O cinema e a vida


Quatro filhos e um emprego de doméstica. Quatro aflições e uma mãe. Quatro futuros incertos e uma certeza: basta o presente. Linha de Passe é genial. Novamente não vou falar sobre cinema, somente destacar que o longa é muito bem dirigido, com atuações esmeradas e emocionantes (merecidamente o prêmio de melhor atriz em Cannes foi dado a Sandra Corveleoni), e uma fotografia meticulosamente estudada. Há uma cena que passa batida, quando um pseudo-bandido grita para a amedrontada vítima: "Me olha!" Algo como "Você está me vendo? Me olha". Isso só já valeu o caro ingresso.
É mais ou menos assim que acontece. Vou separar aqui (um Apartheid do bem, somente para uma análise - será mesmo isso?) a sociedade: a primeira parte, formada pelos dirigentes, profissionais liberais, burocratas governamentais, empresários, enfim, aqueles que vão a restaurantes, abastecem seus carros, contratam motoqueiros, lêem e escrevem blogs, essas coisas. A segunda parte, formada por empregados, peões, desempregados, sub-empregados, aqueles que abastecem os carros, trazem a bebida, levam encomendas, não sabem o que é um blog e ficam enfeiando ainda mais as esquinas. Pois, até para facilitar e por estar aqui escrevendo, vou me incluir, e também a vocês, no primeiro bloco. Enfim, nós enxergamos esses outros? Vemos o garçom solícito por traz da bandeja? O motoqueiro mesmo sem capacete? O frentista do posto sem perguntar "água e óleo"? Nem falo dos pedintes, dos drogados, dos excluídos. Mas sim de quem nos serve e ajuda. Que cara tem esse povo? O que anseiam? Não sei! Não olhamos pra eles e nem eles pra nós. É como fossêmos vizinhos sem conversar. Nos vemos todos os dias e não nos enxergamos nunca. Eles não tem rosto, expressão, nada. Talvez por isso pensamos que não tenham necessidades, planos ou vontades. Talvez por isso imaginamos que não tenham futuro e, infelizmente, talvez não tenham mesmo. E a culpa é nossa. Aqui não cabe talvez algum: é exclusivamente nossa. 
O maior problema é quando eles nos virem, com nossos carros abastecendo em um posto onde a filha do frentista foi estuprada e o delegado nada fez; ou comendo uma truta enquanto a família do garçom passa fome ou ainda quando um motoqueiro trouxer nosso Prozac enquanto sua filha não tem um remédio qualquer para pneumonia. Some-se isso aos outros, os à margem de tudo, que além de não ver também não gostamos, e sabe-se lá no que vai dar. Às vezes tenho um certo medo desta cegueira social. Gostaria que todos nós nos víssemos.
Enfim, Linha de Passe é imperdível e trata de diversos assuntos, com um pouquinho - pouquinho mesmo - de destaque a esse problema. Os quatro filhos e a mãe fazem parte desta massa sem rosto e assim vai ser até o fim. No filme e fora dele. 
A propósito, esta parte da sociedade só vai poder ver o longa quando chegar aos camelódromos, em cópia pirata, vendida a R$ 2,00. Pirataria é crime. Não ver o filme também. Sermos todos cegos ainda mais.



Poesia numa hora destas?



Pois meu professor de oficina literária, Charles Kiefer, (merecidamente patrono da 54 Feira do Livro de Porto Alegre), mandou há pouco uma poesia de Hilda Hist. Gostei tanto que tomei a liberdade de reproduzi-la aqui:


Do Desejo

 

E por que haverias de querer minha

alma

 

Na tua cama?

 

Disse palavras líquidas, deleitosas,

ásperas

 

Obscenas, porque era assim que

gostávamos.

 

Mas não menti gozo prazer lascívia

 

Nem omiti que a alma está além,

buscando

 

Aquele Outro. E te repito: por que

haverias

 

De querer minha alma na tua cama?

 

Jubila-te da memória de coitos e de

acertos.

 Ou tenta-me de novo. Obriga-me.



Maitê Proença e mentiras


Ontem conversava com uma colega que estuda literatura e faz oficina de crônica, e ela contou que mente em seus textos. Seu professor mente também. Claro, a pergunta que não quer calar: Todos os cronistas mentem? Sabe-se (e é óbvio até pelo que se lê neste humilde blog) que não sou um cronista. Faço, com algumas poucas virtudes, contos, mas crônicas não. Quando ela falou sobre a mentira, aquilo me caiu como um pastel de rodoviária: meio estranho. Ensino a meu filho que uma das piores coisas que um homem possa fazer é mentir. Procuro, dentro de uma convivência sem muitas surpresas, não usar desta, digamos, artimanha, no meu dia-a-dia. Me julgo honesto e defendo o que penso ser verdade com unhas e dentes. Claro que nos meus contos isso não existe. Mentira não existe na ficção. Lá, nos textos, deixo minha imaginação criar um mundo todo especial em que as regras são mutáveis e inconstantes. Mas, sei lá, talvez por ingenuidade, em crônica pensei que não fosse assim, que fosse a verdade, por vezes fantasiadas, mas a verdade que recheasse os textos.
Pois justo neste dia, com a cabeça cheia de idéias novas e coisa e tal, não é que passa frente a meu carro, nada mais nada menos, que a Maitê Proença (para meus tão seletos e bem-vindos leitores lusitanos, uma das mais famosas atrizes brasileiras, autora dos livros Entre ossos e a escrita e Uma vida inventada) . Linda, como sempre, usando uma roupa leve - linho branco - e os cabelos soltos. Nos pés, pequenos e com dedos proporcionais ao tamanho, uma sandália havaianas comum. Quando a vi, freei rapidamente mas devo ter demorado um décimo de segundo a mais por ter ficado admirando sua beleza e pimba!, encostei o carro em sua perna. Saí apressado pronto a socorrê-la, levá-la a um hospital ou qualquer coisa assim mas ela, com um sorriso que iluminou o bairro todo, declamou (sim, ela não fala, ela declama) "Não precisa, estou bem. Talvez um café para compensar o susto."
Um, dois, tres, quatro... imaginem uns 30 segundos e eu parado no meio da rua, trancando o trânsito, segurando a Maitê Proença pelo braço, ela me convidando pra tomar café e eu sem dizer nada, sem me mexer. Fiquei mudo e parado como uma estátua. Café? O que responder? Pensei em dizer que era casado, bem casado, muito (por garantia, mais uma vez) muito bem casado mesmo. Ou que a lei seca me impedia de beber e aí caiu a ficha: ela não perguntou nada, ela insinuou "talvez um café... " Depois dos maiores segundos da história, olhei para aqueles olhos verdes e disse sem pestanejar: "No seu apartamento ou no meu?" Não... nada disso, nem moro em apartamento. Bem, vamos lá: Olhei para aqueles olhos verdes e disse sem pestanejar: " É o mínimo, um Mocaccino". Todos buzinavam - claro, não sabiam quem estava ali comigo - mas eu não escutava nada. Minha audição agora era direcionada. Só ouviria o que ela declamasse. E ela declamou: "Ótimo". Foi o ótimo mais lindo que já ouvi. Na verdade, foi ótimo. Corri e abri a porta do carro pra ela entrar. Pulei pro outro lado e saí sem nenhuma barberagem. Cafeteria, preciso de uma cafeteria. Lembrava de tudo menos de onde ficava alguma. Ela parada ao meu lado, ainda iluminando tudo com o sorriso. Tentei sorrir também, precisava dizer algo. Já mostrei que entendia de café. Tinha que falar outra coisa, qualquer coisa. E falei: "Cafeteria!" Não, não era isso que eu deveria dizer. Isso é o que eu procurava. De novo: "Eu não vou fazer nada de errado!" NÃO! O que ela vai pensar? Que sou um maluco tarado? Remendei correndo: "Para pedir o café". Virei pra frente. Não olhei mais, envergonhado. Os olhos verdes eram como pontas alfinetando meu juízo já não muito forte. Alguém erra pra pedir café? Por exemplo, o cara chega na cafeteria e pede: me dá um par de esqui e uma melancia quadrada, das japonesas? Acho que não. Imaginei que ela saltaria fora na próxima sinaleira, mas, além de não fazer, ela disse: "Pode ser um restaurante". Meu mundo caiu. Aquilo era um convite pra jantar. Maitê Proença no meu carro de roupas leves e brancas me convidando pra jantar. E eu - não custa repetir - casado e bem casado. O que fazer? Depois do jantar com vinho, algum carménère chileno, provavelmente salmão defumado e alcaparras, o que poderia acontecer? A verve me aniquilou, mas eu tinha que responder. Agora existia o convite. Recusaria com medo do depois? Nada disso, sou um homem e não há nada de ruim em jantar com a , áhh, com a Maitê.  Aceitei. Restaurante, restaurante. Preciso de um. E apareceu: meia luz, com um ambiente tropical de bom gosto, mesas baixinhas e luz amarelada em cima, estacionamento fácil, atendimento impecável. Antes de entrarmos, pedi licença e liguei pra casa: "Vou jantar com a Maitê, talvez demore" disse e ouvi de volta, sem pergunta alguma: "Não tem pressa, esta noite preciso mesmo ficar sozinha. Bom jantar e até amanhã. Beijo na Maitê". Não dei tchau. O que era aquilo? Fiquei com o telefone erguido olhando minha atropelada esperando frente ao restaurante, com o maitre também sorrindo ao seu lado.
Vou resumir: o peixe, o vinho, a música que acariciava nossos ouvidos, o clima, enfim, estava tudo perfeito. Passamos, Maitê e eu, a noite inteira conversando sobre literatura e poesia - ela é uma excepcional conhecedora das letras - e marcamos mais alguns encontros para breve.
Sobre mentir, não concordo. Continuo achando uma coisa horrorosa, feia e desnecessária. Afinal...

Mistérios 2

Novamente ia caminhando, assim, despretensiosamente, com as mãos no bolso e olhando para cima, escorreguei - desta vez num cocô de cachorro que sujava a calçada - caí e morri. Na hora, sem gemidos ou suspiros. Fiquei ali, estirado como um estorvo, atrapalhando na calçada suja. Como da outra vez , (Veja aqui) escutava e sentia tudo o que passava. Sentei no meio-fio e fiquei me olhando, reparando em como andava envelhecido e mais gordo, e tal, a espera de algum anjo ou coisa que o valha. Pois ele atrasou mas apareceu, e foi direto ao assunto: "Novamente nós dois. É o segundo tombo, mas desta vez, vou avisando, não tem volta". Eu quieto, mais ouvindo os passantes que pararam de passar, e ficaram olhando meu corpo morto e falando, do que o arcanjo. E se ouve de tudo: " Que hora pra morrer, pouco antes do almoço" ou "acho que foi suicídio: o cara se atirou de cabeça no chão" ou ainda "matem o cachorro que fez a sujeira, ele é o culpado". Quando se está morto, a percepção é diferente. Tive vontade de explicar que se houvesse algum culpado, seria o dono do cão, e não o próprio. Salientar para o outro que não escolhi o horário, na verdade, não escolhi nem morrer, mas, sei lá, que me desculpasse mesmo assim pelo incômodo, então, e ainda para o terceiro, que se fosse me suicidar me jogaria de um prédio de 39 andares e não do chão. Mas fiquei quieto. Lembrei do capitalismo, esta coisa genial que quando os banqueiros e especuladores estão ganhando dinheiro, tudo vai bem (exceto a fome no terceiro mundo e essas coisas menores) mas quando vai mal os governos que injetem alguns bilhões de euros para novamente ir bem e começarem a especular como antes. Estes pobres é que tem essa mania de comer, que gente chata. Essas crianças que precisam aprender, gente curiosa. E este povo que precisa sobreviver, gente insistente. É realmente interessante este sistema: defendem a não intervenção do estado na economia, exceto se for pra colocar dinheiro público. Lembrei disso e ao mesmo tempo não parava de ouvir o arcanjo, que continuava numa pregação danada de minhas novas obrigações, das minhas tarefas e - pasmem - metas. Eu tinha metas divinas. Objetivos concretos e palpáveis para alcançar. Pensei em perguntar o que aconteceria se não cumprisse tais metas, mas, novamente, me entreguei aos pensamentos. Lembrei de um candidato a prefeito (não importa a cidade, pois iguais a esse tem em todas elas) que disse que era fácil resolver o problema do trânsito, afinal, bastava construir duas avenidas de várias pistas paralelas com diversos viadutos cortando toda a cidade. Como ninguém, pensou nisso antes? É uma coisa tão simples que chega a assustar. Meus pensamentos se misturavam com as palavras do arcando e dos curiosos em volta do meu corpo, mas, no meio do murmurinho ouço novamente o oficce boy divino falar com a voz mansa e grave: " E entre as metas e funções, você terá que mostrar através de ações espirituais, terá que convencer, terá que ensinar ao povo a sabedoria divina." Parei com tudo: encarei o sujeito alado e perguntei: queres que eu mostre a sabedoria divina aqui, na terra? Neste mesmo lugar dessa politicagem? Neste mesmo mundo infestado por este capitalismo doente? Alguém acreditaria que há sabedoria no caos? Ele consentiu com a cabeça e eu (afinal, como mostrar o que não existe?) bradei: - NEM MORTO! Bingo. Novamente voltei. Dei uma tossida e num salto fiquei em pé. Gritei para que achassem o maldito cachorro para exterminarmos logo com o assassino, afinal, era quase hora do almoço e ninguém é bobo para se suicidar de fome! Cachorro estúpido!

Ensaio sobre a cegueira e a espera!


Sexta-feira pouco antes de Começar a Terminar, peça de e com o excelente Antônio Abujamra, texto baseado na obra de Samuel Beckett no Theatro São Pedro, pelo Porto Alegre em Cena (um festival de teatro que ocorre por aqui pela 15ª vez) uma amiga disse que não comentaria nada sobre a peça sem antes saber o que havíamos achado e não deu mais detalhes. Pronto. A expectatica tomou conta de mim. Até então, eu estava tranqüilo sem problema algum. Faltavam poucas horas para o início e depois disso foi um devaneio só. Esta pessoa, muito erudita e assídua freqüentadora de salas e eventos culturais, 
provocou aquilo que chamo de tensão gratuita, uma coisa 
poderosa e com conseqüências inimagináveis. Do que ela falava? Seria bom o espetáculo? Muito bom? O melhor de todos? Ou ruim? Muito Ruim? O pior de todos? Jogariam ovos podres na platéia? Mulheres nuas besuntadas com manteiga light se esfregariam nos homens atônitos? Atores nús e bem dotados pulariam por sobre as poltronas? Tudo que a minha imaginação 
permitisse seria possível nestes momentos de angústia, já que ela se calou em seu conhecimento. Ela tinha a resposta pra tudo mas prefiriu deixar o desvario tomar conta de mim,
 permitindo todas as possibilidades, levando-me as raias do inimaginável,
 esquecendo Beckett e Abujamra. Maldade, pura maldade com um curioso, uma verdadeira desumanidade.
Pois Ensaio sobre a cegueira, com a maravilhosa, linda, magnífica, simpática, iluminada e todos os adjetivos possíveis Juliane Moore, chama a atenção por uma espera. Pelo menos a minha atenção. Claro que o filme todo cinza-azulado se sobressai também por inúmeras qualidades, inclusive pela bela adaptação da obra de Saramago, mas, em síntese, quando os primeiros cegos são trancafiados em um antigo manicômio em quarentena, eles ficam a espera. Não se sabe do que, nem eles mesmos sabem, mas ficam esperando algo. Talvez a cura, a redenção, a adaptação, a comida, enfim, tudo. Eles esperam e enquanto isso acontece o filme. Os conflitos humanos são sintetizados de maneira brilhante em terra de cego, onde só Juliane enxerga. Deixe-se de lado uma certa inverossimilhança que existe já na obra original e tem-se 
um ótimo filme. Nesta espera (desculpem o trocadilho) os fatos acontecem sem esperar: atropelam o público e as personagens sem dó, causando um enorme mau-estar que chega a angustiar, a mesma sensação que senti quando não sabia o que me esperava na noite se sexta-feira.
Normalmente gosto de filmes que me incitam a não comentar cinema, caso do Ensaio, e falar do que eles propõem, conscientemente ou não. Creio que este mero detalhe passe desabercebido do grande público, mas a espera neste caso é cruel e certamente é uma das coisas que incomoda. O final, não "a la Paulo Coelho", é quase feliz. Todos devem voltar a enxergar em meio a um mundo caótico, exceto um já cego que fica  arrasado e Juliane, que sequer deixou de ver e não fica muito feliz também. O ser humano é terrível. É quase desumano. E esperar também.
No Começando a terminar a questão era temporal. No folder falava em 1h05 min. Na primeira noite, visto pela amiga, durou meia hora; na segunda (a que vi) uma hora que pareceram cinco minutos somente. E não tinha mulher besuntada. Mas tinha mulher nua.
Compensou minha tensão gratuita.



Um pouco de doçura e a solução


  • Limpe e lave o arroz.
  • Em uma panela ferva a água com sal. Junte o arroz e cozinhe até secar a água, da maneira convencional.
  • Quando a água secar, acrescente a manteiga e o leite, e cozinhe por mais alguns minutos até secar um pouco.
  • O ponto do arroz deve ficar bem cremoso.

Pronto. Assim se faz arroz de leite. Eu gosto que coloquem também leite condensado e canela em pó por cima, mas não é orbigatório. Viu? Nem tudo é tragédia e coisas ruins. Este doce, por exemplo, é simples, com ingredientes básicos, acessível para muita gente e gostoso, muito gostoso. Nem tudo está perdido, talvez eu seja um alarmista quando fale que a humanidade é perversa, que está doente, que somos um povo de duas caras e tal. Minha nova teoria é Arroz de Leite. Claro que tem os que preferem, por exemplo, quindim. O que é um verdadeiro absurdo. Gastar ovo - que deve ser feito frito, com a gema mole e a clara dura, na manteiga, com um pouco de sal - para fazer um doce amarelo com uma forma estranha, cônica, e ruim. Essas pessoas não merecem a menor consideração. Deveria haver alguma associação para proteção e bom uso do ovo.
Tem, também, os admiradores de trufas com rum. Isso mesmo: rum. Aquela bebida de fazer caipira posta em uma trufa. Esse caso é sério, mexe com algo imenso e poderoso. Imagino uma Ong: Rum e limão, nada mais, fazendo protestos no mundo todo contra este absurdo. O que pensar desta gente? Que tipo de pessoas são essas capazes de tamanha atrocidade? Seres assim tem condições de viverem em sociedade? Claro que não! Elas deveriam ser presas, a pão (francês, sem gergelim e dormido) e água (da torneira) o resto da vida ou, melhor ainda, serem postas em campos de trabalhos forçados, no México, na fábrica da Bacardi.
E o pior (sempre o final é reservado pra ele): Pudim. Pois é. Um dos doces mais maravilhosos que já inventaram, também fácil, barato e com poucos ingredientes. Mas, então, qual problema? Pois eu respondo, com ânsia e revolta: côco. Isso mesmo. Algum desavisado e sem uma célula gustativa sequer, inventou o pudim de côco. Essa nobre fruta serve pra fazer cocada - repito: Cocada! e não pudim, que deve ter apenas leite condensado, açúcar, alguns ovos e pronto. Eu não admito isso. É demais até mesmo pra mim, um cara sereno e calmo. Nem cadeia nem campos de concentração: a uma pessoa que comete uma heresia dessas proponho à morte, paredão. Imagino esquadrões de extermínio aos adoradores do pudim de côco. Eles merecem, afinal, não são do bem. E já que é assim, que as milícias combatam todos que não prestigiam o arroz de leite (se é o melhor doce, é inaceitável que gostem de outro qualquer). Morte a todos os que não prefiram arroz de leite. E para evitar problemas futuros: morte a todos que gostem de outros doces, morte a essa gente que só faz intriga. Morte a todos. Então, depois de feito o serviço sujo - alguém afinal tem que fazer - o mundo terá paz e harmonia. Somente com os certos, os corretos, os que gostam de arroz de leite, teremos um mundo melhor, de acordo com nossa sabedoria e conhecimento, um lugar justo e bom para se viver e, enfim, poderemos festejar a certeza de que a humanidade tem mesmo jeito, de que realmente estávamos certos. Viva a humanidade! Viva a paz! Viva o arroz de leite!
Me deu uma vontade de tomar sorvete de baunilha com calda de chocolate. Quente, calda quente! E chocolate meio amargo. O único que verdadeiramente deve ser chamado de chocolate.
 

Uma bela viola enluarada e o Mestre Yoda


Tem uma música - extremamente bela - chamada Viola Enluarada que me remete direto aos pensamentos. A composição é do Marcos Vale, acredito que a letra de Almir Sater, e diz assim logo no começo:

"A mão que toca um violão
Se for preciso faz a guerra
Mata o mundo, fere a terra
A voz que canta uma canção
Se for preciso canta um hino
Louva a morte"

Acho estes versos de uma profundidade fantástica e dolorosamente verdadeiros. Somos capazes - os mesmos que produzem maravilhas como essa letra, os mesmos que criam as imagens no teto da capela sistina, os mesmos que produzem poesias de uma sensibilidade 
que toca, que faz chorar - das maiores atrocidades possíveis. Destruímos mais rápido que construímos. Matamos por dinheiro, política, religião, ciúmes ou por simples prazer. O mesmo sujeito que assalta uma mulher grávida furando sua barriga com um tiro, é capaz de comprar com o próprio 
roubo um brinquedo para alguma criança que o espera. Certa vez concluí que não somos um só povo, uma só "humanidade" sobre a terra, e que existem duas populações: os do bem e os outros, mas estava errado: somos um só com dupla-
personalidade, talvez. Conseguimos ser as duas coisas ao mesmo tempo. Criamos o Star War e o Mestre Yoda, reproduzimos o jedai em origami e deixamos morrer de fome as crianças sudanesas. Recordando o filme do Batman e aproveitando um personagem: o Duas Caras somos nós.
O final da música é assim:

"Quem tem de noite a companheira
Sabe que a paz é passageira
Pra defendê-la se levanta
E grita: Eu vou!
Porta bandeira, capoeira
Desfilando vão cantando liberdade, liberdade!"

Liberdade aos Duas Caras, habitantes do planeta Terra. Liberdade para roubar, matar, estuprar, humilhar, desonrar. Liberdade para cantar, pintar, poetizar, tocar, representar, criar. Não tem algo errado nisso tudo? Somos mesmo uma só raça de Duas Caras? Tomara que algum Mestre Yoda nos salve e ninguém, além de nós mesmos, nos destrua.


Soberba e outros defeitos

Lembro de uma espécie de anedota, em que dois coronéis chegam ao mesmo tempo - um de cada lado - a uma pequena ponte. O problema é que nela só passava um carro. Os dois pararam suas caminhonetes cabine dupla e não arredavam pé, trancando a passagem um do outro. Um deles, para provocar, coloca a cabeça pra fora e diz:
- To meio sem pressa, coronel. Tenho a Barsa aqui pra ler.
E o outro responde:
- Me empresta depois de terminar?
Eu falo "uma espécie de anedota" por que seria engraçado não fosse trágico, principalmente 
depois do que presenciei sábado, que foi muito - mas anos luz de vezes pior - mais ridículo do que a historinha: pois eu estava no interior de Cruzeiro do Sul (que já fica no interior do Rio Grande 
do Sul) em uma zona rural, de colonização predominantemente germânica, um lugar onde não existem indústrias e nem latifúndios e é formado basicamente por pequenos agricultores, andando por uma estrada de terra, com quase nenhum movimento. Olho à frente e vejo, em cima de uma ponte, dois carros que colidiram de frente, exatamente no meio de tal ponte, com uma violência assombrosa, a ponto de nenhum dos carros deixarem o lugar sem um guincho. Agora o detalhe: até por que o movimento nestes lugares é muito pequeno, só passa 
um carro de cada vez. Da pra imaginar o que aconteceu? - De um lado, o super -colono de todos os poderes, aquele que não pode esperar (a extensão de assombrosa obra deve ser uns 20 metros de comprimento) talvez uns 4 segundos e do outro, o seu rival nem um milímetro menos poderoso, o megacolono, provavelmente o homem  mais importante do planeta e para quem 4 segundos seria tempo suficiente para salvar a humanidade. Dá pra acreditar? Os caras vinham pela estrada, viram o outro carro - não tem como ser de outra forma-  e nenhum cedeu espaço, nenhum parou aqueles segundos para dar lugar ao outro. Nenhum foi razoavelmente inteligente e educado. Os dois estão com os carros em oficinas e com o prejuízo no bolso.
Conclusão: estamos doentes. A humanidade está em estado terminal. Essa não é uma questão de trânsito, é uma questão de vida.  A soberba destes caras é incalculável e eles não são diferentes da maioria. (Desculpem as repetições que farei a partir de agora, mas elas são necessárias). O resultado de tudo isso é que todos perdemos bem mais que 4 segundos. Bem feito pra eles. Mas o que me preocupa é que, repito, todos terminamos perdendo algo, não somente eles e, na verdade, este tipo de gente não tem muito a perder. Aí a conclusão assombrosa: todos perdem, menos eles (exceto os carros amassados). Bem feito prá nós?


Bolsa cerveja

Existem assuntos que a minha posição é clara. Caso me perguntem o que acho em uma dessas situações, respondo rapidamente e sem rodeios: Não sei. Essa é a transparência. São coisas que não sei e não tenho opinião formada a respeito e, portanto, não tenho como opinar, pelo menos com honestidade. Uma dessas inquietantes questões é a tal Bolsa Família. Ou Bolsa Escola, ou Vale Gás, ou qualquer coisa do gênero. Isso é bom para o povo que o recebe? Não sei. É bom para o povo que paga? Não sei. Mas vou especular.
É certo que um país continental como o nosso não pode permitir que o povo passe fome. É certo também ser inadmissível que uma criança sequer fique fora da escola. Mas é certo um governo paternalista? Enganarem a fome com uma verdadeira esmola? Mandarem os filhos para o colégio por dinheiro? Este tipo de ação governamental me lembra muito o tempo da ditadura. Não acredito que dar dinheiro a alguém seja benéfico, ainda mais pelo próprio governo, responsável em dar - isto sim - saúde, educação, lazer, condições de trabalho e, como conseqüência, comida. Este atalho pode ser perigoso. Pode trazer surpresas inaceitáveis e, numa análise mais pessimista, até mesmo belicosas.
Outro aspecto a analisar é onde realmente este dinheiro é gasto. No início desta semana, andei por duas horas por diversas vilas e favelas de Porto Alegre e fiquei impressionado com o que vi: das 10 hs da manhã ao meio dia, em praticamente todos os barracos, havia no mínimo dois adultos em idade produtiva sem fazer absolutamente nada. Na verdade, alguns tomando chimarrão, sentados em frente de casa, e outros tomando cerveja. 
Quem está pagando esta gelada? Por que estes sujeitos sairão de casa para procurar trabalho se tem o que - pelo menos parece - precisam? Se anseiam somente comida e eles a tem de graça, por que fazer algum esforço?  
Não seria melhor fornecer, ao invés do dinheiro, a própria comida? Ou exigir que fiquem um dos turnos assistindo alguma aula de um curso técnico? 
Não sei, não sei. Mas creio que algo está errado. Não adianta eu tentar aprender cálculo integral antes de saber a tabuada. É como se numa partida decisiva de futebol fossem direto aos panaltes, pulando o jogo. Repito: este atalho é perigoso. Não existe solução mágica e muito menos instantânea para 500 anos de falcatruas e más administrações.
Se eu tivesse poder, certamente faria de tudo para que o povo não passasse fome, mas também faria de tudo para não errar na forma de executar isso.
Tenho mais uma dúvida que é também um medo: e se a intenção não for somente fornecer as necessidades calóricas? Tenho certeza que o Lula (em quem votei) não pensaria em nada parecido com isso, confio nele. Mas no Inácio (o que governa), sei não. Ele tem andado com uma gente estranha estes últimos anos.


Partícula de deus


E nós novamente a procura de certeza. Independentemente de qual seja, queremos algo certo. O bóson de Higgs provará, finalmente e a grosso modo falando, a existência divina ou não. É simples: se ele estiver lá, babau, e tudo será cientificamente explicado. Se não estiver, aí a coisa pega. Provavelmente em breve vou renegar tudo que afirmo a respeito ou me gabar de estar certo.
O processo também é relativamente simples: anos de estudo envolvendo milhares de cientistas e 3 bilhões de euros depois, foi construído no sub-solo da Suíça na fronteira com a França o LHC, um túnel de 27 ks onde se colocarão prótons viajando a 99,99% da velocidade da luz em sentido contrário: Pummmmm! Eles se chocam a surgem as partículas elementares (criando um ambiente semelhante ao Big Bang). Essas partículas é que serão estudadas e uma delas pode, deve, (e tudo mais) ser a partícula de deus (Higgs). Fantástica é a máquina de debulhar milho. Isso é assombroso.
Outras revelações não menos interessantes podem surgir, como a existência de outra dimensão - ou outras- por exemplo. Outra dimensão? Pronto! Minha imaginação já começou não só a criar monstros medonhos e horrendos como um universo paralelo interligado com o nosso, responsável por tudo que não conseguimos explicar. Ficaria fácil. Por que chocolate engorda? Culpa da quarta dimensão, onde o que engorda é brócolis. Compensações, diriam. E os monstrengos? Várias patas, babões, de olhos (muitos olhos, e em número ímpar) vermelhos com pálpebras de lagartos e escamas, seriam mais amistosos que nossos próprios, como Bush e Osamas da vida. Culpa da 8ª dimensão. Mais compensações. Enfim...
Não há risco nisso? Lembrei da talidomida e dos testes da bomba atômica, com aqueles milicos todos olhando a explosão de óculos escuros, quando falaram da possibilidade do surgimento de um minúsculo buraco negro, (fenômenos que engolem tudo, inclusive a luz, que existem no espaço) mas um renomado cientista, participante do projeto, veio a público para defender-se das ações ajuízadas por outros estudiosos, e disse que a possibilidade de acontecer algo é praticamente nula: uma chance em 50 milhões. Áh bom! Claro que nem desconfio que o fato de criarem um buraco negro no subsolo terrestre traga algum problema, mas sempre é bom ouvir algo tranquilizador. O primeiro teste (sem a colisão) é quarta-feira próxima.
A propósito, esta semana um mineiro ganhou sozinho na mega sena e as chances eram de uma para 50.063.860.

Cinema menor

Têm vezes que as coisas não dão certo. É incrível, mas mesmo com preparação, empenho e todas as condições favorecendo simplesmente não funciona. Um exemplo é alguém que vai fazer um concurso: o sujeito estuda por vários anos, sacrifica a vida social, faz cursinho, devora apostilas e mais apostilas e quando chega no dia, claro dá "um nervoso", mas mesmo assim segue firme com o propósito: ser aprovado. Chega cedo no local determinado, vai no banheiro, confere a identidade, o lápis preto nº 2, a caneta azul e mais os reservas: tudo certo. É só fazer a prova. Tiro dado, bugio deitado. Enfim o resultado de anos de empenho. O futuro garantido. O casamento sonhado se tornando real. A segurança. Abre a prova e a primeira questão nunca ouviu falar. É assim mesmo, pensa. A segunda pergunta e - ué? - também nunca leu a respeito. Tem algo errado. A terceira, fica entre duas opções e tem consciência que sempre marca a errada nestes casos. Pronto. Se foi a tranqüilidade e com ela toda a bagagem trazida até aqui. Não interessa se as outras 97 questões eram sabidas ou não. Ali terminou a prova e o sonho. Provavelmente ainda dará um tropeço quando entregar o cartão de respostas e cairá como um plasta no chão, espalhando aqueles lápis tão ineficientes e bem apontados.


Ou, depois de uma viagem cheia de histórias, cheia de vivências, de curiosidades, recheados de gente interessante e situações marcantes, um escritor chega em casa, sozinho, toma um bom café com roscas de polvilho, coloca uma música calma em um volume também calmo, senta em frente ao computador, fecha os olhos, dá um suspiro profundo como a imaginação e tlec, tlec, tlec. Por horas aquele barulhinho do teclado é constante. Nem respira. Ponto final e enter. "Ufa, aí está" . E, claro, começa a ler. Horrível: mau escrito, inverossímil, com personagens descaracterizados, diálogos pobres e desnecessários. Enfim, uma droga.


Pois The Mist (O Nevoeiro) é mais ou menos assim. Frank Darabont tinha tudo em mãos: uma boa história (o conto de Stephen King), algum ou outro bom ator, dinheiro e toda tecnologia que ele pode comprar. Resultado de tudo isso: um filme que lembra as produções classe B. Na verdade, o filme é tão ruim que não vale nem a pena um aprofundamento um pouco maior. É certo que a tentativa de pôr uma conotação religiosa aos acontecimentos e aos monstros quase deu certo. Talvez o erro tenha sido o fraco desempenho interpretativo da responsável pela façanha. E o final, que não é nenhuma surpresa, o espectador é preparado para ele - me perdoem o jargão - é surpreendente mesmo assim, por que se torce para que ele não aconteça. Mas não chega a salvar os outros 122 minutos. Vi gente saindo do cinema antes do final. É um filme que permite isso aos não cinéfilos. E a pipoca estava ruim.

Zero Hora - Amigos por todos os lados



A RBS (a saber, a maior empresa de mídia do sul do país, com inúmeros jornais, rádios e tvs, estas filiadas a poderosa Rede Globo de Televisão) possui um hábito não muito saudável. Como sou leitor do principal jornal do grupo, a Zero Hora, ouvinte de uma das rádios, Itapema, e espectador das TVS - Gaúcha e TV Com - e não me incomodo nem com a tendência assumidamente de direita do grupo, até por que acredito que toda a imprensa deva mesmo se posicionar politicamente, me permito fazer um breve comentário sobre um fato lamentável que considero uma triste anomalia. Ando saturado com o círculo fechado deste povo. O que acontece é simples: o pessoal da rádio irá fazer um programa de entrevista: o escolhido é alguém da TV. Esta, por sua vez, fará um documentário sobre a vida de alguém. O escolhido é do jornal, que por sua vez irá fazer um artigo sobre um livro, que será de algum autor funcionário da rádio. E assim acontece diariamente: uns entrevistando outros, que promovem outros ainda, e todos se reunindo para celebrarem o sucesso do primeiro. Há programas inteiros somente para promoverem os seus. Quando ainda o "sortudo" é bom, vá lá, mas, como num caso recente, a babação em um livro limitadíssimo de poesia chegou a doer. A coisa beirou o ridículo. Outra sacanagem (para usar um termo bem apropriado) : fazem um "concurso" na qual a condição para se participar é escrever um pequeno texto. Sai o resultado e o vencedor, além de ter erros gramaticais grotescos e um texto no mínimo duvidoso, é coincidentemente um produtor de comerciais para o próprio grupo. Qual o nome para isso?
É claro que tem muita - muita mesmo - gente boa trabalhando nos veículos da RBS e uma boa parte deles merece tais distinções, mas o que incomoda é que fora também têm bons autores, bons artistas, bons músicos que são deixados de lado, como se não existissem e não fossem importantes para nossa cultura. Creio que nem os leitores nem a empresa precisam disso. E não entendo a razão de fazerem. E o mais interessante é que (vejam a propaganda para reforçar o ponto mais carente) o slogan por um bom tempo foi: A vida por todos os lados. Mas a revelação final é que, pasmem, há vida inteligente além da RBS.