Teatro de Bonecos de Canela

Dia desses estava em um aniversário de criança. Cerveja, uísque, petiscos, cachorrinhos-quente (uma das melhores coisas da vida) e amigos bem amigos, tudo que deve ter neste tipo de confraternização. Conversas voando conforme a graduação alcoólica sugeria e os assuntos ficando cada vez melhores e, para ser franco, picantes. Cochichávamos tentanto arrancar uma confissão das mais "cabeludas". Quando enfim ela viria, com todos se ajeitando curiosos nas cadeiras para ouvir, e o "depoente" fez o tradicional arrrrããã antes de começar a dizer "pois quando entrei ela estava ..." BUMMMMM.
Isso mesmo. Bummmmm com cinco emes. Bomba de balão. Em seguida uma tropa corria desesperada, numa fuga verdadeiramente alucinante, abandonando a guerra e qualquer chance de vitória, bateu na mesa derrubando nossas bebidas. Virei rapidamente para ver o motivo da debandada: meninas, com seus estojos de maquiagem e estrelinhas brilhantes de colar na pele, perseguiam os bravos guerreiros sem dó. A ordem deveria ser não deixar testemunhas, pelo caos geral. Então, alguém dos nossos levantou e gritou quase aos prantos:
- Quem são essas crianças? O que estão fazendo aqui? Quem as trouxe?
Então impiedosamente outra menina, uns trinta anos a mais das que corriam, falou com a frieza característica dos maus:
- São os filhos de nossos amigos trazidos por eles e estão comemorando o aniversário do teu oróprio filho.
- Ah, claro, claro...
Nosso mundo caiu. O chão deixou de existir. Quando ele entrou ela estava o que? Preciso desta informação para viver. É mais forte que eu.

Pois aconteceu há poucos dias em Canela, uma cidadezinha pequena, linda e cativante a apenas seis quilômetros de Gramado, o 21º Festival Internacional de Teatro de Bonecos, um verdadeiro espetáculo. Com grupos da Finlândia, Espanha, Argentina (a propósito, o Pelé sempre foi melhor que o Maradona - sempre convém citar) e Itália, além dos nacionais, vindos de Minas, São Paulo, Rio, Paraná, Santa Cataria e, claro, Rio Grande do Sul, dividiram-se em dois tipos: os apresentados em teatros, com o preço do ingresso a vinte reais e, inexplicavelmente o infantil com o mesmo valor, e os apresentados na praça, gratuitamente.
Eu consegui ver apenas oito peças. E o "apenas" não é ironia. Minha vontade era assistir a todas. Vou destacar duas de cada estilo: de Belo Horizonte, o grupo Giramundo com Pedro e o Lobo é simplesmente fantástica. Dois rapazes e uma menina manipulam os bonecos (marionetes) com perfeição e interagem com eles provocando cincoenta minutos de risos. Tem um argumento simples e eficiente além de uma interpretação para lá de profissional. Outra impossível de não destacar é do grupo finlandês WHS, Katoamispiste, que mistura de forma harmônica alta tecnologia, malabarismo, dança e arte. É um show simplesmente imperdível, com cenas inteligentes e inusitadas.
Na rua, onde via-se teatro exclusivamente de bonecos, a cada hora uma atração. Dois palcos frente a frente com dezenas de cadeiras no meio. Terminava uma peça, bastava virar a cadeira para ver outra. Uma ideia genial de tão simples e eficiente. Poderia destacar vários shows, mas ressalto dois: Cia de Bonecos da Gente, de Alvorada - RS, com o espetáculo Afrodescendentes, que nada mais é do que a performance de três "cantores", entre eles um Tim Maia que xinga e reclama do retorno, interpretando canções conhecidas. Outro destaque foi o grupo portoalegrense Giba Gibão Jibóia, com As Aventuras de Pantaleão, o Mágico Trapalhão. O enredo da peça entusiasmou o público, inclusive e principalmente o adulto, com tiradas como "essa floresta é que nem cheque especial, depois de entrar nunca mais se consegue sair" ou ainda quando o diabo, logo após um efeito sonoro muito adequado, apareceu e disse"quem me chamou? Eu estava lá em casa tranquilo, assistindo a TV Senado, adoro a TV Senado..." ou ainda alguma piada feita conforme os acontecimentos do dia. Gargalhadas garantidas inclusive no improviso enquanto esperavam a volta do som, onde um boneco pergunta ao outro:
- Que vamos fazer agora enquanto aguardamos?
- Vamos dançar salsa.
E dançam, deixando natural algo que nunca esteve no roteiro. O retorno do público foi impressionante.
Mas nem tudo é perfeito. Aquela alegria toda - a cidade toda fica feliz -, as peças lindas, os bonecos maravilhosos e, elas, sempre elas, as crianças, rindo sem parar, interagindo com os personagens, participando das histórias, lindas e felizes vivenciando aquele banho de cultura, de arte e, por vezes, atrapalhando um adulto compenetrado, que tentava com afinco entender um diálogo qualquer em outro idioma. Áh...
Tudo bem, admito, a maioria das atrações foram para o público infantil, mas, quer saber:
- Quem são essas crianças? O que estão fazendo aqui? Quem trouxe?
Não respondam, por favor. Não respondam.
A propósito, o que ela fez? Com quem? Como? Até hoje eu não sei. Não vou sobreviver assim. Estou vendo uma luz...





Velho é velho!

Gosto quando os leitores se manifestam. Uma parte deles deixa comentários e outra manda e-mails concordando, discordando, xingando, enfim, interagindo com o que foi escrito. Algumas opiniões são extravagantes e outras tantas impublicáveis. Em geral, porém, são recados amistosos e alguns, pasmem, até com certo carinho. Um tipo em especial me chama a atenção: aquele que se detém no detalhe, na vírgula e não na frase.
Recebi um desses relativo ao último post, sobre A Mulher Invisível. Não tratava sobre cinema, nem dissertava sobre Luana, muito menos queixava-se de minha crítica um tanto dura. Falava da menor frase de todo o texto: "Nem velhos". Esta mesma. E dizia, muito educadamente, que eu não deveria referir-me assim aos velhos. Que poderia usar expressões como "terceira idade" ou "melhor idade" que ficaria mais suave e respeitoso.
Li duas vezes a mensagem. E mais uma. E ainda outra e minha opinião não mudou. Tentei entender o que meu leitor dizia, tentei estar no seu lugar e nada. Respondi discordando, claro, também muito educadamente, expondo minha opinião, que é bastante simples: se a pessoa for uma criança, e tenho que referir-me a ela de maneira genérica, como foi o caso do meu texto, farei da seguinte maneira: "a criança está brincando", por exemplo. E assim em outras tantas circunstâncias, incluindo gênero, cor e religião e não vejo problema algum. Se estiver vendo uma luta de boxe e no ringue estiverem um dominiquenho retinto e um austríaco branquelo, sem dúvida direi:
- Aposto no negrão contra o alemão - até porque conheço boxe.
Mais exemplos? Vamos lá, um daqueles que dá briga. Se eu fosse a um encontro multi-religioso e visse um cara de batina, um usando quipá e outro com roupas brancas cheia de babados, certamente diria "um católico, um judeu e um babalorixá juntos" e não vejo problema algum. Se estivesse inspirado, poderia provocar dizendo " talvez um pedófilo, um agiota e um macumbeiro" refirindo-me a inúmeros exemplos mundo afora que padres, rabinos e pais-de-santo dão o tempo todo.
Evidente que estou falando isso para provocar e sei que não se deve generalizar. Claro que em qualquer um dos casos a maioria é de pessoas descentes e honestas, apesar de eu bater frontalmente com estes também, mas isso é outro caso, outro post.
Enfim, acredito que a melhor maneira de chamar uma criança é de criança, um índio de índio, um alemão de alemão, um japa, coreano, chinês ou tailandês de china, negrão de negrão e velho de velho e creio, sinceramente, não estar faltando com o respeito a nenhum deles.
Depois de explicar tudo ao meu leitor, ele disse, novamente com muita educação, que entendia mas, mesmo assim, sentia-se incomodado. Então tornei a escrever observando que talvez fosse melhor eu usar "idoso" e ele concordou. Questão resolvida, o texto de minha última mensagem foi:

" Combinado!
Abração, meu velho."

Recebi a resposta:

"Rarara!
Abração, meu piadista"

Tenho a impressão que ganhei um amigo. E tomara que fique velho como ele. Oitenta e cinco anos de idade e alguns séculos de compreensão.

A Mulher Invisível


Gosto do Selton Mello, do Vladimir Brichita, da Fernanda Torres e, em vários aspectos, da Luana Piovani. Gosto muito do cinema brasileiro, de comédias românticas e acho o tema da esquizofrenia muito interessante. E não gostei de A Mulher Invisível, uma comédia nacional com o elenco de dar inveja descrito acima, que tem como argumento central a alucinação de um romântico inveterado.
Mistério? Nenhum e explico. O filme aposta em clichês o tempo todo. Incansavelmente busca o riso através de cenas mais do que batidas. Além disso, explora demais o que seria a veia cômica do protagonista, o excelente Selton Mello, que parecia uma cópia dele mesmo. Creio que por culpa da direção equivocada, o ator insiste em sons e caretas despropositadas, abusando um pouco, invadindo o perigoso campo do mau gosto. É certo que talento não falta a Selton, mas esse exagero comprometeu seriamente sua atuação. Para quem acompanha o ator, fica fácil identificar neste trabalho traços de personagens de outros filmes, o que também influenciou no desempenho e, claro, na análise. Não poderia ser diferente, isso é imperdoável. A busca do riso não deve passar pelo apelativo, pelo menos em um filme onde a proposta não é o humor pastelão.
Luana Linda Piovani não compromete, mas não entusiasma. O que era para ser uma personagem fantástica, uma mulher imaginária linda, esperta e inteligente, vira uma garota morna, sem picos, a média da média. É certo que ela precisa ser muito bem dirigida para não deixar a desejar, mas no papel de bonita que não existe, também é certo que não precisaria nem de laboratório. Mesmo assim, não estourou.
Vladimir Brichita só não salva o filme porque é coadjuvante. O amigo chato. O cara que não vê a mulher linda. Mas a interpretação é sensacional. Desempenha com muita propriedade e rouba as cenas em que participa. Infelizmente, não o suficiente para valer o ingresso.
Maria Manoella tem também uma atuação satisfatória, assim como Fernanda Torres, porém os papeis periféricos condenam ao esquecimento.
Mas não é só isso. O roteiro e os diálogos são fracos. O filme acontece em slow e esse parece ter sido o propósito. Quando assisti, depois de uns vinte minutos de escurinho, pensei tratar-se de um filme para adolescentes, apesar da lentidão, mas que esqueceram de avisá-los. Não havia nenhum no cinema. Nem velhos. Alguns pouco de meia idade. Enfim, pouco se aproveita do filme dirigido por Cláudio Torres que, confesso, não conhecia. Talvez a falta da escolha objetiva de para que público este filme foi realizado tenha causado o estrago todo.
Sugestão: revejam Pulp Fiction em DVD, um filme nada invisível, com uma das melhores atuações da história do cinema, com John Travolta.
Desculpa a franqueza, Luana.


Hora de marchar?

Têm coisas difíceis de serem aceitas. Minha posição política é bastante clara, sempre foi, e serviu de bandeira a meu discurso por um bom tempo. Mas o chocante é que, independentemente de minha ideologia, o que vem acontecendo é inaceitável. Direita ou esquerda, tanto faz, é igualmente catastrófico, sem nenhum exagero.
É algo tão assustador que, creio, seja inédito. Em geral relações entre pessoas ou mesmo grupos, principalmente em uma negociação, um perde e outro ganha. O que permite dizer, a grosso modo, que o assado é o mesmo. Seguidamente alguém come mais que o outro, afinal, os quinhões não são igualmente divididos, mas todos participam. E assim vem acontecendo desde o império, em praticamente tudo. Desculpem, vou repetir: uma parte perde, a outra ganha.
Pois em nosso valoroso (no sentido literal da palavra) Senado, o mais espetacular antro de bandalheiras e sem-vergonhices já visto nesta república, descobriu-se há pouco o mais novo escândalo: os atos secretos, que nada mais são do que não publicar as falcatruas no diário oficial, como manda a lei. Um senhor excelentíssimo senador nomeia, por exemplo, seu netinho para ser acessor de algum também digníssimo colega (para que nós, é claro, paguemos cerca de dez mil reais a cada trinta dias ao imprescindível funcionário) e não publica. Nada além disso.
O que choca não é a nomeação de tão competente cidadão e nem o esquecimento de avisar a nação de atitude tão lícita. O que me deixa bastante perturbado é que esse ato, além de ter sido feito por um ex-presidente da república e atual presidente da casa, o dono do Maranhão, senhor (todos aqueles títulos) Sarney, deixou-o bravo. Ele disse que nós (nós mesmos, você, eu, o cara da lanchonete, o jornalista, o desempregado, os eleitores) não temos o direito de julgá-lo nem criticá-lo. É evidente que o dever de pagar o netinho nos é assegurado, sem problema algum. Não bastasse, ele bradou frente ao microfone que não entendia a razão dos ataques, já que o fato não tinha acontecido em sua gestão (ele referia-se que a nomeação foi antes de assumir a presidência). Por favor, esperem, deixem eu me acalmar. Foi isso mesmo? Foi. Vamos pensar: não aconteceu realmente em sua gestão. Sim, ele está coberto de razão. Não cabe ao senhor (títulos e mais títulos) presidente responder. Mas, expliquem-me, o ato foi dele, ele nomeou o próprio netinho e "esqueceu" de publicar. Cabe a quem responder? Quem?
Não vou escrever nada para não ser mal educado. Na verdade, a situação pede é xingamento. Pede estudante na rua, piquete na fábrica, passeatas estragando os gramados de Brasília. Pede que esse sujeito e toda corja vão à ....
E mais. Sim, infelizmente tem mais. O que disse nosso senhor presidente Inácio? Apoiou o sujeito. Em alto e bom tom. O que disseram os outros tão corretos senadores? O que fizeram? Calaram-se. Esconderam-se. Alguém ouviu pedidos de renúncia do Severino da vez? Não, ninguém ouviu por que isso não aconteceu. Poderia citar os nomes dos digníssimos, mas não farei por que falo de todos. Não escapa nenhum. Todos são omissos e coniventes com a canalhice. Todos! Direita, esquerda ou volver!
Quer saber? Isso não é mais caso de política e nem de polícia. Mas vou ficar calado também, afinal, não tenho imunidade alguma. E qualquer um, exceto eles, pode virar o bandido da história. Desta vez é a imprensa, como sugeriu nosso popular Inácio.
Para concluir. Conseguiram: aqui neste nosso tropical país, uma parte perde, e a outra também.


Por aí

Não publico contos neste blog. A ideia, quando fiz o Cinema e Bobagens quase um ano atrás, era publicar, intercalando com opiniões sobre a Sétima Arte. Mas, sei lá a razão, nunca aconteceu.
Felizmente alguns sites fazem isso (ainda bem para mim) como o Sexo & Crime. Deem uma espiadinha, tem um lá chamado Sucessão. Tomara que gostem.
O texto, até para "acompanhar" o estilo de onde ele está, é ...
Bem, melhor vocês olharem.

O Exterminador do Futuro: a Salvação

Eu gostei.
É certo que há exageros e cenas não só inverossímeis como infantis, mas não atrapalham a proposta do filme, por um simples fato. Quando se vai, sei lá, a um show de pagode, por exemplo, sabe-se que a música será pagode e nenhuma outra. Ou ainda se o programa é um espetáculo de humor, é certo que escutaremos muitas histórias curtas sobre sogras, papagaios e políticos e nem poderia ser diferente. Pois no Exterminador do Futuro tem de tudo: cenas de ação, tiroteios, perseguições terrestres e aéreas, lutas e muita explosão. Quando fui ao cinema, sabia que era exatamente isso que iria ver. E vi. Só faltou aparecer uma luta de pirata em um convés de madeira sob a bandeira negra.
Brincadeiras à parte, o longa é riquíssimo em efeitos especiais. É verdade que os closes em John Connor( Christian Bale - Batman Cavaleiro das Trevas e Begins), nosso destemido herói, cansam um pouco, mas as tomadas cheias de adrenalina superam isso. Os exageros ficam restritos a cenas como (prometo contar só essa) uma em que o metade homem / metade robô foge com a mocinha sob um tiroteio intenso, mas intenso mesmo, tiros de todos os lados, inclusive o de cima, de helicópteros, sobre um campo minado sem serem atingidos. As rajadas de metralhadoras passam ao lado dos dois por diversas vezes sem acertá-los. Pois eles chegam até um lugar protegido e, como um teste, o homem expõe a mão, assim, centímetros além do muro e, mesmo no escuro, pimba! Uma bala atravessa a palma fazendo um enorme buraco. Ainda bem que o órgão era robotizado. Mas, na mesma hora, pensei onde estaria aquele atirador segundos antes, quando os fugitivos estavam "desfilando" sobre as minas terrestres? No cafezinho? Passando um fax?
A participação do eterno Exterminador Arnold Schwarzenegger (governador republicano da Califórnia) foi de extremo bom gosto e, creio, uma justa homenagem. É certo, acredito que como político ele seja um ator mediano, mas isso é outra história.
Os efeitos sonoros são de concorrer - e ganhar - oscar. A ambientação em 2018 é muito bem feita e nenhum dos atores principais comprometem. Resumindo. Se quiserem ver um autêntico filme de aventura, com direito a gente voando junto com as explosões, sem dúvida é uma boa opção.
Um último detalhe: o final. Como prometi, claro, não vou contar, mas só ele já vale o ingresso. Para tanto, é preciso lembrar o tipo de filme que está na telona, mas, fiquem tranquilos, depois de toda a ação é impossível esquecer.
Interessante. O começo e o fim são excepcionais e o meio do filme médio. Somem isso aos duzentos milhões de verdinhas para pouco mais de duas horas e teremos um resultado que torna obrigatória a ida ao cinema, para quem gosta da Sétima Arte.
Então, bom filme, como diria bom pagode ou bons risos, nos outros casos.


Mau Humor

É certo que gosto não se discute. E isso, claro, é motivo de discussão. Por que não? Oras, oras... Eu tenho bom gosto, mas nem todos têm. Por exemplo, há pessoas que dizem em uma despedida "beijo no coração". Quê? Onde? Como? Que coisa mais tétrica, mais horrorosa. Beijo pode ser na boca, na testa, na bochecha ou em alguns outros lugares mais ao sul, mas no coração?
Primeiro fato: o lugar a ser beijado tem que ter superfície alcançável sem nenhuma perfuração. Segundo: não pode fazer tum, tum, tum sem parar. Terceiro: não pode ensanguentar a boca de ninguém.
Claro que alguém dirá que isso é figurativo e tal. Aí vou dizer na despedida "beijo no fígado" para um amigo companheiro de beberagem, ou um "beijo nos ovários" ou ainda "beijo nas trompas de falópio" para alguma gostosona que passe em minha frente. Figurativo ou não, isso é feio, muito feio. Portanto, me irrita.
Se algum dia eu for caminhando pela rua e encontrar uma amiga, melhor ainda, uma velha amiga, dos tempos de infância, e conversarmos sobre o passado e sorrirmos e ficarmos saudosos dos "bons" momentos e, na despedida, ela disser "beijo no coração" eu... bem, eu... áh, esqueçam, estou de mau humor.
Esqueçam nada, eu tiraria o casaco, o blusão, a camisa, a camiseta (está frio aqui), colocaria o peito ainda mais à frente (ele é vantajosamente insinuante), cravaria as unhas - não cortadas há dois meses - no lado esquerdo e rasgaria as peles e as carnes, fazendo com que meu coração ficasse a mostra e, enfim, diria "beija, beija", antes de cair morto no chão, frio como eu. Não seria uma morte vã.
Dizer uma atrocidade destas - beijo (argh) no coração - é como por açúcar em café ou beber cerveja quente. São atos imperdoáveis, irritantes. Outra coisa que me tira do sério são pessoas que não escutam. Sabe? Daquelas que só falam. Falam muito. Mais e mais. Sempre. Sobre tudo. Entendem tudo. Já viveram tudo. Se alguém conta que foi a uma praia, ela foi em uma melhor. Se teve dor de dente, o dela doeu mais. Se é corintiana, ela é do Internacional. Mais, mais, mais. E não escutam. Pode-se contar o que há de mais fantástico na história da humanidade e nada, ela continua falando sobre rendas em pano de pratos. Isso é irritante, não é?
Se eu encontrasse uma pessoa dessas eu diria, assim, rapidamente: beijo no coração! E iria para casa tomar meu gardenal com café sem açúcar.
Cerveja quente não. Isso nunca.

Decreptude

Estou encrencado. Coisa séria por demais, como dizem por aí.
Na literatura, sempre busco conflitos. Acredito que textos sem eles ficam vazios, inócuos. O contrário, em compensação, dá o que falar. Penso que para termos um bom romance, ou um bom conto, ele seja fundamental. É o tempero, o sal.
Na vida real - mesmo sem ser rei - quero distância. Prefiro a calmaria. Gosto de "levar" a vida sem me preocupar que ela me "leve" vez ou outra. Do silêncio e de não fazer silêncio algum. Gosto de ser gostado e de gostar das pessoas. Frase feia e cacofônica mas verdadeira. Falando nisso, gosto de verdades e de mentiras que não dão certo. De sentir o desafio de uma noite fria, desde que aquecido. Do vinho aguçando meu paladar. Da luz quando vencida pelo escuro, e do breu quando invadido pelo claro. Lusco-fusco. Gosto do olhar verde de meu menino e de amar um homem sem ser homossexual. De ser pai e não de ser filho. De não ter pressa e estar sempre correndo. Gosto de não correr de tênis e calção. Gosto de chorar no cinema e de rir em qualquer lugar. Não gosto de um poema que não entendo e compreendo que não é para mim. Gosto de saber e sei do que gosto e do que não gosto. E digo "encrenca".
Pois estou encrencado. Fico nesse devaneio para não ir direto ao assunto: conflito. Homérico, faraônico, incomensurável conflito. A coisa é tão feia que nem deveria estar aqui escrevendo. Por sinal, os deslocados termos não são ao acaso. Nem as rimas inseridas e as palavras repetidas. Tudo consequência. Em vez de estar sentado aqui redigindo, deveria, isto sim, estar frente a um psicólogo, preferencialmente psicanalista com cavanhaque branco, de Buenos Aires, dos bem ortodoxos. Ou, sei lá, em uma delegacia. Melhor ainda, em um conselho tutelar. Mas, já que teimosamente estou aqui, vamos lá.
Aconteceu uma briga horrível. Não quero dar razão aos que me chamam de exagerado, mas todos os adjetivos que usei acima para mensurar o conflito ficam pequenos, humildes. E o pior de tudo não é o tamanho e sim os participantes. Tenho até vergonha, mas confessarei para servir de exemplo a todos. Se somente uma pessoa conseguir evitar o que estou passando, terá valido a pena eu enfrentar toda minha angústia. Provavelmente depois da revelação, o cavanhaque branco será indispensável. Meu vinho, meus gostos, minha calma, meus sons, minha luz, enfim, minha vida, será somente uma partida de xadrez, estrategicamente calculada em busca do final. A revelação será somente o estopim, a bomba vem depois.
Sentem-se, senhoras e senhores.
Acomodados? Não?
Eu espero!
Ok. Vamos lá. Minha criança interior brigou com meu amiguinho imaginário. Isso mesmo. Não sei como agir. E isto é somente o estopim. O pior, a bomba, vem agora: eles foram embora. Estou só. Gritei, clamei, collori "não me deixem só" mas de nada adiantou. Em um segundo tornei-me velho, sozinho e caduco.
Querem ver? Pois quando citei coisas de que gosto, pasmem, esqueci da Maitê. Não algo simples como esquecer de respirar ou desimportante como quem eu sou, mas da Ma-i-tê!
Se ela não me perdoar e o Parkinson permitir, meu próximo texto será sobre suicídio.
E vou comprar um Play Station. Sei lá. A gurizada pode voltar!



Um ato de liberdade

Cinema.
   Um ato de liberdade é mais um bom filme do diretor Edward Zwick (Diamante de Sangue e O Último Samurai). Ambientado na segunda grande guerra, disserta sobre o massacre indiscriminado de judeus pelos alemães e seus comparsas. Conta com muita técnica, a história verídica de três irmãos - os Bielski - que conseguem fugir dos nazistas durante a invasão da Polônia e escondem-se em uma floresta na Bielo-Rússia. Juntam-se a eles centenas de outros refugiados e todos sobrevivem por vários anos, passando por diversas privações, chegando ao limite da fome atingindo condições verdadeiramente desumanas. Daniel Craig (007 e Reflexos da Inocência) com uma interpretação louvável como protagonista e Liev Schreiber (X-Men e A Profecia) em uma atuação melhor ainda como coadjuvante, representam o sonhador e o prático em conflito, repetindo a eterna luta entre os platônicos e aristotélicos. O figurino, efeitos sonoros e a ambientação são de excelente qualidade. É certo que exageram um pouco nas tomadas dos belos olhos azuis de Craig, mas não chega a comprometer. 
    E aí vem o mistério. Não levando muito a sério minha comparação, o filme é como uma partida de futebol com dois ótimos times jogando muita bola e, depois dos noventa minutos, o resultado é zero a zero. Pois findos as mais de duas horas de Um Ato de Liberdade, o resultado é exatamente o mesmo: empate. Talvez a ambição de tentar abraçar tantos gêneros, uma mistura de drama com ação, além de um bom filme de guerra, fez com foco tenha se perdido, sem deixar de ser um filme interessante. 
    Para os cinéfilos, entretanto, sempre existem cenas que valem o ingresso. Daquelas que nos fazem ficar inquietos na poltrona, nos obrigam colocar as pipocas compulsivamente na boca. Em uma delas, depois de ter os pais mortos, um dos irmãos Bielski (Craig), na verdade um produtor rural, vai até a casa do responsável pelas mortes e, com certa crueldade, mata os dois filhos do assassino de seus pais antes de liquidar o desafeto. Uma mulher que assistiu a chacina, esposa e mãe, pede para também ser morta e recebe como resposta somente um olhar de desprezo. A tomada é forte além de bem feita. Engloba uma série de temas, priorizando vingança e frieza. Toda a história leva para que aquilo aconteça e, então, não chega a causar um estranhamento no espectador, mas mesmo assim perturba. Deixá-la viva pareceu muito mais cruel do que qualquer matança. É tudo muito rápido - ainda bem - porque realmente toca fundo em quem percebe o desespero da personagem.
    Outra cena que se destaca também fala de vingança e igualmente choca não somente pela barbárie. Um nazista é capturado e levado ao acampamento dos judeus. Fica indefeso e desarmado entre dezenas de velhos, mulheres e crianças que começam a agredi-lo até a morte, falando os nomes dos seus parentes mortos pelo exército nazista. A agressão é chocante, mas nem perto da atitude do comandante dos agressores, novamente Craig, que com uma expressão inesquecível fica calado, sem interferir. O silêncio dele é assustador, fazendo certamente mais uma daquelas cenas inesquecíveis da telona.
    Comecei o texto com a palavra "cinema", afinal, mais um filme milionário sobre crimes de guerra está aí. Sabem quantos acredito que devam ser feitos, não só sobre os judeus, mas também sobre os sudaneses (que por sinal estão sendo dizimados agora), os etíopes, os tibetanos ou os aborígenes? Centenas, milhares. Sempre afirmo que a arte não deve ser usada como panfleto, qualquer que seja, e continuo pensando assim. Mas defendo, entretanto, que as desumanidades ou atrocidades que cometemos, devam ser lembradas e mostradas incansavelmente. Afinal, existe uma pequena chance de não sermos tão estúpidos a ponto de repetir os erros vendo-os constantemente. E, com sorte, em futuros filmes baseados em fatos reais, como em Um Ato de Liberdade, as cenas mais impressionantes e marcantes não sejam sobre vingança.
    Tudo isso também é cinema. Acho.