e são sempre bem-vindos. Falo em chances para todos. Falo em estímulo. Falo de empresas sérias que conseguem conciliar lucro com oportunidades.
Falar disso tudo me deixa menos preocupado em ter escrito algo a meu respeito também, afinal, felizmente estou tentanto fazer parte deste processo.
Existem várias formas de atuar, de promover a literatura. Esta, sem dúvida, é uma delas.
Parabéns e obrigado a Taba Cultural.