Inveja

Vinha caminhando por uma rua movimentada quando o avistei. Ele olhou-me nos olhos como uma águia mira a ratazana prestes a virar almoço. Tentei desviar, dei alguns passos para o lado esquerdo e ele fez o mesmo. Subitamente fui para o direito. Ele também. Algumas pessoas passavam apressadas entre nós, mas eu não saía de sua visão de rapina. Ficávamos cada vez mais próximos, já estávamos a poucos metros quando tentei um último e desesperado recurso: abaixei-me para atar os cadarços. Estava de mocassim. Levantei sabendo o inevitável. Fui erguendo o corpo, desdobrando os joelhos, respirando fundo, já pensando no que diria: não! Mil vezes não. Quando fiquei finalmente ereto e pronto para responder com meu planejado "não" contundente que dirimiria qualquer pretensão, ouvi:
- Eu sei o que você precisa.
Ele sabia o que eu preciso. Décadas e décadas de vida e eu nunca consegui saber isso, e aquele homem, de terno barato, gravata rosa, cabelos com gel penteados para o lado, sabia. Como poderia dizer não a uma pessoa dessas? Impossível. Engoli meu ensaio todo, digeri meu "plano" e, ainda relutando, perguntei:
- E o que eu preciso?
Seus olhos brilharam. Ele havia vencido o primeiro "round". Eu estava a alguns segundos do que poderia ser a revelação mais fantástica de minha vida, seria a redenção, o nirvana. Cheguei a esboçar um sorriso de felicidade pela descoberta iminente quando ouvi:
- Aparelho de tirar pelos do nariz!
O quê? Pelos no nariz? E ele viu com seus olhos de águia à distância? Espelho! Preciso de um espelho, pensei rápido. Meu mundo caiu. Desabou. Não sou vaidoso, nem nunca fui, mas isso era demais. Eu deveria estar parecendo um símio. Claro, tinha mesmo notado que ultimamente as pessoas ficavam me observando. E rindo. Pudera, eu era um primata cheio de pelos no nariz.
- Eu tenho espelhos à venda também. E de aumento. Veja esse aqui.
O homem era mesmo um sábio. Tinha lido até meus pensamentos. Peguei o espelhinho e - nossa! - pelos enormes. Eu realmente precisava do aparelho, e urgente. Olhei mais e mais e tudo estava enorme. Olhos, nariz... e cravos. Centenas. Daqueles que ficam um pontinho preto que quando apertamos sai uma tripinha de (argh) pus, como uma serpente encantada sai de um cesto, sinuosa e insinuante. Eu havia virado um macaco peludo cheio de pus em pleno rosto. Estava perdido, desesperado, quando novamente ouvi:
- Este creme é infalível, é só passar depois do banho e em poucos dias seu problema estará resolvido.
Pronto. Tudo resolvido. Depois do banho. Mais simples impossível. Fechado. Nem vou pechinchar, já estou ganhando. Pergunto quanto e ele prontamente responde:
- Como o senhor tem que levar também o creme removedor de creme, o que resultará em quatro produtos, escolha mais alguma coisa, porque para cinco tem um desconto de vinte por cento.
Sinceramente? Sou a pessoa mais feliz e sortuda do mundo. Vinte por cento. Sabem o que é isso? Um quinto, ou seja, um gigantesco, um faraônico desconto. Eu realmente caí nas graças daquele bom homem. E ainda me chamou de senhor. Tentei abraçá-lo em agradecimento. Ele, modesto, não aceitou e despediu-se com um sorriso, colocando vários reais no bolso.
Chegando em casa, lembrei de uma cena que aconteceu na Bienal do Rio. Uma moça pegou meu livro, olhou a capa carinhosamente. Leu a orelha, os agradecimentos, levantou os olhos em minha direção e sorriu. Leu mais alguns trechos. Fez sinal de aprovação com a cabeça, por duas vezes, olhou-me mais algumas - eu sorri também - e ficou por vários instantes esperando meu contato. E assim terminou a história. Não fui falar com ela, dizer algo sobre o livro. Perguntar o que ela tinha achado. Dizer olá. Qualquer coisa. Fiquei parado, estático, com cara de maluco (macaco doido cabeludo cheio de pus no rosto) e não fui capaz de ao menos ser agradável com a ex-futura leitora.
Conclusão de tudo isso, ainda mais agora olhando meu aparelho de tirar pelos do nariz, meu espelho que aumenta, o creme contra acne, o creme de tirar creme e o ventiladorzinho à pilha, meu quinto produto, que não faz vento e ainda não descobri para que serve: não sei vender. Sou o pior vendedor do mundo.
Em compensação, um ótimo comprador.
Que inveja do sábio de gravata rosa.
E, pôxa, olhando bem, nem tenho pelos no nariz... Mas que foi uma pechincha, foi. Sem dúvida! E ainda pode ser útil. Sei lá. O Toni Ramos vem me visitar, por exemplo...




Vida, excelente boa vida!

A vida é uma coisa fantástica. Absolutamente magnífica. Estonteante.
Não fazia nem 24 horas que eu havia lançado A vida que não vivi, na Bienal do Rio, e já me sentia recompensado. A literatura já era, para mim, algo que valeu a pena. Hoje, a partir de agora, se eu não receber mais nenhuma crítica, boa ou ruim, se eu não autografar mais nenhum livro, já me considero um feliz escritor. Plenamente recompensado.
Estou na minha própria Academia de Letras. Cheguei ao auge da satisfação literária.
Explico.
O lançamento foi muito legal, acima de minhas expectativas. Cercado de gente que ainda não conhecia, me senti como se estivesse em casa. Vários abraços carinhosos, algumas referências as minhas resenhas cinematográficas, livros vendidos, enfim, um clima bacana que me deixou cheio de orgulho. Até aí, entretanto, tudo normal e maravilhosamente gratificante. Mas o melhor estava um pouco além. Bem pouco.
Cansaço, atrasos da companhia aérea, preços achacantes nos aeroportos, nada diminuía minha vontade de que meu menino Tomás visse o livro. (Eu mesmo o conheci impresso somente no Rio). Cheguei em casa e imediatamente abrimos a mala, retirei um exemplar, ele olhou com atenção a capa, sorriu, abriu uma página, duas, e, na terceira, estava a dedicatória: "Ao Tomás, que tanto me ensina". A reação dele foi só uma. Abraçou-me com força, durante quase um minuto, sem deixar que eu me afastasse. Depois, encarou-me com os olhos cheio de lágrimas e falou baixinho "muito obrigado, meu pai". Quando me desvencilhei, saí correndo fazer o que faço agora: chorar. E assim fiquei por toda a noite, até os olhos incharem como se eu estivesse com conjuntivite. Antes dele dormir, repetiu o abraço ainda mais forte e mais longo, este acompanhado de um silêncio maravilhoso, cúmplice.
Enfim, obrigado literatura, por ter proporcionado, já no primeiro momento de livro publicado, o dia mais feliz da vida que vivi.
Obrigado, Tomás! Muito obrigado, meu filho!



Comentários



Meu caro, que livro! Faltava-me ar, fumava mais, suava, ficava mais feliz, atônito, triste.; Foram vários sentimentos que permearam meu ser, gostaria de de comentar algumas crônicas-contos- estórias, mas vou ficar no fechamento, que acaba resumindo muitos dos sentimentos que vivi em A vida que não vivi, onde tu me jogas: O bêbado, o poeta e outros, nossa mãe! O merecimento do aplauso, o não querer se fechar para o mundo, o se abrir para a vida, o ser sensivel, o ser humano, o ser bêbado e adormecer a dor, o ser poeta, o querer ser reconhecido, nossa! Quanto de mim? O quanto de nós? Indagações essas que são realidades, que são ilusões, certezas, dos sonhos tantos que percorremos entre sono e estarmos acordados.
Fico muito feliz e de certo posso ter me mostrado confuso aqui, mas é o gostoso (não somente isso) da tua escrita: o fato de saber e fingir não saber das realidades todas. Risos.
E o que me deixa mais feliz é que tive o prazer de e a honra de conhecer o Beto Canales, tomar chopp e comer pastel com esse cara que me fez sentir mais prazer em ler.

Grande abraço perfumado meu amigo,
e um muito obrigado por sua LITERATURA.

Plínio Gomes



 Para mim, as suas histórias têm um quê de Nelson Rodrigues, não sei se vc concorda comigo. Ainda bem que vc fala da vida que vc não viveu!!!!
 Laís - Recife



Os contos são bárbaros, o livro FANTÁSTICO.
Com carinho de sua mais nova leitora assídua,
Natalye Alves.


Repetindo o que já foi dito, estamos diante de um sério candidato ao Jabuti. Literatura com profundidade, bom gosto e pra lá de bem escrito. Um estilo único e inconfundível.
Parabéns, Canales.
Pierre M. Sand

Não direi que “A vida que não vivi” é uma grata surpresa porque quem conhece o texto de Beto Canales não se surpreende com a qualidade de seus contos, tampouco com sua capacidade de manter a curiosidade do leitor. Recriando um universo onde denuncia a solidão e a violência, Beto nos faz pensar nos pecados cotidianos dessa vida que vivemos (ou deixamos de viver).
Berenice Rheinheimer

É amigo.
Faço questão de dar meu testemunho. O livro é realmente muito bom.
Sueli Maia


Caro Beto Canales. Parabéns pelo excelente livro de contos "A vida que não vivi". Uma previsão: este livro será um sério candidato ao Jabuti-2010
Beto Guimarães

Conheci o Beto na Bienal do Rio, mas só fui ler seu livro a uns 20 dias atrás. Fiquei impressionado com seus contos que, no mínimo, são excelentes! A densidade existente em cada um nos faz pensar a que ponto as coisas podem chegar e se já não é tarde demais. Poderia ser nosso vizinho, filho, ou nós mesmos, já cegos devido a um extremo desespero, ou ausência sabe-se lá de quê.
Fica aqui meus parabéns, e indicação a todos aqueles que prezam por ler trabalhos de altíssima qualidade.
Beto Canales ganhou um fã! Fico no aguardo pelos próximos trabalhos!
Gerson J. V. Couto

"A vida que não vivi" nos faz mergulhar na profundeza da alma humana,
em suas mais variadas formas. Os contextos variados desfilam
personagens fortes, em vivências sempre intensas, que vão da alegria
das pequenas escolhas ao desespero do sofrimento que leva à morte. É
uma leitura que me fez pensar e repensar, me colocou frente a frente
com alguns melindres existenciais... como a fragilidade da vida, a
superficialidade das relações, as marcas psíquicas que delimitam
nossas escolhas. Excelente obra!

Angela Ruschel

"Aqui onde estamos parece a margem da vida, que está do outro lado da autoestrada." Frases assim, delicadas, sublimes, profundas e contundentes, fazem parte da escrita do Beto. Me impressionou a diversidade de seus personagens e a curiosidade causada pela leitura das primeiras frases de cada conto e, ao final, a sensação de prazer por ter lido um bom texto. Particularmente, acho que os contos do seu livro A vida que não vivi, tratam de escolhas e traçam um paralelo com a vida de cada um de nós, mesmo que não sejamos suicidas, não tenhamos que decidir quem vai viver ou morrer e nem vendamos nossos corpos noite após noite numa boate, passamos a vida escolhendo que tipo de pessoa vamos ser, daquela que é legal lembrar ou da que é melhor esquecer.
Beto, escolheste ser lembrado.
Karen Scopel

Simplesmente imperdível. O livro traz uma rica mistura de vidas que nos fazem pasmar, pensar.
Onofre Dias

Seu livro é fantástico. Parabéns.
Algumas eu já havia lido. Mas outras são bárbaras.
Parabéns.
Cisticerco

Resenha 1

A vida que não vivi, livro escrito por Beto Canales, é um retrato de ironias e verdades. O escritor que, modestamente, se diz aprendiz da literatura, percorre toda a moderna idade e traz à tona efeitos que cobrem o leitor de um sentimento bruto de que a vida não pode permanecer às escondidas. O tipo de literatura que o escritor Beto Canales desenvolve em seu trabalho pode e deve ser comparada aos vários escritores contemporâneos que pouco fazem uso de eufemismos e figuras de linguagem e conseguem, na primeira leitura, trazer ao leitor, o que o mundo tanto fala. Que é o começo de uma sociedade baseada em valores corrompidos por toda evolução da qual vivemos.

Beto Canales encara a realidade em textos muito bem desenvolvidos e, literatos poderiam analisar seu trabalho e dizer da genial linearidade dos contos presentes em A vida que não vivi. São contos bem montados, personagens que são detalhados não através de descrições simplistas, mas sim, através do próprio enredo em que a história se desenvolve. Mostrar a cara de quem fala em um conto é um trabalho árduo e Beto Canales faz isso de maneira que um leitor percebe, de antemão, que está lendo um escritor que conhece recursos de criação e ainda exibe seu talento. Como exemplo desse eficaz desenvolver de personagens fortes, o conto Efeito Prisma, recebe o leitor da seguinte forma:

“— Mãos ao alto!

Calma, Parceiro.

O que foi que eu fiz? Sempre fui um cara do bem, e agora fiz isso? Será que enlouqueci? Mãos ao alto! Eu disse realmente isso? E se o coitado não levantasse as mãos? Eu o mataria? Chegou cedo a minha loucura. Só um maluco faz isso. E meu raciocínio é simples: não sou ladrão, portanto, enlouqueci. E se me prendessem? Sei lá, alguém chegasse de surpresa? Já imagino: Javier, preso por assalto! Eu num presídio? A coisa mais inamistosa que faço é explicar que meu nome deve ser pronunciado com erre, Ravier, e não como se escreve, Javier.”

O personagem se questiona, dialoga com quem o lê, passa a existir através de suas questões existenciais. Logo, o escritor desenvolve o texto trazendo não somente o homem arquétipo de uma sociedade violada pelo crime e por muitos tipos de corrupção. Beto Canales traz o homem comum; aquele que freqüenta bares e lê jornais, mães que sofrem silenciosamente por seus filhos que se perdem no caminho das drogas, mulheres simples, de vida pobre, que vendem seu corpo em busca de uma sobrevivência e muitos outros conflitos que geram reações existenciais e irônicas, por assim dizer. Assim como nos livros de Rubem Fonseca, que fazem aflorar nervos por serem tão contagiosos e sedimentados em uma ironia que está presente em cada dia que vivemos, A vida que não vivi gera sentimentos que fazem o leitor ficar certo de que tal mundo não está somente em jornais ou exibido na TV. É aquilo que tentamos não enxergar porque choca e não traz a realidade, tão docemente descrita em livros que a formulam de forma fantástica, baseada em efeitos especiais e personagens heróicos. O escritor Beto Canales não reformula a vida em seu livro. Ele a demonstra. Como fora escrito por Zélia Palmeira em um de seus contos, e aqui eu tomo a liberdade de parafrasear o pensamento da escritora, “Beto Canales não fala; Ele diz!”. E está feito um livro que serve de visão aos que buscam literatura que entretém e reafirma o mundo como sendo um lugar de pessoas de verdade, conflituosas, perfeitas em toda a extensão de suas perversões, e que buscam viver da forma que a vida lhes surge. A vida que não vivi é um livro de verdades.

Letícia Palmeira

Porque, onde e como comprar

A vida que não vivi pode ser adquirido aqui mesmo usando o PagSeguro. A compra é protegida, pois o blog não tem acesso a qualquer dado do comprador (que são informados no próprio Uol), com exceção do endereço indicado para a entrega. É uma maneira eficiente e rápida para transações online, que permite pagamento através de cartão de crédito, transferência ou boleto. É só clicar no botão aí ao lado. Caso prefira, pode ser feito depósito em conta corrente, bastando enviar um mail. Ou ainda na Livraria CulturaABC Livraria Virtual, Editora Multifoco e na Palavraria (Vasco da Gama, 165 - Bom Fim, Porto Alegre). Nestas duas últimas livrarias, pode ser adquirido In loco. 
O livro tem dezoito contos dispostos em 122 páginas. A imagem da capa é de David Castanheira, um excepcional artista português, e a orelha de Juarez Guedes Cruz, consagrado escritor gaúcho.
Os textos tratam do cotidiano, da chamada "era do vazio", observada através de uma visão diferente e privilegiada. A não definição de onde ocorrem as histórias e a generalidade dos personagens, torna possível que aconteçam com qualquer um, em qualquer parte.
Se desejar com dedicatória, avise.
Espero, sinceramente, que vivam um pouco das vidas que não vivi.
O valor é R$ 21,90 + R$ 3,90 do frete.
Em caso de dúvida ou qualquer outro assunto, entre em contato.


Orelha

"Um jovem escritor caminha rumo à editora onde assinará o contrato de publicação de seu primeiro livro. No tempo que transcorre entre ouvir um estampido e receber o impacto do projétil que estilhaçará sua cabeça, reconstitui a vida até aquele venturoso dia que, não sabe, é o seu último. Bem assim: num instante, em meio ao trânsito da grande cidade, morre mais um poeta vitimado por uma bala perdida. A poesia — sentimento e delicadeza — explodida pelo duro metal do não-pensamento. E é isso: Beto Canales, em suas narrativas, denuncia o que tantas vezes já foi chamado era do vazio:o tempo das relações superficiais, onde se impõem não sentir e nãopensar. Essa estupidez nossa de cada dia, espaço reservado para o nada. Como emInsólita paixão’, onde durante todo o tempo o personagem não reconhece ser, ele próprio, a causa de seus males.Termina, no suicídio, atribuindo sua alienação ao ‘outro’.

Não é por acaso que o conto que dá título ao livro, inicia com a frasecreio que estava sentado meio de lado e não vi a vida passar”. Soterrados por uma época onde ter é mais do que ser, o risco é passarmos a existência perdendo oportunidades, lembrando, só na hora da morte, o que se deixou de usufruir.

Muito já se falou no artista como ‘antena da raça’. O autor de ‘A vida que não vivi’ merece essa denominação: captou e nos retrata a tragédia moderna de criar, todo santo dia, uma sinistra oportunidade para a destruição da alma. Talvez a redenção se encontre na personagem de ‘Paloma’: sua vida não está à venda, apenas seu corpo. É muito tocante a imagem dessa mulher — Bartleby redivivo — que consegue recusar a aparência.

No final da leitura, só podemos agradecer a Beto Canales: bom não teres vivido essas vidas. Excelente o fato de pensares, teres te mantido íntegro e em condições de elaborar os contos deste livro. Oxalá sejamos merecedores de tal oferenda."

Juarez Guedes Cruz


Beto Canales e tudo o que não vivemos

Cada escolha que fazemos implica a renúncia de outras centenas de opções.

Cada vez que decidimos dar um passo, seja para frente, para o lado ou para trás, abrimos mão de descobrir o que teria acontecido, caso nossa escolha houvesse sido outra.

Deixamos de viver muitas vidas porque só conseguimos viver uma de cada vez.

E enquanto uma vida vai sendo vivida, outras vão sendo esquecidas, não vividas, não sabidas.

Outras vidas vão sendo deixadas para trás, sem que tenhamos a chance de recuperá-las um dia.

É muita vida por minuto.

A vida que não vivi, livro de estréia do escritor gaúcho Beto Canales, é sobre vidas - vividas e não vividas.

Vidas assumidas e vidas escondidas, vidas boas e vidas ruins, vidas santas e vidas profanas, vidas limpas e vidas sujas.

São 18 contos que retratam com minúcia e certo despudor a existência de vidas paralelas à nossa; vidas tão cruelmente verdadeiras que te obrigam a suspirar e retomar o fôlego ante cada história que se inicia.

Beto fala da vida dos pensamentos frios e impassíveis da família de um defunto que parece sorrir no caixão. Da vida entrelaçada de um favelado, um padre e um ateu. Da vida que permeia uma decisão de justiça equivocada, e da vida perversa de um político e seu subordinado com nome cachorro.

Fala também da vida da prostituta que não está a venda; da vida que revira os anseios de um grupo de ribeirinhas, e da vida de um garoto e o reencontro com seu torturador, que estava agora velho ’cego, surdo, casado com uma pessoa deformada pela gordura e com um filho ladrão’.

Tem vidas pra caramba no livro.

E boas sacadas, daquelas que a gente sublinha com a caneta para poder reler mais tarde: “os segundos parecem vagões pesados e inertes”, “os meninos, cabisbaixos, tinham elefantes nas pálpebras”.

E por aí só vai.

Beto alcançou a medida exata da narrativa que prende e envolve, sem truques nem ganchos ordinários, e seus personagens são tão autênticos, e acabam se aproximando tanto do leitor que, lá pelas tantas, começa até a incomodar.

Segundo o próprio autor, seu controle sobre a vida de seus personagens é relativa:

- Eles aparecem do nada e sentam ao meu lado.

O que explica a legitimidade de suas múltiplas personalidades, semelhantes a de pessoas que conhecemos, convivemos, quiçá pessoas que vivem dentro de nós.

Vidas que Beto não viveu, e que eu também não vivi, assim como você, e o João e a Maria.

Vidas não vividas - pelo menos não publicamente.

E este é apenas mais um motivo sobre porque eu acho que você deve ler o livro do Beto Canales.

Para descobrir o que poderia ter acontecido, se daquela vez você houvesse tomado outra decisão.

Jana Lauxen

A Vida Que Não Vivi


Pois é. Aí está a capa. Feita a partir da imagem criada por David Castanheira, um artista português, ficou - admito que estou "babando" - simplesmente maravilhosa. Tudo certo, no tamanho certo, transmitindo o que eu queria.
Vou reproduzir a orelha, escrita por Juarez Guedes Cruz, um excepcional escritor gaúcho, que também me deixou extremamente orgulhoso.
Haja coração!

"Um jovem escritor caminha rumo à editora onde assinará o contrato de publicação de seu primeiro livro. No tempo que transcorre entre ouvir um estampido e receber o impacto do projétil que estilhaçará sua cabeça, reconstitui a vida até aquele venturoso dia que, não sabe, é o seu último. Bem assim: num instante, em meio ao trânsito da grande cidade, morre mais um poeta vitimado por uma bala perdida. A poesia — sentimento e delicadeza — explodida pelo duro metal do não-pensamento. E é isso: Beto Canales, em suas narrativas, denuncia o que tantas vezes já foi chamado era do vazio: o tempo das relações superficiais, onde se impõem não sentir e não pensar. Essa estupidez nossa de cada dia, espaço reservado para o nada. Como emInsólita paixão’, onde durante todo o tempo o personagem não reconhece ser, ele próprio, a causa de seus males. Termina, no suicídio, atribuindo sua alienação ao ‘outro’.

Não é por acaso que o conto que dá título ao livro, inicia com a frase creio que estava sentado meio de lado e não vi a vida passar”. Soterrados por uma época onde ter é mais do que ser, o risco é passarmos a existência perdendo oportunidades, lembrando, só na hora da morte, o que se deixou de usufruir.

Muito já se falou no artista como ‘antena da raça’. O autor de ‘A vida que não vivi’ merece essa denominação: captou e nos retrata a tragédia moderna de criar, todo santo dia, uma sinistra oportunidade para a destruição da alma. Talvez a redenção se encontre na personagem de ‘Paloma’: sua vida não está à venda, apenas seu corpo. É muito tocante a imagem dessa mulher — Bartleby redivivo — que consegue recusar a aparência.

No final da leitura, só podemos agradecer a Beto Canales: bom não teres vivido essas vidas. Excelente o fato de pensares, teres te mantido íntegro e em condições de elaborar os contos deste livro. Oxalá sejamos merecedores de tal oferenda."


Guerra?

Devo ser o único brigão antibélico do planeta. Minhas rusgas não extrapolam o mau atendimento de alguma empresa ou atos desonestos de outra. Grito, xingo, esperneio, sofro, mas termina ali, quando o telefone é desligado. Enfim, sou da paz. Jamais agrediria alguém fisicamente. Não piso nem em barata. Bem, confesso, por causa do barulhinho, algo como esplechhh com erres no meio. É um som complexo e poderoso que só de lembrar fico nauseado. Já que as baratas não contam, aranhas. Jamais dei uma chinelada em uma. Mas, vamos lá, confesso novamente: medo. Não posso ver uma que saio correndo. E esse correr não é figura de linguagem. Saio mesmo. Não deve contar, também, para minha campanha de autovalorização da imagem pacífica. Última tentativa: formigas. Pois é. Não deu certo. Este bichinho horroroso existe para que nós os matemos. Fortes, organizados e verdadeiramente monstruosos para que sejam aniquilados sem perdão. Quando criança e até a semana passada, costumava pegar pedaços de plástico, daqueles duros, e ateava fogo. Ficava esperando um pouco e zummmmp! Zummmmp! Ataque de bombas ferventes sobre os formigueiros. Eu não, mas acredito que, além do barulho do plástico derretido caindo, as formigas ouviam um "há há há" daqueles de filme de terror, uma verdadeira gargalhada fantasmagórica.
Na verdade, eu falava de atos belicosos. Não sou nenhum estrategista militar, nem economista, nem político (ainda bem, sou íntegro) mas vou opinar nestas áreas. Inácio, sabe, comprou alguns submarinos e helicópteros para proteger a amazônia e o pré-sal. Vinte e quatro bilhões depois, sem pensar no que poderia ser feito com essa graninha, tento imaginar os argentinos (Pelé é melhor que o Maradona - sempre relembro quando falo neles) invadindo nosso litoral para roubar petróleo. Na verdade eles já invadem, principalmente o de Santa Catarina e roubam minha paciência. Faço um esforço e tento ver Hugo Chavez com sua boina vermelha e seus cem mil rifles selva a dentro. Acho que não precisaríamos resistir. A própria natureza os expulsaria. Ou o Lugo, correndo atrás das "brasilenhas" querendo mais e mais filhos, uma putificação da raça, os Bispianos Paraguaios. Apenas uma faca para castração seria suficiente. Ou seja, este gasto todo, para essa turminha, pelo menos, não é necessário.
Claro, Inácio, sabe, deve ter pensando nos outros, nas grandes potências, como a do vendedor francês, o melhor do mundo, diga-se de passagem, do Obama, e dos "china", por exemplo. Contra elas, adiantaria algo? Nada, absolutamente nada. Não faria a menor diferença para qualquer nação dessas nossa comprinha. Eles nos esmagariam. Mas, expliquem, para que então?
Sei lá. Eu não estaria criticando se fosse gasto com educação ou saúde. Mas com armas? Máquinas feitas para matar? Quem está nos ameaçando? Ou nós ameaçaremos alguém?
Resta uma hipótese para que tudo seja ao menos razoável. As formigas. Tudo isso serve para matar formigas. Elas merecem. (Gargalhada sinistra). Se não for para isso, sinceramente não compreendo. E sinto um certo receio!
Morte às formigas!

Lançamento

Ele desperta. Com o rápido vibrar de uma faca, com o pragmatismo de um revólver ou mesmo com o lento e prazeroso repuxar de uma corda, ele dá vazão aos seus instintos e busca concretizar seus impuros - ou puros, algumas vezes - desígnios. Sabe que deve ser mais inteligente que o mais inteligente investigador, para manter encoberto seu ato. O sangue o desperta. Em mundos sombrios que põe a prova a razão humana, ele segue a trilha do mais perigoso e cruel predador existente. Muitas vezes, a linha divisória entre caçador e presa torna-se tênue. Ele tem ciência, entretanto, que deve ser mais inteligente que o mais inteligente dos assassinos para fazê-los pagar por seus crimes e evitar novas mortes – talvez, a sua própria.

Em um palco, eles lutam. Em tramas repletas de reviravoltas, se confundem. Às vezes, se unem. Podem, até, se perdoar. Mas, não importa em qual situação, se completam. Você está desafiado a acompanhar estes duelos, a desvendar estas tramas, a perder-se nos rios sinuosos e ilusórios da literatura policial, onde nada é o que parece – ou não. Puxe uma cadeira, prepare-se para o inusitado e acomode-se. O show já vai começar. No Beco do Crime.

O que: lançamento da coletânea de contos policiais Beco do Crime.

Quando: dia 19 de setembro, às 17horas.

Onde: na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, no estande do Beco do Crime (pavilhão laranja, ao lado da sala de imprensa).

Risos

Não confio em que levanta pela manhã e imediatamente põe óculos escuros. É estranho. Não tenho, claro, nada de concreto contra estas pessoas, mas... Ou quem cumprimenta com a mão frouxa, assim, de leve, como se fosse machucar, com o pulso dobrado. Também não. Mais uma categoria: quem não ri. Eu conheço uma pessoa assim e não confio nela. Quando estamos juntos, fico na espreita, observando. A qualquer momento, sei lá, ela pode me atacar com uma mordida no pescoço ou começar a recitar um trecho de Brida do Paulo Coelho. Ou, pior ainda, ler, aos gritos, um livro de auto ajuda. Espero qualquer coisa de uma pessoa que não ri.
Pois ontem mesmo aconteceu o inverso. Um leitor escreveu dizendo que eu estava muito mau humorado. Que meus textos, há tempos, estavam rancorosos e pesados. Que antes eu escrevia algumas crônicas engraçadas e devia fazê-las novamente. Enfim, que ele gostava de rir. Fiz um exercício de memória para recordar o que havia escrito de risível, e lembrei de duas placas. Uma dizia "O Bar do Alemão avisa que não está aberto por que está fechado" e a outra, que eu mesmo vi, assim: "Banheiro exclusivo somente para clientes e não clientes". Peço desculpas aos leitores antigos por estar repetindo, mas, creio, elas devem ser o ápice do "engraçado". Cada vez que recordo eu dou risadas como dei na primeira vez que as vi e, por isso, creio ser válida a repetição. É estranho como as pessoas se comportam diante de situações inusitadas. Na verdade, é curioso observar como o riso surge. Eu, quando vi as sensacionais mensagens descritas acima, quase enfartei. Foi um riso volupioso, incessante, desvairado. Cheguei a cansar. Para muitos, podem passar despercebidas.
Dia desses contaram-me o seguinte: um russo (é que temos leitores lusitanos) resolve suicidar-se e acaba matando o irmão gêmeo. Não vou exagerar: ri dois dias. Dormia e levantava (sem óculos escuros) rindo. Almoçava, trabalhava, lia jornal, sempre rindo. Aí, encontro alguns amigos atrás de copos de chopps, todos felizes e etilizados, em um ambiente perfeito para contar uma piada e, como deve ser feito, começo relatando como fosse verdade:
- Vocês lembram do Joaquim e do Manoel, os gêmeos?
- Sim, que tem?
- É que o Manoel resolveu cometer suicídio e acabou matando o Joaquim.
Vinte segundos. Foi o tempo que demorei para perceber, entre minhas gargalhadas, que ninguém mais havia sequer sorrido. Olhei um a um nos olhos e sentenciei:
- Vocês, além de burros, beberam pouco - e imediatamente falei de futebol.
Concluindo: fazer graça não é fácil e depende muito com quem lidamos. Fazer chorar é barbada, mas o riso, áh, este é terrível! Por isso admiro pessoas que dão risadas. Gosto delas.
Enfim, vou incluir meus amigos na categoria dos que não riem.
Não à toa sempre desconfiei deles.