Não sei, não sou um cara tão forte. Ando com medo. Piadas à parte, como aquela que diz Jesus morreu, Sócrates morreu, Aristóteles morreu, Sartre morreu, Da Vinci morreu e eu mesmo não ando muito bem, a verdade é que não ando muito bem mesmo. E têm coisas que nem um coração de ferro suporta. Uma relação de quase quarenta anos, diária, sem nenhum diazinho nublado sequer sem algum tipo de contato, algum cantinho de olho, tem que ser respeitada. Começou ainda na infância, com alguma resistência, meio na obrigação, até, mas começou forte, com cobranças e tudo. E apareceu, desenvolveu, cresceu, envolveu (meu? o que aconteceu? termina tudo em eu?) e estamos juntos até hoje. Claro, assumo, não sei lidar ainda com ela como merece, mas chego lá. Me esforço para isso. Sei que é difícil, sempre soube disso, mas nunca desisti. Não é fácil mas o prazer - áh o prazer - é enorme. Ela me emociona, me encanta. Quer saber? Me seduz, excita-me. Eu rio, choro, lamento, xingo e fico de queixo caído a toda hora. Não tem este problema de ciúmes. Ela mostra vários caminhos, ela é o próprio caminho. Completa, cheia de sins e nãos, de nuances e mistérios, caprichos e belezas, cheia de detalhes. Ela canta, floreia e norteia o que sei. Encanta. Ela ensina o que preciso e mostra a vida como em um manual.
E agora, depois desses anos todos, tudo bem que fui avisado, mas vem a mudança. Com data marcada e tudo. Não vou resistir. Sei que é para melhor, sei que o futuro dela será mais ameno, sei que será mais usada (isso é bom?), mas não resistirei. Meu coração desabará. É uma mudança essencial, obrigatória, mas é muito pra mim.
Adeus, minha boa e fiel companheira língua portuguesa. Não sobreviverei as tuas mudanças, principalmente o falecimento do meu sinal ortográfico preferido.
Preciso fazer algo: Lingüiça de sagüi ninguém agüenta, digo tranqüilo: é líqüido e certo, exeqüível, que de pingüim é melhor. Como com freqüência, umas cinqüenta vezes por mês.
Não é o suficiente. O que será de mim sem uma palavra escrita desta forma: qüinqüenal. Um zumbi? Acho que de cinco em cinco anos ressucitarei para matar as saudades, principalmente do trema. Não é justo o que fizeram com ele. Qüinqüenalmente voltarei e colocarei trema em uma palavra qualquer que não seja müller.
Arrá, o doce sabor da vingança.
Tchäu.



injustiça, podridão, satanismo e 
