
Veronika Decide Morrer

Eu tenho alguns parâmetros nada técnicos para qualificar um filme. Direção, trilha sonora, diálogos, enredo, interpretação, ritmo, fotografia, montagem e efeitos, basicamente. Destes, para ser considerado um excelente filme, no mínimo sete itens devem ser plenamentes satisfatórios. Uma obra média, digamos que uns cinco, talvez seis. Abaixo disso, cinema menor.
Fui, meio a contragosto, ver Veronika Decide Morrer. A técnica usada é conhecida: começa com tensão, pelo menos na tentativa, e depois a coisa vai melhorando até todos viverem felizes para sempre. A obviedade de tudo chega a ser irritante. Quando saí do cinema, a primeira coisa que pensei foi em como a obra era infantil, mas, admito, errei. Não tem nada de infantil até porque filmes para este público normalmente são bons ou razoáveis. É pobre mesmo. Desde o enredo até o desfecho, passando principalmente pelos diálogos, é tudo muito limitado.
Não valeria a pena sequer discorrer sobre todos os quesitos, mas, pela precariedade, merecem atenção. A trilha, por exemplo, é feia e mal adaptada. O ritmo é quase um desmaio. Apesar de as coisas irem melhorando com o passar do tempo, há uma impressionante apatia. Por consequência, percebe-se que a direção é uma lástima. A fotografia é escura e nada inspirada, com uma montagem previsível e sem efeitos. A interpretação é um capítulo a parte. Sarah Michille Gellar (Tartarugas Ninjas e Buffy - A Caça Vampiros) até tenta, mas não consegue uma atuação sequer razoável. Às vezes, torcia para que ela virasse uma figura da noite, com a boca cheia de sangue, qualquer coisa para sair daquele marasmo, ou cravasse uma estaca em um vampirão desvairado. Os outros atores sequer vou comentar. Seria perder tempo. Além disso tudo, têm algumas cenas que de tão inverossímeis beiram a bestialidade. Ou seja, um completo fracasso.
Toda a história, contada em intermináveis cento e três minutos, caberiam perfeitamente em cinco. Se pensarmos que o orçamento para isso tudo foi de nove milhões de dólares dá vontade de chorar.
Seguidamente termino textos sobre cinema estimulando uma ida ao escurinho, mas, desta vez, corram dele. Eu acredito que até cine trash tem valor, mas, creiam, trata-se de um filme Z, definitivamente cinema menor. Vejam um bom faroeste, filme de pirata, qualquer coisa. Livrem-se deste sofrimento.
Veronika decide morrer e não consegue. O diretor Emily Young tenta fazer um filme e também não consegue. Paulo Coelho tenta... bem, deixa assim... Afinal, com essa turma, tudo igual, nada de bom.
Se eu fosse obrigado a voltar ao cinema, o mais provável seria "Beto também decide morrer".
Esquina dos Escritores

Ideia. Sem acento. Fica estranho mas mesmo assim é essencial. Com uma na cabeça, muita perseverança, trabalho, competência e uma boa dose de idealismo, chega-se a resultados incríveis.
Pois isso tudo aconteceu com Andre Esteves, ao criar a Esquina dos Escritores. Será, ainda não está pronto, um portal de literatura para todos os gêneros, onde escritores terão liberdade para postar o que produzirem e acompanhar a quantidade de leituras, desempenho, etc. Basicamente é isso. O começo de tudo, o já famoso Beco do Crime, continua, claro. Será um dos sites que farão parte do portal. A intenção é, além de cobrir todos os gêneros, trazer ao grande público textos inéditos, com alguns pontos que muito me agradam, como o enorme espaço para resenhas e artigos sobre cinema. Não somente literatura, mas as artes em geral serão beneficiadas.
Outros detalhes merecem aplausos e mais aplausos. Além de publicar, existe um projeto para a venda de livros dos escritores participantes. Ou seja, nosso produto final na mão do consumidor final sem atravessadores. É um jeito de o novo autor ser comercializado de maneira segura e eficiente.
Enfim, melhor do que ler o que conto aqui é conhecer. Visitem a esquina e preparem-se para testemunhar o nascimento de um grande projeto, algo que já nasce imenso.
Qual a razão de eu contar isso aqui? Simples: além de ser realmente uma ótima notícia para autores e apreciadores da boa literatura, faço parte disso tudo - junto com o idealizador André, claro, e o Josué de Oliveira - como editor.
Escrevam: isso vai dar o que falar!
Escrevam mesmo, literalmente, e leiam, cobrem, participem.
Enfim, não dobre a esquina, fique nela.
Bolsa família ou bolsa esmola?

Depois do texto aí abaixo, recebi, além de alguns mails de apoio e outros de protesto, dois que tratam do mesmo tema. Chamou a atenção porque fazem a mesma e inevitável pergunta: como é possível eu ser contra um programa que alimenta o povo? Os dois leitores conhecem meu passado "político", é bom que se diga. A bem da verdade, não sou contra absolutamente nada que ajude os pobres, os miseráveis, estando eles no sertão nordestino ou nos arredores das grandes cidades. Além de não fazer oposição, sou a favor. Penso ser fundamental que em um país como o nosso, existam projetos como este. Acredito, mesmo com os desvios (poucos, ao que parece) de verbas e o mau uso do dinheiro por muitos dos beneficiados, na virtude e na eficácia da iniciativa.
Deixando isso claro, vamos ao que considero ruim. E é simples. Sou contrário a forma como esses programas são tratados. Eles, sem dúvida, estão longe de representarem o fim dos problemas sociais. São meros paliativos vistos como solução. Falássemos nós de uma estrada, seriam a operação tapa-buracos e nunca a reforma total, com construção de várias pistas e viadutos, além de asfalto de qualidade. Isso pode causar vários problemas, como o vício, por exemplo. Explico. O sujeito tapa um buraco hoje, outro amanhã e, no inverno, as chuvas acabam levando o asfalto todo. Remendam de novo e de novo e quase infinitamente. O resultado disso é que acaba saindo mais caro e menos competitivo do que se tivessem feito a estrada nova. O princípio do Bolsa Família é o mesmo. O povo ganha farinha e cachaça e dorme feliz de barriga cheia. Acorda e vai trabalhar para que? Vai estudar para que? Afinal, na cozinha ele terá novamente a ração e no bar o "lazer". É um instinto natural, uma consequência óbvia. Tem ainda o outro lado, pior e mais desastroso. O político alimenta o sujeito que come sem trabalhar pela vida toda, e este, como agradecimento, vota no político que novamente acaba dando a comida e assim por diante... Isso é um perigo. Se tem uma coisa que a classe política nos ensinou é que não se pode confiar neles. Pode formar-se um círculo vicioso terrível, perpetuando no poder a politicagem e o assistencialismo, tornando o povo cada vez mais pobre e ignorante.
Por isso defendo que as tais bolsas sejam provisórias, meros atenuantes, mas não a solução. O povo precisa de ensino de qualidade, trabalho, assistência médica, lazer, cultura e não de esmolas. Comecem a investir em projetos educacionais e verão que daqui alguns anos esses programas serão desnecessários. Porém, os mantenham como solução e daqui algum tempo tudo estará pior, com um exército de barrigudos descalços, infelizes e ignorantes, a espera da morte e, claro, os mesmos políticos fazendo farra com nosso dinheiro, como agora vemos "Sarneys e Collors" novamente no poder. A bem da verdade, de onde nunca saíram.
O que tem acontecido? Infelizmente a opção errada, a alternativa do mais fácil. A intenção pode ser boa, porém, se não mudarem a ótica que como tudo isto está sendo visto, o resultado será caótico.
Não quero ser pessimista, mas com o que está acontecendo, estamos fadado a desgraça.
Seremos desgraçados, portanto. Além de desonestos.
Brasil: ame-o ou deixe-o
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Não sei bem o que aconteceu comigo, mas acredito que tenha cansado. Faz várias dezenas de anos que escuto elogios ao nosso país e a nossa gente, e evito pensar que é tudo engodo.
Mas vejo o contínuo de uma repartição pública roubar um clipe, e alguns andares acima o diretor roubar milhões. Vejo os bancos agirem com má-fé, não só em juros exorbitantes, mas em tarifas camufladas, em cobranças indevidas, em práticas desonestas sem estarem sozinhos, entretanto. Junto, segue o Banco do Brasil, orgulhoso de voltar a ser o maior sem nunca tentar ser o melhor, orgulhoso de ser imenso cobrando juros que constrangem até o pior dos agiotas, tratando clientes pobres como adversários e os ricos como reis, liderando a farra dos lucros bilionários em um país pobre. E pensar que ele deveria ter cunho social. Vejo as empresas de telefonia humilhando diariamente os consumidores e cobrando uma das tarifas mais caras do planeta, e o governo terceirizando o que seria sua responsabilidade com as tais agências reguladoras, que nada mais fazem além de se corromperem e se beneficiarem daquilo que deveriam fiscalizar. Vejo empreiteiras comprando políticos como quem compra cigarro, barato e maléfico. Vejo funcionários comissionados e políticos enriquecerem como mágica. Vejo televisões guerrearem em horário nobre não em busca de dignidade ou qualidade, mas em busca de pontos no ibope, de dinheiro. Vejo essas mesmas televisões manipulando, faturando, enganando e rindo da cara de todos. Vejo juízes corrompidos, tornando um dos judiciários mais demorados que existem em algo vicioso e caro. Vejo senador gritando que tem dinheiro para andar de jatinho, outros arquivando processos contra ladrões e outros ainda fazendo vista grossa. Vejo no palanque o Inácio abraçando Collor. Não só uma vergonha para o presidente mas também para o senador que, afinal, estava certo quando afirmou que o tempo é o senhor da razão. Vejo eles se unindo para defender Sarney. E vejo todos felizes e sagazes, e o povo tomando cachaça e comendo farinha com o bolsa-esmola. Vejo presídios lotados e os ladrões aqui fora. E vejo mais e mais e não vejo ação nenhuma, e não vejo futuro.
Cansei. Nunca roubei, ou enganei ou qualquer coisa assim e sou diariamente saqueado. Não levam só meu pouco dinheiro, levam minha esperança. Não suporto mais viver em um país onde o judiciário, o legislativo e o executivo são paquidermes corruptos, onde o empresariado é sem-vergonha, onde o açougueiro vende sebo com carne, onde o pedreiro engana, onde um técnico de futebol ganha meio milhão. Onde fecham bibliotecas e mais de 90% da população, com a barriga cheia de farinha, nunca entrou em um museu enquanto dizem que tudo está bem. Se me perguntarem, direi que era ainda pior. Mas isso não releva, não satisfaz. Não quero isso que aí está. Todos roubam. Somos um povo desonesto vivendo em um país desonesto. Um lugar onde devolver o que não lhe pertence vira manchete de jornal.
Desculpem mais este texto mal escrito, mas na verdade não é uma crônica, é um vômito.
O que quero demoraria muito para contar, mas, resumo em uma só palavra: decência.
Marina, morena Marina, não se pinte.
Meu nome não é Johnny

De um traficante para outro:
- Meu objetivo é chegar a U$ 1.000.000,00. E o seu?
- O meu é gastar isso...
Este diálogo desperta várias linhas de pensamento. Pode embasar teorias pró e contra o capital, discussões sobre prazeres ou deveres, teses sobre crimes e contravenções além de diversas outras coisas. Porém, da forma como vi, em Meu Nome Não é Johnny, ela representa uma só coisa: o prazer. A busca incansável do prazer, com drogas, poder, fetiches, riqueza ou seja lá como for. Quanto vale sentirmos prazer? Quanto devemos pagar por ele? Devemos?
Voltando ao Johnny, o filme parece estar dividido em duas partes completamente diferentes. Melhor seria afirmar que parecem dois filmes. O primeiro, quase um videoclipe gigante, passa rápido sem deixar rastro. O ritmo é intenso e chega a ser desproporcional ao enredo. Acredito que o diretor, Mauro Lima, tenha exagerado um pouco em alguns recursos, deixando a obra com cara de fútil e mirando desesperadamente o público jovem. Talvez, mas acredito que não, essa manobra tenha sido intencional, já que a existência de João Guilherme Estrela, o traficante protagonista, não era nada além de fútil, pelo menos se comparada aos padrões ditos normais em nossa sociedade. Muita droga, muita festa, muita bebida e nenhuma responsabilidade, estudo ou trabalho. Assim era a vida do carismático e boa praça traficante vivido por Selton Mello, que leva o espectador a criar um vínculo muito forte com o personagem. Abro uma observação especial, até porque critiquei este mesmo ator em seu último trabalho, A Mulher Invisível. Tirando a primeira e segunda frases que ele diz, que deveriam ter sido cortadas na edição, a participação de Selton é fantástica. Ele encarnou o usuário de drogas e transformou-se em um. Sua atuação entra, a meu ver, para o rol das melhores interpretações do cinema nacional. Cléo Pires também está em um trabalho inspirado. Os diálogos, alguns até engraçados, principalmente quando entra em cena uma dupla de policiais corruptos, também chamam atenção pelo lado positivo. Na verdade, o roteiro é muito bom. A trilha sonora, apesar de correta para o tipo de história e situações, não é boa. Creio que acertaram no tipo, mas não na escolha das músicas.
E este pode ser um divisor para o que chamei de segundo filme, que começa quando João é preso: a trilha. Nesta segunda parte, ela é muito boa em todos os aspectos. Bem sincronizada com as cenas, complementa com naturalidade a dureza da vida na cadeia. O filme torna-se ótimo, deixando de lado aquele ritmo maluco e entrando num embalo quase intimista, com uma fotografia escura e sombria, fazendo justiça ao ambiente presidiário. Selton acompanha a transformação da trilha e da fotografia e baixa a bola. Torna-se um prisioneiro, porém numa visão muito romântica da abstinência. Cássia Kiss, numa pequena porém importantíssima participação, trabalha de maneira esplendorosa. Apesar de não gostar muito dela, admito que fiquei surpreso com a interpretação requintada da atriz. São algumas tomadas que valem a pena.
Enfim, sem correr o risco de contar a história, até porque ela foi baseada em fatos reais, recomendo uma visita a locadora. Meu Nome Não é Johnny merece ser visto com calma, bem sentado na melhor poltrona, a meia-luz e com pipoca feita em casa, mesmo que ela nunca fique igual as vendidas nos cinemas, que são caríssimas.
Por sinal, isso me lembra do prazer: quanto vale? Os vários reais que pagamos pelo saco grande de pipocas amanteigadas valem a pena? Qual o preço justo do prazer? Existe essa cifra?Até que ponto podemos ou devemos passar dos limites para termos mais e mais prazer? Sempre tive dúvidas quanto a isso e, vendo o filme, essas dúvidas aumentaram substancialmente.
Por isso o filme é bom. Por isso gosto de cinema.
Outro?

- Eu já estive lá. Passei horrores, mas as histórias realmente impressionantes foram as que vi ou ouvi. Comigo coisas de sempre, como ter que pagar uma espécie de pedágio para estar seguro. Serviço simples: quem não paga, morre. Pensando assim era até barato. Um maço de cigarros por dia para manter-me vivo. Aqui fora as pessoas gastam bem mais que isso e passam fome e frio. A comida não era boa, mas não faltava. E frio, com aquela gente toda, era impossível. Mais alguma briga aqui ou ali e foi isso. Os anos passam como dias. Claro que a falta das ruas é grande. Os prazeres do corpo, como agora, chegam a doer pela ausência. Mas as lembranças também ajudavam e, por vezes, acabavam substituindo a falta. No começo era pior, mas a gente desenvolve algumas habilidades extras, alguns sentidos específicos e suporta tudo com tranquilidade.
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Sobre hoje

Pensei em escrever sobre o passado. Depois, sobre o futuro. Sou bom para qualquer um deles. Só deixo a desejar com o presente. É um raciocínio bastante simples. Vejam: com o que já aconteceu, posso usar as palavras mais convenientes, como melhor me ocorrerem, como eu quiser, afinal. Posso maquiar, colorir e até mudar. Tudo depende somente da minha vontade. É um poder e tanto. Às vezes, quando é dito que o passado pode ser mudado, as pessoas estranham, desconfiam, mas é exatamente isso. Na verdade, algo só pode ser modificado se já aconteceu. Se mudar antes de se tornar real, já nascerá diferente. Qualquer coisa que já tenha ocorrido pode ser mostrado de outra forma. Para isso existe o maior patrimônio circunstancial da humanidade, a mentira. O passado depende dela para ser bom ou ruim, para ser lembrado ou esquecido. Ele não é uma mentira, mas nós o criamos conforme nossas necessidades, nossos desejos. Tão servil, sempre lá, quieto, esperando para ser manipulado, para ser construído ou desconstruído, não interessa. Um fiel aliado.
O futuro, esse então, uma verdadeira piada. Se é fácil brincar de deus com o passado, com o seu (poderia chamá-lo de contrário?) contrário, mais fácil ainda. Nele sou, somos - "vá lá" -, inteligentes, ricos, bonitos e tudo mais. Só não ganhamos na loteria por que o futuro ainda não chegou, afinal, isto é certo, não é? Só não temos mais conhecimento pelo mesmo motivo, mas, em breve, depois de lermos tudo que precisamos e descobrirmos um mundo novo e inteiro pela frente, tudo será diferente. Quando ele chegar, seremos outros. Melhores, muito melhores. Basicamente basta esperarmos. Ele trará beleza, riqueza e sabedoria. Foi tudo dito no plural propositalmente, ou alguém será estúpido, miserável ou feio no futuro? Não, definitivamente não. Seremos todos verdadeiros heróis, exemplos para o resto da humanidade. E não falta muito, pois ele está logo ali, depois da esquina, essa primeira, ao alcance dos olhos. Chego a sentir o cheiro, o gosto. Chego a vê-lo, quase toco nele, macio e sedoso, jovem e cheio de vida.
Vou resumir. No passado, fui encantador, esforçado, aguerrido, honesto e todos adjetivos que sugiram força e persistência. Uma boa pessoa, afinal. Se não gostaram, posso ter sido um mártir, um cara engraçado ou um sujeito altruísta. Qualquer coisa, tanto faz. Meu passado, escolham vocês. Mas o futuro não, ele me pertence. Este eu escolho e não inventarei nada, serei convencional: rico, bonito e culto. Viram que fácil? Tudo resolvido, tudo enquadrado. Gosto disso.
E o presente? Prefiro não falar deste chato. Sujeito insuportável, triste, podre, desgraçado. Mas - ainda bem - com vida curta, afinal, a esquina está logo adiante. E aí - áh, me aguardem - "adiós tristeza, adiós coisas ruins". O futuro será só alegria e, quando chegar, este caos de hoje terá passado, então eu o transformarei em, sei lá, aprendizado, talvez.
Nossa! Sou meu deus! Sou deus!
Ué? Mais um?

É difícil lembrar com detalhes coisas que ocorreram tantos anos atrás, mas recordo de tudo. Estava com meu bodoque, feito de uma forquilha de pitangueira e borracha de câmera de caminhão, bem grossa, sem nenhum risco no cabo. Todos, sempre que matavam algum animal, faziam um traço com canivete na madeira crua. O meu estava liso.
A mata era fechada e muito verde, principalmente na época da primavera. Era um lugar permitido, pois ficava perto de onde morávamos. Cheguei lá disposto a terminar com minha inferioridade. Haveria de usar o canivete muito afiado, que levava nas meias para qualquer eventualidade. Sabe-se lá, havia muitos inimigos, eu é que nunca encontrei nenhum - sorte deles.
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Beco do Crime
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No exato momento em que colocou o pé na faixa branca sobre o asfalto quente e negro, ouviu o estampido e lembrou uma brincadeira que fazia quando criança, que basicamente consistia em fazer barulhos. Quem emitisse o som mais estranho que os outros da turma reconhecessem, seria o vencedor. As regras não eram rígidas e, por vezes, mudavam durante o próprio concurso. Tinha cerca de dez anos e esse seria o campeonato do final da temporada, pouco antes das férias, imperdível, portanto. Fez algo como um sapo engasgado em dia de chuva e venceu com folga o principal concorrente, que imitava um pedaço de fígado caindo no chão, que ninguém - pudera! - imaginou o que fosse.
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