Férias, livros e comentários






O maior motivo que tenho para trabalhar são as férias. Não fico sem elas em nenhuma hipótese. Espero ansioso todo ano e, enfim, elas chegaram. Portanto, até o carnaval, não contem comigo.

Na verdade, estou escrevendo este post para dar um aviso aos possíveis compradores do meu livro, aí ao lado. Se fizerem a compra em fevereiro, peço paciência para o recebimento, pois certamente demorará a chegar. Acredito que o melhor mesmo seja deixar para adquirir no final do mês (pelo menos aqui pelo blog), que aí tudo já terá voltado ao normal e a entrega será rápida como sempre.
Por falar no livro, ele já está na segunda edição e distribuído em 16 estados brasileiros, além de Portugal. Tenho recebido algumas críticas bastante animadoras, desde análises técnicas que falam inclusive da disposição dos textos até um simples "gostei". Todas sempre muito bem-vindas.
E por falar em dar retorno, creio que o fechamento dos comentários está resultando em algo legal. Como os recebo por mail, tenho respondido todos, o que antes não fazia. Portanto, sintam-se à vontade em criticar.
Para quem fica no trabalho, um singelo "hasta la vista, baby".


Aquele que tudo entende


Era uma rua calma, destas cheias de árvores, com calçadas um tanto destruídas e irregulares, em razão das raízes que insistiam em serpentear, com muitos cocôs de cachorros e pouco movimento. Caminhava com calma olhando para o chão, afinal, uma tropeçada ou - ainda pior - uma deslizada, não estavam em meus planos. Toda minha concentração dedicada a evitar o que acontecia com frequência, tanto que juntava uma meninada frente a um casarão abandonado, na expectativa de rirem dos tombos ou dos sapatos sujos. Eu, até por conhecer a fama da rua, que de general "sei lá o que", passou a ser conhecida como rua da Pegadinha, não desviava os olhos dos perigos e seguia como se pulasse amarelinha. Ergui a cabeça uma única vez quando notei, logo em frente, uma mulher, de seus 70 anos, talvez, que falava com um cão, enquanto ele fornecia mais material fétido para o lugar.
Pois este pequeno instante em que não olhava para baixo, foi suficiente para eu ouvir da garbosa senhora:
- Posso saber porque o senhor está me olhando?
Como nossa mente é rápida! Em segundos, já havia formulado algumas respostas, como "porque lembrei da minha avó", ou "pensei que fosse a Hebe Camargo" ou ainda "olhei por puro interesse sexual" mas, como aprendi a nunca mentir, respondi:
- Pode saber sim. Olhei porque a senhora conversava com o cachorro.
- Áh, isso - respondeu ela resignada - É que ele entende tudo.
Baixei novamente a cabeça e segui adiante. (Desvia cocô, desvia raíz.) Já não olhava mais nada. Tentava achar minha concentração que ficou em algum lugar do passado. Passado recente. Mais dois passos e a achei: ele entende tudo? Tudo? Mais alguns metros olhando para o nada, pensando no cachorro que tudo entendia e, claro, o tropeço. Cambaleei um pouco, com passos mais largos que minhas pernas, e fui ao chão, estendido como uma carne flácida, morta e indefesa. O comprimento da rua é de cerca de 80 metros, não mais que isso. Caí bem no final - adivinhem onde? - frente ao casarão abandonado, repleto de adolescentes ávidos por gargalhadas. E elas vieram. Sonoras e babadas. Intermináveis. Principalmente quando ergui minhas mãos e elas estavam, digamos, "batizadas" daquele marrom escuro e confuso, além de fedorento. Ecoava em minha cabeça aquele som irônico mas não mudava meu interesse: tudo! Ele entende tudo. Será?
Parei finalmente de olhar para os meus dedos melados e, em uma virada de 180º, passando sem tomar conhecimento dos jovens, encarei novamente a mulher, mais precisamente aquele que tudo entende. Levantei com calma e fui intrépido, como um zumbi, até eles.
- Como é seu nome?
- Norminha - ela respondeu.
- Não estou falando contigo - bradei com olhar furioso. E fiquei a espera da resposta. Coloquei a mão no queixo, senti o cheiro quente e ardido, percebi o úmido e pegajoso em minha pele, mas não desisti:
- Nome? Diga logo o nome. - A mulher começou a ficar incomodada. Percebendo a agitação, resolvi ser mais incisivo ainda:
- Você não entende tudo? Pois tenho quero saber como se chama. Vamos, o nome! - E ele enfim respondeu:
- Alf... - Passei a mão na cabeça, recebi em troca um alegre abano de rabo e, calmamente, falei:
- Alf, meu querido, realmente você entende. Então, deixa eu lhe explicar algo, já que a Norminha parece não ter a mesma percepção. Como não há privadas para cães, as pessoas que andam com seus animais na rua têm que recolher os cocôs, porque, se não fizerem isso, outras pessoas podem literalmente ficar, pisar, cair na merda. Como nem sempre teremos um presidente disposto a nos tirar dela, ainda mais literalmente, o correto é não deixar a sujeira. Você entende, Alf? - ele balançou positivamente a cabeça e a Norminha, olhando o bolo circular deixado há pouco, balançou negativamente.
Dei tchau pro Alf e apertei com vontade a mão da Norminha, além de encostar meu queixo em sua bochecha para dar três beijinhos.
Sabe que os meninos não riram mais?
E creio que só o Alf entendeu.




Pessimismo




Segue a vida no seu curso natural.
Os últimos dias têm sido estranhos. Não somente isso, mas ruins também. Este ano não começa bem, nada bem. Lembro que escrevi algum tempo atrás: "2010? Ai, ai, ai..." E é exatamente essa minha expectativa: acredito que será um período propício a lamentações e nada mais. Não vejo com otimismo o que vem por aí.
O interessante é que este meu "sentimento" pessimista não é baseado somente em algo místico, mas - infelizmente - em fatos que vem acontecendo pelo mundo afora. O mais alarmante e conhecido deles, é o estrondoso fracasso nas negociações em Copenhague. Nem tanto pela falta de ação para combater um mal como o aquecimento global (apesar de reconhecer que é alarmante a alta da temperatura, ainda tenho uma pequena esperança de que este fenômeno, mesmo que em menor intensidade, seja cíclico. Cheguei a esta conclusão percebendo uma diminuição drástica que houve no lago Titicaca, na fronteira Bolívia / Peru, onde atualmente existem as ruínas da cidade de Thiauanaco, pertencente a uma cultura pré-inca bastante desenvolvida, que nasceu 600 antes de Cristo e desapereceu possivelmente no ano 1200 dC, junto a diminuição do lago, que ocorreu em razão de um extenso período de calor e seca, conforme apontam recentes estudos, forte o suficiente a ponto de dizimar toda uma civilização de quase 2000 anos) mas principalmente pela falta de capacidade de entendimento dos líderes mudiais. É alarmante imaginarmos que as pessoas que mandam, que definem nossos futuros (?), elegeram mais importantes questões econômicas (fosse o clima um banco, fiquem certos que não teríamos problemas) do que aspectos essenciais para a nossa sobrevivência. Mesmos para os mais céticos - como eu - se houver uma chance sequer de a natureza "revidar" tudo que fazemos contra ela, deveríamos priorizar este tema, até porque o que está em jogo somos nós, todos nós, (talvez como o povo andino) condenados a sumir definitivamente em uma sucessão intempestiva de catástrofes naturais.
Ainda sobre a convenção fracassada, depois da decepção fiquei novamente estarrecido com o anúncio de outros líderes (tão ou mais despreparados que os políticos), os religiosos. Foi dito frente ao insucesso: "vamos orar que tudo dará certo". Acredito que esta frase tenha sido mais infeliz do que a dita por Bento 16 em visita à África, um continente inteiro assolado pela Aids, condenando o uso do preservativo. Foi um verdadeiro incentivo à morte. Um empurrãozinho ao genocídio. 
Creiam, o povo dizimado também tinha seus deuses e pajés. Orações não fazem chover, não evitam catástrofes, não nos tornam imortais. O fato da primeira turma nada fazer e a segunda sugerir mandingas, rezas e outras bobagens contra algo que pode ser vital a sobrevivência da espécie, só me trazem uma certeza: a coisa está ruim. Muito ruim.
A vida continua. Por algum tempo e para alguns sortudos, continua em seu curso natural.
Talvez, quando percebermos que dinheiro e fé não se come e nem bebe seja tarde, mas... 
"C'est le vie", como diriam os colonizadores do Haiti.






Haiti, religiosidade e arte



Este blog é feito por críticas, crônicas, resenhas, enfim, textos. Mas a foto acima cala minha boca, paralisa meus dedos, inunda meus conceitos. Peço desculpas, mas não há o que dizer.
É isso!

Comentário dos comentários

Somos, no mínimo, interessantes. Fico embasbacado como uma mesma raça produz indivíduos tão diferentes. A variedade de personalidades, estereótipos e aspectos físicos entre nós são incomensuráveis. Somos estetas e desleixados, inteligentes e burros, bons e maus e todo o resto; seres únicos a povoar nosso estragado planetinha. Pertencemos a uma mesma civilização, mas somos bilhões de estranhos. Nossos dois olhos, dois braços, vinte dedos e tudo mais tão perfeitamente semelhantes, formam pessoas completamente distintas. É fantástico.
Falo isso porque fiquei um tanto impressionado com três comentários de uma postagem aqui do blog, Minha Fé, Minha Salvação. Um deles chama o texto de chato. Eu concordo. Não é nada muito promissor mesmo. O leitor expressou-se de uma maneira estranha, quase ofensiva. Natural, eu diria, pois o conteúdo do que foi escrito pode ofender muita gente. Não vejo problema algum nisso e ele está lá, postado, para quem quiser ver. O que não admito é a forma como foi feito: escondido atrás do anonimato. Se estivesse lá também o nome do autor, receberia meus aplausos pelo sinceridade e pela análise. Afinal, sem a crítica fica difícil melhorar. Sempre tive problema com ela, mas, agora, depois de algum tempo em contato com os leitores, tenho problema se elas não existirem. Mas, como dar valor a algo que foi escrito por alguém que covardemente se esconde?
O segundo comentário foi o oposto deste. Veio por mail, como chegam boa parte deles, e tratou o texto como o melhor dos quase duzentos publicados aqui do Cinema e Bobagens. Achei um exagero e cheguei a responder, afirmando que não era bom. Que era, vejam só, um texto chato. Há pouco chegou a tréplica que, resumidamente, fala em religiões e seus reflexos desastrosos em nossas vidas. Perguntei se podia publicar e ela pediu sigilo. Percebam que o contato foi somente comigo, não público. Claro que respeitarei a solicitação - nem poderia ser diferente - e então fico por aqui.
O terceiro, que realmente causou espanto, teve também a chancela da covardia: o anonimato. Eu excluí porque continha ameaças e palavras que não devem ser usadas, exceto em uma literatura própria. Além dos erros gritantes de português (coincidentemente comuns nos dois protegidos pela covardia), afirmava que eu morreria por desrespeitar deus. (É claro que não vou responder ao sujeito, mas, se fosse, diria que respeitando morreria também. Ele não? Já temos alguns imortais entre nós?) e que se deus o ajudasse, faria com as próprias mãos. (Puxa, tomara que não ajude). Outro fato interessante: ele ficou irritado por eu ter escrito deus com letra minúscula. "É desrespeito", conforme disse. Pecado mortal, por certo, digo eu. Se escrever DEUS, todas maiúsculas, fico redimido? Se colocar em bold vou para o céu? Corpo grande, então, fico sentado ao lado do criador?
Conclusão: o que foi analisado, lido e julgado, não foi o texto, e sim a religiosidade. As agressões, a falta de caráter e de civilidade mostrada, não tratam das questões levantadas, tratam de suas próprias limitações, em suas mentes pequenas repletas de perversões perigosas. As posições tão antagônicas sobre um mesmo escrito mostram o quanto somos diferentes, e não falo, agora, em inteligência ou burrice, feio ou bonito, mas de índole. Como somos fracos e incapazes. Como cometemos crimes em nome de deuses, existam eles ou não. É lamentável. É preocupante. E o pior: isto tudo leva-me a crer que o texto está certo. Que a deusa Maionese Feita em Casa nos salve. (Sempre com letras maiúsculas, ou, já sabem...). Há uma distância razoável entre ironizar e matar.
Conclusão da conclusão: várias pessoas haviam aconselhado tirar os comentários do blog, já que, por vezes, trato de assuntos "divinos" e "políticos" e, infelizmente, quanto mais leitores (atualmente em torno de 2500 acessos/mês), mais problemas. Não quero correr o risco de ser injusto ou desrespeitoso com alguém. Então, já que não posso e não quero moderar nada, pelo menos por algum tempo dormirei tranquilo, com somente eu lendo minhas ameaças de morte. Críticas serão sempre bem-vindas, portanto, caso alguém queira xingar, falar mal, discordar ou, quem sabe, até elogiar, fique à vontade para usar o mail, ele fica aí ao lado.
Enfim, o texto é chato mesmo. Mas deu o que falar. Estou satisfeito. E, acho que é a Maionese Feita em Casa agindo, não estou com medo de ser morto pelas "próprias mãos", aquelas mesmas que cometem muitos erros gramaticais. Por sinal, o primeiro crime foi contra a nossa tão querida língua portuguesa.
Não é deboche, juro, mas estou quase sorrindo.
Que a Maionese me proteja.
Amém?

PS.
Ops. Descobri agora que quando desabilito os comentários, os antigos não ficam mais visíveis. Paciência. Perdoem ter dito acima que estaria disponível. Enfim, um falava que o texto era "chatinho", o outro eu havia mesmo excluído e o terceiro foi por mail.


Por aí...


Tem um texto meu no Qual é a Boa?, um site bem legal. Olhem lá.

Minha fé, minha salvação!


Estamos no começo de um novo século e no comecinho de uma nova década. As previsões para o fim do mundo falharam consecutivamente nos anos de 99, 666, 999 e 1999. Passamos pelos anos 100, 1000 e 2000 inteiros, intactos, intocados. Temos ainda pela frente a profecia Maia, que não nos deixa alternativa, exceto crer que em 2012 tudo acabará. Tem até dia: 21 de Dezembro. Pretendo não trabalhar e fazer um feriadão, já que cai numa sexta-feira. Estou, também, me organizando para comprar tudo em mais de 36 vezes. Sou esperto.
Sem brincadeiras, afinal o assunto é sério e requer uma atenção especial. Não é porque as outras previsões todas foram falhas que esta será. Ainda mais vindo dos Maias, um povo antigo (com o surgimento cerca de 2000 anos antes de cristo e o apogeu 250 depois), desenvolvidíssimo, com astronomia, medicina, agricultura e matemática ponteando o conhecimento. Ainda hoje existem descendentes desta civilização pela américa Central, fruto de alguma espada menos afiada dos gloriosos saqueadores espanhóis, que, pasmem, não conseguiram matar a todos. Somente roubar a todos (e tudo) eles conseguiram.
Voltando ao Apocalipse, é interessante pensarmos que na chegada dos homens de armaduras e armas, o mundo maia foi exterminado. Para eles, o que previram acontecer para nós, agora em 2012, ocorreu lá por 1500. Mas, vamos deixar de lado o pequeno detalhe de que apesar da sabedoria, desenvolvimento e "premonição" que tinham foram exterminados como baratas pelos europeus, e começar a sentir medo. Muito medo.
Notaram que temos menos de dois anos de vida? (Dois anos? Ótimo, não vou precisar renovar a carteira de motorista). Desculpem minhas "gracinhas", mas elas são o reflexo direto de meu pânico. Dois anos. Isso não é nada. Nem uísque que presta se faz neste tempo. O que resta para um cara ateu, além da conversão? Nada. Então, ao milagre.
Preciso de um deus. Mas, já que não sou muito chegado a sujeitos do mesmo sexo que eu, prefiro uma deusa. Primeiro passo resolvido. Posso, inclusive, apaixonar-me por ela, já que será uma verdadeira deusa. Segundo passo, nome. Como chamará? Tem que ser algo comum, que boa parte das pessoas conheçam e gostem. Já sei! Maionese. Minha deusa Maionese, com letra maiúscula e tudo. Mas é pouco. Creio que deva ter sobrenome também. Hellmanns não dá, são do inimigo, está escrito no nome. Arisco? Nem pensar, parece coisa de galinha. Claro, como não pensei nisso antes: feita em casa. Deusa Maionese Feita em Casa. Perfeita. Divina. Terceiro passo: rituais. Fácil. Toda manhã, quando comermos um pedaço de pão com mortadela e ela (que rima horrorosa) , estaremos em simbiose com nossa deusa. Resolvido. Rezas, como quarto passo. Tranquilo. Algo como "nos salvará da salmonela e tal e não nos faltará aos domingos no almoço". Quinto passo: igreja. O nome será " Seguidores Felizes da Maionese Feita em Casa ". Sexto passo: templos. Onde houver uma Maionese será o templo de nossa deusa. Já nascemos grandes. Sétimo passo: índole. Somos do bem e amamos ao próximo, exceto se ele venerar outras entidades, como a mostarda, catchup ou qualquer outro deus. Oitavo passo. Dízimo. Apenas o suficiente para impor nossa crença frente aos ignorantes. Nono passo. Objetivo. Viajar na Maionese para converter mais e mais pagãos pelo mundo afora, eliminando aqueles que não conhecem a verdade da Maionese Feita em Casa, para o bem da própria humanidade, é claro. Décimo e derradeiro passo: A oferenda. Aqueles que viajarem na Maionese Feita e Casa e negarem qualquer outro deus, sobreviverão ao Apocalipse de 2012.
Pronto. Eu já estou salvo. Sou um ministro (poderia ser mainistro) da Maionese Feita em Casa. Em um parágrafo criei o que a história demorou milênios para fazer e, principalmente, minha redenção. Levo jeito.
E você? Pronto para o fim? Una-se a nós e salve-se. Faça parte dos Seguidores Felizes da Maionese Feita em Casa e viva em paz, além do fim do mundo. Para contribuições, em breve aceitaremos cartões, boletos e depósito em conta-corrente.
Maionese Feita em Casa, proteja-nos de todos os males.
E malas.
Maionese Feito em Casa, (devemos repetir centenas de milhares de vezes) abençoe os amigos. E mate o resto.
Assim são nossas crenças, seitas e religiões, em pleno 2010.
Maionese Feita em Casa, proteja-me dos que ficaram irados por eu ter ofendido suas crenças.
Ei!
Funcionou!