Por falar em deus...

Costumo dizer que tudo que se faça com o dinheiro, além de gastar, é imoral. E sabe no que credito? Exatamente nisso. É impressionante como o dinheiro é idolatrado, guardado, cobiçado ao invés de simplesmente exercer a função para que foi feito: comprar. Estranho que uma mesma pessoa, quando não o tem, possui uma série de necessidades que com capital não existiriam. Aí ele chega e as necessidades ao invés de diminuírem, aumentam. Ele traz - ressalte-se que somente para algumas pessoas - sofrimento, dor. Conheço gente que fica deprimida por ter que gastar. Gente que nunca bebeu um vinho bom mesmo tendo como pagar, que quando viaja - ainda viajam? - comem o máximo que conseguem no café da manhã do hotel e o mais tarde possível para economizar no almoço. Indo a um ambiente mais macro, existem pessoas, que a mídia chama de mega-investidores, que destroem economias de países do terceiro mundo em busca de lucro. Ou seja, de mais dinheiro. E para que? Para gastar? Não! Mas para comprar e vender empresas sem lembrar que elas também são feitas de pessoas, para comprar papéis de governos corruptos e receber juros exorbitantes destes mesmos burocratas. Para especular. Para desordenar. Para criarem o tal capital internacional, que vai como um vampiro mundo afora sugando o que deveria virar comida, virar educação, sem falar em arte e cultura, saúde e tantas coisas mais que não dão o mesmo lucro. E aí ganham ainda mais e mais. Para empregar em produção? Novamente não! Mas para alimentar novamente essa fome de algo que pode matar - e mata - e destruir - e destrói e, ao mesmo tempo, que poderia educar - e não educa - e salvar - e não salva. Dinheiro! Ele é bom. Aqueles que dão a ele outro significado, outra função, estes sim são os bandidos desta história. Cada vez mais acredito que tudo além de gastar seja imoral, tratando-se de dinheiro, mas quando penso nos vinhos não bebidos por quem pode, nas economias destruídas pela ganância acredito que pode ser ainda pior. Talvez não seja somente imoral, mas criminoso. Excluo o pão-duro-sofredor-pobre-de-espírito, mas os especuladores não. Eles não fazem bem para todos, incluindo eles próprios, mas isso não me importa nem um pouco. Por falar nessas coisas todas, lembrei que ando numa dureza danada! - mas feliz da vida com os vinhos que ando bebendo.


O Nascimento de um Deus!

Dia destes li uma reclamação de um blogueiro (por sinal muito legal: http://www.100cabecas.blogspot.com/ ) que se dirigia a um grupo de ajuda (que a mim não ajudou) do Google assim: "Ó Grande Blogger". Eu achei sensacional e acabei adaptando a magnífica idéia para criar "O Grande Google - Sabedor de Todas as Respostas". Pois não é que está aí um verdadeiro deus? O que mais é aquele que é onipresente, que está em todos os lugares, aqui, em Portugal, no Zimbábue ou no Quirguistão ao mesmo tempo? Quem mais sabe praticamente tudo? Experimente. Escreva uma palavra qualquer, paralelepípedos, abduzido, biltre, qualquer coisa. Um ou lugar, o Quirguistão mesmo, ou Azerbaijão, qualquer lugar e também saberás tudo . Caso precise de ajuda, um médico por exemplo, coloque lá e duvido que não resolva o problema. Não interessa o que estejas procurando, acabarás encontrando. E mais: faça isso de uma máquina poderosa ou da Lan da esquina, não importa- o Grande Google não discrimina ninguém. Nasce um deus, e em seguida virá sua igreja. O Grande Google de Todos os Tempos é um bom nome. A propósito, talvez até por ter feito uma abordagem errada, meu problema não foi solucionado, ao contrário do Silvares - aquele que chamou de Grande Boggler - e tudo ficou resolvido. Amém!

É engraçado?

Chega de chatices. Afinal, levando em conta aquela máxima que assumi de que homem é bobo, mulher é chata, isso deve ser coisa de mulher. Ontem - dia terrível - mau-humor maior que a paciência, pensei: isso não pode continuar assim. Tentei imaginar coisas engraçadas. Mas, afinal, o que é engraçado? Uma pessoa caindo completamente desordenada é engraçado? Ou uma placa que eu mesmo vi, que dizia: "Banheiro, exclusivo para clientes e não clientes". Isso me rendeu boas risadas. Ou uma daquelas recebidas pela internet, como a de um anúncio fúnebre, que começa assim: "É com prazer que ... " ou ainda uma placa que avisa que o bar não está aberto por que está fechado" e tantas outras? Ou o meu filho, de 7 anos, dez minutos depois de começar a estudar, diz de maneira contundente: - Não é que este negócio da certo! - Eu perguntei: - Que negócio, meu filho? - E ele prontamente: - Este de estudar, pai.
O que, afinal, é realmente engraçado? Não preciso nem confessar que ri muito em todas as situações descritas, mas devo confessar, isto sim, que dou risada com a mesma facilidade com que choro. Certa vez, em um ônibus, tentava ler a crônica chamada Homem que é homem, de LFV, e não conseguia passar de determinada linha. Chegava a este ponto e o sorriso vinha. Depois o riso e enfim as gargalhadas, ruidosas gargalhadas. Tinha que parar, pensava em algo triste, me concentrava, limpava os olhos mareados, e tornava a ler: nada. Era incontrolável. Até que desisti e desci do ônibus. Outra ocasião: eu assistindo um cursinho de grávidas, para ajudar minha esposa parir, e a enfermeira que ministrava a aula falando de parto normal. Lembrei - sabe-se lá o por quê- daqueles filmes em que se pediam água quente para o parto, e mais água, e um pouco mais ainda e comecei a rir e não conseguia parar. Tive que sair da sala. Também quando vi o Clinton tendo um ataque de riso frente ao Gorbachev consegui rir ainda mais que ele. Não controlei o riso nessas situações. Provavelmente o meu descontrole tenha sido tão engraçado quanto a origem dos risos, mas o fato é que alguma coisa desperta em nós e torna tudo motivo de graça. Como nas férias viajando: depois do segundo dia dou risada até de velhinha cega atravessando a rua. Acho que vamos criando uma expectativa positiva e nos abrimos ao engraçado. Ontem, na verdade, consegui eliminar o mau-humor com risos. Terminei o dia com boas risadas. Pena não ter visto ninguém cair, por que uma pessoa caindo completamente desordenada é engraçado sim. Desde que não seja eu.



A culpa é do Fidel (e do Pinochet)


Uma menina de dez anos, em seu primeiro dia de aula em um colégio novo, entra no pátio da escola, desajeitada e deslocada, fica caminhando lentamente em meio a multidão de crianças. Algumas meninas que não a conheciam a convidam para entrar em uma brincadeira de roda e saem todas de mãos dadas até sumirem da visão.


Guion novamente, aquele cinema que homem pode beijar homem na boca e não pode comer pipoca e além de tudo passa filme francês - descrição feita com muita procedência pelo amigo Cícero - aprontou mais uma: A Culpa é do Fidel.


Um bom filme - francês, é claro - feito pela filha do Costa-Gravas com uma atuação exemplar de uma garota, que eu não conhecia, chamada Nina Kervel-Bey, é uma ficção daquelas que beiram um documentário. De essência marxista, panfletário, até, mostra a politização e esquerdização de um casal que vivia em Paris na época de chumbo para a América do Sul, depois de uma visita ao Chile. Os dois envolvem-se com a eleição de Salvador Allende e a vida de classe média vira uma bagunça. Os detalhes são muitos, como a mulher (filha do Gerard Depardieu, em uma atuação deplorável ) que troca os ensaios para a Marie-Claire por um livro defendendo o aborto; a casa - com um belo jardim - trocada por um apartamento pequeno; a empregada cubana e anti-comunista trocada por refugiadas de outros países; as visitas constantes de eternos barbudos e cabeludos e por aí afora. Tudo isso, ocorre sob a visão crítica da menina, estudante em um colégio de freiras, praticante de natação e uma verdadeira dama. Uma burguesinha, na verdade. Estas mudanças, além do conflito do próprio pai, espanhol que fugiu de Franco deixando a irmã e a sobrinha pra trás lutando contra a ditadura do general, de família nobre - vista sob a perspectiva da criança é encantador e angraçado. Duas cenas que emocionam: a eleição e a morte de Salvador Allende. Mas, não vou contar o filme (?) e vou enveredar para outros caminhos.


Esquerda ou direita. Direita ou esquerda. Quem afinal, está certo? Há algum certo? Eu sempre imagino um círculo, onde pode-se ficar um pouco para um lado, um pouco para o outro ou no centro da linha. O que acontece normalmente, é que fica-se caminhando para a direção a que se tende, e se vai indo, indo e - susto - acabam se encontrando no lado de baixo do tal círculo, caso este processo seja feito pelas duas tendências. Qual a conclusão disso: se forem extremados, são iguais. Pois no filme acontece um pouco disso: os pais da menina não querem que ela leia o Mickey por ser coisa da direita, do império, querem que ela aprenda solidariedade em meio a bombas de gás atiradas pela polícia. Seus avós comentam que os comunistas são pobres que querem tomas suas casas, suas vinhas e até os brinquedos das crianças, que não sabem por que eles não gostam (dos burgueses) que dão para eles roupas usadas e até a comida que sobra. Assim é difícil, afinal, não falamos de esquerda ou direita, pelo menos não com dignidade. Nem a direita é assim tão ruim e burra nem a esquerda tão burra e ruim. Aqueles anos já foram tarde e penso - é isso aí mesmo, Tarso - que não devemos apagá-los de nossas vidas. Devemos aproveitá-los para aprender o que não mais fazer, para não torturarmos e nem sermos torturados. Pode-se ser de esquerda com dignidade e paixão, com ideais e pensamentos bons. E de direita também, afinal, só que deve ser um pouco mais difícil. Ironias a parte, a sociedade precisa dos dois lados e cada um deles do outro. Não existiria sociedade sem as diferenças. Mas isso vai longe, então, fica para a próxima.


A propósito, a cena descrita no primeiro parágrafo é uma mostra de solidariedade, busca incessante durante todo o filme, que acontece no somente no final.


O problema é glandular!

Há dias em que somos produto daquilo que fazemos ou vemos. Nossas reações dançam de rosto colado com as nuances destes momentos. Atualmente, como mais vemos do que agimos, isso se torna cada vez mais freqüente. E tem de tudo. De tudo e mais um pouco. É uma oferta visual estarrecedora, um oferecimento ofensivo, persuasivo. E, claro, não somos de ferro (exceto o Iron Men) e tampouco indiferentes ao que nossos olhos vêem, então viramos conseqüência disso tudo. Já que falei em super-herói, continuamos com um deles: Batman. É de estarrecer. Tenho um amigo de 8 anos que disse não ter dormido por uma noite depois de ver o filme. Eu provavelmente ficarei insone por meses. É não só o melhor filme da série como um dos melhores em geral dos últimos tempos. Uma obra quase completa com pouquíssimas falhas, na qual retiro as que mais são erradamente apontadas, de como o Coringa espalhou bombas por toda a cidade ou por um hospital sem que ninguém visse (e aproveito para lembrar estes críticos que trata-se de um filme do Batman, que se este tipo de coisa for taxada de falha, o filme sequer começa, ou acham plausível que um sujeito se fantasie de morcego e pule do vigésimo andar sem se machucar? Ou que suma para lugar algum depois de uma conversa qualquer?) . As pressões humanas e nossos limites, a crueldade e a tolerância e até onde somos ou não bons (mocinhos, neste caso), são tratados de maneira adulta e inteligente. Na verdade, duas constatações: primeiro, não é para criança e segundo, o filme é sobre o Coringa. Desde a interpretação fantástica de Heath Ledger ( o cara merece o oscar mesmo que póstumo) até a densidade psicológica da personagem, construiram o verdadeiro Cavaleiro das Trevas. Na cena final, onde o Duas Caras (um dos melhores efeitos e maquiagem que vi) olha ao comissário e diz para ele falar ao filho - um menino dos seus 8 ou 9 anos - que nada de ruim vai acontecer, e ele obedece sabendo que aquilo era mentira (cena relacionada ao que aconteceu ao próprio carrasco de agora quando sua namorada morreu, desencadeando boa parte da trama) é pesada. Desesperadora, eu diria. Aquele ambiente escuro, nostálgico até, próprio dos filmes do Homem Morcego, conspiram para tudo ser ainda mais denso. É de chorar e, claro, eu chorei. O filme deveria terminar nesta cena. Pra mim, terminou. Depois disso, sexta-feira, Buarqueanas. Uma peça inspirada nas personagens femininas de Chico Buarque. Eu creio que o pulo do gato seria interpretar essas mulheres sem o Chico por perto. Ana, Lígia ou Barbara tem vida própria. Imaginem elas sem o dedo (a música, especificamente) por trás? Seria interessante. Mas a peça, não levando em conta que começou com atraso, quase uma obrigação em palcos gaúchos, ao que parece, e não levando em conta também cenas muito circenses, que definitivamente não são do universo feminino de Chico, vale a pena. De muito bom gosto e muito bem interpretada. Quanto a trilha, nem ouso comentar. Na vez da Geni, aquela que é feita pra apanhar, que é boa de cuspir, chorei. E o mais estranho: o público - provavelmente os normais - riram enquanto eu chorava. Maldita Geni! Fim de sexta, os primeiros minutos de sábado curiosos perdidos na escuridão, chego em casa e ligo a TV: o nadador dourado chorando no pódio ao som do hino nacional. Não sou bairrista, muito menos patriotista, mas - fora! Homem de Ferro - chorei novamente. Que noite. Certamente não preciso gastar em colírio!

Marina chorou


Têm pessoas, e eu admiro isso, que não morrem, vão embora. Simples assim. O cara tá deitado, dormindo, e esquece de abrir os olhos: bingo. Morreu! Não sei se há relação com o tipo de vida ou com o grau de desenvolvimento, mas é certo que eles existem. O último que partiu foi Dorival Caymmi, a meu ver, um mágico preguiçoso. As músicas dele pareciam estar em um compasso de espera, suspirando, descansando. Vejam o que falo:
"Eu vou prá Maracangalha
Eu vou!
Eu vou de uniforme branco
Eu vou!
Eu vou de chapéu de palha
Eu vou!
Eu vou convidar Anália
Eu vou!
Se Anália não quiser ir
Eu vou só!Eu vou só!
Eu vou só!
Se Anália não quiser ir
Eu vou só!
Eu vou só!
Eu vou só sem Anália
Mas eu vou!...(3x)
Eu vou só!...(16x)"
Genial. Observem a quantidade de repetição dos versos finais, lembrem da cadência, do ritmo. E a letra? Ele vai para Maracangalha e vai convidar Anália. Caso ela não queira ir, ele vai só. Ponto final! Dado o recado, inclusive com as intenções explicitadas no uniforme branco e no chapéu de palha. Pois este mesmo cara foi embora, um pouco adiante de Maracangalha, e saiu sem se despedir. Talvez por que volte logo. Tomara!



Petrobrax

Às vezes parece até provocação. Pois não é que Inácio ontem afirmou que os campos petrolíferos são um sinal de deus? Bem, não vou nem entrar na questão que um campo petrolífero é sinal de óleo e nada mais, e sim na questão religiosa, novamente. Essa é uma mistura muito perigosa. Misturar política com qualquer coisa já não é bom, com religião é ainda pior. Os exemplos que a história mostra são terríveis e mais o detalhe do governo eleito Lula estar cada vez mais distante do poder e o Inácio mais perto, é desconcertante. Isso tudo não pode dar certo. A coisa da religiosidade do povo é reflexo direto do desenvolvimento do país. Vejam os bolivianos, por exemplo, católicos fervorosos apesar de reverenciarem Pachamama, e comparem com os noruegueses ou belgas. É direta a relação: quanto maior as crendices menor o desenvolvimento da nação. Imaginem com estímulo! Então, uma descoberta no subsolo oceânico, a quilômetros de profundidade, deve ser mostrada como uma vitória tecnológica, como um avanço da pesquisa, da ciência, e não como um sinal divino. O povo, sabe-se, crê. Se o senhor Inácio vai a TV e diz que é uma mensagem do além, realmente será, pelo menos para a maioria. E, até que provem contrário, deus não procura petróleo. Por isso, e até por respeito aos ateus que votaram também, não acho saudável que uma descoberta feita graças a competência de uma empresa estatal, seja atribuída a quem quer que seja. Se o povo já é crente e vulnerável sozinho, imaginem com ajuda oficial. Nesse ritmo, o caboclo ao invés de mandar o filho estudar, vai obrigá-lo a ficar rezando. Brasil: ame-o ou deixe-o. Chego a lembrar desta fase. Ainda continuo pensando que, ideologicamente, eu estou no mesmo lugar e quase tudo indo perigosamente à direita, mas...
Enfim, parabéns aos técnicos e pesquisadores pela descoberta.



Imaginem bem no alto da colina o Mosteiro, forte e imponente. Ao redor, o pequeno vilarejo com casas frágeis e povo também, abaixo de chuva, muita chuva. As plantações perdidas, os animais mortos, pessoas desaparecidas, cabanas destruídas. Dentro do templo, um religioso olha para o abade e diz que rezará para que a chuva pare, enquanto os outros descem ao mundo para ajudar os nativos. E assim acontece. Os monges ficam na vila trabalhando, auxiliando, limpando e o outro no templo entregue às orações. Passam os dias e precipitam as noites sempre da mesma forma: chuva, trabalho e prece. Até que, quase um mês depois, a chuva pára e o monge que orava vira-se para o superior e diz: - Viu?

Imaginem, também, uma seca violenta. A tribo perdida em meio a imensidão do cerrado começava a passar fome. A água potável terminava junto com os rios que secavam. A pequena roça de mandioca já não mais produzia na terra árida. O pajé, com um olhar soturno, avisa ao cacique que, enfim, começaria a dança da chuva. Cogita-se até em mudar a tribo de lugar, mas a dança tem começo. Passam as noites e precipitam os dias sempre da mesma forma: seca, fome e dança. Até que, quase um mês depois, a chuva começa e o pajé que dançava vira-se para o cacique e diz: - Viu?

É com isso que lidamos? Somos (nós, a humanidade) inocentes. Crédulos. Nem falo em religiões, a meu ver nenhuma presta, e sim em esperança. Outro dia depois de um desastre que matou várias pessoas, inclusive uma criança, e destruiu tudo, uma velha desolada meio ao caos diz chorando para a câmara: graças a deus não morreu mais gente. Como assim? E os que tombaram sem chance de defesa, com dor, com mágoa? Que morreram mesmo antes de realmente viver? Não seria o mesmo deus que salvou a velha o responsável pela morte da criança? Às vezes penso que isso não é esperança, é egoísmo. Sempre agradece o vivo. Se eu fosse culpar alguém não seria algo celestial e sim o terremoto. E se fosse agradecer por não ter morrido, também não seria nada espiritual, e sim à sorte. Mas já que a parte boa - se é que pode-se fazer esta afirmação - foi atribuída a deus, que se faça isso também com a ruim, questão de justiça.
Tem uma história (das várias tétricas) na bíblia, que conta a ida de um sujeito a um lugar ermo para que matasse seu filho, como prova de sua dedicação, obediência ou qualquer coisa assim, a deus. Quando ia executar a criança, recebe um cordeiro para que fizesse a troca, pois sua dedicação fora reconhecida. Não sei bem a história e nem pretendo saber. O que me interessa é somente o começo: na verdade não basta crer em deus? Tem que provar também? Isso me parece coisa de adolescentes apaixonados. A velha do desastre salvou-se por ter provado a deus que acreditava nele? E não há uma certa insegurança divina nisso tudo?

Este prólogo todo é para dizer uma coisa somente: acreditamos! Somos a própria crença. Somos capazes de fazer chuva, de fazer com que pare de chover e, se não somos nós mesmos, estamos muito próximo da divindade. Basta sermos práticos: agradecer, função dos que permanecem vivos e calar, função dos que falecem. Somos muito bons nisso! Claro, também temos que provar. Viu?









Mistérios!



Num belo dia, eu ia caminhando, escorreguei e caí. Foi o suficiente. A batida na cabeça foi fatal. O estranho é que continuei vendo e ouvindo tudo. O governo Inácio com suas tendências direitistas, as olimpíadas com suas medalhas douradas (para o Brasil, por enquanto, as bronzeadas - deve ser o sol forte) e as nossas guerras civilizadas que matam sem muita sujeira. Vi o vizinho Evo ser aprovado com mais votos agora do que quando foi eleito e pensei em transferir pra cá a mesma idéia - genial, destaque-se - que consiste basicamente no seguinte: coloca-se em votação o candidato - agora no poder - da última eleição. Caso ele tenha menos votos que antes, é destituído. Simples e eficaz. Como não vejo nada de errado em copiar o que é bem feito, pensei ter resolvido a maioria dos nossos problemas. Ilusão. Amarga ilusão. Como a maioria do que acontece no mundo, aqui não daria certo. Primeiro por causa da impossibilidade, já que elegemos o Lula e quem governa é o Inácio (como tratado anteriormente), segundo por que jamais copiaríamos bolivianos. Ora, somos um país de alto nível, um país intelectual. Imaginem só!, nós copiando a Bolívia, ainda se fosse os Estados Unidos... Quando me dei por conta, vi que estava "mortinho da Silva" (logo Silva - numa clara referência a presidência e não as milhares de famílias) e estava preocupado com banalidades quase surtei (ia escrever "quase morri"). Melhor: surtei. Que falta de capacidade, a minha. Eu que fosse aproveitar a minha nova situação longe da matéria de outra forma. Sei lá. Que fosse assustar alguns, assombrar outros, puxar os pés da Maitê - da Gisele Bündchen não, os dela são feios - ao invés de ficar criticando o Inácio ou o país. Mala até morto.

Mas, no meio do faniquito, aparece alguém, anjo, arcanjo, oficceboy divino, algo assim, e diz claramente: "Você ( ele me tratou pela terceira pessoa - gaúcho não era) deve a partir de agora pensar com mais amplitude, deve ser mais cordial e compreensivo. Continua vendo e ouvindo para aceitar e entender tudo." E eu quieto. Quando se morre, aprende-se a ouvir. Às vezes morre-se mais tarde caso tenha aprendido antes. E mais: " O papel que vai desempenhar agora é outro: é de amor, compreensão e amizade. " Eu ainda quieto. Ele continua: "Sua missão é importante e vital. É ajudar o seu país da seguinte forma: cada ato presidencial deverá ser explicado aos militantes que ajudaram a eleger este governo até que eles compreendam..." Interrompi. Questionei se havia, então, ido parar no inferno; que aquela missão era impossível e ingrata e nada. O "sei lá o que divino" impassível, com cara de paisagem, acima e encima de qualquer reclamação. Até que num brado desesperado, gritei o mais alto que pude: - Nem morto!

Foi aí que comecei a me mexer novamente.

Dificuldades para se fazer um texto sério!

Um texto deve começar por um título. Bem, já tem um aí acima. Depois disso, o início propriamente dito, que deve - invariavelmente - ter uma boa frase para prender o leitor. Quem sabe "Os nativos estão inquietos, pode ser fome ou coisa pior" ou "No convento nem só a brisa soprava o fogo das velas" ou ainda "Ai! ai! ai!, vai dar merda!". Melhor nenhuma delas, talvez uma coisa mais específica como "Previsões certas para este mês de agosto". Ótimo, meu texto começará com esta frase. Depois, um ou dois parágrafos para o desenvolvimento. E é bom que eu respeite isso, pois se deixarem por minha conta, serão 20 ou 25. O primeiro deles pode falar de coisas óbvias, como as medalhas olímpicas, ou a nova guerra, ou as duas juntas. Ótimo: "Georgianos e Russos ganharão medalhas não somente em Pequim. Ficou instituído pelos dois governos que cada soldado que matar um inimigo ganhará uma medalha de ouro. Se for civil ganha de prata e se for criança de bronze. Mas só vale se der pra fotografar o defunto. Todos com seus celulares em mãos." É um bom primeiro parágrafo do desenvolvimento. No segundo melhor dar uma explicada, senão podem pensar que sou maluco. Explicar que loucos são eles que ficam brigando e matando para satisfazerem seus egos. Na verdade, esta guerra não chega a ser por nenhum óleo, é simplesmente para calar um movimento separatista de um lado e proteger este mesmo movimento de outro. Luta de e por palavras, mortes de verdade. Conseguiram as três partes envolvidas não terem razão. Talvez eu escreva "Somente ironizando para relevar que assassinem e destruam" mas melhor não. É ainda mais perigoso relevar. Fazer o que então? O segundo parágrafo poderia sugerir que o Putin, ao invés de ver as olimpíadas, fosse tentar ganhar uma medalha na Ossétia. Provavelmente ele iria. Meio arriscado dizer isso para essa geração Schwarzenegger de governantes. Já sei. Seria assim: " Algumas empresas fabricantes de telefones celulares estão patrocinando medalhistas na Ossétia do sul e fazendo concursos da melhor foto, que mostre o morto com maior nitidez, a morte com mais precisão. Vários megapixels à disposição dos heróicos soldados". Perfeito este parágrafo. Talvez não fosse, por alguns, muito bem compreendido, mas quem entende uma guerra não precisa me entender mesmo, portanto, o texto está indo bem. E agora, para ser completo, o final. Nossa!, teria vários. Dezenas. Centenas. Poderia ser a entrega das medalhas, várias e várias para cada soldado. Ou algo mais lírico, como " Sabemos matar, mas honramos nossa raça, e o fazemos rapidamente, com beleza e altruísmo" ou algo menos telúrico como "que deus receba a todos com sua benevolência". Não gostei de nada. Acho que o final mais provável seria "Estados Unidos e China entram no conflito para competir no quadro de medalhas com Geórgia e Rússia. A disputa medalha a medalha é eletrizante". É o fim! Melhor não fazer texto algum.









De que lado?

Enfim, cinema.


Do Outro Lado, um filme turco-alemão me instiga a escrever e, estranhamente, não sobre a película, nem técnicas ou efeitos, muito menos interpretações ou fotografia. Assisti e saí do cinema pensando: trata, afinal, do que este filme? Bueno, ao princípio: tenho um amigo, (amigaço - Cícero) que disse que o Guion, aqui em Porto Alegre, é um cinema que homem pode beijar homem na boca mas não se pode comer pipoca. E é verdade. Um lugar de filmes "cabeça", portanto. Repleto de boas obras francesas e coisas do gênero, lugar ideal para este tipo de exibição. Pois do Outro Lado vi comendo pipoca, numa sala bem mais confortável e ampla, com uma tela de tamanho satisfatório, o que foi muito bom. É um filme difícil que por vezes angustia. Então, pipoca nela (Na angústia, claro). A única referência que pretendo fazer sobre técnicas é quanto a montagem, que foi feita de uma maneira atemporal com sobreposições de cenas que quase confundem. Isso também foi importante para a obra, dando um clima meio "pancada" a tudo, mas mostrou-se eficiente para que se compreendesse e conhecesse melhor as personagens, apesar de parecer que o montador estivesse bêbado.
Então, do que trata, afinal? Pois vi muito: amores, desgostos, decepções, preconceitos e por aí afora. E em cada quesito outras muitas divisões. Em amores, por exemplo, existem os proibidos, os não aceitos, de pai para filho, de mãe para filha... e assim por diante. É incrível, mas apesar dessa riqueza toda, o filme não trata de nada disso. Ele fala de relações. Esse complicado e vital componente de nossas vidas. O que pretendemos, afinal, depois de tudo passado? Temos nossas relações desde o primeiro instante até o final. Passamos por centenas de tipos: atamos, desatamos, odiamos, amamos, construímos, destruímos, exploramos, cedemos... enfim, tudo em nome ou para elas. Então, qual a surpresa de algum filme tratar disso? A resposta não é simples. Na verdade, é muito raro que isso aconteça. Vê-se muitos filmes sobre relacionamentos, sobre amores ou desamores, tanto faz, mas não sobre a relação, o elo. Tanto que o que menos importa, neste caso específico, é entre quem ela acontece, e sim como e porque está acontecendo. É indiferente que seja entre pai e filho ou um casal de lésbicas. O que precisamente está em foco não é a diversidade nem finalidade, e sim ela própria. Então, levando em conta a 'profundidade' com que foi tratada, o filme assusta. Perceber que temos inúmeras relações, que precisamos delas para viver, que precisaremos delas até para morrer, sem falar que precisaremos também para sermos ou não felizes e coisas assim, é aterrador. Dependemos, afinal, de algo complexo fora de nosso controle para vivermos, ou até sobrevivermos. Para tudo. E é disso que o filme fala. Quer saber? Melhor ver somente o que aparece na tela, e torcer para a filha não saber da mãe prostituta assassinada e torcer para o pai do mocinho não ter morrido sem encontrá-lo antes.
Ou não ver o filme!

Fiquei devendo cinema.







Que chato esta gente que só reclama!

Esporte é saúde.
Sempre ouvi isso e respeitei. Como não sou um desportista, minha saúde nunca foi muito boa. A relação é direta. Dia destes, porém, ouvi uma entrevista de uma menina - ginasta - adolescente de mãos e pés cheios de calos, que vivia em um alojamento, separado dos pais por 1500 kms e treinava 12 horas por dia sob a pressão do treinador severo. Isso é saúde? Se for, creio que prefiro não ser saudável. Mas tudo vale a pena para vermos, a cada quatro anos, a abertura das olímpiadas. Alguns meses de ensaio e 40 bilhões de dólares depois (e quem sabe alguns paredões?) o espetáculo foi incrível. Nem o Galvão dizendo "agora aparece a muralha da China representando a muralha da China" conseguiu estragar, apesar dele ser ainda mais chato lendo. Os chineses foram perfeitos. Nenhum deslize, nenhum erro, nada. Os movimentos dos participantes pareciam efeito de computador. Enfim, parabéns à China pelo espetáculo. Mas, claro, isso me leva a pensar em como seria a abertura no Brasil: primeiro, uma escola de samba, a campeã do Rio. Todos entrariam como profissionais do samba com muita responsabilidade e sorririam desvairadamente ao verem uma câmara. Tardariam o passo para ficar alguns segundos a mais sendo filmados, com aqueles sorrisos de poucos dentes. Depois, vejamos, outra escola. Afinal, o carnaval de São Paulo não fica devendo em nada ao do Rio. Provavelmente a Gavião da Fiel entraria com umas 4000 bandeiras do Corinthians. O Eurico Miranda, claro, tentaria colocar alguém do Vasco, mas sem sucesso. Afinal, somos organizados e sérios. Depois das duas escolas, uma idéia genial: cada estado com uma representação. Por exemplo, o Amazonas mandaria o Garantido e o Caprichosos, separados, pra não dar briga. Minas um desfile das namoradas do Aécio, representando a mulher brasileira. Pernambuco, aqueles cantadores de frevo que tocam uma viola desafinada e um canto que ninguém entende. O Acre não mandaria ninguém, afinal não existe. A Bahia, um grupo de capoeira que chegaria atrasado e não tocaria berimbau em protesto ao professor baiano que ofende os baianos. Os gaúchos um piquete "de" a cavalo com uma bandeira do Rio Grande e ponchos e lenços, nos 40° do Rio, de relho em punho, pra mostrar a macheza. Os outros estados, como o Piauí ou Alagoas, por exemplo, seriam "empurrados" para que não se perdesse muito tempo. Depois, algumas palavras, entende, do Pelé, que ofereceria as olímpiadas as criancinhas pobres. Em seguida, Paulo Coelho leria partes do seu último livro - traduzido para 600 idiomas -em um dialeto falado no sudoeste do Azerbaijão. Pela primeira vez na história não bastaria ser alfabetizado para entender o que ele escreve, exceto se fosse do sudoeste do próspero país asiático. Começariam, então, a entrar as comitivas de atletas e colocaríamos em prática o que foi mais ensaiado: vaia aos hermanos. Eles passariam sem notar, é claro. Na hora do Brasil, os atletas passariam filmando tudo, inclusive e principalmente eles mesmos, e mandando as imagens para a Globo. Se a cerimônia estivesse muito breve, o Mercadante estaria de plantão para dar boas vindas. Enfim, o momento mais esperado: um capitão do Bope com uma Uzzi, arma não usada pela nossa polícia, metralharia a pira até queimar em chamas. O estádio entraria em delírio. Perfeito.
Nada disso, falando sério, o Brasil tem condições de fazer uma olímpiada descente - sério mesmo -, mas, para ficarmos tranqüilos, melhor importar a abertura da China e respeitar o orçamento: U$ 40 bi mais os 30% da propina.

Milton errou!

"Amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves, dentro do coração" Isso está errado. Amigo não é para guardar. É para ver, crer, ter. Amigo é ser. É para sentir, ouvir, discutir. Amigo é sorrir. É para olhar, admirar, gostar. Amigo é viajar. Enfim, não é para guardar. Amigo é para Frutillar.