Amante

Não sei, não sou um cara tão forte. Ando com medo. Piadas à parte, como aquela que diz Jesus morreu, Sócrates morreu, Aristóteles morreu, Sartre morreu, Da Vinci morreu e eu mesmo não ando muito bem, a verdade é que não ando muito bem mesmo. E têm coisas que nem um coração de ferro suporta. Uma relação de quase quarenta anos, diária, sem nenhum diazinho nublado sequer sem algum tipo de contato, algum cantinho de olho, tem que ser respeitada. Começou ainda na infância, com alguma resistência, meio na obrigação, até, mas começou forte, com cobranças e tudo. E apareceu, desenvolveu, cresceu, envolveu (meu? o que aconteceu? termina tudo em eu?) e estamos juntos até hoje. Claro, assumo, não sei lidar ainda com ela como merece, mas chego lá. Me esforço para isso. Sei que é difícil, sempre soube disso, mas nunca desisti. Não é fácil mas o prazer - áh o prazer - é enorme. Ela me emociona, me encanta. Quer saber? Me seduz, excita-me. Eu rio, choro, lamento, xingo e fico de queixo caído a toda hora. Não tem este problema de ciúmes. Ela mostra vários caminhos, ela é o próprio caminho. Completa, cheia de sins e nãos, de nuances e mistérios, caprichos e belezas, cheia de detalhes. Ela canta, floreia e norteia o que sei. Encanta. Ela ensina o que preciso e mostra a vida como em um manual.
E agora, depois desses anos todos, tudo bem que fui avisado, mas vem a mudança. Com data marcada e tudo. Não vou resistir. Sei que é para melhor, sei que o futuro dela será mais ameno, sei que será mais usada (isso é bom?), mas não resistirei. Meu coração desabará. É uma mudança essencial, obrigatória, mas é muito pra mim.

Adeus, minha boa e fiel companheira língua portuguesa. Não sobreviverei as tuas mudanças, principalmente o falecimento do meu sinal ortográfico preferido.

Preciso fazer algo: Lingüiça de sagüi ninguém agüenta, digo tranqüilo: é líqüido e certo, exeqüível, que de pingüim é melhor. Como com freqüência, umas cinqüenta vezes por mês.
Não é o suficiente. O que será de mim sem uma palavra escrita desta forma: qüinqüenal. Um zumbi? Acho que de cinco em cinco anos ressucitarei para matar as saudades, principalmente do trema. Não é justo o que fizeram com ele. Qüinqüenalmente voltarei e colocarei trema em uma palavra qualquer que não seja müller.
Arrá, o doce sabor da vingança.

Tchäu.

Sete vidas

Will Smith. Quem lê este nome na hora lembra de MIB I E II - Homens de preto, Eu sou a lenda, Eu, robô, Independence Day e outros tantos que, se ficaram devendo em matéria de cinema mesmo, certamente em adrenalina não. Os filmes dele quase sempre são aventuras bombásticas, tensas, rápidas, destas que não deixam a pessoa enconstada na poltrona por muito tempo. Cinema tem disso. Numa mesma sala que numa semana passa um suspense, na outra pode ser uma comédia. E essa é uma das causas de ser algo tão complexo. Uma arte que nos faz chorar, rir, suspirar, amar, odiar e, claro, ficar como se estivéssemos em uma montanha russa, o que acontece quando o ator é Will Smith, pelo menos até agora.
Pois em Sete vidas, essa minha teoria foi literamente por água abaixo. Cincoenta e cinco milhões de dólares para 118 minutos de uma chatice só. Desse tempo todo, 110 é aquele esqueminha besta de não mostrar o desenrolar da história e alguns clichês bárbaros e oito minutos de filme. Além de chato é inverossímil, pouco provável e, a surpresa que deveria ser revelada apenas no final, é sabida nos primeiros instantes. Durante a chatice, ainda flashbacks inoportunos acontecem seguidamente.
Saí do cinema pensando: 450 mil dólares o minuto. Tem algo errado nisso. Esta fortuna toda pra entediar o telespectador?
Como tenho minha lista dos 10 melhores, acabo de inaugurar a dos 10 piores filmes. Talvez ele não seja assim tão ruim como estou falando, e por eu ter criado a expectativa de ir ao cinema para me divertir, a decepção tenha sido maior, mas, sinceramente, reveja um clássico que será mais proveitoso. Recuso-me até a continuar falando a respeito. Hoje ainda comentei: que safra ruim essa, coroada agora, com essa bomba.
Sete vidas: blargh. Eu tenho uma só pra desperdiçar vendo filmes assim.

A lição da dona Coca

Sempre por esta época, compramos algumas coisas e levamos até uma família muito pobre. Faz alguns anos que este ato se repete. São pessoas que moram em um casebre, ao lado de uma estrada de chão, sete filhos e um casal. Não sei o que fazem, se fazem, e apenas este ano descobri o nome da mulher: Coca.

Como sempre, chegamos de carro, meu menino sai em meio as crianças e cachorros, abrimos o porta-malas e ele distribui os presentes. Um para cada criança. Desta vez levamos, além de pacotes de doces para os sete pequenos, duas fartas sacolas de alimentos e mais um saco cheio de brinquedos, descartados pelo meu filho. Para não haver confusão (na verdade nunca houve), depois dos pacotes individuais, foi dito para que ela distribuisse os brinquedos entre os filhos e que a comida era para a família toda. Sem demora, ela virou-se para a frente do casebre, apontou para uma outra mulher e disse:

- Minha irmã. Posso dividir com ela?

Certa vez, ela comentou que todos os anos eles nos esperavam. Isso fazia-me pensar ser generoso, bondoso. Enfim, depois de sairmos daquele lugar, eu sentia um certo alívio, uma estranha sensação de felicidade, de dever cumprido. Desta vez foi diferente, porém. Não senti isso.

E acredito ser simples o que aconteceu. O que fazemos claro que é algo bom, saudável, essas coisas todas, mas não é generoso. Dona Coca entende disso, ela sim é generosa: repartir com a irmã aquilo que nem para os seus próprios filhos é suficiente. Isso deixou-me impressionado. Mais donas Cocas por aí e estaríamos com uma vida muito melhor, todos nós, mesmos aqueles que não enxergam, ou não querem, o que acontece à margem.

O que fiz, agora compreendo, além de pouco, claro, é obrigação. Isso pode ser pesado, mas é o que penso. Independentemente em quem votamos, ou se votamos; se somos capitalistas, comunistas ou nem aí para isso; se oramos ou desdenhamos para um deus qualquer ou não temos nenhum; se somos ricos, pobres ou médios; azuis, roxos ou verdes ou de qualquer outra coisa, temos a obrigação de ajudar a quem excluímos. Esta gente não pode morrer de fome enquanto desperdiçamos proteínas. Essa gente precisa ser gente. Precisa de nós. E nós deles, pelo menos para nos ensinar o que é generosidade.

Obrigado, dona Coca, e até breve.




Mensagem natalina do Bento


Natal. Época em que os chefes, é exatamente esta palavra que quero usar, de algumas religiões ficam na vitrina. O que pode-se esperar do mandante de uma das maiores do planeta? Sensibilidade, educação, respeito e tolerância é o mínimo. Sabe-se que as palavras destes senhores tem uma influência devastadora mundo afora. Nada mais lógico falarem de paz, conciliação, aceitação, essas coisas.

Pois o abominável homem de gelo, chamado de Bento XVI, chamado de Joseph Ratzinguer, chamado Benedetto ou seja lá que nome ele tem, comparou o homossexualismo com o desmatamento mundial. É algo tão simplório e absurdo que dá vontade de xingar. Sei lá, vou comparar o dízimo com as tartarugas, ou vermes. Bem, isso nem seria tão absurdo assim. Ou comparar o ouro todo do Vaticano com um faisão, com aquele lindo rabo. Também não seria nada estapafúrdio.

Fiquei pensando o que um crime ambiental, que pode levar ao colapso terrestre, ao legítimo fim do mundo, pode ter de relação com a preferência sexual de um sujeito qualquer. Pessoas, digamos, menos providas de algum discernimento mais apurado, não poderiam fazer a relação direta? Assim: "Bem, se o desmatamento que pode trazer a ruína é igual ao homossexualismo, melhor terminar com os dois. Já que com as árvores eu não tenho o que fazer..."

Se este senhor, também chamado de Papa, não explicar qual a relação existente, a única coisa que posso deduzir é que a intenção foi incitar o preconceito contra gays e afins. Isso é perigoso. Esse senhor de vários nomes é perigoso e irresponsável. Esta história já aconteceu antes e o saldo não foi lá muito digno. Adolf disse a mesma coisa, só que de uma maneira mais inteligente.

Espero que os católicos não fiquem zangados comigo, mas, na verdade, vocês não merecem esse cidadão. Ninguém merece. Só para lembrar: o sumo pontífice faz cocô, xixi, come carne, massas, respira e escova os dentes.

Voltando às comparações, pensei agora nos padres pedófilos - e homossexuais - e lembrei de Alinhar à esquerdainjustiça, podridão, satanismo e Vaticano. Acho que esta comparação é justa.

Papa. De quem? Das crianças abusadas? Meu é que não.











O menino do pijama listrado

Quando saí do cinema a primeira coisa que veio à cabeça foi: o melhor dos centroavantes é aquele que faz mais golos? O melhor dos médicos é aquele que salva mais vidas? O melhor do policiais é aquele que prende mais bandidos? E o melhor dos soldados é aquele que mata mais gente?
De novo aqueles filmes que não instigam a falar sobre cinema. Motivam a falar da nossa podridão, de nossa perversidade. O nome já dá bons indícios  sobre o que trata e em que época acontece. Bem, tentando não sair chutando as cadeiras, é uma história que acontece durante a segunda grande guerra perto de um campo de concentração, de extermínio.
Um oficial com uma vida tranqüila em Berlim é transferido para uma área rural para administrar tal campo. Lá, seu filho Bruno de oito anos, conhece um prisioneiro judeu, inimigo, portanto, da mesma idade. Ocorre que o menino não tem idéia do que realmente acontece e vários conflitos surgem da nova situação. A amizade com o pequeno prisioneiro, inevitável levando em conta a solidão dos dois, surge de uma maneira que traz esperanças. Vãs esperanças. O filme mostra a monstruosidade humana de uma maneira mais sutil que outras películas, quase escondido. Apenas perto do final temos indicações visuais e auditivas das atrocidades, mas o clima tenso, o cheiro de podre, nos acompanha o tempo todo.
Em apenas 93 minutos, esta produção inglesa e norte-americana, tem momentos que beiram a genealidade. Alguns diálogos, sempre curtos e diretos, mais fiel aos germânicos impossível, revelam as mazelas e os absurdos de uma guerra. De qualquer guerra. Não há mocinhos nisso. Só bandidos e vítimas. E o que também choca neste caso, é que os bandidos também se tornam vítimas. Da própria estupidez, da própria cegueira. Um café quente com bolo não pode valer mais que uma vida. Um vinho derramado em uma farda não pode ser motivo de castigo corporal.
Definitivamente este filme entra na minha lista dos dez melhores, com honras. Mesmo com o tema tão surrado, conseguiram ares de renovação. Contaram o horrível novamente de uma forma ainda mais cruel. Para todos, agora. Diferença substancial.
Chorei mais do que devia no cinema. O mais grave é que continuo chorando e, pelas próximas décadas, não vejo razões para parar as lágrimas. Elas são justificáveis e merecidas.
Soldados são condecorados quando matam inimigos. O detalhe é que tais inimigos têm filhos e são filhos, riem, choram, caminham e sonham. E tem como inimigos o outro soldado, que também têm filhos e são filhos, riem, choram...


Risos

Assim como tenho facilidade em chorar, tenho também para rir. Choro fácil - como digo, até em comercial de creme dental - e rio mais fácil ainda, desde tombo em casca de banana até em coisas politicamente incorretas, como alguém gaguejando muito. Mas, o que enfim é engraçado? Não questiono para pessoas sem "desconfiômetro" como eu, mas para uma pessoa, digamos, normal? Razoável? Já postei aqui mesmo uma placa que dizia que "O bar do Fritz não está aberto por que está fechado". Isso pro meu senso de humor e compreensão (ou descompreensão) do mundo foi uma das coisas mais engraçadas que li na vida. Das que ouvi, é uma piadinha de humor negro que circulou logo depois de surgir o maníaco do parque, onde o cara ia entrando em uma mata junto a uma mulher que diz:

- Estou com medo! - e ele responde:

- Imagina eu então que vou voltar sozinho.

Bem, admito que talvez não seja muito engraçado mas, sabe-se lá a razão, cada vez que escuto ou lembro isso dou muitas risadas. Pois dia destes aconteceu algo que me fez rir muito também. Estávamos trocando idéias pelo MSN e uma amiga, inclusive leitora deste humilde e nada engraçado blog, falava da família. Começou a contar das meninas, três, dos meninos, dois e aí eu interrompi: "Nossa, que família grande!" Ela continuou dizendo que grande mesmo se contasse os ex-maridos. Os 1, 2, 3, 4 e - o atual - 5, mas que logo logo viria o sexto, provavelmente o Google, de tantos blogs que ela tem. Eu comecei a rir e não parei mais. Na hora em que ela contou que conhecia o sul com o 2 - fora algum engano - eu quase desabei. Numerar maridos. Nunca tinha imaginado isso. Não disse, mas os filhos poderiam ser assim: primeiro filho com o marido quatro: 4.1, ou segundo do marido dois: 2.2. É estranho e engraçado. Cheguei a ficar com dos no abdomen de tanto rir.
Outra situação que achei muito risível foi de outra amiga, vegetariana (e das chatas - como ela mesma se definiu), na historinha contada pelo seu companheiro, carnívoro (como qualquer pessoa de bom gosto- hehe). Diz ele que certo dia resolveu comprar um bifinho, daqueles que vem em uma bandeja, cheio de plástico e papeizinhos secantes, sem cheiros, sem nada, pequenino, mais parecendo um carpaccio solitário, e colocou escondidinho atrás de uns pés de rúcula. Pois chega a destemida devoradora da flora mundial e solta um verdadeiro urro:

- Tem um cadáver na nossa geladeira....

Ri muito disso. Por dias. Na verdade, sempre digo que também sou um vegetariano, só que como as coitadinhas das plantinhas processadas. Pelo boi. Talvez por isso tenha achado tão engraçado.

Bem, mas isso tudo para tentar especular: por que rimos? Por que coisas por vezes até desagradáveis para muitos são engraçadas para poucos? O que acontece?

Não sei e gostaria de saber. Porque rir é o melhor remédio. Li isso anos e anos atrás e nunca tinha repetido. Mas acredito mesmo: rir é o melhor remédio, contra crise, desilusão, estresse, chatos, políticos, contra tudo, enfim.

Por sinal, acho que fui o único a achar bom o sapato do iraqueano não ter acertado o Bush. Se tivesse acontecido isso, teria sido uma agressão a um chefe de estado. Agressão física, mesmo contra um biltre como ele não é engraçado. Mas vê-lo levantando com aquela expressão de energúmeno foi impagável.
Enquanto eu não descobrir a causa do riso, o melhor é seguir rindo. Talvez seja melhor nem saber. E como rir é o melhor remédio, estou remediado.
"Não está aberto por que está fechado"

Hahahahahahaha...




Arte: ter, sentir, fazer, aprender...

Este é um assunto sem fim. Ainda bem. Muito se diverge, discute e estuda. E quanto mais fizermos isso, melhor para todos nós. Rui Silvares, um excepcional artista português, atendeu um pedido meu e fez uma verdadeira incursão sobre arte. Imperdível. Olhem clicando aqui. Tá muito legal.

Rede de mentiras e mais mentiras

Vamos admitir o óbvio: os gringos - e quando escrevo isso me refiro aos ianques, os filhos do tio (gosto muito dessa referência: filhos do tio - Sam - por que já evidencia o engodo, a falácia) - são bons principalmente em quatro coisas. A primeira: sanduíches. Duvido que existam no mundo lanchonetes que misturem pepino, pão, carne e golesma tendo como resultado o sabor de um Big Mac. Ou pão preto, queijo e cebola e fique parecido com um Cheddar. Os caras são imbatíveis. Seja no Mc Donalds ou Burger King ou qualquer outro. O farroupilha, sanduíche originário aqui do sul do Brasil, que me perdoe, mas é sem comparação.
A segunda coisa é guerra. Eles são ótimos em produzir uma matança aqui, outra ali. Ora por que o cara produzia armas de destruição em massa (eles por certo não tem nenhuma), ou por que estão atrás de alguém, ou por que a gasolina está cara. Enfim, criem-se motivos e movimentem a economia com uma guerrinha amiga. Claro que quem morre nelas são os pobres, negros e latinos, mas isso é outra história. Dá pra chamar de guerra também a ação menos explícita, tipo: forneçam armas para o Saddam lutar contra os Aiatolás. Depois, tirem as armas dele. Mais tarde ainda: enforquem o cara.  Essas intervenções, que desde meados do século passado eles fizeram em diversas nações do mundo, inclusive aqui, mataram mais civis que muitos conflitos declarados. 
O terceiro item é cinema. O belo cinema. Os caras são bons nisso também. Falo depois de ver Rede de Mentiras. Um filme de ação muito bem feito que parece ser proibido respirar. Leonardo DiCaprio tem uma atuação memorável. Daquelas que pode-se dizer: convenceu. Russell Crowe também. Pacífico na performance, envelhecido e bom. O enredo é próprio para ação, ou seja, mocinho contra bandido em cenas frenéticas. A fotografia é ótima e os 128 minutos passam rápido. Ridley Scott, de Blade Runner, é muito feliz e não poderia ser diferente. É um ótimo diretor.
A quarta "habilidade" dos ianques estraga o filme: paralelos. Chega a irritar. Funciona assim: o agente da cia no Iraque ou Jordânia, tanto faz, em meio aquele deserto todo, enfrenta os bandidos mulçumanos sem coração. As cenas de violência são a tônica de tudo. No começo do filme, aparece uma invasão de um prédio pela milicada com o leiteiro entregando seu produto ao mesmo tempo, mostrando que aquilo é normal, inevitável e provável, que a violência é parte do oriente médio. O pau correndo solto por lá e o chefe dele, em conversas intermináveis, resolvia todos os problemas e achava como salvar o mundo do próprio território americano, enquanto levava seu filhinho ao colégio ou a uma partida de beisebol, ou ainda num belo campo florido frente a um lago calmo e belo. Tudo muito seguro e pacífico. O resumo é que nós, cristãos-judeus somos o bem e merecemos isso e os mulçumanos a escória, também por merecimento.
Cinema não é para isso. Cinema deve vender ingressos, não opiniões nem idéias. Cinema é arte, não panfleto.
Os filhos do tio parecem saber tanto de caráter e respeito como sabem que a capital do Brasil é Buenos Aires.
Blargh!

Vicky Cristina Barcelona Jundiaí João Pessoa Bombaim...

Tem uma maneira fácil de identificar os filmes de Woody Allen: diálogos. Sempre longos e bem feitos. Na verdade, eles conduzem a história. Às vezes quase não precisaria de imagens, tão bem fundamentados eles são. Mas um filme sem imagens... Bem, em Vicky Cristina Barcelona não é diferente. E, além deles, há ainda uma narrativa. O filme todo é contado. Literalmente vê-se e escuta-se a história. Na verdade, não ficou chato nem poluído demais. Ficou interessante e bastante diferente.
O enredo fala de todos os contemporâneos em qualquer cidade. De pessoas ditas modernas, liberais ou conservadoras. De gente urbana com problemas que passam longe da fome e do medo de ser assaltado a qualquer instante, mas que também têm os seus "buracos" e por vezes graves, mas se passa ao largo deles. Talvez isso tenha me incomodado um pouco, por parecer tratar somente do externo, do visível. Quando iria aprofundar-se: pimba. Cena nova, conflito novo. Mas pode ter sido somente impressão. O argumento não é estilo Allen. Ele vaza, escorre por entre as falas, não é explorado como deveria.
O fato de ter sido filmado longe de Nova Iorque creio ter enriquecido a obra. Não só pela beleza de Barcelona, que com seus monumentos e prédios assinados por Antoni Gaudí já valem o preço do ingresso, mas também pelo amarelo do sol, pelo calor sensual, que certamente ajudou - e muito - no sucesso da obra. As pinturas que aparecem no filme ouso, mesmo não sendo um conhecedor de arte - e provavelmente até por isso -, afirmar que não gostei. Sei lá. Me pareceu tudo um pouco forçado demais.
Bem, o elenco: Scarlett Johansson e seus lábios, Javier Bardem e sua competência, Rebecca Hall, muito bem e constante e, áhhhhh, e Penélope Cruz, linda, escabelada, gritona, performática, maluca e perfeita. Quando ela fala em espanhol no filme é bárbaro. Até os urros são fáceis de entender. É maravilhoso. Uma mulher como aquela não precisaria fazer nada: ficasse ela parada, respirando somente, os 96 minutos e já estaria bom. Mas não. Ela ainda interpreta. E bem. Magnificamente bem. Sei que não devia falar assim, mas não sou eu que falo, é o instinto de macho que mora em mim. É minha masculinidade. Parece que ofenderia a honra de todos os homens da terra se não repetisse dezenas de vezes: linda. Linda. Linda. Mas não vou exagerar. Vou (linda!) parar por aqui pois corro (linda!) o risco de ser piegas.
Resumindo: misturar Barcelona, Gaudí, Woody Allen e um elenco desses não dá para deixar de ver. E no cinema, em DVD não terá o mesmo efeito.
Linda!

Dietilamida do ácido lisérgico

Às vezes creio ter dificuldade em lidar com a ficção e a realidade. Parece que algum ácido invade minha cabeça e balança tudo, mistura, levanta uma poeira que cobre qualquer visão dos fatos e, quando ela baixa, estão lá, todos eles, lado a lado, sem distinguir verdades de mentiras, ou reais de ficcionais. Não raro a sacudida é tão forte que traz lembranças também. Elas vem de algum lugar inóspito e de difícil acesso. Aí, claro, a bagunça é geral. Tudo misturado. Sinceramente não tenho condições de fazer uma nova separação. E nem quero.
Pois na Bahia, tão quente e linda, tão viva e rica em quase tudo: cultura, arte, sol, praia, pessoas, terra de Jorge Amado, de excepcionais cantores, onde em qualquer boteco encontra-se boa música e sempre guarda tão boas lembranças, o Tribunal sei lá de que, fez uma licitação para comprarem tapetes persas. Isso mesmo, da Pérsia. Sabe-se, são hoje os confeccionados a mão em países como Irã e Iraque, levam alguns anos para ficarem prontos e custam uma pequena fortuna. Não seria preciso nem salientar que a justiça baiana é a mais lenta de toda república e isso já seria um absurdo. Os senhores juízes ou promotores, desembargadores ou sei lá quem mais, querem pisar seus sapatinhos de couro de crocodilo, que compraram com seus merecidos salários oriundos de nossos impostos, em tapetes persas que não seriam comprados com seus merecidos salários, mas com o dinheirinho  igualmente oriundo de nossos impostos.
Justiça. Essa é a palavra. Pois este tribunal, o lento, melhor: o mais lento, lançou inclusive o edital para a compra dos tapetinhos. Isto é justo? É certo que eles gastem fortunas para pisar em cima? Enquanto... Bem, vocês sabem todo o resto, tudo que vem depois do "enquanto". Pensei inclusive em não escrever sobre isso por medo. Isso mesmo: medo. Provavelmente quem tem uma idéia tão legal de gastar o dinheiro dos outros, certamente deve deixar a lerdeza de lado na hora de atacar. Sei lá, um processo não seria bem-vindo. Ainda mais que eu perderia. Membros do judiciário estão acima da lei. Eles e os banqueiros. Vida boa dessa gente  em que lei é para os outros. A propósito: o juíz que mandou prender o Dantas (nosso mais popular dono de banco) por duas vezes, para logo depois o amigaço dele, presidente do Supremo, liberar, foi ameaçado pelos colegas que fazem a defesa do injustiçado com um processo. Pôxa, que gente séria e braba. Rigorosa.
Bem, pelo menos alguém de bom senso lá de Brasília mandou que a bandalheira fosse encerrada e por enquanto os tapetes não serão do Irã. Talvez do Egito. Eles também são belíssimos mas tem o defeito de não serem tão caros. Carpete não. Isso é coisa de quem usa tênis e não sapatos italianos de couro de crocodilo. Por favor, não vamos exagerar.
Mas, sabe por que escrevi sem receio algum? Por que isso é ficção. Evidente que não aconteceu nada nem parecido. Deve ter sido o começo de algum conto de terror, em que a população invade o tribunal e assassina todos os togados, fazendo julgamentos rápidos e condenações mais rápidas ainda, manchando de vermelho os lindos tapetes coloridos e as becas negras. 
Com a bagunça generalizada, esse delírio maluco da minha imaginação doentia ficou ao lado das notícias dos jornais. Ainda bem que me dei conta disso, senão poderia escrever uma injustiça.
Tapetes persas em um palácio de justiça, que está lá para servir o povo. Putz, vou ter que me cuidar com meus delírios ou corro o risco de cair no ridículo. Isso acontece com Husseins, Imeldas, Elizabeths e gente assim. Não com Mellos, Mendes ou Genros. 
Imaginem se eu usasse microponto. Aí os presidentes dos tribunais super-faturariam obras faraônicas desnecessárias ou delegados seriam perseguidos e juízes intimidados pelo dinheiro e o poder. Chega a ser até engraçado. 
Ou não?


Pequenas imensas agressões

Calma! Coisa rara para uma pessoa como eu. Não sou assim, não a tenho. Sou elétrico, penso dúzias de coisas ao mesmo tempo, faço diversas coisas juntas e olho aquilo que não se vê, pelo menos normalmente. Sinto-me incomodado, atingido, esfaqueado pelo que vem de fora, pelas notícias todas, por ataques terroristas, por ataques não terroristas, por crianças que voam de janelas altas arremessadas pelos pais, por dores, enchentes, doenças, mazelas. Soco a mesa, levanto a voz e tudo mais que possa agredir eu faço, tentando mostrar minha discordância, repugnância - desculpem a rima, mas ela foi necessária - em relação a tudo isso. Não gosto de conformismo.
Pois conheci a representação em 3d do que é calmaria. O ato, o conjunto de coisas ou fatos que exemplificam a calma: o voar do condor. Sinto-me um privilegiado com isso. O lugar chama-se vale do Colca, e lá, em um cânion de mais de 3000 metros de profundidade, vê-se estes animais pairando pelo ar. É abstrato. É ficção. É silencioso. É calmo. É lindo.
Eles desfilam sem bater as asas por muitos minutos, cortando o ar com consentimento. É tudo planejado e ensaiado. Não há nada mais tranqüilo, mais sereno. Eles vão, vem... a única coisa que realmente passa nesse lugar é o tempo, e mesmo assim devagar, de uma forma sublime, como se fosse amigo e não trouxesse rugas, somente sabedoria. É calmo, tudo muito calmo, tudo em paz, com o belo vôo sobre o cânion tendo ao fundo algumas montanhas com neve eterna.
Quando a coisa aperta e minha pressão fica adulta, deixando de lado números de adolescente e criança, quatorze por sete, por exemplo, procuro lembrar deles voando e fico calmo. Quase sempre funciona. Mas, como tudo, há exceção: LUZ. É simples. Estou eu indo calmamente em companhia de Amy Winehouse a 90 kms/hora onde o limite era 80 e um carro a uns 200 metros atrás faz sinal de luz. Condor. Chega mais perto e faz novamente. Bem, cheguei a imaginar que o cara estava com a mãe recém esfaqueada no banco ao lado indo direto ao hospital. Me dei conta que estávamos saindo da cidade. Hipótese pouco provável a da mãe, portanto. Outro sinal, desta vez duas vezes. Por um instante pensei em quais motivos eu deveria me arriscar e jogar meu carro no acostamento e permitir que passasse, descumprindo em muito o limite de velocidade permitido. Não me veio nenhum motivo. Condor. Condor. O desfecho: a alguns metros de mim, literalmente "colado", sinais ininterruptos, asquerosos, agressivos. Foi um tiro na cabeça do meu condor. Quando ele finalmente passou, ainda em uma curva e de uma maneira completamente insegura, consegui ver tratar-se de um menino, provavelmente há pouco tempo dirigindo. Sabe que isso me conteve? Com o condor morto, eu iria mostrar ao sujeito o que é um palavrão, ou como se faz sinal de luz para verdadeiramente irritar alguém, ou entregá-lo à polícia mais próxima. Mas não fiz nada disso. Ressuscitei meu pássaro e desisti. Um sujeito daqueles não tem cura nem espaço. Não será a vida que o ensinará como é dura, mas a morte. Um menino agindo de uma forma estúpida como aquela é grave.
As coisas estão perigosas. Não há nada pequeno, tudo está perto da tragédia. Se não agirmos, se cada um não reviver seus próprios pássaros da paz, o futuro não será nada amigável. Tenho um filho maravilhoso com idade da pressão mais baixa. Não posso deixar que um sinal de luz ou um xingamento, ou um fura-fila, ou qualquer coisa dessas pragas modernas matem meu condor. A vontade deve ficar ao lado, sentada, esperando que minha calma e tolerância continuem voando livre. Não vou falar da vontade que tive e tenho com coisas assim, pois falaria em sangue.
Por sinal, muitas vidas ao meu condor, no seu majestoso deslizar sobre o precipício. Vou precisar de todas elas.