Música e preconceito


Tem uma história no meio futebolístico que é memorável: um técnico solicita uma contratação de um jogador ao presidente do clube. Ao ouvir o nome, o cartola diz sem nenhuma dúvida:
- Este cara não dá! É um mulherengo de marca maior.
- Mas eu não quero ele - responde o "entendido" - para casar com a minha filha, quero pra jogar futebol.
Simples assim. Um marceneiro não precisa ter em seu currículo nada parecido com mestre em Língua Portuguesa, por exemplo, da mesma forma que um professor não precise necessariamente lidar com uma serra tico-tico. Não só as habilidades, como funções, gostos ou excentricidades, quaisquer que sejam elas, ou mesmo defeitos, deveriam interferir no gosto que temos por algum profissional. O que quero dizer não é tão complicado como minha ânsia faz com que pareça: o jogador de futebol: um centroavante. A função dele é fazer golos. Se os fizer, estará cumprindo as obrigações do ofício, portanto, sendo um profissional competente. Se ele tem uma, duas ou - seria um herói - três mulheres, problema (?) dele. Claro que tudo sempre dentro dos limites que a lei e a sociedade impõe. Portanto, para alguém desempenhar a contento seu ofício, basta que ele faça bem feito àquilo a que se propõe, ou tenha a aptidão necessária, que alguns casos cruelmente exigem, e será um bom profissional. Acredito que não devamos condenar um centroavante que faz muitos golos por ter mais de uma namorada. Interessa à torcida é vencer, e para isso os golos são necessários, não a castidade ou monogamia.
Essa pequena introdução é para falar de Amy-Jade Winehouse, uma londrina de 25 anos que queria ser garçonete de patins, mas, a vida é muito cruel, ela não conseguiu (e nem conseguirá) realizar-se profissionalmente. Afirmo isso categoricamente, veementemente: ela nunca será uma garçonete por um simples fato: esta menina, com um sonho tão simplório e humilde, é nada mais nada menos que a melhor cantora desde Edith Piaf. Sabem que sou exagerado, mas, sinceramente, afirmo isso sem o menor receio de estar aumentando algo.
Ela canta com voz de uma negra gorda de 40 anos, tem uma expressão corporal de uma etíope raquítica de 60 e um cérebro de uma menina branca e mimada de dez, destas crianças que nem os pais suportam. Não bastasse isso, é viciada em drogas, dizem que das pesadas, além de álcool e tudo mais que destrua a saúde. É pouco? Pois tem mais: Amy casou-se com em Miami com um sujeito que está detido acusado de agressão. Ela mesma foi presa duas vezes por porte de drogas e teve pelo menos uma overdose. Alguns médicos afirmaram que a moça tem um enfisema e caso não largue o gosto pela "química", perderá a voz e morrerá em breve. Mais: em Portugal, no Rock in Rio Lisboa, cantou bêbada para 100 mil pessoas, com interpretações emocionadas, destaque-se. Já agrediu fãs e teve visto negado (e isso é ruim?) para a terra de Obama, além de aparecer seguidamente com várias escoriações pelo corpo. Ufa.
Pois esta mesma mulher, em seu segundo álbum, das seis indicações que teve ao Grammy 2008 venceu, nada mais nada menos, que cinco: melhor canção, gravação, artista revelação, album pop e melhor interpretação feminina, além de um prêmio surpresa em que os outros artistas escolheram o vencedor. Tudo isso e 10 milhões de cópias vendidas até o primeiro semestre deste ano, somente do segundo disco.
Conclusão: (tenho uma certa implicância com elas, as conclusões, mas vamos lá) não quero Amy para mostrar como exemplo ao meu filho. Quero para ouví-la cantar. E fazer isso é belo, maravilhoso. O ritmo das canções, o jazz trabalhado, as histórias tristes musicadas, e muito bem musicadas, a voz... os músicos de primeiríssima linha. De novo ela, a voz.... áh , linda! Perfeita! Chego a ver a negra frente ao microfone, sob meia-luz e muita fumaça de cigarro, cantando jazz, belos e tristes jazz, em um boteco que só vende uísque, com poucas mesas sem toalhas e assoalho de tábuas que ramgem e sem garçonete de patins.
Agora sim, talvez com um pouco, mais um pouquinho só - de exagero: se ela não se matar em cinco anos, ultrapassa Piaf e torna-se a melhor cantora de todos os tempos. E desafio aos que gostam de música e não gostam dela: escutem-na de olhos fechados, escutem somente a música, nada mais, e vocês me darão razão já na segunda vez que fizerem isso.
Amy viva! Vou torcer pela música e esperar que as drogas não terminem com tudo isso. Elas já levaram Edith. É muito para quem fica.

Caixinhas: nossa redenção.


É bom escrever. Sobre coisas grandes e importantes, então, melhor ainda. Morte, vida, amor, sejá lá quais forem os faraônicos temas, é bom e fácil. Depois que descobri que cronistas mentem (Maite Proença e Mentiras) - não que seja meu caso - ficou ainda mais tranqüilo. Um tema destes com direito a uma maquiadinha na verdade é um abraço. Mas e os assuntos, digamos, menores? Claro, sem exagero, nada de "cutículas: remover ou não?" ou "a função da unha do dedo mingo do pé esquerdo", mas algo como "A importância dos cursos que ensinam a fazer caixinhas". Pode até ser engraçado, mas conheço uma renomada profissional da área da psicologia, com dois livros publicados e o terceiro a caminho, com duas especializações e algumas dezenas de outros cursos e seminários, artigos publicados no exterior e coisas do gênero, que participou de um curso para fazer caixinhas. Se uma pessoa com essas qualificações freqüenta, é sinal que deve ter lá sua importância. Nada como os grandes temas, repito, mas também não é algo que se deva desprezar.
Nunca fiz laboratório para nada, mas antes me referi as cutículas por saber que existe um creme para elas. Isso mesmo: creme para cutículas. Sei lá, a pessoa acorda de manhã, dia ensolarado com pouca umidade, olha para os dedos e - nossa! que caos! - diz assustada: "onde está meu creme pra cutículas?"  Caso ela erre e passe o creme para cotovelos, por exemplo, sem problemas, basta pegar o creme para tirar creme - sim, por que ele existe também, e tudo resolvido. Mas escrevo isso somente para afirmar que, apesar de cutículas, unhas e cremes terem uma certa importância também, não chegam a deixar a categoria de assuntos menores, até por ser tudo muito fácil. O curso de caixinhas sim, este está alguns degraus acima.
Vejamos: há todo um trabalho. Desde a escolha do material, até a tinta e o acabamento. Primeiro há de se montar a caixinha, o que, saliente-se, requer algum conhecimento técnico. Não há na natureza uma lavoura delas para simplesmente pegarmos, então, temos que montá-las. Se o material escolhido for madeira, teremos que ter noções de marcenaria. Se for papel, teremos que ser japoneses especialistas em origami. Ferro, serralheiro. Palha, artesão e assim por diante. Só este começo requer um bom tempo e vários ensinamentos técnicos. Depois de montada, a base antes da pintura deve ser escolhida e, novamente, o mesmo problema de antes: ferro, um antioxidante; madeira, algum verniz, etc. Mais tempo. Depois a pintura propriamente dita. Aí sim começam os problemas e as peculiaridades: qual tipo de tinta? Marítima, óleo e tantas outras. Isso pra não falar da cor e do motivo, que nos levariam a incursões nas áreas da moda e da decoração. Sei não, mas acho que deveria existir uma faculdade. As universidades públicas deveriam oferecer e em cinco anos teríamos um bacharel em caixinhas. E depois as especialidades: caixinhas com divisórias, com segredo e por aí afora. Enfim, não deu certo minha experiência de escrever sobre temas menores. Este, certamente, não é um deles.
Então, com minha costumeira curiosidade, imaginando o mundo muito mais belo e cheio de orgulhosos e sonhadores estudantes, perguntei:
- Colocar o que nas caixinhas? - e eu mesmo respondi, com um sorriso como admitindo minha falta de sensibilidade em fazer uma pergunta tão estúpida como esta:
- O creme para cutícula e o creme para tirar creme, claro.
Eu sou um grosso insensível mesmo. Mas, a conclusão de tudo isso, é que há luz no fim do túnel. E parece que é uma dicróica.



Minha ficção e a realidade

Passa rápido por mim, como uma flecha sem veneno, me atravessando e deixando cicatriz. Assim percebo a ficção, a minha particular e especial ficção. Não há mentiras, muito menos verdades, bons ou ruins, certo ou errado. Há o que crio. Meus fantasmas, anjos, minha falta de deuses e minha ânsia em saber. Olho a arte como se eu fosse um adolescente virgem e ela uma mulher nua no cio, a me chamar para o coito, e dizer que me quer, a me excitar. Olho os livros como fossem prazeres para minhas células gustativas, quero comê-los, mordê-los e, alguns, cuspir com cara de nojo. Olho para minhas histórias e me diverto com minhas personagens que criam vida própria e saem do papel, e gritam alto, e gritam comigo. Me xingam como se eu fosse o culpado delas morrerem, adoecerem, amarem, ou qualquer coisa, quando só fui culpado por elas nascerem. Filhos ingratos. Minha ficção torna tudo tão real que me irrito e minha pressão sobe. Preciso do papel ou do editor de texto como preciso do remédio contra hipertensão. Não sou contra nada, mas meus remédios são. Eles são contra a pressão alta. Eles são contra a vida de hoje, portanto. Esta é parte de minha ficção, onde tudo é fácil e confuso, apenas por vezes não suporto (mesmo sendo ela fácil) e compreendo (apesar da confusão). Olho minhas doenças e não são como avisos, mas como parte necessária. A saúde e a doença, tanto faz: as duas são importantes, uma em cada época. Busco nos meus seres, meus filhos que não o meu, minha identidade, mas ela não está com eles e nem na carteira no bolso de trás das calças. Gosto de dizer brim coringa e não jeans, então digo. Poxa, como é fácil: calças de brim coringa, sem minha identidade na carteira no bolso de trás. Já sei onde ela não está, falta pouco agora, na minha ficção.

Faço um esforço enorme e vou para o concreto, o real, e ele passa rápido por mim, me atravessando, como uma flecha com veneno, não deixando somente uma cicatriz. Sabe como é? Quase igual, só que com mentiras, gente ruim e coisas erradas. E os gritos... Enfim, ainda não sei onde está minha identidade e estou mais hipertenso que nunca. E os gritos... Merda, eles ofendem por aqui. Continua a sedução, a fome e a ausência de deuses. É mais feio, também. Talvez, com sorte, o veneno seja alucinógeno.

Brim coringa, brim coringa, brim coringa!


Eu e meus fantasmas


Eu não acredito em fantasmas, sei que não existem e ponto final. Mas ontem, quando caminhava por uma rua deserta sob uma chuva fina e algum nevoeiro, senti uma presença me perseguindo. Virava, olhava e não via ninguém. Andava mais um pouco e dava nova espiada: mesma coisa. Fiquei, confesso, meio assustado e confuso: como ter medo do que não existe e ponto final? Era incoerente e estúpido, mas meu medo parece que não havia sido avisado e não se importava nem um pouco.

Caminhei um pouco mais e - como sou valente - resolvi esperar quem - ou sei lá o que - gerava aquela sensação. E não foi em vão. Alguns segundos mais tarde, saiu sorrateiramente por de trás da neblina e da garoa, uma figura estranha e soturna. Pelo aspecto e pelas roupas era do meio do século passado, um pouco depois, talvez, década de 70. Fiquei congelado pelo medo e só ouvia minha respiração sair de meu corpo e bater em retirada. Pelo menos é o que me parecia. A figura se aproximou lentamente, como se me estudasse, ficando próximo o suficiente para que eu visse seus olhos: negros, pesados, agoniados e curiosos a me fitar, com uma mistura de raiva e compaixão.  Tentei, nem lembro bem, falar algo e não consegui. Percebi que por vezes ele desviava os olhos para um jornal que eu carregava embaixo do braço (sim, sou antiquado, leio jornais impressos). Procurei fazer algum contato oferecendo o diário. Senti que esse era o interesse. Ele fez um sinal com a cabeça e eu li uma manchete: "Lula acalma investidores e diz a Bush resolver a crise". Meu amigo estranho sacudiu a cabeleira incomodado. Expliquei que o Lula fora eleito pela segunda vez e era um bom presidente. Claro que lembrei também que existia o Inácio (repito: creio que existam dois governos, o do Lula, aquele que foi eleito, e o do Inácio, um outro que aparece seguidamente e é meio estranho, com uns amigos esquisitos e objetivos não muito claros) e aí o caldo entornava. Ele ficava sereno e curioso, a espera de mais informações. Falei da política internacional, com chances de o Brasil assumir uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Onu, da economia do governo Lula e da redução da pobreza; mas também do mensalão e do "não sei de nada" do Inácio. Tudo coisas antigas na república mas ainda atravessadas na minha garganta. Ele pareceu zangar-se e apontou para o jornal com cara de espanto. Olhei e o que incomodava era uma foto do Michael Jackson branco. Pensei um pouco e entendi:
- Vitiligo, falei, ele disse que é vitiligo.
Notei que ficou ainda mais impaciente. Continuou olhando o jornal e apontou para uma foto do Obama.
-Será o próximo - se tudo der certo para todos nós - presidente dos Estados Unidos.
Ele arregalou os olhos assustado e deu-me as costas saindo lentamente ao encontro do esbranquiçado. Antes de virar-se, notei um quase sorriso de aprovação. Fiquei olhando em silêncio a figura indo até que Bee Gees: tocou o meu celular. Ele parou e ficou encarando a espera de algo. O arranjo sintético da melodia do inesquecível grupo tomou conta de tudo. Abri o aparelho:
- Alô? - ouvi qualquer coisa e continuei:
- Estou indo agora, me espera, já estou no bairro Esperança - disse, já percebendo o balançar horizontal da cabeça da figura, antes de sumir em definitivo. 

(Fiquei parado pensando no que realmente tinha acontecido. Afinal, eu havia mostrado que o mundo evoluíra, que supostamente havíamos vencido preconceitos e racismos, que éramos mais felizes, que até a mentira era permitida e aceita, que tínhamos liberdade para mudarmos radicalmente, que a tecnologia havia avançado muito... ?)



O Velho, o cão, o seqüestro e a fantasia

Às vezes penso que não estou com minhas faculdades mentais em ordem. Esta semana, dois casos ocorridos no Brasil, um aqui no sul e outro em São Paulo, me deixaram de sobreaviso a respeito de minha sanidade. Eu não posso estar vendo o que está nos telejornais. É tudo imaginação (e barata) de minha mente doentia. Não há nada tão torpe e tão irreal como o que imaginei.

Vamos aos casos: em Santa Maria, uma cidade universitária a cerca de 300 kms de Porto Alegre, um velhinho de 78 anos, dirigindo um fusca verde alface, atou um cachorro no pára-choque de seu carro e saiu pela cidade arrastando o agonizante animal. Parado por alguns passantes, policiais retiraram o ensangüentado cão e perguntaram ao calmo idoso a razão daquela atrocidade. Ele explicou que o animal havia brigado com o dele. Ponto. Esta é a irreal história que meus neurônios perversos e diabólicos inventaram. Claro que o motivo desse delírio deve ser minha (novamente) implicância com os que olham para uma pessoa enrugada, encolhida e de cabeça branca e imediatamente dizem: "cosquerida este velhinho", sem sequer especular se o tão sereno e inspirador de confiança ancião foi um exterminador nazista na Polônia ou um estuprador de crianças dentro de uma igreja qualquer. É uma conta simples: todas as pessoas más, como as boas, se não morrem, envelhecem, ou seja, a proporção de tarados, assassinos, sádicos e por aí afora é praticamente a mesma na velhice do que na fase adulta. Conclusão: boa parte dos "velhinhos simpáticos" são, ou na melhor das hipóteses foram, pessoas ruins. Mas minha imaginação poderia ser menos fértil, e não criar um enredo tão sórdido como esse do cão arrastado pelo fusca e o motivo alegado. O segundo caso: um seqüestro passional. Um rapaz de 21 anos deixa presa sob a mira de armas uma menina de 15 anos a qual ele namorava e uma amiga, da mesma idade, em Santo André, uma rica e próspera cidade. Detalhe sórdido da minha tão estupendamente doentia mente: eles namoravam há três anos, ou seja, ela tinha 12 quando tudo começou. Pensei que eu não fosse capaz de criar nada assim, com crianças fazendo coisas de mulheres, mas... Bem, ao caso: depois de mais de 100 horas de tensão (eu escrevi mesmo este número , sem engano - claro que na esfera do imaginário tudo é possível) a amiga é libertada e devolvida ao bandido logo depois. É mais ou menos uma síndrome de Estocolmo só que atingindo o comando policial. Da para acreditar nisso? Pois é, ela voltou e terminou a história com um tiro no rosto. A outra com dois: um na cabeça e um no abdomem e provavelmente irá morrer (se viver, será em estado vegetativo). O bandido está vivo e protegido, bem alimentado, e já "avisou" que um diabinho falava em seu ouvido. Claro, coisas do demônio. Ele não era capaz de perceber o que fazia, coitadinho. Detalhes sórdidos: um dos comandantes que permitiu que a amiga voltasse ao cativeiro, disse que se fosse sua própria filha ele também permitiria. Bom, não é de espantar que tudo isso tenha acontecido. Mas é só mesmo a fertilidade de minha massa cinzenta para criar fantasias tão colossais e absurdas. Claro que essa segunda história tem muitos pontos inverossímeis, como a razão da polícia esse tempo todo não ter invadido em uma hora em que o cansaço ou sono tivesse tomado conta do bandido, ou a estranha razão de alimentar o sujeito e tantas e tantas outras coisas erradas. Mas deixa assim, é algo tão espatafúrdio que não merece atenção.
Vou é procurar em bom terapeuta. Preciso de um urgente. Ou melhor fechar os olhos e ouvidos. Este mundo imaginário que crio é muito perigoso, ainda bem que vivo no mundo real, onde policiais não mandam meninas de 15 anos ao encontro de seqüestradores e todos os velhinhos são muito queridos e bonzinhos. Puxa, adoro isso tudo!

Poemas, assim, sem mais nem menos?

Para minha Alemoa:


Sem preparo, como um suspiro,
todos os anos se mostram em minha frente,
e fazem com que eu sinta diferente
o que sempre senti: amor!
Chega a idade, e com ela respeito e transformação,
sou ainda jovem para o saber, mas velho para não ser,
então, respiro, me viro e digo: é bom estar contigo!

Cícero, do povo cíceros



Meu amigão, esta máscula figura aí acima - acreditem, não tem photoshop -, aquele mesmo que afirmou que o Guion (uma rede aqui do sul) é um cinema que homem pode beijar homem na boca mas não pode comer pipoca, noite dessas disse que tinha ficado zangado, e por isso não havia mais feito comentários por aqui, com um post chamado Bolsa Cerveja que escrevi. É certo que chamo este meu amigo de "sindicalista de direita", talvez pelos seus cafés da manhã com o ministro do trabalho ou... , sei lá. Mas, brincadeiras à parte, isso me incitou a escrever não sobre esquerda, direita  ou centro ( leia-se muro) mas sim sobre o direito, ou dever, de perguntarmos.
Acredito que aquele que é oposição, ou seja, seus ideais políticos não são a base de quem governa, tem a obrigação de indagar os atos do poder. O questionamento é não somente uma forma de pressão como também uma espécie de fiscalização. Inclusive sobre o que vai bem devemos incansavelmente investigar. Se for situação, aqueles com os quais comungamos os mesmos ideais, este questionamento deve ser ainda mais severo. Existem muitas possibilidades de erro, milhares na verdade, e quanto mais cada ação for exaustivamente discutida, mais chances de acertarmos. Afinal, seremos co-responsáveis caso algo de errado.
Não vou falar novamente do Bolsa Família, mas simplesmente citá-lo como exemplo: apesar de ser um ato comum aos governos ditatoriais e de direita - resume-se em um tipo de paternalismo -, onde o estado ao invés de oferecer aquilo que é sua obrigação, como condições para o trabalho, saúde, educação e acesso a um salário digno entre outras coisas, doa no final de cada mês o suficiente para o sujeito não morrer de fome, que obviamente não morre, cumprindo o projeto, então, a finalidade para que foi criado. Sobre este aspecto, tudo legal. Minha dúvida no post anterior e de agora é se isso realmente é saudável, tanto para quem recebe (creio que o fato de uma parte do povo não morrer faminto seja bem-vindo), tanto para quem paga. Sabe-se que os governos não produzem nada, portanto, todo dinheiro que gastam são gerado, pruduzido por outros. Quem paga isso afinal? Serão os mega-empresários com suas imensas fortunas? As igrejas? Os abastados políticos? Ou a classe trabalhadora, que rala todo mês e anda por aí pendurado feito frango no matadouro no transporte coletivo? Que anda com o dinheirinho amassado no bolso? Que almoça comida fria na obra mesmo?
Eu não sei a resposta para isso e nem para o que foi dito acima. Sei que todo esse povo não pode passar fome, mas não se essa é a melhor forma de saciar essa mesma fome. É claro que somente a iniciativa já deva ser aplaudida, afinal, ao menos estão tentanto e, na verdade, fazendo. Mas - aí que entra a questão -, independente do mérito, por que não questionar? Qual a vantagem de fecharmos os olhos para o que fazem, mesmo se concordamos? Será perfeito o plano? Não terá nada mais a melhorar? Nada a acrescentar? Se acharmos que estamos fazendo algo perfeito e sequer questionarmos, não estaremos errando somente por isso?
Volto a lembrar que a questão não é a posição política nem os méritos do Bolsa Família, e sim o direito (eu creio que seja dever) de perguntar. Se está bom, tentaremos melhorar. Mas para isso temos que conhecer, temos que saber. E como termos respostas se não fizermos perguntas? O conhecimento deve ser dissiminado entre todos. Quantos mais souberem, menos achacarão.
Confiar em um governo é uma coisa, não questioná-lo - seja ele qual for - é um perigo. Àquele que se candidata a vida pública, já sabe de antemão (ou deveria saber) do direito a informação dos governados, e deveria fazer disso uma bandeira de lutas, como os políticos mesmos gostam de dizer. Fiscalização é parte atuante da democracia.
Perguntar! Isso que defendo. Em tudo: nas artes, na política, na vida. Os que sabem que respondam.
Mas, enfim, acho que para meu amigaço voltar a fazer comentários e não ficar mais zangado comigo, eu deveria falar bem do Lula e pensei, então, em salientar a barba bem aparada do presidente... Brincadeirinha! Gosto do Lula, não gosto é do Inácio.

Cinema e música: mamma mia, que dupla!

Outro dia disseram que sou exagerado. Na mesma hora pensei: que absurdo é esse? Nunca ouvi nada tão irreal. Me chamarem de exagerado é certamente a maior injustiça do mundo. Àquelas palavras entraram em meus ouvidos como se fossem flechas incandescentes embebidas no mais doloroso veneno e, então, imediatamente concluí: não é que sou mesmo?

Mas a questão é a seguinte: uma atriz perfeita em uma interpretação magnífica, um elenco todo de primeira linha com atuações excelentes com dois ou três destaques positivos, um cenário de uma beleza incomensurável, uma história rica, triste e engraçada ao mesmo tempo, 52 milhões de dólares e uma trilha fantástica são fatores suficientes para se fazer um bom filme? São. E com
todos estes "detalhes" não fizeram somente o bom, fizeram o ótimo, o excelente. Mamma mia entra definitivamente para minha lista dos dez melhores filmes que já vi ( esta lista é um tanto diferente e necessariamente freqüentada pelo que ando vendo de melhor. Ela é versátil e se modifica constantemente e nunca nenhum filme sai, somente entra, por isso tem mais participantes do que o título anuncia ) e quase entra na dos três melhores ( outra lista também um tanto diferente, onde para um entrar outro tem que sair. Atualmente ela é composta por Pulp Fiction, Inconscientes e o Império do Sol).

O musical começa alegre e termina mais alegre ainda. A excelente música do Abba não deixa a peteca cair durante a quase uma hora e meia que mais parecem alguns minutos. Meryl Strip está simplesmente adorável e linda. Parece uma menina. Sempre afirmo que é garantido em musical bons atores, mas Mamma mia abusou. Não há nenhuma interpretação distoante pelo lado negativo. Colin Firth ( o eterno namorado da Brigit Jones) tem uma atuação estupenda. A lindíssima Amanda Seyfried está estonteamente bela. Enfim, nenhum compromete e todos somam.

Não à toa foi a maior largada de um musical no final de semana de estréia alcançando mais de U$ 27 milhões na bilheteria. Não causa surpresa, apesar do gênero não ser dos mais populares.

Minha vontade é contar toda a trama, detalhe por detalhe, música por música, mas não vou ser tão desagradável assim. Sequer vou dissertar sobre detalhes técnicos. Nada deve ser adiantado. O máximo que vou dizer é: vejam o que deve ser o melhor musical de todos os tempos. ( Se eu tivesse uma lista de musicais ele estaria lá). É um imperdível momento de graça que a humanidade consegue produzir. O mesmo povo que faz algo tão singelo e belo não pode ser mau. Saí do cinema mais confiante, mais esperançoso, mais feliz.

Áh, isso tudo sem exagero algum.





Presunção e gente chata

- Tem uma garrafa quebrada aqui! Que saco, sujeira prá eu limpar. Vida chata.
- Tem uma garrafa quebrada aqui! Que bom, será o anúncio para abandonar a bebida? Nossa vida vai melhorar a partir de agora.
- Tem uma garrafa quebrada aqui! Puta merda, e era a última gelada. Não é fácil uma vida assim.
Desculpem as repetições, mas são necessárias. 
Tenho uma implicância explícita com quem diz "com certeza". Já li a respeito e não sou o único. O que me deixa estupefato é a presunção desta gente. O cara na tranqüilo, caminhando na rua, chega alguém para puxar conversa e pergunta:
- Chove amanhã?
- Com certeza! - responde com a maior cara de pau. Como assim? Quais dados dão a certeza ao sujeito? Ele é metereologista e acabou de sair de uma previsão infalível? Esta famigerada expressão serve pra qualquer coisa, desde resposta pra "você me ama?" até para aceitar um convite. Eu tenho milhões de dúvidas e incertezas e essas pessoas sabem "com certeza" que seu time de futebol vai ganhar. É muito pra mim.
Pois há uma garrafa quebrada. Essa é uma certeza. Mas o que ela causa ou representa, depende de quem a vê. Os mesmos cacos podem ser bons, ruins ou mesmo irrelevantes. Qual a ligação entre uma coisa ou outra? A certeza. Ela é variável, inconstante. Com certeza para um, a garrafa quebrada representa uma luz, uma esperança para uma vida melhor. Para outro, com certeza uma coisa péssima, afinal, terminou a bebida, e para outro ainda, com certeza somente mais trabalho: terá que juntar os cacos. Todos os três "concertezamente" certos. A mesma cena representa coisas corretas e distintas para todos os personagens. Sabe qual a conclusão disso? Mesmo que se tenha certeza, o melhor é o silêncio. Todos podem ter a tal certeza e serem, sentirem ou fazerem coisas distintas.
Aí nasce um problema enorme, por vezes insolúvel. Quando todos não tiverem razão ou quando todos a tiverem teremos o caos.
Poderia terminar este texto usando a expressão "com certeza" e fazer uma sátira de vigésima categoria, mas vou evitar isso, ...



Noites de tormenta: um tormento


Semana difícil, tempos difíceis. Procurei um filme pra me fazer chorar. É notório que choro até em comercial de sabonete. Tarefa fácil, portanto. Tudo se encaminhava bem: em cartaz, um filme com a Diane Lane - ela é dessas pessoas em que se pode confiar, seu rosto e expressão inspiram isso. Se a encontrasse, é certo que em minutos estaria confidenciando meus segredos mais sórdidos e bem guardados sem nenhum constrangimento. Isso é ótimo para um ator, pois, quando acontece, confiamos em seu personagem, acreditamos em suas falas e assumimos aquele ser das telas como se fosse real - e Richard Gere - na verdade, choro só de olhar o cara, talvez pelo Tibet, ou pelos cabelos grisalhos, dele ou meu, tanto faz - num drama chamado Noites de Tormenta, baseado em um romance de Nicholas Sparcks.
Estava tudo perfeito: lenço no bolso, pipoca na mão, cara de sofrimento  e sentado bem no meio do cinema. Começa o filme. Uma proposta de reconciliação de um casal recém separado, os filhos revoltados e torcendo pela paz, o encontro inusitado da mulher (Diane) em uma pousada vazia com um médico (Gere) a procura de uma família a quem ele fez mal e bingo: o inevitável caso de final de semana. Pois o ex-prepotentedonodomundo vai embora paras as montanhas do Equador a procura do filho e começam as trocas de cartas onde as juras, promessas e outras besteiras mais são documentadas. Naquele romântico final de semana daria-se o início do que seria uma relação duradoura e recheada de amor e zelo. Algumas brincadeiras quase infantis da amiga dona da pousada e uma crise com a filha.
Este é o filme. A partir daí, ele termina umas três vezes, todas de maneira previsível e ruim. Nem o grande final (grande por acontecer no fim mesmo), com a morte do sujeito tentanto ajudar indiozinhos sem luz, água, comida e remédios nas montanhas equatorianas ajuda. Nem a redenção do filho do cara, nem da filha adolescente da triste e desolada, parecendo também adolescente, Diane, nada, enfim, emociona.
Talvez eu não saiba como fazer um bom filme, mas um ruim acho que vou lançar um manual. E esse citarei como exemplo. Como sempre faço, não vou perder meu tempo com ele. mas, devo observar, a trilha sonora é curiosíssima, pra não dizer boa. Sempre destaco, também, uma cena de todos os filmes que vejo, nem que seja pra guardar na memória, e com esse não poderia ser diferente: a cena é a que aparece o The End.
Não chorei, a pipoca estava horrível, tocou um celular dentro do cinema. Só dizendo: que merda!

Apenas um verso

Li um verso que ficou como uma pulga dentro do meu cérebro, mexendo-se a cada instante e provocando-me muito. É simples e diz:  As páginas dos livros estão brancas demais!!  O tanto que isso me incomoda é surpreendente. Tudo que fizemos, estamos fazendo e uma boa parte do que vamos fazer está lá, nos livros. Essas palavras alinhadas ali, lado a lado, com seus dois pontos de exclamação no final, são ameaçadoras. Para dissertar com mais conteúdo, admito que essa é a verdade: estão brancas demais. Peguei o primeiro livro que vi na frente, assustado e apressado, abri e folheei: estava tudo como sempre, todos os verbos, adjetivos e substantivos. Cada letrinha escura sobre o papel branco. Todos os sinais e acentos em seus lugares. Até alguns ponto-e-vírgulas se aventuravam meio constrangidos. Mas se elas estão brancas demais e está tudo lá o que estaria acontecendo?
O óbvio: a cegueira. Ela está aumentando. Até agora, não víamos somente nossos atos, nossa barbárie, nossa crueldade. Trato exatamente disso no post O cinema e a vida logo aí abaixo. Não vemos sequer quem nos serve. Chamei isso tudo de cegueira social. Mas, e este é o meu medo,
será que isto está aumentando? Nossa cegueira está chegando aos nossos conhecimentos? Aos nossos arquivos? A nossa cultura? Em nossa arte? As páginas estão brancas demais.
Claro, sei que é somente um verso, e, assim como está, solto, ainda mais suscetível a qualquer interpretação. Pode-se fazer uma verdadeira viagem baseado nisso (e é o que estou fazendo), mas nem por isso deixa de ser assustador. Somente a hipótese já causa arrepios. E se começarmos a observar- são notas pequeninas em rodapés de jornais - sempre há notícias de que se lê cada vez menos, que bibliotecas estão fechando e editoras falind,o apesar de Paulos Coelhos venderem cada vez mais.
Já foi dito que um povo sem passado é um povo sem futuro, e o passado está nos livros. Eu afirmo que a base de civilização também está. O que, afinal, não está? Talvez o bom senso para não enxergarmos as páginas brancas demais. Tenho ouvido que devemos ler mais poesias, boas poesias. Talvez seja um bom começo, até para - em breve - não ser um bom recomeço.

Cinema e o preconceito


Aquilo que é feito para o grande público é ruim? Um filme que faz chorar, torcer e sonhar é ruim? Que trata de um tema mais do que batido, com atores quase desconhecidos deste mesmo público, é, sem dúvida, ruim? Que mostra um ruptura social sabida por todos e um caso de amor a "Romeu e Julieta"  faz, necessariamente, que seja ruim? E se o diretor for reconhecido, pelo trabalho anterior, como um verdadeiro contador de histórias para o povo? Heim? Heim? Que tentação de dizer que sim, que o resultado não teria como ser bom com todos estes detalhes. Mas não é isso que acontece, mesmo contra minha lógica cinéfila elitista.
Em Era uma Vez, de Breno Silveira, diretor do consagrado Dois Filhos de Francisco, acontece tudo o que perguntei acima e mais um pouco, e o filme é bom. A história vem pronta, embalada, como um presente e não precisa nem retirar o embrulho: no decorrer da trama, o próprio diretor faz isso, desnudando os medos, cruzando destinos, inventando heróis e bandidos e simplesmente nos contando uma história. O interessante é que fala de uma que sabemos, em uma situação que conhecemos, com uma previsibilidade assustadora e mesmo assim é bom. Talvez por misturar amor com banditismo, pobre com rico, tiros com expectativas e planos, isso aconteça de forma bastante consistente. A trama é contada de uma maneira que não surpreende mas agrada. 
Os dois atores principais, Thiago Martins (Dé) - integrande de um grupo de teatro de uma favela onde, sabe-se no final do filme, ele mora até hoje - e Vitória Frate (Nina) tem atuações surpreendentes. Thiago é tipicamente um esforçado rapaz da periferia, batalhador e sofrido. Creio que o fato - sem preconceitos, tão discutido blogs afora - dele não ter precisado fazer laboratório tenha ajudado bastante e Vitória, uma patricinha da Vieira Souto - também não deve ter precisado de laboratório - trabalham em uma sintonia muito legal. Talvez eu não tenha sido explícito, mas a verdade é que os dois trabalham muito bem. Dá gosto de ver. O restante do elenco também não deixa a desejar. 
O resto dos quesitos que considero essencial para um bom filme, fotografia, trilha (muito, mas muito melhor mesmo que do filme anterior do mesmo diretor) não comprometem. Os diálogos não são muitos, digamos, inteligentes, mas esperar o que? Tudo pela verossimilhança.
Enfim, mais uma vez Romeu e Julieta morrem, mais uma vez o morro desce para o asfalto. Enfim, um bom filme sobre estes mesmos temas, sem preconceitos, é claro.



O Fim do mundo


Bem,  o fim de tudo era certo, então fiz o que me pareceu mais sensato: sentei e chorei. Felizmente durou pouco meu pranto, pois minutos depois já estava com o olhar curioso, tentando ver chuvas ácidas ou anjos alados caçando humanos. Não via nada diferente, porém, sequer correria. Tudo me parecia normal, com as pessoas apressadas caminhando desesperadamente como em um formigueiro, os mais fortes fisicamente e menos intelectualmente exercendo o "legítimo e natural" ato de mandar, os motoristas sem rodeios estacionando em faixas de pedestres e coisas deste tipo. Percebi, também, que tudo continuava igual nos governos, gastando mais com seus exércitos do que em educação, com povos odiando outros povos por possuirem deuses diferentes ou não possuirem nenhum, tanto faz, com bibliotecas e museus cada vez mais escassos e inacessíveis e bancos e farmácias cada vez mais populares e freqüentados. Notei que as jogatinas nas bolsas de valores permaneciam inalteradas e que os preços dos alimentos continuavam subindo, tornando-os inviáveis aos pobres, por causa da especulação e não pela falta. Vi que pais ainda batiam nos rostos das crianças, e que estas mesmas crianças permenaceriam se drogando, e que depois elas, antes de morrer cedo, bateriam no rosto de outras ainda e assim por diante. Enfim, percebi que tudo continuava igual. Exatamente igual.
Ainda sentado comecei a chorar novamente, sem chuva ou anjos alados.